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“Neste prelo, Senhor, cada figura

He Socorro que a fama tem buscado; Naõ cabendo o teu nome no seu brado,

Houve mister valerse da escritura. Com rasaõ favoreces quem procura Deixarte o luzimento retratado. Obrando o impossivel no treslado De copiar esplendor em tinta escura. Hoje exalta este prelo os seus primores, Pois para te applaudir lhe dàs licença, Que aprendaõ de ti mesmo a ser maiores.

E naõ só para credito da imprensa, Mas para fé do excesso dos louvores Lhe authorizas a prova da presença.”9

9 FERREIRA, Francisco Leitão - Musa Typographica, seu argumento he, que sendo

servido ElRey Nosso Senhor D. Joaõ V de ver o uso de huma Imprensa se lhe estampou este soneto extemporâneo: do qual offerece a glosa o beneficiado Francisco Leytam Ferreyra. Lisboa: Oficina de Valentim da Costa Deslandes, 1707.

1.1__ D. João V e o patrocínio das artes do Livro em Portugal 1.1.1_ Academia Real de História Portuguesa

__

Um passo à frente das grandes conquistas nas artes do livro seguiam ingleses, franceses e italianos, mas em Portugal um monarca atento, agradado pelas interessantes e vistosas conquistas artísticas que se produziam nos grandes centros culturais europeus, rapidamente compreendeu a necessidade de tentar tocar essa magnificência eternizada nas estantes das melhores bibliotecas.

Ultimadas as guerras com a vizinha Espanha e afirmada a independência de um Portugal que dormitava numa colonizada estagnação, inicia-se uma época de renovação, de valorização do património libertado. Contra o torpor nacional impunha-se uma mudança urgente, à qual D. João V (1689-1750) responde com o

patrocínio de uma nova era, sumptuosa, à semelhança do que ocorrera no reinado de D. Manuel (1469-1521), suportada pelas riquezas que chegavam do Brasil. É neste

contexto de impulso empreendedor que Portugal abraça um processo de renovação da sua tipografia, procurando atingir a sumptuosidade dos bonitos volumes impressos e encadernados sob o patrocínio de Luís XIV (1683-1715) e continuados pelo seu

bisneto Luís XV (1754-1793).

O interesse do diligente monarca pelas artes do livro ficou eternizado na história da imprensa portuguesa em 1707, ano em que começou a reinar, quando num momento de inusitada proximidade tomou contacto com o impressor régio Valentim da Costa Deslandes10 e o seu parque tipográfico. Teorias opostas colocam o

rei ora no papel de visita ilustre ora de acomodado anfitrião. Xavier da Cunha desenvolveu amplamente a narrativa da invulgar folha-volante, citando D. António Caetano de Sousa11 e o seu testemunho na História Genealógica sobre a referida

efeméride12. Não teria configurado excentricidade uma deslocação do rei à tipografia

10 Valentim da Costa Deslandes [s.d.], assumiu o lugar de Impressor Real em 1703 aquando

da morte do seu pai. Este, por sua vez, ocupara o lugar desde 1687, depois da morte de

popular impressor do século XVII, António Craesbeeck de Melo.

11 António Caetano de Sousa [1674-1759], clérigo teatino, membro da Academia Real de

História Portuguesa.

12 CUNHA, Xavier da – Impressões Deslandesianas. Vol. 1. Lisboa: Imprensa Nacional,

real. Curioso e participativo, o Magnífico actuava num registo zeloso, interessado na gestão do reino, não constituindo novidade as suas deslocações inusitadas. Porém as fontes da época, as testemunhais, apontam e reforçam a teoria amplamente exposta por Xavier da Cunha. Os prelos eram relativamente portáteis, e a deslocação de Valentim Deslandes terá levado a tipografia à presença do rei, “A nobre Arte da Impressaõ, que também quiz ver, mandou ir ao Paço, onde fez compor, e imprimir na sua Real presença.”13

Cedo começou o seu apadrinhamento às artes do livro, um patrocínio que iria mudar o rumo editorial do país, e consequentemente do objecto livro.

Consciente da necessidade de uma renovação tecnológica para o progresso da nação, D. João V promove a implementação de variados espaços indispensáveis ao país, como é o caso da Fábrica de Papel da Lousã, que se revelaria uma das peças fundamentais para o desenvolvimento das artes gráficas portuguesas. Fundada em 1716, por iniciativa do genovês José Maria Ottoni14, e dirigida por João Neto

Arnaut15, dispunha de dez oficiais e de vários trabalhadores auxiliares, tendo

produzido essencialmente “papel ordinário, florete e imperial”16 para consumo

nacional. Durante algum tempo exportou em abundância a matéria-prima, conhecida como trapo, que servia para a execução do papel, tendo a sua venda além fronteiras cessado por ordem da coroa que receava a sua escassez. A Fábrica supria as necessidades da tipografia que os jesuítas detinham no Colégio das Artes em Coimbra, e rapidamente passou a prover outras instituições, como a Academia Real de História Portuguesa, justificando-se, na ampla actividade editorial que o país promovia no primeiro quartel de Setecentos, o fim da exportação da matéria-prima.

Num país esmorecido por dois séculos de conturbada actividade económica, onde as aventuras marítimas, o intenso comércio e a ocupação espanhola promoveram desequilíbrios estruturais profundos na economia nacional, nomeadamente na falta de mão-de-obra qualificada e parques tecnológicos actualizados, por força da delapidação das riquezas do país, o interesse do monarca no desenvolvimento da cultura e das artes era, essencialmente, uma bem delineada

13 SOUSA, António Caetano de - História Genealógica (...).Tomo VIII. Lisboa: Regia

Officina Sylviana, e da Academia Real, 1741, p. 269.

14 José Maria Ottoni [s.d.], comerciante genovês.

15 João Neto Arnaut [1658-s.d.], natural da Lousã, antigo Corregedor de Coimbra.

16 FARIA, Manoel Severim de - Noticias de Portugal (...). Lisboa Occidental: Officina de

estratégia política. A industrialização fortalecia a independência e o prestígio do reino, servindo como instrumento diplomático junto das cortes absolutistas de Espanha e França, e, sobretudo, da imponente força política, económica e religiosa que era o Papado de Roma.

Nessa iminente necessidade de consolidação política do reino, D. João V inaugura um novo período na vida cultural do país patrocinando as auspiciosas Academias, como a Congregação do Oratório17 fundada no século XVI, e a

Academia dos Generosos onde se distinguiu o padre Raphael Bluteau18 (que haveria

de produzir uma das mais importantes obras para a língua e cultura da nação portuguesa), reforçando claramente a intenção de enraizar a ascendência da cultura francesa, escola de civilidade que pompeava um modelo elogiado pelos portugueses mais doutos.

Porém, de todos os centros intelectuais patrocinados pelo monarca, seria a Academia Real de História Portuguesa, fundada em 1720, o mais importante núcleo de produção teórica deste período, e a que mais contribuiu para o renascimento da tipografia em Portugal. Emergida de um projecto pessoal de D. Manuel Caetano de Sousa19, rapidamente conquistou a atenção de D. João V que na iniciativa encontrou

a oportunidade de fomentar a criação de um corpus histórico necessário à memória da nação. O projecto para a elaboração de uma história eclesiástica de Portugal, a que pretendia chamar Pantheon dos prelados lusitanos ou Lusitânia Sacra, assoma ao teatino após uma viagem por Itália no ano de 1710. O périplo proporcionou-lhe a presença no capítulo geral da sua ordem, onde seria nomeado seu representante, mas também a oportuna visita às principais bibliotecas italianas. Em jeito de visita de estudo, D. Manuel procura conhecer o que em território italiano se praticava na área da biblioteconomia e, como literato prolixo e historiador minucioso que era, terá tido oportunidade de observar os conteúdos bibliográficos dessas livrarias conventuais e particulares. D. Manuel identifica nos registos escritos da nação uma ausência narrativa que se propõe colmatar, contudo a extensa empresa não é tarefa para um só

17 A Congregação do Oratório dedicava-se ao ensino aplicando os tão em voga princípios

experimentalistas, por oposição aos tradicionais métodos escolásticos dos jesuítas.

18 Raphael Bluteau [1638-1734], natural de Londres, clérigo regular teatino na Ordem de S.

Caetano, autor de várias obras, entre elas o Vocabulario Portuguez e Latino (...), impresso em Coimbra entre 1712 e 1721.

19 Manuel Caetano de Sousa [1658-1734], clérigo regular teatino na Ordem de S. Caetano,

homem, e D. João V reconhece na iniciativa do teatino uma oportunidade de um feito maior.

À elaboração da história eclesiástica juntar-se-ia a da história secular do reino, com particular dedicação aos acontecimentos de relevância histórica, como as conquistas marítimas, promovendo-se assim a construção de uma vasta rede de informações essencial para a herança cultural da nação. Tal feito, de manifesta grandeza e de exigente rigor, só poderia ser executado com a colaboração de várias personagens das letras, pelo que o teatino reuniu nos seus aposentos na Casa de S. Caetano vários intelectuais ilustres da época, da nobreza e do clero, alguns sócios da Academia Portuguesa e Latina como Manuel Teles da Silva20, Martinho Mendonça

de Pina e Proença21 e Francisco Xavier de Meneses22. Convocados para esta

demanda, que prosseguiu numa sala facultada pelo monarca no Palácio dos Duques de Bragança23, foram ainda Azevedo Soares24 e D. António Caetano de Sousa25.

Congregadas as personalidades do reino foi constituída a Academia a 8 de Dezembro de 1720. Segundo o Decreto que aprovou a sua criação, esta iniciativa justificava-se para que fosse possível “purificar da menor sombra de falsidades a narração dos sucessos pertencentes a uma e outra História [a eclesiástica e a secular] e investigar aquelles que a negligencia tem sepultado nos archivos.”26 A primeira

sessão teve lugar nesse mesmo dia, no Palácio onde habitualmente se reuniam, e entre os primeiros directores e censores encontravam-se D. Manuel Caetano de Sousa, D. Rodrigo Anes de Sá Almeida e Meneses27, D. Fernando Mascarenhas28 e Francisco

Xavier de Meneses, tendo sido nomeado como primeiro secretário o Marquês do Alegrete, Manuel Teles da Silva.

Jesuítas, oratorianos, dominicanos, cistercienses e agostinhos estavam também representados na Academia, participando activamente na concretização do ambicioso projecto que contava com cerca de cinquenta sócios, dos quais se destacam algumas

20 Manuel Teles da Silva [1641-1709], 3º Marquês do Alegrete.

21 Martinho de Mendonça de Pina e de Proença [1693-1743], bibliotecário da Real Biblioteca.

22 Francisco Xavier de Meneses [1673-1743], 4º Conde da Ericeira.

23 CHAVES, Luís - Subsídios para a História da Gravura em Portugal. Coimbra:

Imprensa da Universidade, 1927, p. 25.

24 Manoel Azevedo Soares [s.d.-1731], natural do Porto, foi desembargador do Paço.

25D. António Caetano de Sousa [1674-1759], clérigo teatino, autor da História Genealógica (...).

26 CHAVES, Luís – op. cit., p. 27.

27 D. Rodrigo Anes de Sá Almeida e Meneses [1676-1733], 1º Marquês de Abrantes.

28 Fernando Mascarenhas [1655-1729], 2º Marquês de Fronteira, censor perpétuo da

das personalidades da época29 como Diogo Barbosa Machado30, Francisco Leitão

Ferreira31, José Soares da Silva32, Raphael Bluteau, Manuel de Azevedo Fortes33, D.

Luís Caetano de Lima34, Padre António dos Reis35, Jerónimo Contador de Argote36,

Alexandre Ferreira37 e Frei Lucas de Santa Catarina38. Com a dilatada participação

dos mais sonantes nomes da erudição portuguesa, os interesses da Academia abrangeram a história da Igreja e da realeza, mas também revelaram uma acentuada preocupação pela preservação do património, incluindo documentos, moedas e outros objectos de valor histórico e arqueológico.

Dotada de rendimentos próprios, usufruía ainda de uma protecção e apoio real que lhe proporcionava um livre acesso aos fundos documentais de todos os arquivos do reino, sobretudo da Torre do Tombo, tendo sido inclusivamente designados paleógrafos e franqueadas as cópias necessárias para o processo de investigação dos sócios da Academia. Sob a divisa Restituet Omnia (restaurar tudo) que reflectia o objectivo maior da instituição (informar o mundo sobre as acções e feitos dos portugueses), deliberou-se também a proibição de qualquer dano infligido a documentos e monumentos históricos, e atribuiu-se-lhe autonomia para providenciar a conservação dos que determinasse necessitar de intervenção. Isenta da censura do Desembargo do Paço, aplicada a todo o reino, contava apenas com aprovação dos seus próprios censores para publicação dos estudos produzidos pelos académicos. Contudo, para proporcionar aos seus colaboradores a concretização desse vasto

29CHAVES, Luís - op. cit., pp. 40-41.

30 Diogo Barbosa Machado [1682-1772], bibliógrafo, autor da Bibliotheca Lusitana (...).

31 Francisco Leitão Ferreira [1667-1735], historiador, foi prior da Igreja do Loreto.

32 José Soares da Silva [s.d.-1739], autor das Memórias de El Rei D. Joaõ I (...).

33 Manuel de Azevedo Fortes [1660-1749], engenheiro militar, autor da obra O Engenheiro

Portuguez (...).

34 Luís Caetano de Lima [1671-1757], clérigo regular, examinador das três ordens militares e

autor da Geografia Historica (...).

35 Padre António dos Reis [1690-1738], oratoriano, conselheiro de D. João V, autor do Corpus

Illustrium Poetarum Lusitanorum (...).

36 Jerónimo Contador de Argote [1676-1749], clérigo teatino e historiador, autor das Memorias

Historicas do Arcebispado de Braga (...).

37 Alexandre Ferreira [s.d.], natural do Porto, foi conselheiro da Rainha e Académico de

número da Academia Real de História Portuguesa, autor das Memorias e noticias historicas da

celebre ordem militar dos templarios (...).

38 Frei Lucas de Santa Catarina [1660-1740], dominicano, foi cronista da sua Ordem e

trabalho de historiografia documental, igualado até à data apenas pelos humanistas e por Frei António Brandão39, a instituição necessitava de autonomia tipográfica.

Inaugurada a Academia Real de História Portuguesa projecta-se assim, oficialmente, o empenho português na evolução das artes gráficas, reconhecidas como eficazes instrumentos de divulgação da cultura de uma nação. O patamar de rigor e exigência desta Academia impunha uma minuciosa e bem cuidada apresentação gráfica das suas obras, não só pelo claro reconhecimento do valor dos seus trabalhos, mas também para que com eles se começasse a construir um espólio bibliográfico nacional a par do das grandes capitais europeias. Ao dispor da favorecida instituição foi deste modo colocada uma oficina que rapidamente assumiu a impressão de grande parte dos estudos produzidos.

A diligente aquisição de livros estrangeiros por parte do Rei abrilhantava as bibliotecas reais, gerando um espólio bibliográfico de incontornável influência no desenvolvimento cultural do país, e promovia também um evidente interesse na renovação das artes gráficas que, mais do que um banal sistema mecânico de fabrico de livros, era vista como uma arte de embelezamento e expressão do pensamento dos Homens. Deste modo, a modernização do parque tipográfico ao dispor do casa real, e consequentemente da Academia, tornou-se um imperativo. O estado anémico em que as artes gráficas portuguesas se mantinham no dealbar do novo século, proporcionou a absorção de artistas estrangeiros reconhecidos nas suas pátrias pela capacidade de operar a arte da tipografia e da gravura com manifesta destreza. A implantação de um novo modelo tipográfico no país, com artistas de reconhecido valor a trabalharem em conjunto sob uma orientação fortemente delineada, lançou as bases para o sucesso de uma nova realidade editorial que se encontrava em manifesta estruturação.

Os estatutos da Academia de História Portuguesa reflectiam uma das preocupações mais prementes da instituição, o correcto e conveniente apetrechamento da oficina tipográfica para que dela pudessem sair, no maior rigor técnico e artístico, as publicações magnificentes que os seus membros operassem.

39 António Brandão [1584-1637], monge da Ordem de Cister, autor da terceira e quarta

partes do primeiro estudo histórico sobre Portugal intitulado Monarquia Lusitana (...), obra iniciada por Frei Bernardo de Brito [1569-1617].

Valendo-se dos seus delegados diplomáticos nas cortes estrangeiras, D. João V ultrapassa eficazmente os constrangimentos da contratação de artistas gravadores, conhecidos na altura como abridores de buril e abridores de estampas. Diogo Mendonça Corte Real40, enviado do Rei às cortes de Haia e Roma, foi o diplomata que mais

contribuiu para o estímulo da obra artística patrocinada pelo jovem monarca e pela sua recém criada Academia. Na cidade holandesa negociou a vinda dos primeiros gravadores que mudariam a face da gravura portuguesa41, nomeadamente a do

impressor de estampas Théodore André Harrewyn42, o primeiro técnico estrangeiro

empregado pela Academia, conforme é testemunhado pelo contrato firmado pelo representante de D. João V.

A diligência para contratação de um abridor de buril revelou-se de maior complexidade, e apenas produziu efeito após diligências várias do diplomata. A resposta afirmativa do francês Pedro Massar de Rochefort43 coloca-o, no ano de

1728, com contrato de exclusividade para trabalhar na Academia usufruindo de todos os privilégios de Gravador Real. Enquanto abridor de buril as suas competências são legitimadas pelo representante do Rei que considera esta contratação uma mais valia para a instituição real, não apenas pelos evidentes méritos artísticos do gravador mas também pela complexidade em encontrar outro artista que se revelasse disponível para aceitar as condições de trabalho oferecidas.

Decorreriam três anos até que o seu conterrâneo Guilherme Francisco Lourenço Debrie44 surgisse em Portugal para abrilhantar os densos fólios dos prolixos

académicos. Consta-se que terá vindo por sua iniciativa, ao contrário da maior parte dos artistas estrangeiros contratados nos seus países de origem por vias diplomáticas, e apenas realizaria contrato com a Academia três anos após a sua chegada, em 173445. Incontestavelmente considerado o artista com mais obra realizada ao serviço

da Academia, Debrie executou mais de oitocentos trabalhos, entre estampas, capitulares e vinhetas várias.

40 Diogo de Mendonça Corte-Real [1658-1736], diplomata e secretário de Estado de D. João

V.

41 CHAVES, Luís - op. cit., p. 33.

42 Théodore André Harrewyn [s.d.], impressor de estampas de origem flamenga.

43 Pedro Massar de Rochefort [1673-1740], gravador francês.

44 Guilherme Francisco Lourenço Debrie [s.d-1755], gravador francês. Foi aluno de Bernard

Picart.

45 SOARES, Ernesto - História da Gravura Artística – Os Artistas e as suas obras.

Para além de Debrie e Rochefort destacou-se também em território nacional o francês Jean Baptiste Michel Le Bouteux46, que se designava arquitecto régio, e cujo

vínculo contratual o colocava a operar à tarefa e não como assalariado. Entre os afamados gravadores franceses, outros seus conterrâneos, como Gabriel Rousseau47,

filho de Jean Rousseau, Quillard48 e também flamengos, dos quais se destacou

François Harrewyn49, passaram por Portugal contribuindo para o progresso da

gravura nacional e, consequentemente, para o desenvolvimento do livro português. O empenho do monarca no melhoramento da arte da gravura foi uma constante ao longo do seu reinado. Através dos seus enviados diplomáticos nas estratégicas capitais artísticas, e também com o auxílio de Jean Mariette50, gravador e

livreiro cuja família se dedicava ao coleccionismo e à produção de estampas, D. João V adquiriu inúmeras gravuras por toda a Europa, criando um espólio visual que urgia no reino. Entre 1726 e 1728, Mariette enviou ao monarca 106 preciosos volumes de estampas de artistas como Rubens, Callot e Alberti. Na sua diligência produziu ainda um forte incentivo à renovação da encadernação e da douração de livros, ao encomendar ao encadernador de Luís XV, o francês Padeloup51, a

confecção dos necessários invólucros. Executadas no mais alto rigor artístico, as pastas dos referidos volumes foram forradas a “marroquim vermelho e decoradas a ouro com ferros especiais.”52

Chegava assim ao reino um vasto espólio visual que ajudaria a promover o desenvolvimento da gravura, mas também a encadernação e douração de livros que atingiu durante o século XVIII o seu máximo esplendor em território português. O fascínio de D. João V pelas letras e pelos livros luxuosamente executados fomentaram a construção de uma exuberante e dispendiosa biblioteca no seu palácio, onde reuniu edições raras e preciosos manuscritos. De acordo com o testemunho de D. António Caetano de Sousa, a famosa “livraria” exibia ainda “um grande número de interessantes objectos de estudo como instrumentos mathematicos, admiráveis

46 Jean Baptiste Michel Le Bouteux [1682- post.1764], gravador francês.

47 Gabriel Rousseau [s.d.], gravador e mestre de composição francês.

48 Pierre-Antoine Quillard [ca.1700-1733], pintor e gravador francês.

49 François Harrewiyn [1700-1764], gravador flamengo.

50 Pierre-Jean Mariette [1694-1774], coleccionador e negociante de estampas, natural de Paris.

51 Antoine Michel Padeloup [1685-1758], encadernador francês.

relógios, e outras muitas cousas raras que ocupam muitas casas e gabinetes.”53 A

livraria que até á data existia no Paço era constituída por uma pequena parte do espólio da antiga Casa de Bragança, e diligentemente o monarca fez incorporar na nova Biblioteca Real todo o seu conteúdo, construindo assim um valioso espaço bibliográfico que compreendia vários milhares de volumes que mal cabiam no grande edifício a que se chamava “o Forte.”54 Este acervo aumentou significativamente com

a aquisição de mais manuscritos, livros impressos, mapas e gravuras que o monarca encomendava avidamente aos seus enviados diplomáticos em Paris, Londres e Roma. Manuel Pereira de Sampaio55, diplomata na Santa Sé, foi o responsável pelo

envio de diversos objectos artísticos, livros de Epístolas, Evangelhos e vários missais

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