• No results found

Aase Texmon Rygh Øivind Storm Bjerke

In document •li •lil ri» (sider 62-68)

Desde os tempos mais distantes, as fibras vegetais e animais proporcionaram aos seres humanos meios que a necessidade e o engenho foram transformando em abrigo, recipientes e fio para unir, tecer, revolução lenta e persistente que ainda nos dias de hoje se demonstra nas atividades mais variadas e tecnologicamente desenvolvidas91

. Na pré-história as fibras seriam obtidas através de processos simples de recoleção e descasque de fibras macias, tornando mais fácil a construção de objetos resistentes e duráveis. A inovação mais importante nesta

versão das 129 mulheres tecedeiras queimadas vivas; 1978 — O prefeito de Nova Iorque decreta o dia 8 de março Dia Internacional das Mulheres em homenagem às 129 mulheres tecedeiras de 1857.

87 Em outubro o Partido Bolchevique lidera a grande Revolução Russa. Essa greve foi documentada nos escritos de Trotsky e de Alexandra

Kollontai, ambos membros do Comitê Central do Partido Operário Social Democrata Russo e ambos, depois, proscritos pelo estalinismo vencedor. Kollontai escreve: ―O dia das operárias, 8 de março, foi uma data memorável na história. Nesse dia as mulheres russas levantaram a tocha da revolução.‖ COTÊ, Renée, La Journée Internationale des Femmes, Montreal, Remue-ménage, 1984.

88 Lutava-se, por exemplo, para que fossem instituídas escolas públicas para crianças que incluíssem as do sexo feminino. Em toda a Grã-

Bretanha, nas poucas escolas públicas existentes em 1886, apenas 13 raparigas frequentavam o ensino secundário (―The Royal Commission on the Public Schools‖, Taunton Report, vol. I, Cap. VI, 1868.) https://www.educationengland.org.uk/history/chapter03.html (Consultado em agosto de 2014).

89BARBER, 1994, op. cit., estudando, a mulher adquiria também, por afastamento e reflexão, uma outra consciência da narrativa de si, da

tecelagem e do mito.

90

BARBER, 1994, op cit.

47 epopeia foi a descoberta de que as fibras podem ser separadas estruturalmente e que, assim, adquirem a propriedade de tecelagem. As peles de animais provavelmente precederam este material tecido, embora as fibras vegetais tenham antecedido as de origem animal.

Fig. 4 Sapatos/sandália com cerca de 8000 anos, Sítio arqueológico Fort Rock, Missouri, Estados Unidos da América, 1938 (antecedem cerca de 2.500 anos o sapato de couro encontrado na Arménia em 2008)92.

Fig. 5 Tecido de lã, Idade do Bronze. Encontrado nas minas de sal de Hallstatt (1600-1200 a.C.), Museu de História Natural, Viena de Áustria.

Quando se considera que a associação do Homo com plantas e animais remonta há centenas de milhares de anos, a História aparece-nos como um fio condutor demasiado curto. Os seres humanos tiveram que conhecer a natureza e as potencialidades das diversas fibras para saber retirar as matérias-primas que melhor serviam para a fiação e a tecelagem.

Segundo informações da Universidade do Nevada, nos Estados Unidos da América (EUA), através de um estudo de introdução aos materiais, são referidos alguns dados, entre os quais: a existência na América Central (México) de vestígios do uso de fibra tecida de algodão há cerca de 5.400 anos; na Turquia a fibra vegetal já ser tecida para uso doméstico há cerca de 10 mil anos, muito antes da domesticação da ovelha e consequente aproveitamento da lã, assim como o conhecimento e uso dos casulos dos bichos-da-seda para fazer fio de seda.93

No continente americano há vestígios documentados de fibras têxteis anteriores aos da cerâmica, datados de cerca de 8500 a.C. Estas teceduras são de fibras vegetais rudes, que precedem as mais macias, que só aparecem a partir de 5700 a.C. Nesse continente a época mais rica é a dos povos pré-colombianos com documentos encontrados no respetivo território, entre as atuais fronteiras do Chile e do Perú.94

Estas fibras finas e dúcteis passam a possibilitar a construção de quase todas as formas engendradas, adquirindo rapidamente um estatuto de argumento de comunicação e também de

92 Em 1938, o arqueólogo Luther Cressman (1897-1994) da Universidade de Oregon encontrou dezenas de sandálias como estas numa

escavação numa gruta localizada num pequeno monte vulcânico a cerca de um quilómetro a oeste do Fort Rock, cratera vulcânica no centro de Oregon. Informação e crédito da imagem: https://www.pages.uoregon.edu/connolly/FRsandals.htm (consultada em agosto de 2013).

93

Universidade do Nevada, https://www.faculty.unlv.edu/landau/fibers.htm (consultado em fevereiro de 2013).

48 retórica, paralelamente a serem agentes de utilidade diversa. São conhecidos vários vestígios, documentos gráficos e escritos que demonstram a existência da manufatura têxtil desde os tempos mais remotos (fig. 5), assim como a importância que esta detinha nas sociedades coevas.

Ainda que sem documentos relevantes, é possível concluir-se que antes da elaboração de artefactos têxteis para proteger os pés (fig. 4) fossem desenvolvidas peças para a cobertura da pele. É possível que, na longa história da cobertura do corpo, logo a seguir às peles animais se tenham afirmado as teceduras têxteis, preceitos de labor mais de acordo com posteriores fases de sedentarização.

Para além de cobrir, o têxtil também estrutura os corpos e as maneiras destes se mostrarem através dos tempos. Abdicando de se mencionar todo o ritual retórico do ato de vestir o corpo, apenas se refere sobre este aspeto a recente exposição de roupas interiores no Museu das Artes Decorativas de Paris95, que teve lugar em 2013, intitulada Roupas Mecânicas, uma História Indiscreta da Silhueta (fig.6).

Fig. 6 La Mécanique des Dessous, une Histoire Indiscrète de la Silhouette, Exposição no Musée de les Arts Décoratifs, Paris, 201396.

Esta exposição explora o que nas diversas partes do mundo existiu, num passado muito recente, de roupas íntimas femininas e masculinas, disfarçando e acondicionando os corpos de acordo com as mudanças da moda, das mentalidades, e, fundamentalmente, desenvolvendo argumentos materiais através de artefactos têxteis, ―roupas mecânicas‖, como se refere no texto da apresentação da exposição, para de uma certa maneira adaptar o corpo ao exercício do poder sobre o ―Outro‖ ou sobre uma sociedade entendida como grupo. E tudo o que enforma o traje também é argumento estrutural têxtil, tanto nas matérias como nas próprias formas/funções/intenções.

A dinâmica narrativa do têxtil adquire um incremento excecional com a possibilidade

95 Musée de les Arts Décoratifs, La mécanique des dessous, une histoire indiscrète de la silhouette, ―Cette exposition, présentée dans les

espaces Mode et Textile, du 5 juillet au 24 novembre 2013, propose d‘explorer la catégorie des dessous, féminins et masculins, tels que le corps à baleines, le panier, le corset, la crinoline, le «faux-cul», le pouf, la ceinture d‘estomac et autres échafaudages vestimentaires qui devaient façonner le corps au moyen de fanons de baleines, de cerceaux ou de coussins selon les exigences d‘une mode établie. Modelant le corps parfois à l‘extrême, le «vêtement mécanique» permettait à chacun d‘atteindre l‘idéal de beauté de son temps. (parte do texto de apresentação). https://www.lesartsdecoratifs.fr/francais/expositions-181/expositions-hors-les-murs-990/expositions-disponibles-1002/la- mecanique-des-dessous-une-3164 (última consulta em 16 de agosto de 2014).

49 que é permitida por uma superfície tecida. Aí se podem inscrever desde as marcas padronizadas da identidade de um povo, tribo, ou grupo familiar, até às narrativas construídas com léxicos figurativos muito objetivos e circunscritos.

Nas mais diversas culturas, as tapeçarias, por vezes em grandes painéis, têm para além da função ornamental, uma função documental e descritiva, revelando nas imagens tecidas ou bordadas factos históricos ou mitológicos, acontecimentos relevantes e cenas da vida quotidiana.

A arte de tecer tapetes foi provavelmente desenvolvida nas planícies da Ásia Central, há milhares de anos, pelos povos nómadas. De fácil transporte e manipulação e de grande resistência, é melhor solução para a montagem de abrigos contra os invernos frios do que as peles dos animais, mais irregulares e frágeis e menos manuseáveis. Os teares, na sua forma mais simples, são feitos de duas traves de madeira horizontais fixadas ao solo, passando por entre elas a urdidura. Estes teares horizontais, que ainda hoje são usados pelos nómadas, têm a vantagem de se dobrarem facilmente para poderem ser transportados. Podem ter veludo ou não e os padrões atuais mais característicos deste tipo de tapetes tecidos são compostos por motivos geométricos ou curvilíneos. Por vezes podem representar sínteses formais de animais e motivos vegetalistas.

A tapeçaria, entendida como manifestação artística que tem por base a tecelagem, é uma arte lenta que requer paciência e rigor.

O estudo de um vaso cerâmico grego do séc. V a.C. que representa Penélope em frente ao tear na companhia de Telémaco97

dá indicações de ―haver fortes presunções sobre o facto de que na origem foram os elementos têxteis que influenciaram os da cerâmica e não o inverso‖98

. Isto é corroborado pelos estudos de Ellen Harlizius-Klück (1958)99

, cujo projeto tem como objetivo investigar a relevância da estrutura e da tecnologia têxtil nos tipos do pensamento tácito100 e dos conceitos do mundo na antiguidade grega. Numa determinada etapa

97 Vaso, séc. V a.C. Museu Etrusco de Chiusi, Itália.

98 AA.VV., L‘Art Textile − Histoire d‘une Art, Genebra, Skira, 1985, p. 19.

99 Ellen Harlizius-Klück é investigadora sénior no Centro de Pesquisa Têxtil da Textile Research da Universidade de Copenhaga e está a

desenvolver o projeto Periphron Penelopeia - Textile Technology and the Tacit Dimension of Thought in Ancient Greece, em colaboração com o Museum für Abgüsse Klassischer Bildwerke de Munique, tendo como objetivo investigar a relevância da estrutura e tecnologia têxtil para o tipo de pensamento e de ordenação dos conceitos na antiguidade grega. Principalmente atribuído como metáfora, a tecnologia têxtil fornece um ofício invisível para adquirir conhecimentos sobre a ordem cósmica e social.

Para ver mais sobre o projeto Periphron Penelopeia - Textile Technology and the Tacit Dimension of Thought in Ancient Greece:

https://www.ctr.hum.ku.dk/economy/periphron/ (última consulta em outubro de 2014).

Para aprofundar a relação da tecnologia têxtil com a dimensão do pensamento tácito grego antigo: https://www.harlizius-klueck.de/ (consultado em agosto de 2013). POLANYI, Michael, The Tacit Dimension, Londres, Routledge and Kegan, 1966.

100 POZZALI, Andrea, ―Tacit knowledge, implicit learning and scientific reasoning‖, Mind & Society, n. º 7, 2008, pp. 227-237. Ainda sobre

conhecimento tácito: HANENBERG, Peter, Cultura e Cognição – ou o Poder do Conhecimento Tácito, Centro de Estudos de Comunicação e Cultura (CECC), Universidade Católica Portuguesa, https://www.proximofuturo.gulbenkian.pt/pdffcg/PF-PeterHanenberg.pdf (consultado em abril de 2012).

50 da sua investigação, Ellen Harlizius-Klück desenvolve um paralelismo entre o verso e o anverso da tapeçaria – do tipo ―sem avesso‖101(fig 8), e um vaso de ―cerâmica bilingue‖ (fig. 7), termo designado para referenciar peças cerâmicas datadas do séc. VI a.C., onde a pintura é realizada em técnicas diferentes, figuras negras de um dos lados e vermelhas do outro, mostrando, por vezes, a mesma cena. Estas obras de ―cerâmica bilingue‖ parecem ser de charneira entre os dois estilos, figuras negras (c. 650 a.C.) e figuras vermelhas (c. 530 a.C.). Havendo registo dos seus autores, existem, no entanto, poucos exemplares deste tipo de peças.

Fig. 7 Ânfora bilingue de Andokides, c. 525 a.C., Aquiles e Ajax jogando um jogo com seixos (psephoi).

Fig. 8 Ellen Harlizius-Klück, Tapeçaria de dupla face ou ―sem avesso‖. Reconstrução de uma tapeçaria grega, anverso e verso de tecedura, respetivamente, da esquerda para a direita. O desenho tem como modelo a tapeçaria que Penélope tece, segundo a representação num vaso, datado de 440 a.C. e exposto no Museo di Chiusi Skyphos.

A semelhança pictórica entre os dois artefactos é notória. E a investigadora adianta também que os motivos geométricos da decoração cerâmica são informados pelo grafismo que caracteriza os têxteis da época, defendendo serem estes o alicerce da estrutura decorativa e pictórica grega (figs. 7 e 8). Esta conclusão ajusta-se aos mitos fundadores ligados ao universo têxtil e, considerando que o papel narrativo da cerâmica conhecida também se baseia diretamente na raiz mitológica, onde se observa uma apropriação da tecelagem em detrimento da olaria, é defensável que o têxtil lhe fosse precedente. Madeleine Jarry confirma haver provas documentais de que na Grécia antiga era corrente o uso da tapeçaria e de tapetes

51 tecidos102. Sabe-se da existência de tapeçarias em Babilónia e Nínive, na Mesopotâmia

suméra, através dos elogios ao seu esplendor em vários documentos escritos.103

A metodologia da feitura de tapetes com tear, com ou sem veludo, é um processo próximo da pintura por neste procedimento as cores serem acrescentadas como um todo, já integrando todas as formas dos padrões, trama a trama, nó a nó; enquanto na realização dos tapetes de ponto o primado metodológico é do desenho, contornando-se primeiramente as formas para depois as encher das diversas cores, da maneira que acontece na realização dos tapetes bordados, como os de Arraiolos.

A mais antiga tapeçaria que chegou até nós é um tapete designado por Tapete Pazyryk (fig. 9), o nome do vale onde foi encontrado.

Fig. 9 Tapete Pazyryk e um seu pormenor, c. séc. IV a.C. Lã tecida, 183 x 200 cm, Museu Hermitage, São Petersburgo104.

Provavelmente produzido na região onde atualmente se situa o Irão, e datado de IV a.C., dependendo das fontes105. Os peritos que o estudaram concluíram ser uma tecelagem do período Aqueménida (550-330 a.C.)106, embora tenha sido descoberto em 1947 longe do seu local de origem, numa escavação arqueológica na atual Sibéria107, num túmulo de um alto dignitário cita, o que indica que este o acompanhava na sua longa deslocação. Foi manufaturado com 36 nós simétricos por cm², o que comprova a existência de uma avançada técnica de tecelagem há cerca de dois mil e quinhentos anos na região do mundo onde foi realizado.

102 JARRY, Madeleine, La Tapisserie: des Origines à nos Jours, Paris, Librairie Achette, 1968. 103 Idem.

104

Imagens recolhida em : https://www.pt.wikipedia.org/wiki/Tapete_persa (consultado em setembro de 2012).

105 Enquanto a maioria das fontes referencia o Tapete Pazyryk entre os sécs. V e IV a.C., James Opie situa-o no séc. III a.C., OPIE, James, Tribal Rugs, A Complete Guide to Nomadic and Village Carpets, Boston/Nova Iorque/Londres, Bulfinch Press, 1998., p. 29.

106 O Império Aqueménida foi fundado por Ciro (reinou de 559 a 530 a.C.).

107 Foi o arqueólogo russo Sergei Rudenko (1885-1969) que fez o achado do Tapete Pazyryk que estava inserido num sítio tumular que, por

razões ambientais, se encontrava em excecionais condições de preservação (devido a estar enclausurado num enorme bloco de gelo) (OPIE,

52 Na região do vale do Nilo dá-se uma transformação no séc. III d.C. nos hábitos dos egípcios romanizados, passando estes a sepultar os seus mortos enrolados em tapeçarias, pela abdicação progressiva do costume tradicional da mumificação108

. Este procedimento contribui para o desenvolvimento da tecelagem de tapetes.

Mas são as tapeçarias coptas as mais importantes para o conhecimento e estudo do passado recente109

desta arte (fig. 10). Existem fragmentos destas tapeçarias, peças tecidas em pequeno formato dos séculos V e VI d.C., realizadas pelos coptas (povo estabelecido na região do Egito) em teares muito simples com características técnicas próximas das usadas na Idade Média em várias regiões da Europa.110

Fig. 10 O Sacrifício de Isaac, sécs. IV-V d.C. Fragmento de tapeçaria Copta com cena bíblica, lã sobre linho,

Cooper Union Museum, Nova Iorque111. Tapeçaria Copta, sécs. V ou VI d.C., Lã sobre linho, 28 x 30 cm112.

Sendo a lã a fibra mais usada para a trama e o linho para a urdidura, a tapeçaria copta caracteriza-se pelo seu cromatismo mais aberto e brilhante. Naquela época, a indústria artesanal da tinturaria teve um grande incremento, paralelo ao vivido durante o Renascimento europeu, com a inclusão de novas substâncias corantes, o que, consequentemente, permitiu adquirir uma maior gama de cores indeléveis.113

Num fragmento de uma tapeçaria de lã podem observar-se as primeiras conexões formais da tapeçaria posterior (fig. 11), onde já se percebe o tipo de padrão tradicional que a tapeçaria islâmica do Médio Oriente vai adquirir. Neste caso a influência vem da arte Sassânida do Irão. Gradualmente os padrões vão-se tornando formalmente cada vez mais abstratos e lineares, advindo do grande protagonismo que irá ser dado aos contornos formais, como é disso revelador o fragmento do século XIV (fig. 12) originário da cultura islâmica

108 JARRY, 1968, op. cit. Ver também: https://www.ctr.hum.ku.dk/economy/periphron (consultado em 4 de abril de 2012). 109

Por já estar no nosso tempo civilizacional (d.C.), entende-se estes tempos como ―passado recente‖, confrontados com a antiquíssima história do têxtil.

110 PHILLIPS, Barty, Tapestry, Londres, Phaidon Press, 1994. RUTSCHOWSCAYA, Marie-Hélène, Les Tissus Coptes, Paris, Adam Biro,

1990.

111 Idem. 112

Imagem recolhida em: PHILLIPS, op. cit.

53 estabelecida no sul mediterrânico da Península Ibérica.

Fig. 11 Tapeçaria tecida, fragmento, período Umayyad (661-750), sécs. VII-VIII d.C., Irão, Iraque, ou Egito, lã, Metropolitan Museum of Art, Nova Iorque 114.

Fig. 12 Fragmento têxtil e pormenor, séc. XIV. Espanha, tecelagem em seda, 102 x 36,3 cm, Metropolitan Museum of Art, Nova Iorque115.

Este fragmento têxtil (parte superior da fig. 12, à direita) é constituído por vários padrões em banda, incluindo um, cujo grafismo linear descreve inscrições caligráficas que traduzem desejos de sorte e prosperidade. Esta peça terá sido produzida durante o período islâmico Nasrida, na atual zona da Andaluzia espanhola.116

O desenho geométrico global do têxtil interliga-se com a arquitetura, especialmente nos padrões de estuque e azulejaria que decoram as paredes dos edifícios muçulmanos. Esta tipologia formal teve repercussões tanto nos tecidos têxteis como na azulejaria que foram produzidas já numa fase cristã, após a queda do emirado Nasrida de Granada (1238-1492), criando pontes e laços entre as duas culturas.

Em território português o têxtil é uma das relações tipológicas entre os diversos desenvolvimentos dos padrões da azulejaria117, relação que é colocada em evidência e debate nas peças tridimensionais da instalação Kneaded Memory (fig. 13), numa praça da cidade Belga de Blankenberge, pela artista plástica portuguesa Dalila Gonçalves (1982)118. São objetos que se assemelham a pedras, formas arredondadas de diferentes tamanhos, em que as superfícies irregulares mas boleadas foram revestidas com azulejos moldados e adaptados a esses volumes, que visualmente se percecionam como se se tratasse de vestígios de alguma cobertura de tecido flexível.

114 Imagens recolhidas em: https://www.metmuseum.org/toah/works-of-art/50.83 (consultado em março de 2015).

115 Imagens recolhidas em: https://www.metmuseum.org/collection/the-collection-online/search/448232?=&imgno=6&tabname=label

(consultado em março de 2015).

116 JENKINS, David, The Cambridge History of Western Textiles, Cambridge, Cambridge University Press, 2003.

117 FERREIRA, Maria João Pacheco, ―Repercussions of the Chinese Textiles in the Portuguese Artistic Production (16th-17th Centuries) ‖, Face to Face – The Transcendence of the Art in China and Beyond, Conferências, 3-5 de abril, Lisboa, Faculdade de Belas-Artes da

Universidade de Lisboa, 2013. FERREIRA, Maria Augusta Trindade, Lenços e Colchas de Chita de Alcobaça, catálogo, exposição, Rio de Janeiro, 2002.

118 Dalila Gonçalves (1982), com um curriculum expositivo relevante desde 2005, ano em que terminou a licenciatura em Artes

Plásticas/Pintura pela Faculdade de Belas-Artesda Universidade do Porto (FBAUP); fez o curso de Fotografia do Programa Gulbenkian Criatividade e Criação Artística, 2008; Mestrado − Ensino de Artes Visuais pela FBAUP e Faculdade de Psicologia da Universidade do Porto, 2009; é doutoranda em Arte e Design na FBAUP.

54

Fig. 13 Dalila Gonçalves, Kneaded Memory, 2012. Instalação, dimensões variadas, cimento, placas de chacota pintadas e vidradas119.

Kneaded Memory propõe uma reflexão e um debate sobre fronteiras, entre o presente e

o passado, ―entre a memória, a recordação e o esquecimento‖120, mas fundamentalmente um ensaio até a um dos limites da memória cultural têxtil121. É na conjugação entre a forma, os azulejos e o cimento que se cruzam diversas narrativas técnicas, estéticas e culturais que contribuem para um acontecimento artístico enriquecedor que, de certa forma, também une a cidade belga à azulejaria portuguesa pela importação de alguns dos padrões e técnicas de fazer, principalmente entre os sécs. XVII-XIX.

Durante todo o séc. XVI, na região do Médio Oriente, compreendendo a Pérsia e a parte ocidental da Índia nos territórios sob proteção da dinastia Safávida (1501-1722 d.C.), a tecelagem de tapetes desenvolveu-se bastante, técnica e artisticamente, muitas vezes em oficinas pertencentes à corte. Durante este período são tecidos dois grandes tapetes para a mesquita Sheikh Safi (fig. 14), medindo 534 x 1152 cm, provavelmente manufaturados na cidade de Kashan na Pérsia. Estes dois tapetes eram semelhantes em tamanho e padrão, complexo e minucioso, com uma qualidade de tingimento indelével, tendo sido necessários cerca de três anos para que cinco tecelões os completassem no ano de 1539 d.C. Devido a um

In document •li •lil ri» (sider 62-68)