9. Virtue ethical perspectives on anti-corruption measures
9.4 Written obligations – Values, visions, identity and corporate missions
9.4.1 Values
se apresentava aos seus olhos quando aqui chegou, porque, segundo ele, dessa época em diante ela transformou-se numa cidade normal como outras, rompendo com elementos que a diferenciava frente a essas outras - apesar de mesmo assim ainda defender que ela mantém seu encanto. Alias, é pelo viés da continuidade de encanto que justifica-se por ainda desejar viver em Brasília - trecho já analisado no primeiro capítulo desta dissertação. Em meio a essa relação de temporalidades que atravessa as Brasílias da mente de Hugo, ele explica o que para ele antes era o diferencial dessa cidade e o que hoje ainda o fascina:
Antes ali e aqui tinha cachorro. Eram vinte, trinta cachorros, tudo é... como se chama? Ah! Tudo cachorro vagabundo. Eu saía andando nas ruas e morria de medo, porque eram cachorros que mordiam. Eram do cerrado. Totalmente diferente. (...) O que era a Chapada dos Veadeiros? Selva!!!! Deserto!!!! Uma maravilha!!!! Não tinha nada. O que era a Itiquira? O que era o Poço Azul? Eram uma maravilha! Um Paraíso. Um paraíso que estava aqui do lado. Agora não. São todos muito freqüentados e horrorosos. Cheios de grupos de pessoas que adoram ir porque... porque são urbanas. E não para curtir. Brasília já é uma cidade. Brasília é totalmente diferente do que era. Totalmente. Mas jamais perdeu o seu encanto. Jamais!!!! Senão eu não estaria mais aqui. Eu também faço parte desse encanto.
O espaço. O espaço é a coisa mais importante desta cidade. Essa coisa de ter “eixo” acaba se reproduzindo dentro de você. Algo como um peão. Porque faz você se sentir o “eixo” da coisa e essa coisa ainda poder estar girando. Isso é bom e ruim, ao mesmo tempo. Depende como é visto. Porque pode ser aquela coisa do poder que há nesta cidade. Acredito que muita gente passou por aqui achando que podia fazer acontecer de tudo e por isso se valer de tudo. E não é assim. Durante muito tempo, muita gente se valeu de tudo, nessa cidade... na época da ditadura então, era impressionante... impressionante como as pessoas se valiam disso...
O desenho dessa cidade, ampla com um eixo entre suas duas asas, mostra-se, segundo Hugo, na psicologia dos indivíduos e/ou nas atitudes sociais em geral. No entanto, essa sua fala também provoca interpretações para a área da história por meio da imagem do peão que abriga em si o sentido de um poder exercido por pessoas que vêm a Brasília com projetos pessoais de benefícios próprios, fazendo uso inapropriado de bens públicos, sem com isso se importar com as regras de ética e de dignidade esperadas pelos cidadãos em relação a essas pessoas que têm acesso aos tais bens coletivos. Há, também, nesse trecho de Hugo, uma crítica especial dessa sensação delirante em torno do poder que rodopia em torno do eixo-princípios das relações sociais, para o autoritarismo da ditadura que realizou enquanto estava em Brasília, ou seja, no poder de uma capital da
Vale ressaltar que muitas partes dessa entrevista de Hugo também são bem humoradas, como mostra os dois trechos que a seguir destaco. Em um, Hugo compara Brasília ao cemitério da sua cidade natal, Juan L. Lacaze (Porto Sauce), e, em outra, à Metrópole - nome da cidade do Super-Homem, personagem de história em quadrinho:
Se você vai ao cemitério do meu povo, você morre (risos)! Você não acredita! Qualquer lugar tem menos sobrenome iguais aos que têm lá (risos). É impressionante! É turco ao lado de italiano, ao lado de russo, ao lado de todos. É impressionante! (...) Sabe que houve uma coisa em Brasília que me impressionou muito quando eu a olhei assim, lá do avião? Ela parecia o cemitério do meu povo, olhando lá de cima. (...) Porque era tudo cheio de “nichos”, aqui. De noite quando a gente chega e vê aquele ar seco e ainda sem árvores. Em 75... em janeiro... não!!! Em Março de 75. Não tinha árvores por aqui. Não tinha nada. Cheguei em 12 de março, neste ano faz trinta anos que estou por aqui. (...) Mas era de dia... de dia... Tudo vermelho com aquelas caixinhas de fósforo lá embaixo. Alinhadas assim, uma atrás da outra, parecendo “nichos”. Eram como as casas dos mortos da minha cidade, iguaizinhas... olhando lá de cima. (...) Fiz uma correlação com o cemitério imediatamente. Uma idéia assim: “Nossa! Parece um cemitério!” E quase não existia cemitério aqui. Quase não tinha morrido ninguém. Pouca gente havia morrido!
Às vezes eu penso naquela revista que eu lia quando era pequeno, a do Super-Homem. Porque eu adoro Brasília. E eu a achava idêntica à cidade do “Super-Man”. Quando eu vi de lá de cima, dizia: - “Ahhh... A cidade do Super-Man!!!!”... “Super-Man total!!!!”... Aquela praça e as outras coisas assim, lá do avião me pareceram totalmente a “Cantoreira”... Como é mesmo o nome da cidade de Super-man? Ah! Não me lembro, mas era o nome da cidade do Super-Man...
Se por um lado aspectos visuais dessa cidade permitem-lhe comparações com o cemitério e/ou com uma cidade de história em quadrinho, por outro, aspectos simbólicos dessas imagens também podem ser analisados. Afinal, é possível perceber um viés de sentido de globalização6
(apresentada nos diferentes nomes, de diferentes regiões que compartilham espaços dispostos um ao lado do outro) e de poder (na Metrópole do Super-homem), evidentemente engraçados, mas nem por isso de todo estranhos, se pensarmos além dos traços e vermos que, muitas vezes, essa cidade é