Atualmente, o contributo da arqueologia para melhor compreender este processo ainda é limitado, devido a duas razões. Por um lado ainda persistem desacordos na arqueologia colombiana sobre se se deve, e como, usar os dados das fontes coloniais para o estudo das formas de organização social, política e econômica dos Muiscas do período tardio, referidos na Segunda Parte. Por outro lado, existe um acordo tácito, talvez inconsciente, de limitar os estudos arqueológicos sobre os Muiscas ao período prévio a 1537, deixando em grande medida o estudo do que se passou ao longo do século XVI nas mãos dos historiadores.
Embora seja verdade que para o caso da Sabana de Bogotá a documentação colonial é abundante,58 ela só nos mostra uma face do processo: a dos espanhóis, já que eram eles que falavam perante a Real Audiência de Santafé, mesmo no papel de defensores dos interesses dos indígenas, ou que escreveram as crônicas oficiais da Conquista. Aliás, a documentação da Real Audiência é relativa a processos legais ou a relatórios sobre os funcionários da Coroa, portanto ela só dá conta de alguns aspectos da vida social e cultural indígena sob domínio espanhol.
Alguns arqueólogos como Langebek (1995) e Therrien (1991, 1996) têm chamado a atenção para a necessidade de avançar com estudos arqueológicos sobre os processos de transformação dos grupos Muiscas após a colonização, mas até agora as iniciativas têm sido bastante tímidas. A arqueologia tem a possibilidade de dar um grande contributo na identificação de práticas culturais persistentes, não no sentido de procurar estruturas fossilizadas, mas de identificar e explicar a forma pela qual as práticas indígenas se transformaram ou ganharam um novo significado para se manterem vivas e ativas no interior da nova realidade da colonização (THERRIEN, 1996, LANGEBAEK, 2005).
Porém, esta informação não está sendo aproveitada. Vários dos sítios arqueológicos da Sabana de Bogotá têm uma camada colonial que é apenas mencionada ou no melhor dos casos descrita, mas da qual não se faz nenhuma análise, desaproveitando-se a possibilidade de compreender com base na cultura material como os indígenas integraram essa nova realidade. Um raro exemplo de análise de uma camada arqueológica colonial foi levada a cabo por Boada (2007) na região de Samacá, Boyacá, no sitio El Venado. Ela identificou que houve uma
58A proximidade dos assentamentos indígenas Muisca (pueblos de índios) com a cidade de Santafé facilitou o aceso
mudança, tanto nos tipos cerâmicos encontrados como na sua morfologia: pratos, taças, panelas com duas asas horizontais e jarros com bico para o serviço de mesa exprimem a ideia de uma outra forma de viver o cotidiano, indicando novas formas de consumo dos alimentos associadas a uma forma diferente de “estar à mesa”. A queda abrupta nas percentagens de material associado ao período colonial, que a pesquisadora refere, mostra a forte descida populacional do período colonial face ao Muisca Tardío e, portanto, a desestruturação das comunidades muiscas da região de Samacá (Ibidem, p. 70).
Para resolver o problema da transição do período pré-hispânico para o colonial, os pesquisadores alongam o período Muisca Tardío até 1600 (por exemplo, LANGEBAEK, 2000; ROMANO, 2003; BOADA, 2006), provavelmente devido à dificuldade de distinguir no registro arqueológico o ponto de ruptura entre um processo e o outro. O problema é que a cerâmica é analisada como sendo uma totalidade homogênea, quando uma parte dela provavelmente está respondendo a uma situação cultural completamente diferente mesmo que pertença à tipologia associada ao Muisca Tardío. A ausência de vestígios arqueológicos do período colonial onde existem evidências do Muisca Tardío, também é em si mesma uma rica fonte de informação porque poderia nos indicar de que forma mudaram os padrões de organização espacial na Sabana e seria um indicativo das áreas mais afetadas pela fase inicial da colonização, como se analisou para caso de El Venado.
Referências arqueológicas ao período do contato as encontramos em sítios como Facatativá (HAURY; CUBLILLOS, 1953), La Herrera (BROADBENT, 1971), Suba (O’NEIL, 1972), Zipacón (CORREAL; PINTO, 1983), Zipaquirá (CARDALE, 1981 a), Las Delicias (ENCISO, 1989), Aguazuque (CORREAL, 1990 a), Mosquera e Fontibón (BOADA, 2000 b), e Funza (BOADA, 2000 b, KRUSCHEK, 2003, PATIÑO, 2003). Em geral estes trabalhos referem apenas a existência de uma camada com material cultural colonial ou moderno (BROADBENT, 1971; KRUSCHEK, 2003, CORREAL, 1990 a) ou uma continuidade no povoamento desde o Herrera até o período Moderno (BOADA, 2000b). Quando são mais específicos assinalam os tipos cerâmicos encontrados, que em geral são o Chocontá Verde Vidriada e o Ráquira Desgrasante Arrastrado, usados para produzir louça de uso doméstico, geralmente pratos, copos, tigelas e jarras (ENCISO, 1989, HAURY; CUBILLOS, 1953, O’NEIL, 1972 e PATIÑO, 2003).
Cardale (1981 a, 1981 b) também nos oferece alguns dados sobre a ocupação Muisca no período colonial em Zipaquirá. Seu estudo sobre produção de sal mostrou que no período Muisca
Tardío os indígenas se encontravam organizados em assentamentos nucleados de tal forma próximos que pareciam formar uma única aglomeração no topo da colina onde se encontravam as fontes de água-sal. Este padrão mudou com a colonização, dado que foram encontrados três sítios de menor dimensão e distanciados uns dos outros em 500 m, no sopé da colina. Isto poderia estar indicando diminuição da população, destruição da aldeia inicial, dispersão da população ou mudanças nos locais de exploração do sal. Esta última hipótese poderia ser a mais plausível, já que a pesquisadora afirma que era normal que as fontes de água-sal se secassem e que novas fontes fossem aparecendo (CARDALE, 1981a, p. 21), mas não podemos tirar conclusões mais específicas já que a única fonte de informação que dá a pesquisadora é um mapa (CARDALE, 1981 b, p. 6). Ela própria fala da dificuldade de encontrar informação colonial sobre a forma de produção do sal entre os Muiscas anteriormente à colonização, bem como na primeira fase da colonização (CARDALE, 1981a, p. 26-31).
Como é claro, este conjunto de informações é insuficiente para tentar explicar de que forma se transformou o cotidiano dos grupos Muisca da Sabana de Bogotá na segunda metade do século XVI. O silêncio é ainda maior relativamente a artefatos pertencentes a esta fase de transição, muitos dos quais seriam de fácil identificação já que eventualmente devem incluir novos materiais como o ferro, o vidro ou o osso de animais de origem europeia.
No entanto, há alguns registros arqueológicos que permitem nos aproximar da forma como os novos objetos foram integrados na cultura material dos indígenas. Um deles se encontra em Pisba, Boyacá, no limite entre o território Muisca e o território U’Wa. Trata-se de contas em vidro inseridas em um canudo para o consumo de coca, conjunto que fazia parte do espólio de uma múmia (CARDALE, 1981b). Os tecidos que envolviam o corpo eram tanto de algodão quanto de lã de ovino (CARDENAS, 1990).
Na Sabana de Bogotá também há um exemplo claro da integração de elementos de origem europeia na cultura material dos Muiscas. Trata-se do santuário localizado no antigo cacicado de Bogotá, em Madrid, referido na seção 2.3.3. Na estrutura em terra foram encontrados chifres e ossos de bovídeo depositados em vários de seus nichos (o autor não especifica o número e a localização exata) e fragmentos de cerâmica vidrada (também não sabemos detalhes sobre a tipologia, formas, número e localização exata), para além de se ter encontrado em um dos canais transversais um par de dados elaborados em osso, cerâmica vidrada e dentes e ossos de cavalo (RODRÍGUEZ CUENCA; CIFUENTES, 2005). Uma amostra de sedimento do canal, associado
a ossos de bovino, foi datado em 1590 +/-40 (data sem calibrar) (RODRÍGUEZ CUENCA, 2011, p. 64).
Dos fragmentos de informação coletada aqui e ali podemos inferir provisoriamente que a cultura material do período colonial evidencia mudanças na forma de organização espacial, com diminuição da população e o abandono de povoados do Muisca Tardío exprimidos na diminuição ou ausência de cerâmicas coloniais. As mudanças no tipo de louça fabricada pelos Muiscas na fase pós-conquista, que se identificou em Samacá poderia estar representando uma situação que foi geral para o resto do território Muisca. A inclusão de novos alimentos na dieta dos indígenas deveu estimular estas transformações. Por outro lado, o achado de oferendas tipicamente coloniais em um santuário localizado na área que deveu pertencer ao Cercado de El Zipa de Bogotá, mostra as persistências na estruturação do espaço sagrado, pelo menos ao longo do século XVI59.
Um último dado fornecido pela arqueologia sugeriria uma continuidade durante o período colonial na forma de cultivar a terra, através do uso de camellones. As escavações feitas em Suba, nos sítios La Filomena e Guaymaral, deram como resultado uma ocupação contínua do território de mais de 2500 anos (BOADA, 2006). A data mais recente, obtida do testemunho tirado do perfil de um camellòn em La Filomena é de 1767 +/- 40 DC (GX – 30237, Cal), associado ao pólen de milho, colocando a questão de se de fato houve sobrevivências do sistema hidráulico dois séculos após a colonização ou se estamos perante sobrevivências isoladas das formas tradicionais de cultivar.