4. Tyrkias vannpolitikk
4.3 Vannknapphet og vannavhengighet
O direito à vida e a saúde também é discutido na coleção Projeto Buriti:
História a partir dos hábitos de higiene para evitar as doenças que são contraídas com a
falta de assepsia. No LA do 4º ano, há um texto que discute os hábito de higiene dos portugueses no século XVI e como eles, ao colonizarem o Brasil, entraram em contato com o costume indígena de tomar banhos diariamente e mudaram seus hábitos:
Há cerca de 510 anos, na Europa, os hábitos de higiene pessoal eram bem diferentes dos praticados atualmente. A maioria das pessoas não sabia que determinadas doenças estavam relacionadas à falta de higiene. Acreditava-se que o banho, por exemplo, poderia transmitir enfermidades ou que era um ato pecaminoso. Quando chegaram ao Brasil, os portugueses estranharam o costume dos nativos de tomar vários banhos por dia, principalmente em rios. Com o passar do tempo, em virtude do contato com os indígenas, o colono português começou a fazer do banho um hábito diário. Os banhos eram tomados no rio e em bacias dentro das casas. As praias geralmente eram lugares sujos, em que o lixo e animais mortos eram depositados. Desse modo, banhos de mar não atraiam colonos. (THAHIRA, 2011, v.3, LA, p.76-77 Seção O mundo que queremos).
Esse texto é acompanhado das seguintes questões para os alunos responderem:
[...] Qual é a importância de tomar banho? Deixar de tomar banho por várias semanas, como fazia a maioria dos europeus no passado, facilita a transmissão de doenças? (THAHIRA, 2011, v.3, LA, p.76-77 Seção O mundo que queremos).
Ao reproduzir esta parte do LA, o MP registra a seguinte orientação ao professor:
Essa atividade pode ser realizada de modo interdisciplinar com Ciências. Espera-se que os alunos, reconheçam o banho como uma importante atitude para manter a higiene e um corpo saudável. No passado, na Europa, era comum haver surtos de doenças e epidemias, devido, muitas vezes, à falta de limpeza e de higiene. (THAHIRA, 2011, v.3, LA, p.76-77 Seção O mundo que queremos).
Nesse trecho, a coleção procura romper com o eurocentrismo, ao valorizar a cultura indígena, destacando como ela nos ensinou hábitos que evitam doenças. No entanto, ao mostrar historicamente como os europeus aprenderam hábitos de higiene com os indígenas, Thahira (2011) reforça a ideia de convívio harmônico entre as diferentes etnias na formação do povo brasileiro, desconsidera os conflitos, e ignora o fato de comunidades inteiras terem sido extintas ou reduzidas por conta da transmissão de doenças, como gripe e catapora, pelos europeus. Doenças letais para os indígenas que não conviviam com estes vírus, antes da chegada dos europeus, e continuam a ser mortos por eles até os dias de hoje.
Ao construir esta narrativa, a coleção comprova as análises de McLaren (2000). O autor discute sobre os textos dos livros didáticos serem produtos científicos de interesse de determinados grupos sociais dominantes. Esses materiais são, em sua maioria, reprodutores do pensamento cientifico europeu, e contam a versão dos fatos somente a favor da cultura ocidental, excluindo assim as perspectivas das demais culturas do Sul e orientais. Estas são colocadas em evidência apenas quando servem para legitimar ideias dos grupos dominantes. Os indígenas e o fato de terem transmitido o hábito de tomar banho para os portugueses foram enfatizados para fortalecer a ideia de que o Brasil e sua população são resultado do encontro enriquecedor entre várias culturas, e silenciar o genocídio e etnocídio que acontecem com os indígenas desde o período da colonização.
O MP trata a hibridização cultural sem considerar o processo histórico conflituoso em que ocorreram estas mudanças nos hábitos de higiene. Há uma visão romântica do contato entre diferentes culturas que aproxima a concepção da coleção da abordagem dos documentos internacionais de DH que defendem o ensino da cultura de paz entre os povos:
A cultura de paz está intrinsecamente relacionada à prevenção e à resolução não violenta dos conflitos. É uma cultura baseada em tolerância e solidariedade, uma cultura que respeita todos os direitos individuais, que assegura e sustenta a liberdade de opinião e que se empenha em prevenir conflitos, resolvendo-os em suas fontes, que englobam novas ameaças não militares para a paz e para a segurança, como a exclusão, a pobreza extrema e a degradação ambiental. A cultura de paz procura resolver os problemas por meio do diálogo, da negociação e da mediação, de forma a tornar a guerra e a violência inviáveis. [...]A educação voltada para a cultura de paz inclui a promoção da compreensão, da tolerância, da solidariedade e do respeito às identidades nacionais, raciais, religiosas, por gênero e geração, entre outras, enfatizando a importância da diversidade cultural. (UNESCO, 2010, p. 11-13).
Esta educação para a cultura de paz relaciona-se com o sentido da palavra tolerância "pronunciada diariamente pelos tecnocratas das democracias ocidentais" (SKILIAR, 2004, p. 82), que
...tem um tom em excesso eufemístico. A tolerância surge como uma palavra branda, frágil, leviana que muitas vezes nos exime de assumirmos posições e de nos responsabilizarmos por elas [...] de fato, quanto mais fragmentada se apresenta a vida social, mais ressoa o discurso da tolerância e mais se "toleram", portanto, formas desumanas de vida... (SKILIAR, 2004, p. 80)
Este sentido de tolerância faz-se presente na valorização do fato dos portugueses terem se adaptado ao hábito dos indígenas de tomar banho diariamente, suavizando a violência dos primeiros sobre os últimos. Nesse sentido, mais uma vez, observa-se a concepção universalista de DH na coleção que promove a cultura da paz defendida pela ONU42, a qual nos faz acreditar no convívio harmonioso entre diferentes etnias e, perversamente, silencia as relações de dominação e exploração que também constituíram e constituem o processo histórico do Brasil, desmobilizando a participação em movimentos sociais que lutam contra a permanência das mesmas.