Acreditando que o ofício docente também comporta sentimentos de realização profissional, buscamos explorar o que animava os professores universitários nas suas ações rotineiras: aprendizagem dos alunos, reconhecimento, relação com os alunos, realização profissional dos alunos e o ato de ensinar foram as subcategorias que emergiram, conforme a tabela 12.
Tabela 12 – O que anima do ofício CATEGORIA – O QUE ANIMA NO
OFÍCIO
SUBCATEGORIAS TOTAL %
Aprendizagem dos alunos 6 32
Reconhecimento profissional 4 20
Relação com os alunos 3 18
Realização profissional do aluno 2 11
O ato de ensinar 1 8
Outros 1 11
Fonte: Dados da pesquisa.
É preciso reconhecer que, se tratamos do exercício da docência como um ofício, também estamos falando de um “fazer” qualificado, de mestres de um ofício muito específico do qual seu artífice conhece seus segredos e sua arte (ARROYO, 2000). Perante tamanha originalidade, nada mais justo que sintam orgulho de sua maestria; que na sua arte descubram o prazer e se sintam animados, fortalecidos, abastecidos.
Aprendizagem dos alunos é um dos itens que suscita o orgulho e o prazer de ser professor. Quase um terço dos entrevistados (32%) fez referência a esse fato - “é o resultado do aluno que me traz coisas boas” (P2), e noutra fala: “a realização do meu trabalho no desempenho dele” (P8). Vemos estampada a satisfação do professor que se projeta e se realiza no sucesso alcançado pelos alunos.
Ser reconhecido no trabalho que desenvolve, igualmente à aprendizagem dos alunos, é uma fonte capaz de alimentar positivamente os professores: “esse reconhecimento deixa a gente super feliz” (P4). Reconhecer supõe legitimar o que o outro é capaz de desenvolver, ensinar, produzir e ser, entretanto, embora concordemos com o fato de quão saudável é para o professor trabalhar em instituições e com alunos que a reconheçam, não podemos esquecer de que há momentos em que isso é negado, e nessas situações, julgamos imprescindível considerar o que bem explicita Morin (2003, p. 98), quando trata do que é exigido dos educadores na era planetária:
Exige o que não se encontra indicado em nenhum manual, mas que Platão já afirmava como condição indispensável de todo ensino: o Eros, que é, simultaneamente, desejo, prazer e amor, desejo e prazer de transmitir, amor pelo conhecimento e amor pelos alunos.
Essa asserção enaltece o que comentamos inicialmente: o amor pelo conhecimento a ser constituído. Sai do foco qualquer recompensa que possa vir desse ato e coloca-se o amor como central no processo. O autor se refere à missão de educar como tarefa elevada e difícil, exigindo, portanto, a arte, a fé e o amor. Parece que, ao poetizar dessa forma, também nos articula com as incertezas e as incompreensões, ou seja, o ânimo na docência pode aparecer, vinculado ou não, ao reconhecimento do outro, mas supõe inicialmente um reconhecimento, por parte do professor, da grandeza e importância do seu ofício.
A relação com os alunos parece ser a presença ou a manifestação concreta do amor que brota no cotidiano da sala de aula. Essa relação, permeada de momentos de prazer e desprazer, mantém o professor animado e numa atitude de permanente construção: “o que me motiva a ir dar aula é a relação humana” (P6). Um aspecto saudável é muito bem resgatado na fala desse professor: “esse contato com essa juventude desejosa de serem bons profissionais é muito salutar” (P1).
Ao descrever os fatores que causam maior ansiedade na profissão docente e as possíveis intervenções a serem implementadas para torná-la mais saudável, Picado
(2005), semelhante aos participantes da pesquisa, descreve os desafios que constituem a relação professor e aluno. Afirma que, ao estabelecer contatos e vinculações satisfatórias, o professor experimenta prazer e satisfação profissional, portanto, quando se diz que essa relação é que motiva o professor a dar aula, os participantes do estudo estão falando do prazer experienciado nas relações humanas estabelecidas em sala de aula e fora dela. Tal experiência é capaz de criar um clima salutar, favorável ao sucesso das ações, articulando-se a outras subcategorias emergentes nessa temática: aprendizagem, reconhecimento, realização profissional e ensino.
Sem desmerecer ou sem deixar de dar a devida importância a tudo o que foi listado como capaz de animar o professor, cremos que um dos pilares de sustentação dessa prática é o tipo de relação que se estabelece. Essa nossa crença vem acompanhada de preocupação, ao constatarmos o fato de que o acúmulo de exigências feitas ao docente poderá desencadear tamanha ansiedade que venha a prejudicar ou comprometer o relacionamento em sala de aula. Dito de outra forma: perante as exigências do ofício, alguns docentes se angustiam e comprometem a qualidade das suas relações com os alunos. A sala de aula deixa de ser lugar de prazer e torna-se espaço de ansiedade e conflitos, comprometendo a aprendizagem dos alunos, a satisfação de ambos e a saúde do professor.
Reforçamos, então, a necessidade de programas de formação docente que estejam atentos ao desenvolvimento de estratégias interpessoais, pois a compreensão de que a forma como nos relacionamos com os outros estará influenciando a forma como eles se relacionarão conosco poderá fazer-nos pensar em estratégias de relacionamento mais criativas e prazerosas.
Se pensarmos no que nos anima e levarmos em conta o prazer que pode estar sendo conquistado em cada sala de aula por onde passamos, também concordaremos com a idéias de que, nestes encontros, haverá lugar para a emoção, troca de calor humano e empatia. O ofício docente estará mesclado dos antagonismos inerentes à condição humana: prazer e dor, alegria e tristeza; antagonismos que convivem juntos, dialogam no ato de ensinar e na arte de conviver. Uma presença constante na vida do professor.