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Ao conceber o inconsciente estruturado como uma linguagem, Lacan pode afirmar que a linguagem não permite dizer tudo, a linguagem não é somente comunicação. E é justamente porque nem tudo é significante que ele introduz a noção de gozo em seu ensino. Há o signifi- cante, mas há também o gozo. As manifestações do gozo escapam ao funcionamento do prin- cípio do prazer e trazem à tona a questão do manejamento do gozo uma vez que o acesso a este é impossível pela via da lei do prazer e, ao mesmo tempo, é barrado pela Lei.

O desejo está submetido às leis da linguagem (metáfora e metonímia), sendo que a Lei primordial da interdição do incesto é a própria condição da palavra. Ao ter o gozo proibido, o sujeito pode ter acesso ao uso da palavra. É pelo ato da palavra que o gozo sofrerá profunda modificação. É da língua que procede toda animação do gozo corporal. O gozo é indizível, inefável, mas pode ser delineado pelo discurso. Nada do simbólico ou do imaginário dá aces- so ao real, daí a necessidade do sintoma.

Para Lacan a linguagem não está feita para dizer a verdade. Até mesmo o contrário. Com seu complexo aforismo, O que se diga fica esquecido detrás do que se diz no que se

ouve108, ele diz que quando se fala se esquece o que se fala – tomada no sentido do que temos que dizer. Ou seja, o conteúdo verdadeiro está esquecido atrás do que se diz.

107 GIANESI, Ana Paula. Texto-estudo do capítulo XI, O rato no labirinto, do seminário 20 de Lacan, Mais, ainda, apresentado na Formação Continuada dos membros da Escola de Psicanálise dos Fóruns do Campo Laca- niano – Fórum São Paulo, em 23/11/2009. Inédito.

Já podemos notar que Lacan faz uma construção do parlêtre109 (ser falante, loquente, falasser), o qual só se apreende a partir do falar. Par-être – ser ao lado de, causador ao lado de. É o que faz cada um de nós signo e significante. O fato de sermos falantes produz os discur- sos que estruturam a ordenação das relações entre seus elementos:

 significante mestre/primordial (S1);  saber (S2 - lê-se: significante dois);

 sujeito ( ) - trata-se do sujeito barrado, sujeito do inconsciente;

 mais-gozar (objeto a) - isto é, sem representação na linguagem, ausente, inefável, ou seja, é o real, o gozo. A letra “a”, minúscula, que vem de autre (que em francês quer dizer outro), foi uma escolha de Lacan para determinar um lugar importante em seus matemas, pois o objeto a é o condensador de gozo, o resto de gozo que resiste à signi- ficantização.

Aí temos a estruturação das relações do sujeito com a rede significante e com o gozo.

As estruturas permitem caracterizar o que se passa em virtude da relação fundamental, “aquela que defini como sendo a de um significante com um outro significante. Donde resulta a emergência disso que chamamos sujeito – em virtude do significante que, no caso, funciona representando esse sujeito junto a um outro significante” (LACAN, 1969-70, 1992, p. 11).

Nesse seminário, O avesso da psicanálise, Lacan (1969-70, 1992, p. 10s) apresenta o discurso como uma estrutura necessária, que ultrapassa em muito a palavra – esta sempre mais ou menos ocasional. A isso ele prefere chamar de discurso sem palavras, pois o discurso pode bem subsistir sem palavras em certas relações fundamentais – as quais não poderiam se manter sem a linguagem. A linguagem é instrumento que instaura um certo número de rela- ções estáveis, nas quais pode inscrever-se algo que vai muito além das enunciações efetivas. Nossa conduta e nossos atos se inscrevam em certos enunciados primordiais sem necessidade das enunciações.

Lacan apresenta quatro discursos como fundamentos dos laços sociais:  discurso do mestre/senhor – associado ao poder;

 discurso da histérica – associado ao sintoma;

109 A tradução do termo francês parlêtre tem sido falasser, mas isso soa estranho em português pela homofonia com falecer. E não é isso. Falasser tem mais a ver com falácia

 discurso da universidade – associado ao saber  discurso do analista – associado à causa de desejo.

Posteriormente ele introduz o discurso capitalista, uma variante do discurso do mestre.

Nos matemas (formalizações matemáticas que possibilitam outra dimensão que não a do sentido) dos discursos, Lacan apresenta os giros de um discurso ao outro para mostrar co- mo o amor ao saber, ou seja, a transferência, é o signo de que se muda de discurso. Para es- crever os discursos, ele utiliza quatro termos (cf. seminário 20, Mais, ainda, 1985, p. 27):

 S1  o significante (sê-lo) mestre; o significante pelo qual os outros significantes são

ordenados;

 S2  o saber (constituído enquanto cadeia significante);

 (S maiúsculo cortado por uma barra)  o sujeito (sujeito do inconsciente, barrado pelo significante);

 objeto a  o mais-gozar, condensador de gozo e causa do desejo.

Pela teoria quadripartite, Lacan apresenta essas quatro letras em quatro diferentes lu- gares, divididos dois a dois ao modo de quadrantes e separadas por barras, cuja função é a de ser o sinal que estabelece a resistência à significação – operação chamada recalcamento. Cada um dos quatro lugares de apreensão do efeito significante pelo sujeito, são designados por da seguinte forma:

Ao seguir os giros de um discurso ao outro, Lacan utiliza setas de implicação no sentido levogiro (com rotação para a esquerda) ou dextrogiro (com rotação para a direita) para entender como se passa de um discurso ao outro, por progressão (sentido horário) ou por regressão (sentido anti-horário), e justificar que o amor ao saber (transferência) é o signo de que se muda de discurso.

Fig. 7 – Matema dos discursos

Com essa teorização, Lacan possibilita a formalização e questionamentos dos discur- sos constituídos e demonstra o modo de operação próprio do discurso do psicanalista. “Loca- liza, desta forma, os eixos da subversão psicanalítica e acaba por subverter a própria psicaná- lise”, diz Lacan em seu texto “O Aturdido” (in Outros Escritos, 2003).

A subversão se dá porque o saber, de que aqui se trata, não é o desejo de saber – este não tem qualquer relação com o saber. O que conduz ao saber não é o desejo de saber, mas o discurso da histérica. Lacan, no texto “O Aturdido” (in Outros Escritos, 2003), afirma que o

saber faz a verdade do discurso analítico, pois a clínica psicanalítica se sustenta na histerização do discurso, isto é, num saber que não se sabe. O discurso da histérica possibilita que haja um homem motivado pelo desejo de saber. Ela quer que o homem saiba que valor ela própria tem, porque, como objeto “a”, ela é queda do efeito de discurso. “O que a histérica quer que se saiba é, indo a um extre- mo, que a linguagem derrapa na amplidão daquilo que ela, como mulher, pode abrir para o gozo. Mas não é isto que importa à histérica. O que lhe importa é que o outro chamado homem saiba que objeto precioso ela se torna nesse contexto de discurso” (LACAN/1969-70, 1992, p. 32). O que se descobre na experiência de qualquer psicanálise é justamente da ordem do saber, e não do conhecimento ou da

representação, diz Lacan, em O avesso da psicanálise. Trata-se de algo que liga um significante (S1) a

um outro significante (S2). “É em tal relação, no entanto, e justamente na medida em que ela não se

sabe, que reside a base do que se sabe” (LACAN/1969-70, 1992, p. 28).

O que é então o sujeito? O sujeito é aquilo que escapa ao objeto “a”. E, o objeto “a” é justamente aquilo que falta essencialmente, aquilo que não é predicável. Lacan define o obje- to “a” como ousia – termo aristotélico que aqui se refere à essência, isto é, a substância -, uma vez que, para ele, a essência é da ordem do gozo para os seres falantes.

Ao pontuar ousia na ordem do gozo, Lacan parece ter conseguido ultrapassar a confu- são gerada em torno desse termo aristotélico desde sua tradução para o latim. Julián Marías esclarece a origem, as confusões posteriores e o que realmente podemos ler no conceito de substância, fundamental no pensamento aristotélico e, com o qual as coisas começam a se alterar porque, originalmente, ele diz ousia, e não substância.

“A palavra ousía quer dizer primariamente os bens, a fortuna, as proprieda- des de algo. A ousía é o que uma pessoa tem; ela tem por exemplo uma casa e umas terras, umas vacas, isto é sua ousía, fundamentalmente. E precisa- mente um conceito muito importante, o conceito de liberdade, eleutheria, es- tá ligado a isto, o homem livre é o homem independente, que tem uma ousía, que tem uns certos bens do quais vive, dos quais pode dispor. Esse repertório de possibilidades de quem tem algo, isso é a ousía. Nós usamos esta palavra, em sua versão latina, sub-stantia, que quer dizer o que está debaixo, o que está de pé, debaixo, aquilo que subjaz... Há aí duas palavras gregas, hyposta-

sis e hipokeimenon. Na realidade, a palavra substância é tradução de hipos-

tasis, o que está de pé, embaixo. Aristóteles emprega também a palavra hi-

pokeimenon, o que sub-jaz. Há a substância e o que é subjacente. Subjacente a que? Ao que ocorre, ao que acontece, ao que sobrevém, ao que Aristóteles chama simbebekos, do verbo symbainein, isto é, os acidentes. A substância, dirá Aristóteles, subjaz a seus acidentes. Esta mesa que vemos é retangular, esta mesa é dura, é de tal cor... Predico diferentes atributos da substância, que está subjacente, substante. Essa é fundamentalmente a substância, está naturalmente com acidentes que ela sustenta ou suporta.O que ocorre é que em Aristóteles o sentido primário não é esse, não é o de ser substrato, ou subjacente, ou substante; não, não: é a riqueza, é a possibilidade, digamos a concreta realidade da substância. A tradução latina, ao que parece, de Cíce- ro, e que passou naturalmente às línguas modernas, debilita afinal o sentido primário da palavra ousía. Isso é capital, e possibilita uma reabilitação e- normemente importante na história da filosofia, porque prevaleceu uma ten- dência de ver a substância como o substante, o que está debaixo de, o que é suporte de acidentes ou propriedades, e assim se elimina o sentido principal, o sentido radical.”110

110 MARÍAS, Julián. Disponível em: http://www.hottopos.com/harvard3/jmarist.htm (acesso em 15/02/2010). Conferência, mantida no estilo oral, do curso “Los estilos de la Filosofía”, Madrid, 1999/2000.