A célebre passagem sobre a épica grega na Introdução de 1857 é privilegiada para nos aproximarmos das ideias estéticas de Marx porque traz a arte para o primeiro plano, apresenta ideias nítidas, embora sintéticas, sobre a objetividade e historicidade do gênero artístico, a épica, a mitologia, bem como aponta para o significado universal da arte. Trata-se de um texto inacabado – interrompido, para nosso desconsolo, antes de uma anunciada reflexão sobre Shakespeare... Marx observa no Prefácio para a
Contribuição à crítica da economia política117, de 1859, que seriam necessários desenvolvimentos para abordar os temas da Introdução pensada para esse livro, e por isso a suprimiu:
Suprimo uma introdução geral que esbocei em tempos porque, depois de refletir bem, me pareceu que antecipar resultados que estão para ser demonstrados poderia ser desconcertante e o leitor que se dispuser a me seguir terá que se decidir a se elevar do particular ao geral. (MARX, 2008, 45-46)
Por essa razão ela aparece nas edições dos Grundrisse, que reúnem os manuscritos do período.
Na Introdução Marx procura mostrar as maneiras complexas como a forma da produção social da vida traz consigo sua forma da distribuição, circulação e troca, bem como as formas políticas, estatais, jurídicas e familiares correspondentes. Indica que o modo da produção implica toda uma forma de ser, portanto também as formas mais ou menos individualizadas dos indivíduos sociais, os modos da consciência e das representações ideais de si, a cultura, a arte etc. O texto polemiza com economistas modernos que concebem a produção como dado natural, a partir do qual a sociabilidade atuaria para definir, de modos historicamente diversos, as formas da distribuição – e os seus modos políticos, jurídicos etc. correspondentes, que constituiriam os campos passíveis de se determinar e transformar. Nos itens 1. “A produção em geral” e 2. “A relação geral entre produção, distribuição, troca e consumo”, Marx estabelece a
117 MARX, K. Contribuição à crítica da economia política. Tradução de Florestan Fernandes. São Paulo:
produção como totalidade complexa, evidenciando a articulação das várias formas da atividade e das relações humanas com ao modo concreto da produção. Nesse contexto, desvenda o sentido da produção em geral como “abstração razoável” dos lineamentos comuns às diversas formas de produção tal como existem particular e concretamente.
Nessa formulação, além de destacar as determinações de seu objeto, manifesta ainda o modo como se aproxima dele. Ao propor a ideia das abstrações razoáveis, oferece uma chave para acessar a sua compreensão da objetividade do conhecimento e sua peculiar “resolução metodológica”118. A essa Introdução pertence, como seu item 3,
a famosa passagem intitulada “O método da economia política”, em que esse tema recebe os maiores desenvolvimentos. Nessa passagem, apresenta a célebre definição do concreto e as relações entre concreto real e concreto pensado que evidenciam a prioridade ontológica no processo de conhecimento. No escopo da discussão sobre o concreto real e o concreto pensado, corrobora a crítica à noção hegeliana de objetivação presente nos Manuscritos de 1844, desvendando ainda o modo como o idealismo de Hegel conduz à confusão entre o processo de abstração próprio do conhecimento do mundo e o processo de engendramento da realidade efetiva.119 Ainda com respeito ao processo de conhecimento, destaca a relevância da maturação do objeto, sintetizada na conhecida imagem: “A anatomia do ser humano é uma chave para a anatomia do macaco”120 (Gr., 58).
Esses são alguns dos pontos fundamentais que aparecem desenvolvidos nesse texto, crucial para compreender a crítica de Marx à economia politica e a Hegel, e a sua originalidade com relação ao pensamento moderno, no que respeita tanto ao entendimento da realidade, quanto ao modo de conhecer. Esses dois aspectos aparecem em íntima conjunção, o que mais uma vez reitera uma peculiaridade de Marx que já
118 Detalhada por José Chasin em seu Marx: estatuto ontológico e resolução metodológica, op. cit. 119 “O concreto é concreto porque é a síntese de múltiplas determinações, portanto, unidade da
diversidade. Por essa razão, o concreto aparece no pensamento como processo de síntese, como resultado, não como ponto de partida, não obstante seja o ponto de partida efetivo e em consequência, também o ponto de partida da intuição e da representação. Na primeira via, a representação plena foi volatizada em uma determinação abstrata; na segunda, as determinações abstratas levam à reprodução do concreto por meio do pensamento. Por isso, Hegel caiu na ilusão de conceber o real como resultado do pensamento que se sintetiza em si, aprofunda-se em si e movimenta-se a partir de si mesmo, enquanto o método de ascender do abstrato ao concreto é somente um modo do pensamento de apropriar-se do concreto, de reproduzi-lo como um concreto mental. Mas de forma alguma é o processo de gênese do próprio concreto.” (Gr., 54-55)
120 “Os indícios de formas superiores nas espécies animais inferiores só podem ser compreendidos quando
procuramos destacar: seus escritos não seguem a divisão tradicional moderna dos campos do conhecimento (política, economia, epistemologia etc.), porque o autor aborda seus objetos como totalidades históricas, amplos modos de ser, em que esses aspectos não se separam, mas sim se determinam reciprocamente.
De todo o universo que esse texto descobre, abordaremos apenas a parte que concerne diretamente à estética, a passagem sobre a épica grega que compreende a quase totalidade do item 4, inacabado, da Introdução, intitulado “Produção. Meios de produção e relações de produção. Relações de produção e relações de intercâmbio. Formas de Estado e de consciência em relação às relações de produção e de intercâmbio. Relações jurídicas, relações familiares”. Desses temas, apenas as “formas de consciência em relação às relações de produção e de intercâmbio” recebem algum desenvolvimento. Não aparecem em termos gerais, mas sim no exame de uma criação humana particular de um momento histórico particular: a relação entre épica grega como forma de arte elevada, fundada na consciência mitológica, e o baixo desenvolvimento produtivo e social no interior do qual emergiu. Outros temas aparecem no formato de uma lista de oito pontos a serem estudados, pertencentes ao contexto das relações entre formas particulares da atividade com o desenvolvimento geral da produção. A ideia parece ser destacar o caráter complexo, dialético dessas relações.
A discussão que nos interessa aqui envolve centralmente um modo dessa dialética: o desenvolvimento desigual da produção material com relação ao desenvolvimento de outra esfera da atividade social, no caso, a arte. Em linhas gerais, essa relação desigual significa que as várias formas da existência e das relações humanas – políticas, estatais, jurídicas, familiares, a cultura, a arte etc. – embora se enraízem, em cada período histórico e em cada localidade, no modo como ali se produzem e reproduzem a vida e os meios de vida, não necessariamente acompanham num sentido progressivo o avanço produtivo, ou lhe são paralelas. Dois casos desse tipo de relação desigual são indicados no sexto ponto da listagem inicial: a arte e as relações jurídicas. Lemos:
6) A relação desigual do desenvolvimento da produção material com, por exemplo, o
desenvolvimento artístico. Não conceber de modo algum o conceito de progresso na
abstração habitual. Com a arte moderna etc., essa desproporção não é tão importante nem tão difícil de conceber quanto [a que ocorre] no interior das próprias relações prático-sociais. Por exemplo, a cultura [Bildung]. Relação dos Estados Unidos com a