• No results found

Analysis and Modeling of Real-Time Systems with Mechatronic UML taking Clock Drift into Account

Em acontecimentos recentes no mundo árabe, muitos grupos de protesto foram criados no site de rede social Facebook como forma de manifestar a insatisfação da população contra seus regimes políticos. Alguns foram notórios, como o Kifaya (“basta” em árabe), fundado em 2004 por intelectuais, e o Movimento 6 de Abril, fundado em 2008 para apoiar lutas de trabalhadores. No entanto, como se vê em Coelho (2011), nenhum obteve tanta adesão nem

foi tão difundido como a comunidade denominada We Are All Khaled Said, criada em homenagem a um jovem, de 28 anos, brutalmente torturado e morto por espancamento pela polícia egípcia, em 06 de Junho de 2010.

Khaled Mohamed Said foi arrastado de um cybercafe18 em Alexandria e jogado na traseira de um carro de polícia egípcia pelo fato de ter perguntado aos policiais por que estava sendo revistado. Por exigir uma razão de estar sendo interpelado, como algumas testemunhas afirmaram, ele foi impiedosamente surrado e seu corpo mutilado foi atirado na rua, para simular que havia sido atacado por algum estranho. O motivo teria sido o fato de Said, acidentalmente, ter presenciado transações ilegais entre a polícia egípcia e traficantes de droga. A autópsia policial decretou morte por asfixia, depois de engolir um saco de maconha19. O uso de força excessiva tem precedentes na lei de emergência instaurada no Egito.

Figura 1: imagem de Khaled Mohamed Said vivo e morto

Fonte: Egypt: Roots of a Revolution. 09 de Fevereiro de 2011. Página acessada em 22 de Junho de 2014.

Disponível em: http://cdn2.likethedew.netdna-cdn.com/wp

Quatro dias depois de sua morte, a campanha We Are All Khaled Said foi lançada em rede social, pela página do site Facebook. De acordo com as notícias internacionais20, a campanha alimentou um clamor público e motivou ainda mais a população jovem – cansada do tratamento desumano que o regime de Mubarak havia imposto, e desejosa por mudanças –       

18

Café net, café Internet: um lugar público que fornece acesso à Internet a partir da cobrança de uma taxa baseada no tempo de acesso.

19

Egypt: Roots of a Revolution. 09 de Fevereiro de 2011. Página acessada em 22 de Junho de 2014. Disponível em: http://likethedew.com/2011/02/09/egypt-roots-of-a-revolution

20

History of the Revolution on Facebook. Página visitada em 22 de Junho de 2014. Disponível em: http://www.elshaheeed.co.uk/2012/01/26/the-story-of-we-are-all-khaled-said-english-facebook-page-1-of

a arregimentar o movimento em rede social, que já vinha insuflado pelos acontecimentos na Tunísia, com a derrubada do ditador Ben Ali. O grupo inicialmente formado pela adesão à página exigia das autoridades egípcias explicações sobre o acontecimento que culminou na morte do jovem Khaled Said e a justa condenação dos culpados. Daí à derrubada do regime de Hosni Mubarak há uma cronologia e uma produção textual que serviram de corpus de análise para esta pesquisa, cujos dados mais específicos serão apontados no Capítulo II.

A primeira página do site de rede social Facebook We Are All Khaled Said foi criada em língua árabe, mas, por ter ficado sob vigilância do Estado, não obteve adesão expressiva. Paralelamente à página árabe, foi criada uma em língua inglesa, que, por não ter sido detectada e controlada pela segurança egípcia, obteve a adesão de dezenas de milhares de seguidores no Facebook, tornando-se um ponto focal para a organização de manifestações mundo afora.

A página procedeu à publicação de fatos que revelavam a violação dos Direitos Humanos, os abusos da polícia e autoridades egípcias como torturas e agressões à população, por meio de textos, imagens, fotografias, vídeos, que podiam ser acessados diretamente no mural ou por meio de hipertextos. Dentre os vídeos postados, havia um que mostrava cenas em que um funcionário, presumidamente do NDP (National Democratic Party21), fraudava votos a favor de um determinado candidato e os depositava nas urnas eleitorais22. O conteúdo fazia ampliar ainda mais a revolta e o descontentamento das pessoas. Os participantes do site tinham acesso a publicações de outras fontes de mídia, além da TV estatal, inclusive de outros países, o que era proibido por Mubarak. A luta por democracia e liberdade motivou e engajou a população egípcia a sair às ruas em 25 de janeiro de 2011.

A campanha We Are All Khaled Said, que entrou em atividade em 19 de Julho de 2010, propagada e alimentada no site da rede social Facebook, foi de fundamental importância para apoiar a Revolução do Egito em 2011. A população, em princípio, aderia à página e curtia as informações. À medida que a campanha crescia em número de adesões, crescia também a participação dos integrantes. Em dado momento, a população estava produzindo seus vídeos e compartilhando na rede social. Tudo era realizado pelas pessoas e

       21

Partido Nacional Democrático, em tradução livre do inglês. O PDN tem como líder o ex-presidente do Egito, Hosni Mubarak. Tradução nossa.

22

Fraud in Egypt Elections 2010 (28 de Novembro de 2010). Página acessada em 22 de Junho de 2014. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=IcEsyr7l5_I

para as pessoas, evidenciando o poder da comunidade virtual. Não havia líder. A liderança era de todos na página.

A autoria da criação da página, e consequentemente sua administração, manteve o anonimato devido às ameaças do regime à população, já que o autor teria a responsabilidade de organizar a revolta. No entanto, acabou descoberto e preso. Doze dias após a sua libertação, e por meio de uma dramática e exclusiva entrevista23 a um canal privado da TV egípcia, a Dream TV, Wael Ghonim, executivo de marketing da Google, assumiu-se como autor e administrador da página. Além dele, também eram seus administradores Ahmed Saleh e Nadine Wahab24.

Ghonim, que nasceu no Cairo, Egito, em 23 de Dezembro de 1980, vivia confortavelmente nos Emirados Árabes Unidos e juntou-se aos manifestantes no Egito em virtude do seu profundo amor ao país em que nasceu e cresceu. Na véspera de 25 de Janeiro de 2011, informou à Google sua ausência e alegou ter de resolver assuntos pessoais. Três dias depois foi preso pela segurança de Hosni Mubarak.

Sua página no Facebook, uma plataforma livre, um ambiente aberto, mostrou à população que havia um caminho e a Internet era esse caminho. A vida virtual mostrou-se diferente da vida real. Wael Ghonim soube envolver as pessoas.

       23

Inside the Egyptian Revolution. Página acessada em 10 de Junho de 2014. Disponível em: http://www.ted.com/talks/wael_ghonim_inside_the_egyptian_revolution, Também: Egypt activist Wael Ghonim tells TV station: ‘I am no hero’ – vídeo. Página acessada em 10 de Junho de 2014. Disponível em: http://www.theguardian.com/world/video/2011/feb/08/egypt-activist-wael-ghonim-google-video

24

We are all Khaled Said. An Interview with the Administrators of the Facebook Page that Fueled the Egyptian Revolution. 03 de Novembro de 2011. Página acessada em 22 de Junho de 2014. Disponível em: interhttp://www.bostonreview.net/khaled-said-facebook-egypt-revolution-interview