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Questionário de Atitudes face ao Envelhecimento (AAQ)
Constata-se que uma larga maioria da investigação feita sobre atitudes face aos idosos e ao envelhecimento se baseia em questionar jovens e não os próprios idosos (Laidlaw et al., 2007), o que pode levar a um enviesamento nas interpretações que são daí elaboradas. Deste modo, procurou-se uma medida de atitudes face ao envelhecimento que (1) oferecesse boas qualidades psicométricas, (2) fosse especialmente dirigida à população na adultez e adultez avançada e (3) pudesse ser utilizada no contexto da avaliação do programa Antecipando os Anos Dourados. Crê-se que o programa, ao estimular a reflexão e acção pessoal sobre vários aspectos relacionados com o envelhecimento, possa provocar uma mudança positiva nas atitudes pessoais face a este processo.
Em 2007, o grupo WHOQOL-OLD8 desenvolveu uma medida de auto-relato a partir das atitudes expressas pela pessoa idosa face ao processo de envelhecimento. Surgiu, assim, o Attitudes to Ageing Questionnaire (AAQ), que traduzimos por Questionário de Atitudes Face ao Envelhecimento. A construção e validação do AAQ abrangeu uma aplicação de campo a uma amostra de conveniência composta por participantes de 20 centros WHOQOL-OLD dispersos por várias cidades mundiais, tendo sido seguidos exigentes padrões de desenvolvimento de medidas, definidos pelo grupo WHOQOL-OLD.
8 A sigla WHOQOL representa um grupo transnacional pertencente à OMS – World Health Organization Quality of Life Group, que tem uma secção dedicada a adultos idosos, de onde surge o sufixo OLD.
Capítulo II – Estudo 1 Assim, conseguiu-se uma medida com validade transcultural o que possibilita fazer comparações correndo um menor risco de enviesamento cultural (Chachamovich & Fleck, 2008; Chachamovich, Fleck, Trentini, Laidlaw, & Power, 2008).
O AAQ – versão reduzida com 24 itens, consiste numa medida de auto-relato, composta por três subescalas, com 8 itens cada: (1) Perdas Psicossociais: relativa a perdas significativas para os idosos, em que o envelhecimento é visto sobretudo como uma experiência negativa, que envolve perdas psicológicas e sociais (PSI9=.81); (2) Mudanças Físicas: inclui itens relativos à saúde, exercício e experiência de envelhecer per se (PSI=.81); (3) Desenvolvimento Psicológico: tem um foco positivo no que pode ser designado como Sabedoria ou Crescimento / Desenvolvimento, incluindo itens que reflectem ganhos positivos relativos ao próprio e à relação com outros, que poderão ser vistos como surpreendentes face ao envelhecimento (PSI=.74).
Os itens estão escritos ora numa forma geral, ora numa forma mais pessoal, uns escritos numa forma positiva e outros numa forma negativa.
No Quadro 1 apresenta-se as três subescalas e respectivos itens do questionário. Os itens 1 a 7 correspondem à parte geral do questionário (é pedido ao participante que responda o quanto concorda com cada uma das afirmações que se referem a pessoas idosas de uma forma geral), enquanto os itens 8 a 24 evidenciam uma parte mais pessoal (é pedido ao participante que assinale o quão verdadeiras as afirmações são relativamente a si próprio). Em ambas as partes a escala de resposta é de tipo Likert de 5 pontos, mas na parte geral os participantes respondem de (1) “discordo totalmente” a (5) “discordo totalmente”, enquanto na parte pessoal respondem de (1) “nada verdadeiro” a (5) “extremamente verdadeiro”.
A cotação das respostas é obtida mediante o cálculo numérico da pontuação obtida em cada subescala (de 8 a 40). Para a pontuação total, calcula-se a soma das subescalas, invertendo-se primeiramente o total da subescala 1.
9 O PSI é um coeficiente de precisão da Teoria de Resposta ao Item (TRI), equivalente ao alpha de Cronbach. A TRI tem vindo a ser cada vez mais utilizada como alternativa à teoria clássica dos testes (Almeida & Freire, 2003), sendo indicada para comparar a equivalência de desempenho de itens, quando as comparações são feitas com dados cruzados de diferentes populações, como grupos etários ou culturais distintos (Chachamovich, 2007).
Quadro 1 – Questionário de Atitudes face ao Envelhecimento Subescala 1: Perdas Psicossociais
(3) A velhice é um tempo de solidão.
(6) A velhice é um período depressivo da vida.
(9) À medida que envelheço tenho mais dificuldade em falar sobre os meus sentimentos. (12) Vejo a velhice principalmente como um período de perda.
(15) Estou a perder a minha independência física à medida que fico mais velho(a).
(17) À medida que me torno mais velho(a) encontro maior dificuldade em fazer novos amigos.
(20) Agora que estou mais velho(a), não me sinto envolvido(a) na sociedade. (22) Sinto-me excluído(a) de algumas coisas, devido à minha idade.
Subescala 2: Mudanças Físicas
(7) É importante fazer exercício em qualquer idade. (8) Envelhecer tem sido mais fácil do que pensava. (11) Não me sinto velho(a).
(13) A minha identidade não é definida pela minha idade. (14) Tenho mais energia do que esperava ter na minha idade.
(16) Problemas com a minha saúde física não me impedem de fazer o que quero. (23) A minha saúde está melhor do que esperava para a minha idade.
(24) Procuro manter-me tão em forma e activo(a) quanto possível, fazendo exercício. Subescala 3: Desenvolvimento Psicológico
(1) À medida que as pessoas envelhecem, são mais capazes de lidar com a vida. (2) É um privilégio envelhecer.
(4) A sabedoria vem com a idade.
(5) Há muitas coisas prazerosas no envelhecer.
(10) À medida que envelheço aceito-me cada vez mais a mim próprio(a). (18) É muito importante transmitir a minha experiência aos mais jovens. (19) Acredito que a minha vida foi relevante.
(21) Quero ser um bom exemplo para os mais jovens.
Escala de Competências de Coping Proactivo de Utrecht (UPCC)
A Escala de Competências de Coping Proactivo de Utrecht (UPCC) foi construída por uma equipa de investigadoras holandesas (Bode et al., 2007; Bode et al., 2008) especificamente para medir as competências de coping proactivo, foco do programa Antecipando os Anos Dourados. A construção da escala foi sustentada teoricamente nas cinco fases do coping proactivo, de acordo com o modelo de Aspinwall e Taylor (1997).
Na sua formulação inicial continha 22 itens. Bode e colaboradoras (2007) verificaram entretanto que a estrutura interna revelava 4 factores centrais se excluído um item, tendo proposto 4 subescalas: (1) Formulação realista de objectivos (r=.81), (2) Uso de feedback (r=.76), (3) Avaliação do futuro (r=.74) e (4) Uso de recursos (r=.70). Em estudos mais recentes, cuja revisão foi feita por Bode e colaboradoras (2008), tem-se constatado que, em conjunto, os 21 itens podem formar um único factor, com um total de variância explicada a 23
Capítulo II – Estudo 1 variar entre 26.7% e 48.1%, apontando assim para uma medida de uma única dimensão: a competência de coping proactivo. A escala tem mostrado bons resultados psicométricos (Bode et al., 2008), nomeadamente os relativos à validade de construto, validade preditiva e precisão. Tem também revelado sensibilidade à intervenção, o que demonstra que a competência de coping proactivo é, de facto, passível de mudança.
Os itens que constituem a escala são apresentados no Quadro 2. O participante deve responder assinalando a resposta que melhor descreve o grau em que se sente capaz de realizar cada uma das afirmações, de acordo com uma escala tipo Likert de 4 pontos, de (1) “Não sou capaz” a (4) “Sou bastante capaz”. Os resultados são obtidos por intermédio do cálculo da média e variam entre 1 e 4.
Quadro 2 – Escala de Competências de Coping Proactivo de Utrecht “Eu consigo…”
Subescala 1: Estabelecimento de objectivos realistas
(1) Cumprir com os meus próprios planos, fazendo o que realmente queria fazer. (2) Persistir nos meus planos.
(3) Fazer planos realistas.
(4) Transformar os meus desejos em planos. (5) Encontrar soluções.
(6) Reconhecer as minhas próprias barreiras.
(7) Reconhecer as minhas possibilidades e oportunidades. (8) Encontrar alternativas, se uma solução não funciona. Subescala 2: Uso de feedback
(9) Parar um momento para apreciar os meus sucessos. (10) Aprender com contrariedades.
(11) Recompensar-me pelas coisas que correm bem. (12) Ver os aspectos positivos num fracasso.
(13) Confirmar se consegui realizar aquilo que queria. Subescala 3: Avaliação do futuro
(14) Estimar futuros progressos. (15) Antecipar o futuro.
(16) Avaliar o contexto que me rodeia.
(17) Reconhecer os primeiros sinais de mudanças indesejadas. Subescala 4: Uso de recursos
(18) Procurar apoio social.
(19) Procurar apoio quando as coisas se tornam difíceis. (20) Estar aberto a sugestões e conselhos de outras pessoas. (21) Escutar o meu corpo.
Relativamente a diferenças sócio-demográficas, nomeadamente educação, género e idade, não têm sido encontradas diferenças significativas (Bode et al., 2008), o que indica que a UPCC tem potencial para ser aplicada a um grupo vasto da população na
comunidade, acautelando-se o seu uso em populações clínicas cuja validação ainda não foi realizada.
Para além do uso em investigação, particularmente sobre auto-regulação, a aplicação da UPCC pode ser útil a profissionais que queriam ajudar os seus clientes a atingir e manter objectivos de saúde a longo-prazo (Bode et al., 2008).