Através das funções psicológicas superiores, podemos observar que a ideia da comunicação se concretiza pela necessidade do uso de signos. Segundo Vygotsky (1991, p. 59), “o signo é como meio auxiliar para solucionar um dado problema psicológico (lembrar, comparar coisas, relatar, escolher)” e tem como base ser um instrumento de atividade psicológica para sua concepção de significados.
Apoiado nessa vertente teórica e conforme minha experiência, podemos identificar que na língua de sinais acontece da mesma forma. Quando um sinal é realizado na língua de sinais, no primeiro momento ele é entendido pelo léxico produzido; no segundo momento pela representatividade e significado de uso do sinal realizado; por último, pela compreensão e utilização do contexto a que se aplica o discurso.
Podemos citar o exemplo do sinal “alegria” que, no primeiro momento, pode ser compreendido concomitantemente com o uso da expressão facial sorridente: “A alegria de Cristiane é contagiante”, entretanto, o sinal de alegria também pode ser usado em outro contexto discursivo como ironia: “Estou muito „alegre‟ por voltar a trabalhar de madrugada”.
Na discussão sobre signo, nos deparamos com os estudos de Vygotsky (1991, p. 60), que esclarece “o instrumento refere-se à função indireta de um objeto como meio para se realizar uma atividade”. Ainda nesse aspecto, Vygotsky afirma que “a língua é o instrumento do pensamento” e que seu verdadeiro significado precisa passar pelo campo das funções psicológicas superiores.
Quando falamos sobre signo, encontramos em Vygotsky (1991, p. 61) funções compostas por uma tríade mediadora, sendo composta por atividade mediada, signo e instrumento. O uso de signos e de instrumentos caracteriza-se como atividade mediada, que irá orientar o comportamento humano, na internalização.
Identificamos ainda que, enquanto o signo constitui uma atividade interna, dirigida ao controle do próprio sujeito, o instrumento é orientado externamente. Para este trabalho, podemos entender que essa tríade, compõe-se pelos seguintes temas: atividade mediada – como sendo a conversa reflexiva; o signo – sendo apresentado pela língua de sinais; e o instrumento – sendo a atuação do pesquisador ouvinte bilíngue que permeia a condução do discurso.
Analisando essa tríade, vale lembrar as palavras de Marx (Carta Capital, 1872, p. 199) “homens usam as propriedades mecânicas, físicas e químicas dos objetos, fazendo-os agirem como forças que afetam outros objetos no sentido de atingir seus objetivos pessoais”. Realizando essa análise, podemos ter um embasamento sólido em relação ao uso dos signos, dos instrumentos e da atividade mediada, visto que os comportamentos humanos podem ser modificados pelo uso dos signos e de suas construções de significados compartilhados, justamente o que propusemos como objetivo deste trabalho – perceber como um participante Surdo e um pesquisador ouvinte bilíngue (re)constroem conceitos no uso da língua de sinais, sob a visão da conversa reflexiva numa análise discursiva.
Conforme Vygotsky (1991, p. 62), o uso dos instrumentos refuta a ideia completa de uma noção de significados, logo, o uso dos signos não existe num único sistema de atividade para cada função psicológica e a mediação pela atividade muda completamente as funções psicológicas e os conceitos que podem gerar.
Denominamos de internalização a reconstrução interna de uma operação externa. Ao exemplificarmos o fato de alguém apontar algum objeto no intuito de pegá-lo, entendemos que essa ação proporcionará a aproximação entre indivíduo e objeto. Função e significado que passam a ser objetivo e entendido na ação ora demandada. Podemos entender que, “nesse momento, ocorre uma mudança naquela função do movimento: de um movimento orientado pelo objeto, torna-se um movimento dirigido para outra pessoa, um meio de estabelecer relações” (VYGOTSKY, 1991, p. 63).
Nesse processo de internalização, podemos identificar três etapas importantes, como elencadas por Vygotsky (1991, p. 64) como:
a) uma operação que inicialmente representa uma atividade externa é reconstruída e começa a ocorrer internamente. Nela, os signos são necessários para o desenvolvimento de inteligência, memória e atenção voluntária à interação;
b) um processo interpessoal é transformado num processo intrapessoal. É o início no nível social, depois passa para o individual, o que caracteriza a formação de conceitos;
c) a transformação de um processo interpessoal num processo intrapessoal representa o resultado de uma longa série de eventos ocorridos ao longo do desenvolvimento.
O processo de internalização realmente acontece e o signo passa a ter sentido e significado capazes de construir conceitos. Isso acontece de maneira recorrente, pois o desenvolvimento de novos conceitos ocorrerá devido à reconstrução da atividade psicológica que inicialmente se deu na interação.
2.3.2. Um diálogo sobre conceitos de sentidos-e-significados
De acordo com Araújo (et al. 2009, p. 4), desde o nascimento, nos deparamos com um ambiente sócio-histórico-cultural se desdobrando em peculiaridades de desenvolvimento psicossocial, bem como em comportamento e vivências particularizadas. Ressaltemos que, além desse ambiente favorável, a interação estabelece elos fortes nas relações humanas. Os diferentes níveis comunicacionais estão imbricados ao teor e à participação cultural e social, sendo apropriados e vivenciados por cada pessoa de forma completamente diferente umas das outras.
Segundo Bakhtin (1992, p.36), “a lógica da consciência é a lógica da comunicação ideológica, da interação semiótica de um grupo social”, logo, as interações sociais sobrepõem-se ao teor do texto, sendo que esse pode produzir sentidos diversos, quando enunciado por uma pessoa de modos diferentes, pois a fala de outros perpassa esse discurso e construindo sentidos-e-significados de maneira compartilhada.
Segundo Fernandes (2006), o Surdo aprende a usar a gesticulação mesmo antes de ter acesso à língua de sinais. Óbvio que essa “sinalização” é uma intenção de interação por ausência da fala. De acordo com Santana et. al (2008), por vezes, essa “sinalização” é uma codificação caseira e de ambiente familiar, reportando a significados outrora acordados e vivenciados apenas no seio familiar.
No processo de comunicação de todo ser humano, percebemos que a gestualidade constitui parte fundamental e está presente na fase de aquisição de toda língua, conforme discutem Caselli e Volterra (1994). A troca de experiências com o meio em que se insere reflete em intenções de produções textual ou discursivas, estimulando a memória, possibilitando transformações de gestos caseiros e, por vezes desconexos, em sentidos-e-significados de outros em seus próprios, no ato de ressignificar os sinais com uma apropriação particularmente diferenciada.
Nesse sentido,
[...] a comunicação através de um sistema de gestos não é uma atividade exclusivamente humana, de modo que, no sentido amplo do termo, a língua de sinais é tão antiga quanto à própria espécie, e os primórdios de sua história são igualmente obscuros (STOKOE, 2005, p. 3 apud FRYDRYCH, 2013).8
Os últimos trabalhos de Stokoe discutem a origem da linguagem, destacando a possibilidade dos primeiros seres humanos terem se comunicado através de um sistema misto, com gestos e sons, anterior ao desenvolvimento das línguas faladas. Entretanto,
Essa hipotética discussão sobre a origem e o desenvolvimento da língua gestual dos indivíduos congenitamente surdos em qualquer sociedade, não deve ser tomada como um pré-julgamento sobre a controversa questão das origens da linguagem. Certamente a resposta total do organismo precede a seleção de sistemas de sinalizações vocais, manuais ou faciais, mas os sistemas de sinalização espaciais dos surdos, [...], apenas podem ser desenvolvidos em uma cultura, construídos, operados e unidos por uma língua, um sistema de símbolos vocais arbitrários (STOKOE, 2005, p. 4
apud FRYDRYCH, 2013).9
A gestualidade expressa etapa importante na comunicação e será a precursora para a aquisição da língua de sinais. Segundo Dizeu e Caporali (2005), é necessário colocar a criança surda em contato com usuários adultos fluentes em Libras considerando que a aquisição plena de uma língua se faz na convivência com aqueles que a dominam e a utilizam.
8 Texto original em inglês: Communication by a system of gestures is not an exclusively human
activity, so that in the broad sense of the term, sign language is as old as the race itself, and its earliest history is equally obscure (STOKOE, 2005, p. 3 apud FRYDRYCH, 2013).
9 Texto original em inglês: This hypothetical discussion of the origin and development of the gesture
language of the congenitally deaf individuals in any society is not to be taken as a prejudgment of the vexed question of the language genesis. Surely total response of the organisms precedes the selection of vocal or manual or facial signaling systems, but special of the deaf signaling systems of the deaf, though a revision in a way to the antelinguistic patterns of the race, can only developed in a culture, built, operated, and held together united by a language a system of arbitrary vocal symbols. (STOKOE, 2005 apud FRYDRYCH, 2013, p. 3).
Guarinello afirma que:
[…] para que as crianças surdas venham adquirir a língua de sinais como
primeira língua, é necessário que elas sejam expostas a usuários competentes dessa língua, ou seja, adultos surdos fluentes, que vão responder tanto pela exposição como pelo ensino da gramática para as crianças e seus pais, que, em 95% dos casos, são ouvintes (GUARINELLO, 2007, p. 48).
O fator exposição à língua de sinais com usuários fluentes cria um espaço dialógico entre os participantes dessa interação, ou seja, entre adultos e crianças. Nessa utilização, a língua prepondera mais que os elementos comunicacionais, permitindo um espaço de troca de saberes e de novos aprendizados.
Segundo Bakhtin (1992, p. 48), a aquisição da linguagem é fundamental para o desenvolvimento cognitivo e coletivo. O autor classifica a linguagem como um produto social, por meio da qual se estabelecem o eu e o outro como seres em si próprios, contudo, interdependentes entre si. O social está para o individual, por conseguinte, “a própria complexidade do mundo interior dos indivíduos depende da complexidade da organização social no interior da qual eles existem”. Portanto, percebemos que:
A dialogia, pois, é inerente a todo discurso e, na medida em que diz respeito as vozes que antecederam à do enunciante e às que poderão sucedê-lo, explicita a dupla função da linguagem: não há enunciado que não exiba traços do produto histórico da atividade dos homens e que, objetivado, não possa servir de referência para que novos enunciados sejam construídos e nos quais se manifeste uma maior ou menor superação do que estava socialmente posto (VOESE, 2004, p. 47).
Podemos dizer que é na e pela interação com o outro que novos sentidos-e- significados são construídos, apropriando-se com a relação entre os pares, com os questionamentos e os suportes textuais que desenvolvemos habilidades linguísticas e cognitivas,
Sobre os estudos de Bakhtin (1992, p .66), percebemos que “em toda enunciação, por mais simples que seja, renova-se sem cessar a síntese dialética viva entre o psíquico e o ideológico, entre a vida interior e a vida exterior”. Ressaltemos a importância do contexto social, porque sozinha a língua não pode ser compreendida.
Pelo fato de a língua ser um sistema, deve estar associada a outros elementos, nesse caso os elementos extralinguísticos, a apropriação e o aprendizado serão favorecidos, compreendidos e experimentados em suas experiências diárias com significados mais tangíveis.
Partindo do pressuposto sabido de que as palavras (ou os sinais) são elementos com propriedades ideológicas, é necessário que exista coesão em seu uso. Utilizar um enunciado requer inserção contextual, nesse sentido, entendemos que:
Foi a partir de uma concepção dialógica da linguagem que Bakhtin afirmou sua verdadeira substância, constituída pelo fenômeno social da interação verbal. Ignorar a natureza social e dialógica do enunciado seria apagar a profunda ligação existente entre a linguagem e a vida. Os enunciados não existem isolados: cada enunciado pressupõe seus antecedentes e outros que o sucederão; um enunciado é apenas um elo de uma cadeia, só podendo ser compreendido no interior desta cadeia (FREITAS, 1994, p. 138).
Consoante Bakhtin (1986, p. 128), identificamos como grau de dificuldade para a apropriação de significados, a elaboração e apresentação de conceitos de forma descontextualizada ou rudimentar. Salientamos que “um sentido definido e único, uma significação unitária, é uma propriedade que pertence a cada enunciação como um todo”. Evidenciamos que a (re)construção de sentidos-e-significados passa por um processo transformacional de saberes, gerando novo conceito, que acontece pela ressignificação e pela cadeia discursiva percebida pela interação.
Segundo Araújo (et. al, 2009, p. 6), diferentes sentidos estão implícitos quando se transmite um enunciado. Por conseguinte, um tema pode sofrer variações e mudanças, dado o contexto histórico e cultural em que esteja inserido e transitando, constituindo, portanto, a apropriação dos conceitos enunciados, como sendo verdadeiros para quem é o enunciador.
Nos estudos de Bakhtin, notamos que
[...] tema da enunciação é determinado não só pelas formas linguísticas que entram na composição (as palavras/os sinais, as formas morfológicas/os parâmetros da língua de sinais ou sintáticas/gramática, os sons/os intensificadores, as entoações/as expressões faciais e corporais), mas também por elementos não verbais da situação (BAKHTIN, 1992, p. 128).
Percebemos que se alguns elementos do enunciado se perderem, com certeza a enunciação estará comprometida, dificultando o processo de compreensão. O enunciado na língua de sinais também fica suscetível a essa condição. Quando o usuário da língua de sinais, seja o Surdo ou o pesquisador ouvinte bilíngue, apresenta um enunciado individual, o fazem tanto numa situação concreta quanto numa abstração, contudo, estão atreladas ao contexto social apresentado no discurso. Discurso este que se manifesta com recursos não manuais, expressões faciais e corporais que trarão concretude a qualquer que seja a situação, por mais abstrata que ela se apresente. É relevante perceber
Como a pessoa enuncia num dado espaço e num determinado tempo, todo
espaço e todo tempo organizam-se em torno do „sujeito‟, tomado como
ponto de referência. Assim, espaço e tempo estão na dependência do eu, que neles se enuncia (FIORIN, 1996, p. 42).
Nessa perspectiva, Bakhtin (1992, p. 129), afirma que há possibilidade de o tema e da significação serem completos por si só, contudo, ambos têm caráter indissociável. A significação apresenta-se como uma esfera mais estável, com propriedades da materialidade linguística da produção enunciativa e o tema, por sua vez, apresenta-se mais variável, como a própria enunciação/enunciado.Percebemos ainda que:
Um sentido definido e único, uma significação unitária, é uma propriedade que pertence a cada enunciação como um todo. Vamos chamar o sentido de enunciação completa o seu tema. O tema deve ser único. Caso contrário, não teríamos nenhuma base para definir a enunciação. O tema da enunciação é na verdade, assim como a própria enunciação, individual e não reiterável. Ele se apresenta como a expressão de uma situação histórica completa que deu origem à enunciação (BAKHTIN, 1992, p. 129).
Com isso, podemos compreender que a significação e o tema vivem de forma interdepende (sem relação de causa e efeito) na enunciação, em cujo espaço são negociados conceitos diversos (FANTI, 2003).
Podemos pensar que não haveria tema sem significação e vice-versa, pois uma palavra isolada, sem contexto, não é passível de assertividade em sua significação. O sentido extraído das palavras começa a ter significação por detrimento de um contexto que possibilitará o entendimento do enunciado evocado, ou seja, somente com uma situação sócio histórica em que o significado das palavras poderá acontecer.
Notamos que o mesmo enunciado pode ter outras significações quando inseridas em outros contextos. O enunciado terá um significado coeso, desde que o passar da abstração para a concretude aconteça, ou seja, trazer uma significação combinatória ao discurso apresentando, sendo necessário que variantes entonacionais, o ato da fala, o contexto e a interação dos participantes sejam verificados e considerados. Segundo Benveniste (1995, p. 87), “o que caracteriza a enunciação é a acentuação da relação discursiva com o parceiro, seja este real ou imaginário, individual ou coletivo”.
Observamos em Bakhtin (1992, p. 135), “a mudança de significação é sempre, no final das contas, uma reavaliação: o deslocamento de uma palavra determinada de um contexto apreciativo para outro”. Verificamos que a língua é viva e apresenta etapas dinâmicas, nas quais os participantes tendem a construir e desconstruir a apropriação de sentidos, valorando os sentidos a partir de uma reavaliação, podendo adquirir o status de superioridade ou inferioridade.
Percebemos na teoria bakhtiniana, que a reavaliação e a apropriação de sentidos estão diretamente concatenadas às nuances transformacionais sócio históricas, entendendo que o contexto é o maior responsável para a apropriação de sentido, fazendo que a ressignificação aconteça pelas contradições e por novos sentidos construídos. Entretanto, a vulnerabilidade na construção de sentido necessariamente suscetível às mudanças sociais, históricas, abrange novos sentidos ao que outrora pensavam ser de sentido único.