Mayen sesongen 2014/2015
REGULERING AV FISKET ETTER LODDE VED GRØNLAND, ISLAND OG JAN MAYEN SESONGEN 2014/2015
4.2 LODDEFISKET VED ISLAND, GRØNLAND OG JAN MAYEN SESONGEN 2013/2014
Para conduzir a conversa reflexiva, utilizamos algumas perguntas, pois, segundo Fávero (2002), precisamos entender que essas “frases seguidas de uma interrogação”, são muito mais do que apenas uma “questão que se submete a alguém de quem se espera que a resolva”. Vemos que a pergunta origina toda a discussão que cerca o todo. Uma simples ação como “perguntar o que”, “perguntar como” ou “perguntar por que”, em qualquer caso, uma interrogação que demanda, ou solicita uma resposta, constitui uma atitude crítica e pensamento crítico (CHAUÍ, 2010). Entendemos ainda que,
Questionar significa, em um primeiro momento, eleger um dado assunto como fonte de investigação e solicitar do interlocutor que expresse sobre ele um ponto de vista, não para avaliá-lo, mas para tecer, com ele, novos significados ou, no mínimo para mantê-los. Não podemos pensar que questionar sirva apenas para que as pessoas nos apresentem soluções para alguma questão, pois se assim o fizermos, estaremos afirmando que perguntas têm o exclusivo papel de definir e encerrar uma situação de interação. Questionar implica oferecer possibilidades para que o outro manifeste seu pensamento, fruto de sua visão de mundo, produto de suas experiências individuais e socioculturais a serem compartilhadas, impulsionando transformações (NININ, 2013, p. 26).
Nesse sentido, Ninin (2013) esclarece que o ato de fazer pergunta representa um método de introduzir uma cadeia discursiva, gerando organização do pensar, refletir e reformular o pensar. Com isso, as possibilidades compartilhadas de experiências do outro podem, na interação, sofrer transformações importantes.
Diante disso, as perguntas conduzidas na pesquisa assumem a função de criar um ambiente provocativo, no sentido de evocar e transformar sentidos-e- significados para a apropriação de conceitos. Portanto, as perguntas do pesquisador levam à condução de ressignificação, retextualização, levantamento de hipóteses, objetivando criticidade ao pensamento dos participantes Surdos.
As perguntas podem ser inseridas em dimensões diferentes, com objetivos diferentes. Ninin (2013) cita a existência da “dimensão pragmática, dimensão epistêmica, dimensão argumentativa”. Essas dimensões são modos de mediação entre o discurso e a prática social, apresentando-se, respectivamente, como senso comum, conhecimento científico e expansão dialógica com argumentação aprimorada.
Ninin (2013) apresenta uma categorização de perguntas e um agrupamento no que se refere “à forma, ao tipo, à natureza, ao conteúdo, à condução temática e à estrutura”. Contudo, existem algumas perguntas com atributos muito similares, em alguns agrupamentos. Nesta pesquisa, daremos atenção a apenas três categorias de perguntas mais recorrentes nos dados: as de expansão, de retórica e de conteúdo. Por isso, não foram analisadas todas as categorias de perguntas, como propõe Ninin.
Tipos de Perguntas (NININ, 2013)
Expansão
Expande o raciocínio, cria um espaço dialógico que favorece a inserção de contribuições de outros participantes e, consequentemente, seu engajamento na ação discursiva. Qual seria um bom exemplo sobre isso que você está dizendo? (Ninin, 2013, p.126) Exemplo: Rogério: Vocês viram nas ilustrações que tem uma mão, e de quem é essa mão?
e,
Rogério: Então vocês acreditam que por conta dessa diferença de regiões pode ter sim um preconceito?
Retórica
As respostas não são apresentadas. São elaboradas com o propósito de não serem respondidas pelos interlocutores, dado a sua resposta já é de seu conhecimento. Serve como recurso para manter o interlocutor envolvido com o que está sendo dito. Aliás, como é que aconteceu mesmo a segunda guerra mundial? (Ninin, 2013, p. 161) Exemplo: Rogério: Eu fico pensando no processo
de nossas vidas aqui no Brasil, temos várias influências políticas, não é verdade?
e,
Rogério: Então, eu penso que antigamente os negros não eram vistos como iguais às outras pessoas, então, tinha uma discriminação das pessoas negras, não é?
Conteúdo
Refere-se ao que já está em discussão, a um assunto nuclear e suas respostas são pontuais. Gente, o que é que vocês consideram importante nessa reunião conduzida pela Mariana? O que acham que a Mariana poderia modificar? (Ninin, 2013, p.144)
Exemplo: Rogério: Então, prestem atenção, então nós temos o
manipulador e o manipulado, mas quem é esse manipulador? e,
Rogério: Eu me lembro da história de antigamente onde as pessoas negras eram escravizadas, vocês lembram?
Quadro 3: Categorias de perguntas Fonte: O autor (adaptado de NININ, 2013)
A seguir, apresentamos um exemplo de análise, com foco na categoria “tipo de pergunta”:
O pesquisador apresenta contextos sociais em que o tema discriminação pode ser percebido. Ressalta que igualdade é o cerne da Declaração dos Direitos Humanos e expõe aos participantes Surdos, um exemplo preconceituoso ocorrido em um elevador social, como vemos a seguir:
Rogério: Olha o que eu encontrei nas minhas pesquisas, é muito importante, é sobre a declaração
universal dos direitos humanos, onde explica que todas as pessoas, sendo homem, mulher, rico ou pobre, negro ou branco, não importa, todos são iguais perante a lei, é o que a lei está mostrando, igual, igual. Então, com isso não podemos praticar o preconceito, porque nós estamos contra a
lei, estamos contra a lei, correto? Mas um exemplo, eu sei sobre a lei, mas também dentro do
prédio, nos elevadores, dentro dos elevadores, tem lá um papel escrito onde não se pode praticar o preconceito se a pessoa é branca ou negra ou se a pessoa está doente eu não posso praticar o preconceito ou desprezá-la ou se uma pessoa entra dentro do elevador muito composta e tem uma pessoa pobre. Então como é isso?
Quadro 4: Exemplo de análise dos tipos de perguntas Fonte: O autor.
Fabíola: Ah! Realmente dentro do elevador tem mesmo divulgando sobre isso, já me falaram também
sobre isso.
Rogério: Então vamos imaginar que dentro do elevador entra uma pessoa, essa pessoa é muito
pobre, sem condições, a roupa está suja, está com odor, um mau cheiro e aí entra uma outra pessoa e sente tudo isso, não gosta e sai do elevador. Está correto?
Fabíola: Não, está errado. Mário: Não, está errado.
Amanda: Errado, está errado, o que é isso?! Rogério: Mas e aí, como faz? E a lei?
Mário: Bom, a lei fala sobre o respeito, sobre respeitar, então se uma pessoa entra com mau cheiro,
está suja, ou se é branco ou negro, não importa, respeito porque nós somos iguais.
Identificamos, nesse exemplo, que a apenas a pergunta de Rogério: Então, com isso não podemos
praticar o preconceito, porque nós estamos contra a lei, estamos contra a lei, correto?
Caracteriza-se como uma pergunta retórica e não exige resposta dos participantes Surdos. As
demais perguntas de Rogério: Então como é isso?, Rogério: Está correto? e Rogério: Mas e aí,
como faz? E a lei? São caracterizadas como sendo expansivas, exigindo que os participantes
Surdos tragam novas contribuições, e segundo Schön (2000), a reflexão gera experimento imediato, objetivando assim, novas compreensões.
Quadro 5: Exemplo de análise dos tipos de perguntas Fonte: elaboração do autor
Apresentamos a seguir, um quadro com as categorias de análises para os tipos de perguntas e de algumas respostas produzidas pelos participantes Surdos.
CATEGORIAS DE
INTERPRETAÇÃO
TIPOS DE PERGUNTAS
Utilizando sinal específico em Libras Estou na sua rua, mas qual é a sua CASA13?
Uso de conceitos abstratos Qual sua opinião sobre a ditadura militar?
Levantamento de hipóteses Quando uma pessoa bebe, dirige em alta
velocidade em uma noite chuvosa... O que pode acontecer?
Ligação com a prática / concreto Qual a importância de um professor preparar
um plano de aula para a melhor aprendizagem de seus alunos?
Conhecimento cotidiano Como faço para usar o transporte público
gratuito?
Funções psicológicas superiores Pai, porque a gente não consegue construir14
uma boa relação?
Verbo-visualidade O que a capa desta revista significa para
você?
Quadro 6: Categorias de Interpretação provenientes da fundamentação teórica desta pesquisa Fonte: O autor.
13
Sinal de Casa em Língua de Sinais. Fonte: CAPOVILLA, F. C.; RAPHAEL, W. D. Dicionário
Enciclopédico Ilustrado Trilíngue. São Paulo: EDUSP, 2001. 2v. p. 371.
14
Sinal de Construir em Língua de Sinais Sinal de Desenvolver em Língua de Sinais
Nesse caso “construir” não está relacionado à ação manual de uma atividade, como por exemplo:
construir uma casa. O pensar sobre a ação de „construir‟, é esperar que ocorra um “desenvolvimento”
na relação com o pai. Fonte: CAPOVILLA, F. C.; RAPHAEL, W. D. Dicionário Enciclopédico
É importante analisar as perguntas, porque elas assumem a função de guia na organização do discurso e do pensamento dos participantes envolvidos na pesquisa, o que justifica a necessidade de um olhar apurado sobre as perguntas do pesquisador e dos participantes Surdos, para identificar processos transformacionais na apropriação de sentidos-e-significados.
4 ANÁLISE E INTERPRETAÇÃO DOS DADOS
Esta seção tem como objetivo analisar as interações entre o pesquisador e os participantes Surdos. Retomamos a pergunta da pesquisa que verificar como são negociados os sentidos-e-significados de conceitos e apresentamos a análise e discussão dos dados, pautada em Bakhtin (1986/1992), Brait (2012), Magalhães (2010/2012), Schön (2000) e Vygotsky (1991).
A primeira parte da análise consiste em contextualizar os participantes Surdos sobre os temas que serão abordados e aprofundados. Logo após, analisamos a interação entre o pesquisador e os participantes Surdos sobre os temas: Cidadania e Democracia, Manipulação, Repressão e Discriminação.
O intuito da conversa introdutória consistiu em apresentar os objetivos da entrevista aos participantes Surdos, e como seria desenvolvida a pesquisa por meio de interação, como podemos observar no exemplo abaixo:
Rogério: Agora falaremos sobre política. Será igual a uma entrevista, estarei questionando vocês e
vocês estarão me respondendo, será como um bate-papo, uma troca, né. Nós vamos falar sobre nossas vidas e esse quadro geral que se apresenta no Brasil, certo? Eu fico pensando no processo
de nossas vidas aqui no Brasil, temos várias influências políticas, não é verdade? Temos coisas
boas e algumas coisas ruins e nós ficamos divididos entre esses dois pontos e como lidar com essa questão? Nós éramos crianças, agora temos que votar, não é? Isso é o que? Uma responsabilidade eleitoral, e porque votar?
Ao explicar como seria desenvolvida a conversa reflexiva, o pesquisador, tentou situar os participantes Surdos, expondo o objetivo, que seria como um bate- papo, uma troca, demonstrando existência da interação (BAKHTIN, 1981), diante das propostas que apresentadas. No excerto acima, o pesquisador apresenta o cenário da “política” brasileira, tentando contextualizar e aprofundar alguns conceitos abstratos, como apresentamos a seguir.
O pesquisador ainda faz perguntas retóricas que não exigem a resposta dos participantes Surdos, como: “Eu fico pensando no processo de nossas vidas aqui no Brasil, temos várias influências políticas, não é verdade?”. Perguntas
como estas foram feitas apenas para introduzir o assunto. Além disso, é uma oportunidade de reflexão direcionada (SCHÖN, 2000) dos participantes Surdos para trazer à tona os sentidos-e-significados (VYGOTSKY, 1991) implícitos no cenário político, baseados nas experiências dos participantes Surdos. Com isso, o pesquisador tentou levantar os conhecimentos prévios dos participantes Surdos, objetivando aprofundar o assunto com base no cenário político.
De acordo com o que propõem Quadros e Perlin (2003), a apresentação da situação expõe os participantes da pesquisa diante daquilo que será realizado na produção final, na alteração da alteridade de ambos. O que se reflete na alteridade do outro e nas contribuições que o eu pode gerar numa interação.
Schön (2000, p. 250), considerando a reflexão-na-ação, destaca que “o desenvolvimento de um ensino prático reflexivo pode somar-se a novas formas de pesquisa sobre a prática e de educação para essa prática, para criar um momento de ímpeto próprio, ou mesmo algo que se transmita por contágio”. Com base nisso, o pesquisador, por meio de argumentos, perguntas e exemplificações tenta criar novos saberes aos participantes Surdos, em direção da apropriação de sentidos-e- significados de conceitos.
Ao introduzir o tema democracia, o pesquisador inicia o diálogo apresentando os principais acontecimentos de insatisfação da população brasileira ano 2014, destacando os direitos dos cidadãos de poder se manifestar nas ruas públicas, como vemos no próximo excerto:
Rogério: Tudo bem? Bom, agora nós vamos conversar. Estive pensando sobre este tema que
acontece muito no Brasil, também, agora recentemente no mês de novembro, se vocês se lembrarem, quando começou isso, foi no mês de junho, nós tivemos... vimos muitas vezes na televisão falando sobre movimentos na Avenida Paulista que a pessoas saíram nas ruas com os rostos pintados e placas, fazendo manifestações, vocês lembram?
Dando continuidade ao tema, o pesquisador utiliza a capa da Revista Veja de Junho de 2014, enfatizando os recursos verbo-visuais que mostram uma barricada pegando fogo, uma mulher andando com a bandeira do Brasil em torno de seu corpo
e apresenta em destaque duas expressões: “Edição Histórica” e “Os sete dias que mudaram o Brasil”, como vemos a seguir.
Figura 1: Recurso verbo-visual utilizado para discutir os temas Cidadania e Democracia Fonte: Revista Veja, junho de 2014.
Identificamos a necessidade de apresentar a concomitância da língua portuguesa e da língua de sinais, com o recurso verbo-visual, por criar possibilidades de trocas linguísticas e culturais e, consequentemente, facilitar a interação entre os participantes Surdo e o pesquisador. Norteados pela teoria social da construção do conhecimento (Vygotsky) e a teoria enunciativa da linguagem (Bakhtin), contemplando a melhor performance para a construção de sentidos-e- significados compartilhados, na interação entre os participantes Surdos e o pesquisador. Entendendo a enunciação, a (re)construção de conceitos conduzirá a um processo reflexivo (Schön).
Nesse sentido, Bakhtin (2009, p. 137) nos leva a “compreender que a enunciação de outrem significa orientar-se em relação a ela, encontrar o seu lugar adequado no contexto correspondente. Quanto mais numerosas e substanciais forem, mais profunda e real é a nossa compreensão”.
Continuando a interação, no excerto seguinte, o pesquisador compartilha sentidos-e-significados em relação ao conceito abstrato de cidadania. Para fazer uma expansão do tema abordado, exemplifica com os movimentos populares contra o aumento no valor da passagem do transporte público. Por meio dessa apresentação e de perguntas provocativas, esperava-se que os sentidos de cidadania pudessem ser percebidos pelas experiências pessoais dos participantes Surdos.
Rogério: Mas o forte da manifestação que se espalhou foi em junho. Amanda: Por causa do aumento do ônibus e o povo se revoltou. Rogério: Lembram?
Amanda: Lembro sim.
Fabíola: Gigante acordou! E agora? Rogério: Verdade.
Fabíola: Falou que o gigante acordou, por isso, realmente acordou, antes não tinha nada. Por isso
eles não gostaram do aumento de 0,20 centavos e começou a manifestação.
Amanda: Mas eu concordo. Só não concordo com esse aumento.
Rogério: Mas eu que sou ouvinte, fico pensando, em fazer protesto, manifestação. Mas eu pergunto: E os surdos? Participaram desse movimento?
Amanda: Sim, para apoiar. Fabíola: É isso mesmo Mário: Eu participei Rogério: Você participou? Mário: Sim, participei.
Amanda: Porque eu não pago? Você está falando isso porque eu não pago? Mas eu apoio a causa!
Rogério: Ah, entendi!
Mário: Eu me empenhei para participar. Amanda: Para defender o movimento.
O pesquisador, ao questionar os participantes Surdos: “Lembram?” Utiliza uma pergunta retórica (Ninin), em que as respostas não precisam ser apresentadas. Realiza-se a pergunta realizada com o propósito de não ser respondida pelos interlocutores, pois a resposta é de conhecimento alheio. Serve como recurso de reflexão (Schön) e para manter o interlocutor envolvido com o que está sendo dito.
Identificamos na pergunta do pesquisador: “E os surdos? Participaram desse movimento?” Utiliza-se uma pergunta de expansão, que amplia o raciocínio, criando um espaço dialógico que favorece a inserção de contribuições de outros participantes e, consequentemente, seu engajamento na ação discursiva.
Vemos na resposta de Amanda: “Você está falando isso porque eu não pago? Mas eu apoio a causa!” Neste caso podemos observar que “a compreensão é sempre uma compreensão pragmática” (DASCAL). “Não se trata de compreender apenas as palavras do falante” (determinando o significado da sentença), isso porque nem sempre a intenção da fala abarca a compreensão de outrem. Ou, ainda, só “compreender tais palavras em sua específica referência ao texto da elocução” (determinando o significado da elocução), e sim de “alcançar a intenção do falante ao proferir tais palavras naquele contexto da elocução” (determinando o significado do falante).
Quando Mário diz: “Eu me empenhei para participar”, demonstra senso de coletividade e, por conseguinte, de cidadania. O intuito de trazer à interação experiências pessoais, facilitou a entendimento do conceito apresentado, bem como, possibilitou os participantes Surdos se posicionarem socialmente, como fez Amanda, ao dizer que participou da manifestação “Para defender o movimento”.
Nesse excerto, percebemos que a negociação de sentidos-e-significados aconteceu pela interação dialógica. Além do desenvolvimento da cadeia discursiva entre os participantes Surdos, mesmo com as interposições de discursos, a complementação ideológica dos enunciados apresentados foi estabelecida.
A seguir, o pesquisador contextualiza aos participantes Surdos sobre as influências que temos ao longo da vida, como a obrigatoriedade do voto. O assunto apresentado aqui será o ponto de partida para o desenvolvimento compartilhado e mediado para a (re)construção de sentidos-e-significados em relação ao conceito abstrato de repressão, como vemos a seguir.
Rogério: Eu fico pensando no processo de nossas vidas aqui no Brasil, temos várias influências, não
é verdade? Temos coisas boas e algumas coisas ruins e nós ficamos divididos entre esses dois pontos e como lidar com essa questão? Nós éramos crianças, agora temos que votar, não é? Isso é o que? Uma responsabilidade eleitoral, e porque votar?
Prosseguindo com o tema, o pesquisador utiliza capas da Revista Veja de setembro de 2014, salientando os recursos verbo-visuais onde mostram à esquerda uma grande boca esbravejando contra a candidata à Presidência da República, Marina Silva. À direita, mostra uma foto em primeiro plano da candidata com uma expressão serena e um olhar enigmático, como vemos a seguir:
Figura 2:Recurso verbo-visual utilizado para discutir o tema Repressão
Fonte: Revista Veja, setembro de 2014.
Após apresentar o recurso verbo-visual, o pesquisador, continua a fazer questionamentos aos participantes Surdos, objetivando a (re)construção de novos sentidos-e-significados pelo conceito de repressão.
Rogério: Vocês viram essa foto na revista, nessa foto há uma boca e diante dessa boca está a
Marina e o que acontece? Há uma repressão, esse é o sinal, uma repressão sobre a Marina. Vocês
viram, nessa foto tem uma boca, qual é o significado dessa boca? Fabíola: É o povo?
Amanda: É o povo.
Rogério: Essa repressão que o povo exerce é contra a Marina ou não?
Amanda: Não, temos uns a favor e os outros contra é bem balanceada e equilibrada isso, é possível
eu estar falando que tudo é a favor ou que tudo é contra.
Rogério: Se a população gosta da Marina, pode ser que tenha essa repressão ou não?
Mário: Então é diferente, diferente, a população o povo gosta da Marina, mas antes não tinha essa
repressão, agora que ela substituiu o Eduardo Campos há essa repressão, porque?
Fabíola: Ah é difícil saber, difícil.
Rogério: A população gosta da Marina, é porque ela tem umas propostas boas para o Brasil, para
que o Brasil se desenvolva mais do que os dois partidos, não é?
Mário: E uma das propostas é que o Brasil se desenvolva e que possa haver uma mudança no
Brasil. Difícil, é difícil.
O pesquisador, ao fazer a seguinte pergunta “Vocês viram, nessa foto tem uma boca, qual é o significado dessa boca?” utiliza a referência do recurso verbo-visual para trazer à tona os sentidos-e-significados que os participantes Surdos possuem. Segundo Nascimento (2011), “a imagem constitui um papel fundamental para construção de sentido”, além de ser componentes que “colaboram para a realização de um enunciado” seja ele concreto ou abstrato.
Vemos na resposta de Amanda “É o povo”, que a abstração foi entendida como uma operação intelectual em que um objeto de reflexão é isolado de fatores que comumente lhe estão relacionados na realidade, isto pelo fato de a imagens reproduzirem ícones representativos como os de gibi, em situações em que alguém está nervoso, gritando ou falando palavrões. Essa associação foi uma das possibilidades do uso das funções superiores (Vygotsky), para a (re)construção de sentidos-e-significados de Amanda.
No questionamento do pesquisador, “Essa repressão que o povo exerce é contra a Marina ou não?” a intenção foi a de expandir o raciocínio, criando um espaço dialógico, favorecendo a inserção de contribuições de outros participantes e, consequentemente, seu engajamento na ação discursiva. Ao ressaltar a importância da interação dialógica, a verbo-visualidade trará ao enunciado nuances discursivas que perpassam sentidos-e-significados para a construção de novos conceitos.
Na fala de Mário, “agora que ela substituiu o Eduardo Campos há essa repressão”, podemos identificar uma possibilidade de (re)construção do conceito repressão, contudo, Vygotsky (1998), aponta que definir um conceito não é tão simples quanto apresentar um conjunto de associações para auxiliar a memória, tampouco uma prática mental automática. Constitui um ato do pensamento em suas formas mais elaboradas e completas.
Para aprofundar o conceito de repressão, o pesquisador apresenta um cenário fora do ambiente político, citando as comunidades do Rio de Janeiro e a