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Le Miroir, O Espelho (do latim Speculum), é o símbolo usado por Marguerite Porete para falar da trajetória das almas simples e nadificadas e que permanecem somente na vontade e no desejo do amor. Segundo McGinn, na tradição da literatura medieval um espelho indica um texto ou imagens que representam alguma realidade ou estado de coisas.

Como diz Ceci Mariani (2008, p. 57), o tratado místico-teológico de Marguerite Porete “não é um espelho comum como tantos que se tem notícia nessa época e que representaram um estilo de instrução religiosa, o Mirouer é também um „romance de amor‟”. Aliás, Margue- rite Porete inicia seu livro com um romance de amor alegórico cortês que, como outros, faz uso dos gêneros épico, cortês e alegórico, além de ser escrito tanto em verso quanto em prosa.

No primeiro capítulo Marguerite Porete usa um pequeno exemplo, que ela chama de

mundano, para que possa ser aplicado ao amor divino; é a estória uma donzela, filha de um rei de grande e nobre coração, que passa a amar o distante Rei Alexandre o Grande logo ao ouvir falar de sua grande cortesia e nobreza. McGinn identifica essa donzela como a princesa Can- dace. Ao narrar essa história, Marguerite Porete fala da grande distância entre a amante e o objeto no qual “fixou seu amor”. Como ela não podia ver ou ter seu amado, e nenhum outro amor exceto este a satisfaria, sentiu-se inconsolável. Para confortar sua melancolia, a princesa imaginou a figura de seu amado, que continuamente teria em seu coração, mandou pintar uma imagem que representava o semblante do rei, “mais próxima possível daquela que se apresen- tava a ela em seu amor por ele e no afeto amoroso que a havia capturado. E, por meio dessa imagem e de outros artifícios, ela sonhava com o rei” (cap. 1). Assim também é o amor de

67 Tradução oral, de Luis Louceiro, do texto: “ Marguerite Porete, as Barbara Newman has shown, is passionate- ly erotic, but in the courtly rather than the bridal sense so that direct sexual imagery is largely absent from her text.”

Alma (que escreve o livro) por seu nobre Alexandre – que aqui não se trata de substantivo próprio, mas de um título: aquele que protege e defende da humanidade, e para Marguerite Porete trata-se da generosidade divina68 –, “tão distante de mim e eu dele”. Para seu consolo, Alma recebe de seu Rei este livro que representa de alguma maneira o seu amor. “Contudo, ainda que eu tenha a sua imagem, não estou menos num país estranho, distanciada do palácio onde vivem os mais nobres amigos desse senhor, que são completamente puros, perfeitos e livres graças aos dons desse rei com quem permanecem.” (PORETE, 2008, cap. 1, p. 32).

Na tradição filosófica (cf. MARIANE, 2008, p. 59) a metáfora do espelho é relaciona- da ao conhecimento de si e de Deus. Sendo a alma semelhante a Deus ela espelha o próprio Deus, isto é, ela é Imago Dei. Aqui o espelho evoca a experiência de Deus.

Nas diversas obras da Idade Média que fizeram uso do termo latim speculum (espelho) encontra-se duas possíveis divisões69: a) o grupo dos “espelhos instrutivos” – visa o enrique- cimento do conhecimento, como encontrado no compêndio de todo o conhecimento da Idade Média, Speculum Maius (O Grande Espelho), escrito pelo dominicano Vincent de Beauvais (c. 1190 – 1264?)70; b) grupo dos “espelhos exemplares” ou normativos – cujo objetivo é ilu- minar a vida moral ou espiritual. Esse gênero literário é inaugurado por Sto. Agostinho com seu Speculum Quis Ignorat (Espelho que Ignora). Nessa obra Agostinho faz um apanhado de textos da Sagrada Escritura, “centrando-se nos mandamentos e em orientações morais, com o objetivo de possibilitar que o leitor, como que colocado diante do espelho, veja em que medi- da tem progredido nos bons costumes e o que ainda falta” (MARIANE, 2008, p. 59)71. Como Mariani afirma, é nesse grupo que podemos classificar a obra de Marguerite Porete, O Espe-

lho das Almas Simples e Aniquiladas, uma vez que está Apoiada na tradição cristã neoplatô- nica de referência agostiniana, onde a Verdade é encontrada na interioridade do sujeito cons- ciente, isto é, cabe à inteligência desvendar as profundidades e mistérios por meio da consci- ência. Marguerite Porete busca o mistério pelo caminho da interioridade. Sua obra está inseri- da num contexto religioso e de gênero literário pertencente à tradição cristã com intenção de

68 Cf. nota 1 do tradutor da obra de PORETE, 2001, p. 40.

69 Cf MARIANE, Ceci Maria Baptista, Marguerite Porete, teóloga do século XIII... tese de doutorado, PUC-SP, 2008, p 59.

70 Esse tratado parece ter consistido de três partes, o Speculum Naturale (Espelho da Natureza), Speculum Doc- trinale (Espelho da Doutrina) e Speculum Historiale (Espelho da História). Mas há também um 4ª parte que é incluída em todas as edições impressas, o Speculum Morale (Espelho da Moral) - acrescentado no século 14. Disponível em: http://www.lancs.ac.uk/staff/haywardp/hist422/seminars/Beauvais.htm (acesso em 20.06.2010). 71 Esta citação de Mariani está baseada na explanação de Margot SCHIMIDT para o verbete « Mirroir », in Dic- tionaire de Spiritualité Ascétique et Mystique, Doctrine et Histoire. Paris : Beauchesne, 1964, p. 1292.

instruir sobre um itinerário espiritual e é, portanto, um “espelho exemplar”. Entretanto, afirma Mariani, Marguerite Porete faz uma travessia da teologia agostiniana e se aprofunda no senti- do de insistir na impossibilidade do conhecimento de si e de Deus – o que insere seu pensa- mento na tradição mística renana. Tal itinerário requer a aplicação de “todos os recursos dis- poníveis pela instituição, pela razão e pelo amor, dando tudo de si, e mesmo assim continuan- do, angustiadamente, no mistério de si e de Deus”. Mas, tais meios (instituição, razão e amor) escravizam e, somente ao libertar-se deles é que a alma chega ao reconhecimento que não sabe nada de si e nem de Deuse, nesse nada, pode enfim entregar-se de forma a permitir que Deus opere sua obra.

É pelo Fino Amor, o Amor Cortês, que Deus atua na alma. Como veremos nos capítu- los seguintes, Lacan (Seminário Mais, ainda) sinaliza que falar de amor não é letra de amor. A letra de amor (lettre d’amour) é o amor cortês. Enquanto o drama do amor é passar do con-

tingente ao necessário – criamos laços para suportarmos a dor de existir –, o amor cortês fala do seu oposto, isto é, do amor impossível. E, sendo impossível, o amor cortês se resigna à solidão, a qual indica o Um (o que não cessa de não se escrever da relação sexual – que de- senvolveremos no capítulo três e quatro). O gozo é sempre gozo do Um.

O Espelho das Almas Simples e Aniquiladas não se restringe à linguagem religiosa, pois faz uso da linguagem da literatura do amor cortês em sua alegoria mística da união per- feita entre criatura e Criador. Assim, temos nessa obra o uso da metáfora do espelho com sig- nificados simbólicos tanto do âmbito religioso quanto do profano.

Inspirada nas idéias neoplatônicas, a simbólica do espelho na tradição cristã antiga e medieval repousa sobre a teoria da emanação – a realidade é criada a partir do Um que irradia espontaneamente como o sol que emite a luz. Segundo Marie Bertho72, citada por MARIANI

(2008, p. 60-61), nessa cosmologia neoplatônica,

os espelhos constituem por sua combinação a armadura piramidal do Uni- verso ao longo do qual, de alto a baixo, refletem a hierarquia de reflexos que caem em cascata do Um original até a matéria, degrau último de dispersão caracterizado pela multiplicidade. Mas os espelhos são também a possibili- dade de remontar essa hierarquia de reflexos de baixo ao alto e esta qualida- de faz dele um instrumento de retorno para quem o deseja.

Essa compreensão do espelho como reflexo é tomada pela escolástica medieval que faz uma associação desta à sabedoria como “reflexo da luz eterna, espelho nítido da atividade de Deus e imagem de sua bondade. Embora seja única ela tudo pode. Permanece sempre a mesma, mas renova tudo, e entrando nas almas santas, através das gerações, forma os amigos de Deus e os profetas” (Sabedoria, 7:26-27).

Outras representações do espelho vivo que recebe e reflete a imagem de Deus são di- fundidas ao longo da história: os Anjos, Nossa Senhora, os Santos, o ser humano na condição de alma pura. Mas Cristo é o espelho por excelência, pois deixa ver a transcendência; Ele é “o espelho sem mancha, aquele que revela o mistério de Deus inacessível” (MARIANI, 2008, p. 61).

Para Marguerite Porete, o que é o espelho em O Espelho das Almas Simples e Aniqui-

ladas? A complexidade de sua obra deixa questões tais como as apresentadas por McGinn (1998, p. 247): Mas se as almas forem verdadeiramente aniquiladas como podem ser repre- sentadas? E mais ainda, o “espelho” é um possessivo ou um genitivo objetivo? Isto é, será que as Almas Aniquiladas são elas mesmas o espelho ou será que o espelho apenas as representa?.

A questão da aniquilação na mística de Marguerite Porete, como tratamos nas descri- ções sobre o “nada”, não significa desaparecimento, mas esvaziamento daquilo que impede a liberdade da alma, isto é, libertar-se de todas as estruturas que dão suporte, para que não sen- do, a alma se lance no abismo da Deidade. Assim, Deus pode alcançar essa alma que o recebe como um espelho e ela, inalterável, O reflete. Podemos dizer que essa noção da alma aniqui- lada como espelho de Deus está presente na obra de Marguerite Porete. Mas também pode- mos afirmar que, por vezes, o espelho é aquele que representa, aquele que revela a alma nadi- ficada. O livro, O Espelho das Almas Simples e Aniquiladas, é muitas vezes o próprio Deus, representado pelo personagem Amor.

Mas, dentre as três pessoas da Trindade, o papel de Cristo, como afirma McGinn, é aquele do exemplar, ou primeira manifestação, da descida à maldade e ao pecado como único caminho para se obter o conhecimento da bondade salvífica de Deus.

Ao situar o espelho como imago Dei, revelada na 2ª pessoa da Trindade, Marguerite Porete parece nos dar uma brecha para uma resposta ao que nos chamou a atenção numa des- crição acima, a saber, a não inclusão de Jesus Cristo na representação dos personagens como

foi feito ao se personificar Deus e o Espírito Santo. O Espelho das Almas Simples e Aniquila-

das é para Marguerite Porete o Verbo encarnado no qual a Alma se funde. “Esse ponto me torna uma, de outra forma eu seria duas, pois se eu me importasse, estaria comigo mesma. O Filho de Deus pai é meu espelho nisso [grifo nosso], pois Deus pai nos deu seu Filho, nos salvando. [...] E o filho de Deus é nosso exemplo...” (cap. 109). Sendo Um em Deus, a alma nadificada tanto pode ser ela mesma o espelho quanto o espelho sua representação.

A imutabilidade do espelho exprime a identidade absoluta de Deus em opo- sição à alteridade da criatura. Neste sentido, está preservada a diferença on- tológica entre criador e criatura. A alma aniquilada pelo caminho do não ter e do não ser, tem a inalterabilidade de espelho pra refletir a Deidade na sua inacessibilidade. Para M. Eckhart, o homem como espelho de Deus não é fonte de si mesmo, pois ele só existe sendo reflexo de sua origem. (MARI- ANI, 2008, p. 62).

O Espelho das Almas Simples e Aniquiladas, que frequentemente fala de si mesmo de um modo auto-referencial (“Este livro” – “ce livre”), inicialmente é uma imagem divina ins- crita dentro da Alma - o que aponta, segundo McGinn, para a natureza da alma como imago

Dei. A partir daí o livro é então externamente escrito como um livro-imagem pela própria Alma. Tanto Deus quanto a Alma são autores de ce livre. Esta e outras ambiguidades dos mo- dos de representação, como o fato da Alma ser tanto um dos interlocutores como também a arena do drama no sentido de que a transformação da consciência, que é o sujeito do livro, está acontecendo dentro dela, são encontradas no livro de Marguerite Porete. “Este processo pode ser descrito como a criação de uma identidade mística, embora ela paradoxalmente ocor- ra por meio da „descriação‟ do eu em aniquilamento, a meta final sendo o que Paul Momma- ers já se referiu como a emergência de “un „je‟ sans moi” – “um „eu‟ sem mim”” (McGINN, 1998, p. 248), (tradução livre)73.

Com a formulação do estágio do espelho, Lacan pôde afirmar que a construção do eu se dá pelo outro, isto é, constrói-se à imagem do semelhante e primeiramente da imagem que me é devolvida pelo espelho. O olhar do outro devolve a imagem do que eu sou. Essa aliena- ção no outro é que vai permitir a constituição do sujeito. O investimento libidinal primordial é a matriz das futuras identificações.

73 Tradução oral, de Luis Louceiro, do texto: “This process might be described as the creation of a mystical iden- tity, though it paradoxically takes place through the “decreation” of the self in annihilation, the final goal being what Paul Mommaers has referred to as the emergence of “un „je‟ sans moi” – “An „I‟ without a me.””

Assim, instala-se o desconhecimento em minha intimidade e, ao querer for- çá-la, o que irei encontrar será um outro; bem como uma tensão ciumenta com esse intruso que, por seu desejo, constitui meus objetos, ao mesmo tempo em que os esconde de mim, pelo próprio movimento pelo qual ele me esconde de mim mesmo.74

A obra de Marguerite Porete é espelho exemplar para quem quiser chegar ao país da caridade perfeita, é o itinerário místico da Alma transformada por Deus, da Alma que espelha o amado inacessível.