uma aproximação às idéias estéticas de Marx e Engels
“O debate sobre o ‘Sickingen’ de Lassalle” (doravante DSL), pode ser considerado, já pela escolha do objeto e pelo tratamento que lhe confere, como parte das “inflexões pronunciadas à ontologia” a partir dos anos trinta. Escrito entre 1930 e 1931, e publicado apenas em 1933, constitui já a realização de uma análise estético-literária a partir da perspectiva madura de Lukács e, não por acaso, toma como objeto o debate travado entre Marx e Engels, de um lado, e Ferdinand Lassalle, de outro, acerca da sua tragédia Franz von Sickingen. Esse texto é importante, antes de mais nada, porque é o primeiro de uma série de textos voltados à estética e à literatura que constituirão, em seu volume, o principal tema dos escritos de Lukács da década de 1930. Mittenzwei afirma: “Esse trabalho assinala um novo começo no campo da crítica literária” (MITTENZWEI, 1979, p. 35). O interesse e a produção estética preservarão sua centralidade durante as três décadas seguintes, e culminarão, como já indicamos, no projeto de escrever uma
Estética sistemática, da qual o volumoso texto concluído constitui apenas a primeira
parte. Em segundo lugar, sua importância provém do fato de Lukács voltar-se aos escritos de Marx e Engels para apreender suas idéias estéticas e conceber que é possível extrair deles lineamentos estéticos fundamentais. Ou seja, esse ensaio pressupõe a concepção de que há na obra marxiana, ainda que de maneira esparsa, uma fundamentação estética coerente e organicamente vinculada à totalidade de seu pensamento filosófico. Em terceiro e último lugar, esse texto é fundamental por
94 estabelecer um vínculo orgânico entre os temas da estética e o conteúdo histórico-social, também demonstrando essa conexão no pensamento de Marx e Engels.
A identificação do pensamento de Marx e Engels, aqui, justifica-se porque as concepções expostas nas cartas de ambos não apresentam dissonâncias, antes explicitam uma coerência ainda mais impressionante se considerarmos que foram escritas independentemente. Além disso, Lukács se utiliza de As guerras camponesas da
Alemanha, de Engels, para desvelar as relações de classe específicas do período
histórico da Alemanha em que a tragédia se passa, o que, em lugar de constituir um prejuízo para a apreensão das idéias de Marx, serve à justificação histórica dessas mesmas idéias. Entretanto, a afirmação do método dialético está presente no texto, bem como a excessiva aproximação de Marx a Hegel. Essa aproximação se evidencia da maneira mais nítida nas duas passagens nas quais Lukács afirma que Marx empreendeu uma “‘transformação’ materialista do hegelianismo,” (DSL, p. 47) ou que “‘recomponha’, de maneira materialista, o idealismo de Hegel” (DSL, p. 35)61. O fato curioso de os termos virem entre aspas não modifica a essência da idéia, mas pode indicar que Lukács não se sentia completamente à vontade com a utilização dessas expressões, e talvez com a própria idéia da reconfiguração materialista do hegelianismo – que não encontra fundamentação nos textos de Marx, mas, conforme Chasin demonstra, está presente em Lênin.62 O tema do método e a relação de Marx com Hegel – essencialmente vinculados no pensamento do Lukács da década de cinqüenta, como Chasin evidenciou – sofrem transformações fundamentais ao longo dos quarenta anos que vão desde “O debate sobre o ‘Sickingen’ de Lassalle” até a Estética, o que não temos a intenção de explicitar neste trabalho. Contudo, na década de 1930, o amadurecimento dessas concepções é sensível, e pretendemos indicar ao final da dissertação alguns aspectos que possam contribuir para uma avaliação sobre o seu pensamento desse período.
A despeito desses problemas, e especialmente por compreender uma análise dos próprios textos de Marx, “O debate sobre o ‘Sickingen’ de Lassalle” prossegue no sentido de afirmar o caráter de apreensão do concreto próprio da obra literária e encerra
61 No original alemão, lê-se: “die materialistische ‘Umstülpung’ Hegels (p. 187) e “wenn er auch dabei
den Idealismus Hegels materialistisch ‘auf die Füsse stellt” (p. 179). Cf. HINDERER, W. (Org.). Sickingen-Debatte. Darmstadt: Luchterhand, 1974.
62 Em seu “Marx – Estatuto ontológico e resolução metodológica”, Chasin aponta que Lênin foi um dos
primeiros filósofos a formular a teoria do “tríplice amálgama originário” do pensamento de Marx. Essa teoria conduz à consideração de que o pensamento marxiano é filosoficamente fundado em Hegel, ainda que de maneira invertida, e, portanto leva à consideração da “transformação materialista de Hegel” por Marx.
95 a primeira menção de Lukács ao realismo. O objeto desse primeiro texto estético marxista de Lukács é um debate epistolar travado entre Marx, Engels e Lassalle sobre a tragédia Franz von Sickingen escrita por Lassalle em 1859. Lassalle enviou a peça a Marx e Engels juntamente com um prefácio dedicado à publicação e centrado prioritariamente no problema estético, e um manuscrito destinado aos amigos próximos, em que os problemas histórico-políticos são centrais, e as questões estéticas são tratadas em relação a esses problemas. Em resposta, cada um dos grandes revolucionários alemães escreveu separadamente uma carta a Lassalle. Em seguida, Lassalle enviou uma réplica conjunta às cartas de Marx e Engels, que julgaram por fim despropositado dar continuidade ao debate. Esse julgamento se conclui com a última carta que compõe o debate, escrita por Marx a Engels. Lukács cita a passagem da última carta de Marx sobre a réplica de Lassalle:
É incompreensível que um homem não só encontre tempo, nesta época e nas circunstâncias históricas que vivemos, para escrever uma coisa deste gênero, mas imagine mesmo que nós temos tempo de o ler. (DSL, p. 9)
Lukács ressalta que essa afirmação nada tem a ver com o fato de Lassalle tratar de questões estéticas; antes, deve-se ao fato de Marx considerar estéril o debate com Lassalle, já que ele se mostrou “incapaz de se deixar convencer acerca de qualquer questão importante, fosse ela de ordem política, histórica ou ideológica” (DSL, p. 9).
A importância da discussão estética jamais é colocada em dúvida por Marx e Engels. Ao contrário, vinculam-na às questões histórico-sociais fundamentais. É precisamente esse vínculo e suas conseqüências para as determinações especificamente estéticas que temos o intuito de apresentar aqui. Nossa exposição se restringirá a esse tema central e não pretende esgotar as múltiplas questões que Lukács enfrenta. A própria obra de Lassalle, bem como a crítica que Marx e Engels lhe dirigem, será abordada apenas em função desse tema, que encerra as concepções fundamentais do pensamento estético lukácsiano.
O objetivo de Lassalle com a escrita de seu drama era explicitar aquilo que ele concebia como A tragédia d’A revolução, quer dizer, o conflito trágico universal presente em todas as tentativas de revolução, independente de suas determinações histórico-sociais e políticas específicas. Com a figuração desse conflito abstrato, Lassalle pretendia apontar as razões do fracasso das revoluções de 1848. Entretanto, partindo de pressupostos idealistas, não se tratava para Lassale de expor o conflito próprio de uma revolução determinada, mas da revolução em abstrato. Como Marx e
96 Engels defenderão, trata-se de um conflito formal, uma vez que é idealisticamente apartado da história e se aplica a todas as circunstâncias histórias e relações de classes sociais. Lukács cita os termos de Lassalle para definir esse conflito:
Do ponto de vista de Lassalle, o conflito trágico subjacente a qualquer revolução é a contradição entre o “entusiasmo”, a “confiança imediata da Idéia na sua força própria e o seu caráter infinito” e a necessidade de uma “política realista. /.../ realismo político: contar apenas com os meios finitos dados”. (DSL, p. 11)
O conflito existe, então, entre os fins e os meios, entre a idéia abstrata da revolução, o ímpeto revolucionário, e a inteligência prática que conta com meios finitos.
Tudo se passa, portanto, “como se existisse uma contradição insolúvel entre a idéia especulativa, que faz a força e o ímpeto de uma revolução”, e a razão finita, com sua inteligência prática. (DSL, p. 12)
Essa concepção se apóia na idéia de que existe uma contradição fundamental e universal entre “o Novo” e “o Antigo”. As condições e contradições específicas das classes em luta nos vários momentos históricos são reduzidas a essa contradição abstrata central. Lukács argumenta que essa redução, por sua vez, tem por base, em primeiro lugar, a identificação da revolução com a revolução burguesa. Lassalle é um dos fundadores da social-democracia alemã e propunha a aliança da burguesia com o proletariado a fim de se realizar na Alemanha uma revolução democrático-burguesa. Sua inserção no movimento operário era extremamente significativa, e essa era a razão pela qual Marx e Engels consideravam importante o debate com Lassalle. Assim, Lukács afirma, seguindo os grandes revolucionários alemães, que
a escolha do tema e interpretação de Sickingen feita por Lassalle resultava da sua posição face à revolução burguesa que, é certo, ele assimilava, sem mais, à revolução. (DSL, p. 37)
Especificamente, nosso autor aponta que Lassalle se alinhava à perspectiva da
ala da extrema esquerda da burguesia democrata alemã que acarinhou a esperança de constituir uma frente única democrática burguesa-proletária contra as “forças antigas” e de assim realizar uma revolução burguesa séria. (DSL, p. 13)
O tom jocoso de Lukács se explica, evidentemente, pelo caráter reacionário da burguesia alemã que, amedrontada pela movimentação proletária como oposta à ordem social do capital, acabou por se alinhar à nobreza restauradora a fim de realizar a unificação alemã em oposição aos interesses da classe trabalhadora. Dessa maneira, a perspectiva de Lassalle expressa em seu Sickingen se relaciona à tentativa de desenvolver uma consideração a respeito da revolução, já no contexto de derrota das revoluções proletárias de 1848, sem abandonar a perspectiva burguesa.
97 No interior do pensamento burguês, a perspectiva sobre a revolução deve se alterar radicalmente com a transformação histórica marcada pela emergência do proletariado como classe consciente oposta à sociabilidade do capital, e portanto à ordem burguesa e à burguesia como classe. Em Hegel, era possível conceber positivamente, ao mesmo tempo, a ordem social do presente e a revolução passada que deu origem a esse estado de coisas atual, uma vez que objetivamente não se colocava a perspectiva de superação dessa ordem. Nesse sentido, Hegel pôde, por um lado, compreender de maneira concreta os conflitos sociais que suscitavam as várias revoluções particulares, e, por outro, conceber o estado de coisas presente como
reconciliação dos princípios antagonistas que moveram a revolução passada.
Independentemente das contradições internas ao pensamento de Hegel, que espelham as contradições da própria classe a que dava voz, importa ressaltar que uma apreensão concreta das revoluções lhe era possível mesmo no interior da perspectiva burguesa, já que a revolução era concebida como pressuposto do estado de coisas atual, e não como movimento de subversão da forma social presente. Nos termos de Lukács:
Hegel pôde tratar a revolução – a grande Revolução francesa – como um pressuposto da época atual, como uma época passada. Assim como lhe foi possível mostrar concretamente os choques que provocaram as revoluções e que as revoluções provocaram, e pôde, dessa maneira, conceber a reconciliação, a superação recíproca dos princípios antagonistas, como um estado concreto do mundo. A aprovação da revolução passada pôde pois ser ligada à aprovação do estado de coisas atual (não é a altura de analisar aqui as contradições internas da posição de Hegel). (DSL, p. 20)
Essa concepção tem vínculo direto com a consideração hegeliana da tragédia. “Para Hegel, o herói trágico era sempre o defensor duma ordem social condenada à morte pelo desenvolvimento histórico.” (DSL, p. 51) Da apreciação positiva da sociedade burguesa e do Estado como realização racional, como a autoconsciência do espírito, decorre a idéia de que não pode haver um princípio de revolta contra esse mundo em sua totalidade e, por conseguinte, uma classe passível de desaparecer de maneira heróica. É certo que Hegel leva em conta a natureza prosaica dessa forma social, definida pela separação entre a finalidade universal e as finalidades individuais que reduz as ações individuais à inessencialidade da vida privada; no entanto, como nosso autor explicita nesse texto, em Hegel o indivíduo “não aparece como a figura viva, autônoma, ao mesmo tempo total e individual desta mesma sociedade, mas unicamente como um seu membro amputado” (DSL, p. 51). Assim, o prosaísmo do mundo se subordina à positividade fundamental e exclui do mundo moderno o
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esta ordem social identifica-se de tal modo à razão que uma revolta de princípio contra ela enquanto totalidade tem necessariamente de parecer “pueril”. A recusa da tragédia é, portanto, em Hegel, a conseqüência direta de toda a sua concepção dos tempos modernos que estabelece uma relação entre a natureza prosaica, pouco propícia à poesia, “o estado do mundo” na sua totalidade, e o fato de que o Espírito tem acesso a si próprio e se compreende, assim como ela põe em dúvida pela mesma razão a possibilidade do “desaparecimento heróico” duma classe durante esse período. (DSL, pp. 51-2)
Entretanto, no momento em que a revolução se apresenta como uma questão do presente, os pensadores que se mantêm no interior da perspectiva burguesa são necessariamente levados a tratar o tema da revolução de maneira abstrata e a esquivar- se do problema concreto. Com a filosofia estética pós-hegeliana, que se desenvolveu nas décadas de quarenta e cinqüenta do XIX e promoveu o que Lukács denomina a “desagregação do hegelianismo”, a problemática estética sofre uma alteração radical. A exigência de uma tomada de posição diante da revolução acaba por mostrar “claramente o caráter de classe de toda problemática estética” (DSL, p. 16, grifo nosso). De acordo com o pensador húngaro, os autores que não superam a perspectiva burguesa após meados do século XIX caminham no sentido de naturalizar e abordar com o mais alto grau de abstratividade os problemas historicamente determinados que enfrentavam. Assim, a antinomia necessidade–liberdade e a antinomia indivíduo–sociedade que, a despeito de suas contradições internas, Hegel aborda em seu conteúdo histórico-social concreto,
foram transformadas por um truque de prestidigitador em problemas “intemporais” e encontraram uma “solução” que não corria o risco de pôr em questão os fundamentos da sociedade burguesa. (DSL, p. 16)
Essas antinomias são tratadas em geral como antinomias abstratas, problemas eternos da humanidade carentes de conteúdo concreto historicamente determinado. Por conseguinte, as configurações artísticas desses conflitos recebem um tratamento igualmente abstrato, desvinculado do conteúdo concreto, de modo que a discussão dos problemas estéticos degenera em formulações e soluções formalistas. Com o intuito de conciliar a consideração positiva do presente em seu conteúdo histórico específico com o tratamento supra-histórico das categorias e conflitos, a estética do pós-hegelianismo se fundamenta numa “dualidade do formalismo abstrato e do positivismo empírico”. Assim, a necessidade, isto é, a força motriz que transcende o puramente individual (e que no pensamento de Lukács se define pelos conflitos de classe historicamente determinados e concretos) se reduz a uma abstração que beira o misticismo; e o individual se individualiza de tal forma que não ultrapassa o estritamente singular. Entre
99 o necessário e o individual, ou seja, entre a necessidade e a liberdade, nenhuma mediação concreta se estabelece, mas apenas mediações artificialmente construídas ou mistificadas. Uma vez que não podem ser deduzidas da relação concreta efetivamente existente entre indivíduo e sociedade, já que o indivíduo não é concebido como indivíduo social e, portanto, como portador das determinações históricas de sua época, as mediações convertem-se em princípios universais abstratos fundados no indivíduo entendido como atemporal e isolado: uma “ética” ou uma “psicologia”. Nos termos do nosso autor:
A unidade dialética da liberdade e da necessidade, o seu movimento necessariamente ligado numa contradição em movimento, que existia muitas vezes em Hegel – não sempre, nem em toda parte, é certo – desaparecem e têm de ser substituídos pela “ética” ou pela “psicologia”. (DSL, p. 19)
Para ilustrar o vínculo entre o tratamento abstrato da questão da revolução e a concepção formalista da estética, especialmente o problema do trágico, e evidenciar o conteúdo de classe reacionário do conceito formalista da revolução, Lukács toma dois representantes do pós-hegelianismo, o esteta Vischer e o autor dramático Hebel. Vischer designa a revolução como o “verdadeiro sujeito da tragédia”, e com isso dá um passo à frente de Hegel; contudo, “recua mesmo em relação a Hegel” quando precisa o significado da revolução: “a oposição constante entre o progresso livre e o necessário estado de coisas existente, entre o que é novo e o que entrava o caminho”. Essa definição em termos abstratos esconde a idéia de que toda oposição, de qualquer natureza, mesmo que parta do “princípio do Antigo”, adentra o conceito de revolução. Lukács afirma:
Pois daí se segue que Antígona, Tasso, Wallenstein, Gotz são por ele indistintamente colocados no mesmo plano como “revolucionários”; que qualquer revolta contra o “estado de coisas existente” diz respeito à categoria “revolução”, mesmo que ela parta do princípio do Antigo (Antígona, Gotz). (DSL, pp. 20-1)
E prossegue para demonstrar que o grau de abstratividade com que o princípio revolucionário é definido em Visher o obriga a “mostrar o seu coração de liberal
moderado”, pela justificação crescente do estado de coisas atual. Nosso autor cita
passagens de Vischer:
Diz ele: dos dois princípios, “o direito mais profundo situa-se no primeiro plano (o plano do novo), porque a idéia moral é movimento absoluto”. Entretanto: “o estado de coisas existente também tem a sua justificação. O Verdadeiro situa-se a meio do caminho /.../. É apenas o futuro longínquo /.../ que traz a mediação eficaz”. (DSL, p. 21; grifo nosso.)
100 Assim, vemos que a natureza abstrata da significação de revolução, necessária no interior da concepção burguesa, conduz antes à negação do princípio revolucionário e à concepção positiva do estado de coisas presente.
Seguindo a mesma tendência, Hebel procura conciliar a idéia da revolução com a positividade do conteúdo histórico moderno, e discute a tragédia a partir dessa conciliação. Lukács sustenta que, para Hebel, a tragédia, especialmente a tragédia moderna, tem a finalidade de representar “as dores do parto de uma humanidade em luta por uma forma nova.” (DSL, p. 22) No entanto, ao especificar o conteúdo da tragédia, termina por excetuar todo princípio revolucionário e afirmar a necessidade de superar o conflito, a fim de preservar a forma social presente. Lukács cita Hebel:
“A arte dramática deve contribuir para levar a bom termo o processo histórico mundial que se desenrola nos nossos dias e que quer, não derrubar as instituições do gênero humano existentes, instituições políticas, religiosas e morais, mas pelo contrário, firmá- las mais solidamente, garanti-las, portanto, contra qualquer queda.” (DSL, p. 22)
Lassalle se insere no ambiente da estética pós-hegeliana no sentido de que parte da mesma concepção formalista da revolução como fundamento da tragédia moderna, da mesma dualidade de abstração e empirismo que traz igualmente como conseqüência a necessidade de construir artificialmente uma mediação abstrata atemporal no campo da ética ou da psicologia. Entretanto, Lassalle se distingue de seus contemporâneos porque, “na luta do ‘Antigo’ e do ‘Novo’, ele se coloca sem reservas do lado do Novo” (DSL, p. 22). Mas, sem abandonar esse fundamento teórico, essencialmente vinculado à manutenção da perspectiva burguesa, as novas orientações que essa tomada de posição suscita “apenas conseguem tornar as contradições ainda mais flagrantes nele do que nos outros”. Com a intenção de figurar dramaticamente a contradição eterna e abstrata entre “a idéia da revolução”, infinita, e a “inteligência prática”, com seus meios finitos, Lassalle, em lugar de deduzi-la das relações e conflitos concretos dos indivíduos, “introduz a ‘idéia da revolução’ nos indivíduos e relações concretas” (DSL, p. 23, grifo nosso).
Esse procedimento conduz ao que Marx e Engels denominam a schillerização da tragédia, termo que sintetiza a falta de individualização das personagens e a sua conformação como porta-vozes de perspectivas ou ideais universais. Ou seja, os personagens não se apresentam como indivíduos que incorporam os conflitos humanos fundamentais de seu tempo em suas ações, relações e destinos, e os vivem como indivíduos, mas como sujeitos singulares que transmitem, apenas por meio da retórica,
101 ideais universais. A aproximação a Schiller é defendida pelo próprio Lassalle. Lukács escreve, citando suas formulações:
Aliás, para o próprio Lassalle, a inovação no desenvolvimento inaugurada por Schiller