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O fenômeno é conhecido por todos, mas o modo como cada docente sente e conceitua o estresse nos permite identificar uma grande variabilidade de formas de perceber essa variável. A primeira percepção situa-se em torno do desgaste físico, mental ou psicológico que ele provoca, que chega a ultrapasar os limites que o indivíduo pode suportar. Associa-se, portanto, a uma incapacidade, diminuição do desempenho no âmbito da realização de tarefas. Esse desgaste se vincula às condições materiais e históricas sobre as quais o trabalho é concebido e desenvolvido, mas também tem relação direta, do ponto de vista biológico, com o investimento energético que precisa fazer na realização das ações cotidianas:

[…] é um desgaste na capacidade de trabalho. É quando a gente realiza um trabalho muito forçado, ou quando há elementos que lhe fazem sofrer e ficar desgastado no trabalho. Explico melhor: é o que vai cansando, vai levando o indivíduo a ter dificuldades, diminuição do seu desempenho, da sua produtividade. (P1)

[…] é quando sou cobrada por algo que está no meu limite ou além

do meu limite. […] Mais do que o excesso de atividades físicas ou

Associados à idéia da incapacidade, do desgaste físico, da ultrapassagem dos limites, além de todo um cortejo de limitações da ação e perturbação emocional, é apontada a grande ameaça quando ele é olhado como “doença”. Quando o indivíduo é exigido a lidar constantemente com situações em que tem que desenvolver algum tipo de resistência, esse estado vai requerer muito investimento energético. A exaustão, como fase de adoecimento, compromete o desempenho, a produtividade e o mais grave, a saúde daquele que resiste, como foi apontado em capitulo anterior deste estudo e como é percebido por alguns sujeitos:

É quando você esta muito nervosa, quando você tem um monte de coisas pra fazer e não consegue resolver nenhum deles. [..] Querer fazer tudo e não consegue fazer nada bem. (P5).

Na minha visão, estresse é aborrecimento, é cansaço, é dificuldade

de raciocinar. [...] E conseqüentemente é doença psicossomática.

(P3).

Aqui, numa escuta ainda inicial, já temos uma confirmação do que fora dito pela Organização Internacional do Trabalho, ainda na década de 1980, ou seja, a profissão docente é um ofício que comporta riscos à saúde física e mental dos professores (OIT, 1981). A atualização dessa afirmativa, que se confirma na fala dos professores, nos convida a articular conhecimentos que possam favorecer um exercício saudável e satisfatório do ofício, bem como o estabelecimento de relações ou vinculações satisfatórias.

O aborrecimento é talvez a forma mais explícita de manifestação do estresse. O cansaço ou desgaste decorrente das situações que exigem adaptação acabam por aguçar a sensibilidade, tornando a pessoa irritadiça e aborrecida. É disso que nos falam os interlocutores P3 e P8. Tendo em mente essa visão de estresse, podemos imaginar quão grave é a situação de um professor que se sente aborrecido dentro de sala de aula, ausência de um sorriso, pouco diálogo com os alunos, indiferença em relação ao que executa ou transmite. Esse quadro é, no mínimo, contagiante, ou seja, também causará males aos alunos.

Estamos tratando de um ofício em que o seu artífice precisa estar bem para executá-lo. É necessário que o professor adentre a sala de aula sentindo-se bem consigo mesmo, para assim conseguir desempenhar um bom trabalho. Mais uma vez, com base

no exposto, justifica-se a preocupação de que a formação docente não pode deixar de contemplar a dimensão humana do professor.

Compreendido como um fenômeno que exige ultrapassagem de limites e capacidade de superação, parece pedir da pessoa algo além daquilo que ela pode oferecer. Os professores P2 e P8 fazem referência a um “esticamento”, uma exigência de ação corporal, uma saída do eixo de equilíbrio, supondo, implicitamente, o desgaste energético advindo dessas vivências:

Estresse é uma situação que me incomoda. Incomoda e me faz mudar, pensar, me faz sair do meu eixo. Em outras situações realmente não é bem vindo porque nos perturba, é uma situação de sair do meu eixo que na maioria das vezes não é bom, mais em algumas situações ele é bem positivo. (P8).

Articulando essa compreensão com os primeiros estudos desenvolvidos por Hans Selye ainda em 1920, na busca por compreender o estresse, entenderemos porque inicialmente, foi chamada de síndrome de adaptação geral. É que na verdade, quando submetido a situações estressantes, todo o organismo mobiliza defesas que permitam ao indivíduo continuar no seu ritmo de normalidade.

Mas o estresse é visto, também, como impulsionador da criatividade e da capacidade produtiva. Confirmando a a idéia de que em doses moderadas o estresse é benéfico ou positivo, vemos o depoimento dos professores P4 e P7 que assim se expressam:

Eu vejo como uma coisa positiva para a gente estar sempre se

aprimorando. Estado de constante ansiedade e você procura estar

melhorando. O que eu acho negativo é o excesso. Eu gosto de ter essa sensação de que algo está precisando mudar, [..] então é um estresse positivo que esta sempre me fazendo aprimorar, procurando melhorar (P4).

Tem uma conotação positiva e uma conotação negativa. A positiva é que o estresse nos dá condições de enfrentar situações inesperadas e reagir a essas situações, ou seja, é o que nos mantêm vivos. Quando o nível de estresse chega num patamar onde a gente não consegue distinguir com clareza o que realmente é uma situação de perigo e o que não é. (P7).

Num trabalho que lida com a produção do conhecimento, e levando-se em conta a velocidade em que tudo acontece, somente com um pouco de estresse para nos

mantermos atentos e receptivos às mudanças. É um estado que instiga a pessoa a buscar o aprimoramento das suas ações. Quando em doses elevadas, ou seja, quando exige além do que a pessoa pode dar, aí sim, causa esgotamento, exaustão, adoecimento.

Para alguns professores, o fato de se ocupar com várias coisas ao mesmo tempo é fator de motivação. Porém, a maioria das pessoas, quando sente que precisa canalizar energia para várias ações, logo entra em desequilíbrio e colapso. O excesso de atribuições supõe mecanismos adaptativos e investimento de energia, nem sempre disponível em igual quantidade para todas as pessoas. É a diversidade de seres humanos que nos possibilita conhecer reações tão diversificadas, ou seja, o que pode ser fator de estresse para uns é fonte de prazer e de produtividade para outros. É freqüente encontrarmos pessoas, que semelhantes à professora P4, afirmam que só conseguem se sentir produtivas quando estão acuadas, ou melhor, pressionadas a dar conta de várias coisas, sem tempo livre.

Um outro sintoma bem reconhecido pelas pessoas quando se sentem estressadas é o nervosismo. Essa sensação impede o funcionamento normal e a realização de ações rotineiras. Um estado de desequilíbrio toma conta do professor, impedindo-o de dar conta das suas múltiplas atribuições. É como diz a professora P5: tem muito por fazer, mas não consegue dar contas de nada. Em oposição ao depoimento do quarto professor, para esta, ter muito por fazer a deixa paralisada. Diversas reações a um mesmo fenômeno.

E agora o tempo a nos incomodar, importunar e estressar. Alguns chegam a desejar que o dia pudesse ter mais que 24 horas, outros acreditam que os ponteiros do relógio parecem caminhar mais rápidos nos últimos tempos. De um jeito ou de outro, uma coisa é certa: o excesso de atividades nos “tira de tempo”. É bem essa a realidade experimentada pela professora P6:

Eu não saberia definir.Eu penso que estresse é um estado emocional, somático que a pessoa se encontra e que não a deixa fazer o que tinha programado, o que ela deseja. Eu penso hoje que o estresse ele é algo que atrapalha, algo que prostra, algo que mostra que não podemos acompanhar esse mundo frenético.(P6)

Provas, trabalhos, notas, casa, filhos, contas a pagar, quanto estresse tudo isso causa, quanto desgaste a constatação de que há muito por ser feito e nada ainda se conseguiu.

De fato, cotidianamente somos contrariados nas programações pessoais. A velocidade com que a sociedade caminha não nos concede tempo para fazermos tudo que nos propomos. Muitos, dentre eles alguns professores, não conseguem adaptar-se a esse ritmo e adoecem, ficam prostrados, exaustos, sem energia.

No mundo “frenético”, como definiu um entrevistado, onde as coisas acontecem em velocidade virtual, é necessário saber se organizar e administrar o tempo que é por demais veloz. Essa é uma condição para não nos deixarmos arrastar pelo tempo e evitar o estresse.

O estresse é associado ao acúmulo da atividade que temos que cumprir em um curto espaço de tempo. O não cumprimento desses compromissos desencadeia um processo de cobranças internas e externas, deixando a pessoa estressada.

De uma maneira geral, o quadro tecido pelos sujeitos relativo à sua percepção do estresse dá-nos uma idéia da diversidade, pluralidade, divergências e convergências de percepções desse mesmo fenômeno que, visto pelos sujeitos em seus grandes pólos positivo e negativo, não apenas se integra no princípio da “dialogicidade dos contrários” do pensamento complexo, como conduz à construção de um conceito de caráter multirreferencial, cujos componentes básicos podem ser visualizados a seguir:

ESTRESSE

Eixo positivo

Eixo negativo

.Impulsionador da criatividade . Fonte de produtividade . Estímulo à iniciativa e à ação . Gerador de atitudes de resiliência e enfrentamento

.Desgaste físico, mental e psicológico . Redutor da capacidade de desempenho .Nervosismo

. Aborrecimento . Exaustão

. Alterações psicossomática

DIALOGIZAÇÃO DOS “CONTRÁRIOS” integração de elementos no processo

de construção do conceito

Figura 5 – Estresse e dialogização dos “contrários”. Fonte: Dados da pesquisa.