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Esta lenta, mas persistente, construção e transformação da paisagem da Sabana de Bogotá, que ao longo das páginas anteriores temos presenciado, sofreu uma repentina e insuspeitada mudança. Uma vez avistado o continente americano pelas caravelas de Colombo, nada voltaria a ser igual para os povoadores que há milênios aqui moravam, isolados do convulso Velho Mundo. Os estudos históricos que se ocupam da América do século XVI muitas vezes passam a ideia de que os diferentes grupos humanos foram apanhados de surpresa por homens que mais pareciam vindos dos mundos do além, como se cada um vivesse isolado, alheio àquilo que desde 1492 se passava nas ilhas das Antilhas. Mas, certamente, existiam redes de comunicação entre as

sociedades americanas, associadas ao intercâmbio de produtos. A ausência de animais de carga limitou muito a magnitude das trocas comerciais, mas isso não quer dizer que as diferentes comunidades não estivessem em contato (TOVAR, 1997, p. 38-39).

A colonização foi um processo relativamente lento, que precisou de oito anos para se estender desde as Antilhas às costas continentais do atual mar Caribe e mais três décadas para penetrar pelo continente adentro. Tempo suficiente para que os grupos humanos do interior soubessem, impotentes, o que mais cedo ou mais tarde iria acontecer. Registros de “premonições” feitas entre os grupos indígenas do atual México e da América Central se encontram a partir de 1509, quando os exércitos espanhóis já estavam atuando na atual costa colombiana55(Ibidem, p. 33-37). Não sabemos o que é que pensaram sociedades como a Muisca, se intentaram se preparar, e como, para afrontar o que viria. Pelas noticias que chegavam de fora deviam saber que se tratava de um desafio que ultrapassava qualquer outro antes vivido e, perante o qual só havia dois caminhos, lutar ou aceitar o novo Senhor dentro de uma política de paz. O Jeque de Ubaque, Popón, também prognosticou a chegada destes seres estranhos e a desgraça do Zipa de Bogotá56.

[...] porque unos hombres de otras tierras que van llegándose ya a ésta, lo han de matar, y si quiere saber ser esto así, le doy por señal que envíe a ver la laguna de Guatavita y la hallaran que de noche echa el agua llamas de fuego” (SIMÓN, 1981 [1625], v. 4, p. 338).

De fato, os Zipas Tisquesusa e Saquesazipa morreram lutando sem sucesso com os espanhóis. Outros caciques como Suba ou Chia entraram logo em acordos de submissão para tentar dessa forma ganhar alguma vantagem (AGUADO, 1957 [1574], v. 3, cap. 5). Mas, o que é certo é que a realidade que até então os Muiscas tinham conhecido estava desabando perante seus olhos, sendo substituída por uma nova. E com ela também uma nova paisagem iria ser construída na Sabana de Bogotá.

O território Muisca, tal como o próprio continente Americano, foi entendido pelos espanhóis como um espaço vazio, sem história, um meio natural desprovido de trabalho humano anterior, onde se podia, e devia, fazer tudo de novo (CAILLAVET, 1989, p. 125). O que havia antes era visto como sendo um estado de inocência natural, o paraíso de Deus, ou o contrário, o

55Estas premonições foram registradas em livros como Los Libros de Chilam Balam.

56 Jeque era o nome dado aos sacerdotes entre os grupos Muiscas, mas podiam ser ao mesmo tempo Caciques. O

império do demônio e da idolatria57. Não é por acaso que o atual território da Colômbia se tenha chamado inicialmente “Real Audiencia del Nuevo Reino de Granada”, e a partir do século XVIII “Virreinato de la Nueva Granada”, e sua capital Santafé. Granada era a cidade da Espanha de onde era natural Gonzalo Jimenez de Quesada, e Santafé foi o nome do acampamento militar, em Granada, onde os espanhóis resistiram e lutaram contra a invasão muçulmana. Dois nomes (Santafé e Granada) que denotam tanto o desejo de fundar uma nova Espanha na América, sem importar o que antes havia, como o propósito de lutar contra a idolatria e de ganhar novos espaços para o Cristianismo. Assim, os espanhóis pouco se importaram com as estruturas sociais e culturais que encontraram na América. Aliás, não tinham os parâmetros conceituais para compreender esse mundo tão diferente do deles. A dificuldade de Fray Bernardino de Sahagún (1585) para descrever os sabores dos frutos da América que tanto fascinaram seu paladar pode ser usada como uma metáfora da ausência de conceitos para compreender e explicar o modo de vida que os espanhóis encontraram aqui.

Por outro lado, o golpe moral que a invasão representou para os indígenas foi indescritível. Lembrando as palavras de Gruzinski, como assimilar que a própria cultura está prestes a morrer? Como continuar reproduzindo um cotidiano que faça sentido no meio de uma situação de crise sem precedentes, como fazer frente a uma realidade abalada por uma dominação da qual nunca antes se tinha tido memória e que usava meios completamente desconhecidos (GRUZINSKI, 1993, p. 9). A complexidade da mudança mental que teve lugar na América pode ser vista em diversos aspectos da vida dos indígenas, desde a forma de entender o próprio corpo, de conceber o tempo, de construir os laços comunitários até à forma de compreender o divino. E neste último caso o território tinha um papel fundamental. Como temos chamado a atenção ao longo da tese, o sistema de produção agrícola de camellones estava inserido numa forma particular de compreender o espaço, de se relacionar com o meio ecológico e de construir a paisagem, que não obedeceu somente a interesses econômicos. Cada elemento da natureza participava do Divino, e cada ato a ela associado continha múltiplos significados. Semear a terra,

57Em 1563 teve lugar um processo judicial contra o Cacique Muisca de Ubaque por ter celebrado uma grande festa e

cerimônia no estilo de seus antigos costumes e por ter convidado para ela todos os caciques e indígenas do território Muisca. Nos interrogatórios às pessoas que participaram da celebração é notável como um dos elementos que se tenta estabelecer é se houve idolatria, se houve sacrifícios de jovens como antes se costumava e se houve invocação de deuses pagãos (do demônio como simplificadamente o entendiam os espanhóis) (Vide CASILIMAS; LONDOÑO, 2001).

tecer as mantas, trabalhar o ouro, construir uma casa, percorrer a província, eram todos atos que iam para além do fim prático a eles associados.

Porém, rapidamente esta forma de estar no mundo deveu se acomodar às exigências dos espanhóis e à nova realidade que com eles se construiu. Uma das primeiras coisas que os indígenas do atual território da Colômbia deveriam compreender era que os espanhóis estavam arrasando seus povoados porque queriam o ouro, as pérolas e as esmeraldas. Não sabiam qual a razão por trás do desespero por obter aquilo que para eles tinha um valor e um significado completamente diferente, mas, uma vez que perceberam que era isto sobretudo o que os espanhóis queriam, criaram o mito de El Dorado para afastá-los de seus domínios com a promessa de cidades feitas em ouro que estavam sempre mais adiante. O próprio Zipa de Bogotá, Tisquesusa, depois de várias semanas de infrutuosa luta para tirar os espanhóis de seu Cacicado decidiu revelar o local onde se encontravam as minas de esmeraldas (no Municipio de Somondoco, nos limites entre os domínios de El Zipa e El Zaque) na esperança de que Jimenez de Quesada e seu exército para lá se encaminhassem e não voltassem a Bogotá (AGUADO, 1957 [1574], v. 3, cap. 7). Mas os espanhóis tinham vindo para ficar.

Embora os primeiros colonizadores não tenham encontrado na Sabana de Bogotá as grandes riquezas a que estavam acostumados na Costa Atlântica, no médio prazo este território acabaria por ter grandes qualidades para aqueles espanhóis que queriam se estabelecer: uma terra temperada, sem as dificuldades das terras baixas tropicais, ampla, fértil e absolutamente plana, com abundância de água e fácil aceso aos recursos das montanhas e com uma mão de obra suficiente e de fácil manejo, já que rapidamente os Muiscas foram dominados. No ano seguinte à entrada no território Muisca, foi fundada a cidade de Santafé, não um forte militar, e que já para 1550 era o centro administrativo de um extenso território. A fundação da Real Audiência de Santafé é mostra disto. Isto iria dificultar ainda mais a situação dos Muiscas porque o estabelecimento permanente dos espanhóis acelerou a desestruturação de seu cotidiano e transformou de forma definitiva a paisagem da Sabana de Bogotá. De que forma se deu este processo e como afetou a colonização o sistema de cultivo tradicional de camellones é o assunto que vamos explorar em este último capítulo.