Um círculo de terra arborizada em meio a buzinas e um tráfego intenso cruzando entre norte e sul; entre oriente e ocidente. Uma rosa dos ventos rodeada por espaços abertos e edifícios, dois deles política e culturalmente imponentes. Ao norte, o Museu Egípcio, que abriga os milenares tesouros faraônicos; ao sul, o Mogamma (ﻊّﻤﺠﻤﻟﺍ) com seus vinte andares, no qual se estabelecia o “colosso temível da burocracia egípcia” (COELHO, 2011). Ao leste, orienta-se a construção do século XIX da Universidade Americana do Cairo, grande responsável pela vida intelectual do Egito. A oeste, aparecia-se a sede do Partido Nacional Democrático (PND), em seu moderno complexo de escritórios. O prédio da Liga Árabe, importante que foi por seu movimento de reunir os países de língua e civilização árabe em uma só comunidade, fica a sudoeste; e a sudeste localiza-se a mesquita Omar Makram, que serve aos funerais do Estado, tendo a calçada que a envolve transformada em milhares de pedras, servido de munição aos manifestantes.
Figura 2: Praça Tahrir
Fonte: efe.com28
Prosaica, a Praça Tahrir tomou sua forma atual apenas no final do século XIX. Originalmente, outro nome de batismo, Maidan Ismailia, assentava-lhe o início de sua modernização arquitetônica, no reinado de Ismail Pasha, o Magnífico, de 1863 a 1879. Após a Revolução Egípcia de 1952, em que o Egito assumiu a República como forma de governo no lugar da monarquia constitucional, a praça adotou em 1954 o nome Maidan al-Tahrir, ‘Praça da Libertação’ em árabe.
O processo de modernização contribuiu para que esse espaço público tenha sido o local de coexistência, uma “unidade polivalente” (RESENDE, 2011). A praça Tahrir, assim como a cidade do Cairo, e ainda como muitas grandes cidades do Oriente Médio, assume uma característica de espacialidade em que as pessoas se socializam no seu cotidiano. Uma característica geográfica das cidades árabes, como Resende descreve neste trecho:
[...] práticas que devem ser estendidas às vielas tortas, ao mercado El Khalili, por exemplo, às grandes ruas e aos bairros da cidade do Cairo. E essas práticas de partilha – que neste caso específico podem ser abordadas a partir da ideia de uma diluição das fronteiras público/privado – são marcas de um ‘cotidiano cosmopolita’ (RESENDE, 2011).
Por sua significação, a Praça Tahrir tem sido o local de grandes protestos e manifestações, dentre elas uma sem precedentes. No dia 25 de Janeiro de 2011, foi palco do maior movimento popular da história do Egito, movimento este que recebeu designações tão discrepantes quanto a credulidade de que ele realmente pudesse acontecer. Termos como
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NOUJAIM, 2013. The Square. O documentário mostra Tahrir como uma praça com vida própria. Página acessada em 23 de Junho de 2014. Disponível em: http://www.efe.com/efe/noticias/brasil/cultura/the-square- mostra-tahrir-como-uma-pra-com-vida-propria/3/19/2229884
“revolução”, “revolta”, “tumulto”, “golpe”, “manifestação” foram lançados pela mídia em geral, de acordo com cada interpretação dos fatos.
Entre 2010 e 2011, jovens egípcios usaram as redes sociais para pedir o fim do regime de Hosni Mubarak, dando início a um evento que viria a mudar a história do Egito. O cerne dessa manifestação estava no clamor da população pelo fim da pobreza opressiva, da corrupção, do desemprego, da injustiça, dos abusos policiais que assolavam o país e provenientes do regime autoritário de Mohammed Hosni Mubarak, havia 30 anos no poder. O povo estava dizendo não a tudo isso; não ao seu regime político. Queria de volta seus direitos fundamentais. Queria de volta a sua dignidade.
Os protestos iniciados em 2010 se expandiram. Centenas de greves eclodiram no país. As lojas fecharam. Não havia trabalho. As pessoas trocavam de emprego o tempo todo. Não havia hospitais, nem escolas. Não havia esperanças de um futuro melhor para o país. Irritada, a nação perdeu o medo.
Pela sua relevância para este estudo, destacam-se os meios de comunicação utilizados pela população para conseguir essa mobilização. Através de redes sociais, em sites de relacionamento como Facebook e Twitter, os manifestantes convocaram a nação egípcia para mudar a história de seu país. Como afirma Viana (2011), sabe-se que essas novas mídias, mais do que deflagrar as revoluções, potencializaram o desejo de mudança na população insatisfeita com “os rumos da política e da situação socioeconômica”. Como ferramentas de relacionamento digital na Internet, os sites de redes sociais tiveram importante papel ao propagar as ideias e as notícias sobre os acontecimentos das revoltas ocorridas na Tunísia, um dos estopins da Primavera Árabe, porém de forma coadjuvante, já que as imagens que deflagraram as revoltas, como a autoimolação do tunisiano Mohamad Buazizi, foram difundidas primeiramente pela televisão.
Como aspecto de reflexão à visão predominante na mídia, o evento Primavera Árabe destacou-se por ter manifestantes jovens em sua maioria, sem qualquer influência fundamentalista religiosa, que conseguiram fomentar, articular e propagar os protestos pelo mundo afora. Trata-se, portanto, de um âmbito além da tecnologia, mas das classes urbanas atingidas pelo desemprego, preponderantemente de jovens, parcela representativa da população árabe.
As novas tecnologias, sem dúvida, colaboram para dar voz à população já que, em um regime ditatorial, os meios de expressão ou não existem ou são restritos. No entanto, a voz que se pronunciou foi a da retomada do sentido de coexistência.