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Verbalteksten

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5. Intermedialitet

5.4. Verbalteksten

Como já tivemos oportunidade de referir, após a consagração do dedutivismo cartesiano e da implantação de uma conceção de ciência empirista, as primeiras décadas do século XX viram aprofundar as ideias positivistas. Entre elas podemos citar a busca da objetividade, neutralidade e isenção de valores, em processos experimentais e nas observações, e a busca da verdade da ciência, traduzidas em leis científicas que permitiam aos humanos dominar a Natureza. Assistiu-se, ainda, à glorificação do método científico como instrumento essencial na leitura do livro da Natureza (Pera, 2000). Com o advento do positivismo lógico e a pretensão de axiomatização das proposições, a ciência foi reconhecendo à lógica, que tinha sofrido grande desenvolvimento teórico a partir da segunda metade do século XIX, a capacidade para avaliar e certificar a validade do conhecimento produzido. O papel da lógica, neste contexto epistemológico, era o de estudar as inferências dedutivas e os raciocínios indutivos, permitindo distinguir entre

argumentos válidos e inválidos (Vicente, 2004). Nesta perspetiva positivista, “os enunciados científicos são vistos como lógica e evidentemente dedutíveis, a partir de um conjunto de premissas empíricas” (Osborne, 2012, p. 935). A lógica formal foi assumida, desta forma, como um dos pilares fundamentais da argumentação na primeira metade do século XX, enquanto “lógica dedutiva que depende exclusivamente de uma sintaxe axiomática que se abstrai de todo o conteúdo e contexto” (Rehg, 2009, p. 23).

Um dos lógicos mais conhecidos, que esteve associado ao grupo de Berlim e que mais tarde participou do Círculo de Viena, foi Carl Hempel (1905-1997). Este pensador, conjuntamente com Carnap, procurou estabelecer princípios de racionalidade confirmatória das proposições a partir das relações formais abstratas entre hipóteses e evidências. Rehg (2009) clarifica que o mérito da estrutura intrínseca formal dos argumentos, extirpados do seu conteúdo, contexto e da pragmática da investigação, estabeleciam o elevado padrão de convencimento dos argumentos produzidos pelos positivistas lógicos.

Como já mencionámos, este carácter rígido dos argumentos lógicos formais e a negação do poder da dialética na produção do conhecimento, inscrita nas teses cartesianas, levantaram um coro de críticas entre alguns epistemólogos, com maior preponderância a partir da década de 1950. Neste período foram publicadas obras que propunham um corte epistemológico com teses positivistas e abordagens centradas na lógica formal, surgindo o período de reabilitação da retórica, enquanto técnica discursiva persuasiva de audiências (Perelman, & Olbrechts-Tyteca, 2006). Como refere Rehg (2009), os lógicos preocupavam-se com as estruturas que preservavam a verdade, mas rejeitavam o discurso em contexto e a persuasão, que viam como manipuladora de mentes. Estas duas dimensões do discurso foram, então, exploradas posteriormente, por Toulmin e Perelman, nas duas obras já citadas e publicadas em 1958. Cerca de quatro anos depois, foi trazida a público a Estrutura das revoluções científicas, de Kuhn que contribuiu para aprofundar, ainda mais, o corte epistemológico com teses positivistas anteriores, altamente lesivas de uma análise histórica e sociológica da ciência.

Ao alertar para as dinâmicas da evolução do conhecimento em ciência, Kuhn criticou os processos de lógica demonstrativa e deu voz a práticas que se afastavam de métodos e lógicas inferenciais, tendo centralizado a atenção no conteúdo substantivo dos argumentos e nos processos argumentativos contextualizados (Rehg, 2009). As teses

kuhnianas particularizam esta situação em fases de revolução científica, tendo o filósofo defendido que não há razões lógicas para a adoção de um ou outro paradigma por uma comunidade científica. A decisão tomada tem em conta, essencialmente, a apresentação de razões persuasivas que seduzem muitos dos cientistas que não trabalharam no paradigma anterior, pelo que, mais facilmente, se inclinam a aderir a novas teses. Começam, assim, a emergir julgamentos coletivos, com base em razões, que apresentam o novo paradigma como mais frutuoso e interessante para a ciência. Segundo Kuhn, estas decisões são produzidas num contexto social e histórico. Assim, para este autor, “um argumento qualifica-se como convincente em virtude do seu efeito psicossocial a longo prazo numa, devidamente organizada, comunidade autónoma de especialistas” (Rehg, 2009, p. 55).

Contudo, Kuhn não conseguiu resolver a tensão existente entre a dimensão da racionalidade científica, que atribuiu importância às razões invocadas por uma comunidade na escolha de um paradigma, e os fatores psicológicos e sociais, que influenciam as decisões da comunidade. Mais recentemente, autores como Marcello Pera têm-se debruçado sobre estas questões tendo frisado que para além dos argumentos dedutivos e indutivos, em que a componente racional é forte, os cientistas recorrem, com frequência, a processos dialéticos em que usam argumentos retóricos (Pera, 2000; Osborne, 2001). Assim, Pera (2000) considera que a dimensão racional dos argumentos é fundamental para convencer os membros da academia da sua relevância científica, mas não desvaloriza as características dialéticas do discurso que são mobilizadas para convencer uma comunidade da validade das razões invocadas. Segundo Pera (2000), o facto de um argumento apresentar razões válidas e de ser formalmente correto, não significa que seja convincente para a comunidade, entrando, então, em jogo, fatores persuasivos que dependem da forma como esses argumentos são dispostos e apresentados:

Eu não tenho nenhuma dúvida de que um argumento tem que ser convincente para uma dada comunidade na qual é apresentado. Nenhum argumento consegue ser absolutamente convincente: como um argumento é uma sequência de diálogo vivo entre interlocutores específicos que visam alterar o seu próprio sistema de crenças específicas, é a eles que tem que convencer. (…) os meios de persuasão são argumentativos, então se um argumento é bem construído, deveria persuadir aqueles a quem ele é dirigido, não interessa quão forte a sua resistência pessoal possa ser (Pera, 2000, p. 60).

Desta forma, Pera (2000) parece conceder uma autoridade epistémica aos resultados de debates e discussões que emergem no seio da comunidade na procura de resolução de problemas gerados por controvérsias científicas, considerando que não existem árbitros imparciais.

Ao longo dos últimos séculos têm surgido diversas controvérsias científicas que se traduzem, em alguns casos, em teorias explicativas concorrentes de um determinado fenómeno e que, como tal, constituem um importante elo de ligação entre ciência e argumentação. São exemplo disso as teorias fixistas e do evolucionismo biológico, as teorias imobilistas e do mobilismo geológico, a abiogénese e biogénese, o geocentrismo e o heliocentrismo, entre muitas outras. Duschl (1997) revela a sua perspetiva em torno das teorias científicas referindo que nem todas apresentam a mesma credibilidade ou valor epistémico. Baseado nas ideias de Lakatos sobre a hierarquização das teorias científicas, Duschl (1997) construiu uma metáfora representada em esquema com a qual pretende estabelecer uma relação entre as diferentes categorias (Figura 2).

Dentro de uma dada disciplina científica, as teorias estabelecem uma rede hierárquica, existindo umas que pertencem ao núcleo duro e outras ao núcleo brando. Segundo Duschl (1997):

O núcleo externo, mais brando, tem duas funções. A primeira proteger o núcleo interno das teorias excêntricas ou não comprovadas. A segunda, a de colocar à prova ou comprovar a solidez das teorias novas. (…) O interior é o núcleo duro onde se

encontra o fundamento da teoria. É onde se encontram as ideias mais sólidas, as mais consideradas pelos cientistas (pp. 64-65).

Considerando que a metáfora se fundamenta nas teses lakatosianas, podemos estabelecer uma relação entre a zona de fronteira, localizada no núcleo externo, e a cintura de proteção e as teorias do núcleo central como as que integram a heurística positiva dos programas de investigação. As teorias marginais correspondem, por outro lado, à heurística negativa devido ao seu valor epistémico, uma vez que são controversas no seio da comunidade científica. As teorias já bem estabelecidas, capazes de resolver problemas empíricos e com poucas disputas conceptuais são as que integram o núcleo central. Em jeito de sistematização, Duschl (1997) considera a existência de três níveis na hierarquia das teorias: (1) o nível central, em que se incluem as teorias que constituem a corrente principal da ciência, sem que haja teorias rivais com explicações alternativas credíveis. Estão neste caso, a teoria da relatividade, a termodinâmica, a teoria celular; (2) o núcleo de fronteira, com teorias com um bom suporte empírico e poder explicativo, com poucas teorias competidoras mas com algumas anomalias de resolução pendente. Encontram-se neste nível a teoria do Big Bang, a teoria da evolução, a física dos quarks; (3) o nível marginal, que contempla teorias especulativas com capacidade explicativa diferenciada, carecendo de confirmação. Contudo, algumas dessas teorias acabarão por alcançar os níveis superiores. Estão neste caso, as hipóteses explicativas da extinção dos dinossáurios ou a teoria das cordas.

Segundo este modelo da hierarquia das teorias, consideramos que a argumentação se fará sentir, essencialmente, ao nível das teorias de nível marginal, em que existe competição entre teorias explicativas de um mesmo fenómeno e, eventualmente, ao nível das teorias de fronteira. As situações em que o conhecimento já está amplamente estabelecido e aceite assumem, frequentemente, características dogmáticas e pouco propiciadoras da existência de alternativas. No caso das teorias centrais pouco haverá para argumentar, ainda que se possam mobilizar provas que sustentem esses enunciados. Contudo, as características monológicas dessas teorias não favorecem a discussão e a argumentação. Também Pera (2000) parece associar a argumentação às controvérsias científicas, uma vez que a discussão e o debate se geram em torno de hipóteses ou teorias alternativas,

O percurso da ciência é marcado por uma série de controvérsias entre partes rivais e as subsequentes vitórias de uma parte em relação à outra. A análise retórica, no meu sentido, é o exame crítico dos argumentos apresentados nestas circunstâncias. Se estiver certo, todas essas vitórias dependem em uma das partes produzir argumentos convincentes… (p. 61).

Uma outra perspetiva acerca da decisão sobre as teorias mais adequadas para a explicação de determinados fenómenos e de construção de modelos científicos é-nos dada pelo diagrama de Giere (1991) que representa a interação entre o raciocínio, a teoria e a argumentação no desenvolvimento de ideias científicas (Driver, Newton, & Osborne, 2000) (Figura 3). Giere centra-se numa abordagem cognitiva de ciência, referindo que quando pretendemos resolver um dado problema recorremos às nossas representações ou modelos mentais que permitem desenvolver hipóteses e encontrar a solução pretendida. É este processo que está na base da construção do conhecimento científico. Segundo Hacking (1983, citado em Izquierdo-Aymerich, & Aduriz-Bravo, 2003), “O modelo cognitivo de ciência foca-se em como os cientistas trabalham e comunicam (…) e destaca os aspetos semânticos das teorias: o seu objetivo não é alcançar a verdade mas para dar sentido ao mundo” (p. 31).

Segundo Erduran, Ardac e Yakamci-Gugel (2006), o diagrama de Giere, fundamentado num modelo de ciência cognitiva, revela que a função dos cientistas é investigar acerca do mundo real. Para tal, eles recolhem dados, através de instrumentos, construindo modelos que procuram demonstrar o seu pensamento acerca do funcionamento do mundo. De acordo com o diagrama, são as observações e as

experiências que estabelecem a relação entre o mundo real e os dados. Esta relação estimula a construção de argumentos sobre a adequação, ou não, do modelo à realidade, entre a teoria e os dados. A avaliação dos dados ou evidências está, também, dependente da argumentação na comunidade científica (Osborne, 2001; Schwarz, 2009), que pode, neste caso, ser considerada na sua dimensão racional (através da análise da relação entre previsões e dados).

A análise de teorias concorrentes pode ser feita à luz do conteúdo do diagrama de Giere. As teorias concorrentes são avaliadas em função da concordância, ou não, entre as previsões, estabelecidas a partir dos modelos teóricos, e os dados obtidos. Todo o processo de decisão em torno da concordância, ou não, entre as teorias propostas, as previsões e os dados é de carácter argumentativo. A atividade dos cientistas consiste, neste caso, em avaliar qual das alternativas se ajusta melhor às evidências disponíveis e qual apresenta a interpretação mais convincente do fenómeno em estudo (Driver, Newton, & Osborne, 2000; Osborne, 2001). Desta forma, os cientistas envolvem-se em “sequências de apresentação e verificação da semelhança entre um ou múltiplos modelos com a realidade, através de dados empíricos” (Bötcher, & Meisert, 2011, p. 109). Os argumentos correspondem, então, a indicadores que permitem concluir sobre a adequação, ou não, do modelo, através da sua coerência interna ou comparando-o com dados empíricos.

Ainda que o modelo de hierarquização das teorias e o diagrama de Giere realcem a dimensão epistemológica do conhecimento, não podemos deixar de considerar a ciência enquanto prática social (Schwarz, 2009). Como referem alguns autores (Dawson, & Venville, 2010; Driver, Newton, & Osborne, 2000; Jiménez-Aleixandre, 2010; Osborne, 2001) antes de chegar ao conhecimento público, os conhecimentos que a ciência produz são sujeitos a vários processos de escrutínio da comunidade. Os artigos científicos são avaliados, criticados e revistos por pares antes da sua publicação em revistas científicas; em alguns casos, as experiências são repetidas e outras interpretações acabam por emergir (Driver, Newton, & Osborne, 2000; Osborne 2001). Ao utilizar estes processos, a comunidade mantem um controlo de qualidade sobre o conhecimento produzido (Kuhn, 2006). Osborne (2001) menciona que

Ao apresentarem e avaliarem argumentos, os cientistas são influenciados por fatores para além dos internos à ciência (como os representados pelas características do

diagrama de Giere), por fatores como os compromissos sociais dos cientistas, valores e por uma ampla cultura de ideias e recursos tecnológicos (p. 281).

Para Osborne (2001), os argumentos científicos desenvolvem-se em três níveis diferentes, todos eles recorrendo a dispositivos retóricos: (1) na mente individual de cada cientista durante o processo criativo de desenho de investigações e na interpretação dos resultados. Esta dimensão surge categorizada como argumentação intra-psicológica (Garcia-Mila, & Andersen, 2008), como referimos anteriormente; (2) nos grupos de investigação, no qual se discutem as várias possibilidades de orientação metodológica e de enquadramento teórico da investigação; (3) na comunidade científica, no geral, durante as interações entre posições competitivas em conferências ou através de revistas científicas da especialidade ou no domínio público em que, através dos meios de comunicação social, os cientistas podem expor as suas ideias acerca das teorias que estão em competição pela explicação mais adequada de um fenómeno.

Em síntese, parece podermos concluir que, tal como defende Walton, o diálogo investigativo e o diálogo persuasivo ou de discussão crítica são os principais tipos de diálogo argumentativo mobilizados pelos cientistas. O próximo excerto, retirado de Kolstø e Ratcliffe (2008), parece sintetizar as principais ideias expressas nesta subsecção, salientando-se nelas a dimensão epistémica e social da argumentação na construção do conhecimento científico:

Walton (1998) argumenta que a apresentação dos resultados científicos em artigos científicos, até certo ponto, tem as características de investigação científica como tipo de diálogo. No entanto, a ciência em fase de laboratório, onde os investigadores trabalham em conjunto para identificar, discutir e testar diferentes possíveis fenómenos e explicações/hipóteses, provavelmente tem outras características. Nesta fase da produção do conhecimento científico, a discussão é provavelmente melhor descrita como alternando períodos de investigação científica e discussão crítica entre colaboradores. Além disso, estudos sociológicos de ciência indicam que as disputas na esfera pública entre cientistas sobre teorias concorrentes são melhor caracterizadas como diálogos persuasivos ou discussões críticas (p. 121).

Secção II – Argumentação e educação em ciência

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