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Há quase três décadas, foi realizada uma pesquisa com 398 professores norte- americanos em que se buscou identificar as fontes de satisfação e insatisfação profissional do professor. Nessa investigação, conforme Farber (1982) apud Picado (2005), verificou-se que o mal-estar e a ansiedade apresentados pelos professores tinham estreita associação com a insatisfação no relacionamento com os alunos. Cientes do quão desafiador é a manutenção de relações interpessoais saudáveis e prazerosas, uma vez que cada pessoa possui desejos, valores e ambições diferenciadas, questionamos os professores universitários, participantes dessa pesquisa, o que significava para eles lidar constantemente com pessoas. Essa categoria denominada

lidar com pessoas fez emergirem vários elementos, agrupados nas subcategorias seguintes:

Tabela 10 – Lidar com pessoas CATEGORIA – LIDAR COM PESSOAS

SUBCATEGORIAS TOTAL %

Satisfação pessoal 8 46

Exercício constante 2 12

Desafio que instiga 2 12

Fator estressante 2 12

Fator desestressante 1 7

Ambivalência de sentimentos 1 7 Oportunidade de aprendizado 1 4 Fonte: Dados da pesquisa.

A expressão de satisfação por ter que lidar com pessoas foi verificada em quase metade da amostra entrevistada – 46%, tendo sido esse item destacado como elemento motivador para continuar exercendo o ofício:

É um dos motivos que me faz querer ser professor. (P3);

É bom porque a gente aprende muito, é bom porque se a gente souber conhecer o que motiva, se souber conhecer o que as pessoas valorizam, a gente consegue conquistá-los e aí aprende. (P8);

Se eu não fosse, se eu não tivesse esse dom de lidar com pessoas eu não estaria nessa área, eu estaria num computador, numa sala fechada sem multimídia para não correr o risco de o computador falar. (P6).

Diferentemente dos achados da pesquisa realizada pelo autor anteriormente citado, embora esse relacionamento tenha sido encarado como exercício permanente, desafio a ser superado e até fator estressante, nas duas instituições pesquisadas os professores falaram do que sentiam por terem de lidar com pessoas, ressaltando especialmente a oportunidade de ampliação de contatos, elaboração de conhecimento e aprendizado permanente.

Nessa mesma questão, e para evidenciar ou justificar a necessidade de abordar um fenômeno tão complexo quanto o estresse associado ao ofício docente, desde uma perspectiva dialógica (MORIN, 1991), em oposição aos que ressaltaram a satisfação proporcionada pelo ter que lidar com muitas pessoas, 10% dos professores fizeram referência a esse fato como fator estressante: “a gente trabalha com pessoas, isso é que faz nossa profissão estressante” (P1). “O professor é um gerenciador de conflitos, e muitas vezes quem está envolvido com esse conflito não tem muito claro qual é a causa

que ele está lutando, e pra mim isso é muito estressante” (P7). Nos sentimentos expressados, vemos a diversidade de significados, ante um mesmo fenômeno. A subjetividade, e, nesse caso específico, o desenvolvimento das inteligências intrapessoal e interpessoal é que responderão pela maior ou menor facilidade em lidar com pessoas.

Articulando essa fala com a dos professores que expressaram satisfação, percebemos a necessidade de evitar estabelecer numa perspectiva de exclusão ou separação. Tendo por base, entretanto, estudos similares, como o desenvolvido por Mota-Cardoso et al. (2002) e Picado (2005), compreendemos que o elemento estressor presente no ter que lidar com muitas pessoas está associado à perda progressiva do consenso a respeito dos objetivos das instituições de ensino e dos objetivos que movem os alunos a buscar um curso superior. Esses autores, embora tendo pesquisado professores de graus diversos de ensino, acentuam que a diversidade de modelos de socialização presentes na sociedade globalizada requer ou tenta obrigar os docentes a suprir tarefas educativas básicas que compensem as carências trazidas pelos alunos. Essa necessidade, por um lado, se configura como desafiadora, uma vez que ainda não foi, e talvez não deva ser, incorporada como função docente. De outra forma, se viajamos pela história dos modelos de exercício do ofício docente, observaremos que na Idade Antiga, conforme Manacorda (1999), o professor ou o mestre era um acompanhante, um tutor, que deveria se preocupar com a formação integral do seu aluno, assumindo a responsabilidade de completar a educação iniciada na família. Levando em conta esse fato ligado à História, chegamos a nos questionar se as carências atuais de orientações de estudos e mediações apresentadas por alunos e estudantes universitários não estão a exigir esse retorno aos primórdios do ofício, já que debates relacionados à tutoria e à mediação não apenas surgem como temáticas relevantes em colóquios e congressos, como apontam para novos desafios à investigação educacional nos dias de hoje4.

Tamanha demanda ainda nos questiona sobre a discrepância entre o que é oferecido e o que é cobrado dentro da multiplicidade de atribuições inerentes à docência.

Observamos, de um lado, que somente esse aspecto ou atribuição do ofício docente – lidar com pessoas - pode proporcionar interpretações e sentimentos aparentemente antagônicos. Por outro lado, se pensarmos na complexidade que envolve

4 Temática e problemática a ser trabalhada no XVI Colóquio da Secção Portuguesa da Associação Internacional de Pesquisa Científica em Educação, em 21-23 de fevereiro de 2008.

o cotidiano desse profissional, conseguiremos compreender que a satisfação e o aprendizado proporcionado pelas relações interpessoais não excluem a acumulação de exigências e os fatores estressantes envolvidos, tornando plausível a necessidade de desenvolver estratégias superadoras da ansiedade desencadeada pelos dilemas das relações estabelecidas com o outro, sejam eles alunos, colegas de trabalho, gestores e envolvidos no processo. Essa ambivalência foi bem especificada na expressão do professor: “lidar com pessoas tem mais pontos positivos que negativos” (P8). Noutro momento, fazendo referência a esse mesmo aspecto, o professor anteriormente citado afirmou: “é bom e é ruim” (P8). Múltiplas visões, multíplices sentimentos, muitos elementos que se misturam, se entrelaçam e se separam quando o professor universitário tem como uma de suas atribuições, lidar com pessoas. Reconhecendo a multiplicidade de sentimentos, e também considerando a precariedade de condições oferecidas para o desempenho simultâneo de tantas atribuições, podemos afirmar que a aglutinação desses antagonismos configura os fatores que deixam o professor vulnerável ao desencadeamento do estresse.