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Eu adoro sorvete. Adoro sorvete mas tô tomando pouco, por causa do colesterol alto. Eu tive infarto em 1991, porque fumava uns três maços de cigarro. Que mais que eu gosto? Hum... adoro frutas, em especial laranja e mamão - a laranja eu gosto de chupar toda e comer até o bagaço. Eu não gosto do suco da laranja, gosto é da fruta mesmo. Ah! Também adoro um cantar de passarinho. Passarinho em gaiola não, mas livre. Às vezes, eu vou à praça pra ouvir passarinho. E também adoro estar só. Eu sou um homem solitário. Eu não sou um homem de solidão. Solidão não, porque eu senti isso há muitos anos atrás quando eu me perdia de mim mesmo e ficava me procurando nos outros. Agora, quando me perco, eu sei me achar. Eu sei a porta que eu tenho que bater, mesmo porque sou um homem em construção. Eu acredito no homem que quero construir. Eu tô com 55 anos e não sou um décimo do homem que eu quero ser. Eu quero ser mais... como poderia dizer? Ah! Eu quero ser menos briguento. Eu sou uma pessoa que não odeio ninguém, mesmo sabendo que tem gente com um jeito meio assim, mas eu não as odeio. Não odeio ninguém. (...) Já me disseram coisas que às vezes foram doloridas e quando eu fui refletir, eram verdades e tive que aceitar. Então, é isso.

Eu sou o homem do abraço. Adoro abraçar as pessoas. Eu procuro sempre comentar com as pessoas frases do tipo: “Como você está bonito”, “Você é legal.”, enfim, coisas positivas.. Eu gosto disso, me faz bem. Eu sou tipo paizão e tipo mãezona, porque eu gosto de ajudar meus amigos. E eu me meto mesmo na vida deles, sim. (...) Claro! Se ele não estiver feliz, por exemplo, eu vou tá com problema no futuro e vai interferir na minha vida (risos). Então eu me meto na vida deles todos! (Risos).

Eu também não tenho esse negócio de politicamente correto, não. Se está errado? Então está errado! Às vezes, a palavra simpática era num momento certo. Mas, às vezes, a palavra dura, é a que provoca transformação. Como ocorre com o mármore, porque deve ser difícil quebrá-lo. Deve doer fazer aquilo. Mas é dali, daquele gesto, que sai a obra.

Eu gosto muito de criança. Eu adoro. Eu não gosto de trabalhar com criança. Mas eu adoro criança. Adoro bicho. Não tenho bicho porque

bobagem, olha lá (mostrando os objetos na estante). Também gosto de brinquedos e gosto de jogar. Eu acho que sou artista por que eu sou criança. E se a gente perde a criança, você deixa de brincar. A criança não tem senso de ridículo. Ela brinca, ela pula, faz cambalhota. Que coisa mais ridícula, um coroa como eu que passa maquiagem na cara. Meio palhaço, levanta, faz gesto, pula e se comporta como um garotinho. Olha que maravilha! Eu posso fazer isso, porque eu sou artista! Se eu disser determinadas coisas no Beirute, as pessoas ficam de mal de mim, mas no palco, elas me aplaudem.

Esse jeito amigo-carinhoso ficou muito mais evidente depois que desligamos a câmera de vídeo e os gravadores. A conversa fluiu com muito mais intimidade e arriscaria afirmar que, até mesmo, envolvida em um tom de iniciada amizade. Porque enquanto ouvíamos e comentávamos outras histórias não registradas, Pedrancini adentrou a cozinha e nos serviu o chocolate quente acompanhado de deliciosos bolinhos que fez questão que compartilhássemos, pois havia comprado para nosso encontro. E foi esse matiz de intensidade na relação que estabelecemos antes, durante e depois da entrevista, com os usos de equipamentos de campo, que fizeram-me lembrar das discussões teóricas-metodológicas acerca da mediação de qualquer câmera, gravador ou papel durante o processo das entrevistas, assim como da relação entre pesquisador/a-pesquisado/a.

No que diz respeito aos equipamentos e ao resultado do conteúdo, lembro-me, neste momento, de dois textos específicos, um de Sinotti e outro de Nunes. Sinotti (2000, p. 39)) apresenta uma discussão sobre situações peculiares de pesquisas com fases de metodologias distintas ao usar gravador e vídeo com os mesmos sujeitos e o quanto o conteúdo desses relatos se transforma com o não uso dos equipamentos, percebendo que o momento da gravação em vídeo “reflete a especificidade do trabalho com a memória; especificidade que revela que cada entrevista – seja em vídeo ou em áudio – constitui-se em momento único, quando lembranças podem ou não ser rememoradas”. Nunes (2005, p. 91) já nos chama a atenção sobre a questão da alteração de comportamento da pessoa entrevistada num contexto de quebra de rotina, causado por uma entrevista, independente do instrumental técnico que se usa em campo, porque a entrevista, em si, “significa uma interferência no cotidiano do entrevistado”.

No que se refere à relação entre pesquisador/a-pesquisado/a, recorro novamente às reflexões de Nunes, quando enfatiza que uma entrevista

expressa uma interlocução e esta só é possível entre pessoas. Em outras palavras, o entrevistado não fala para o equipamento, mas para o pesquisador. No caso da entrevista videográfica, o entrevistado parece ter consciência ou desejo de – conforme pude observar –

torna as relações entre pesquisador-pesquisado mais simétricas. Quem entrevista, independente de seu aparato técnico-instrumental, está sempre numa relação de poder mais vantajosa do que aquele que é entrevistado. Isto é válido para qualquer contexto social. Seja o entrevistado oriundo das classes populares ou das elites ou pertencente aos pares do entrevistador, a assimetria existe. Assim, noto que as relações de poder podem artificializar muito mais as expressões orais e gestuais do entrevistado do que a presença da câmera. (NUNES, 2005, p.90, itálicos do autor).

Na minha interpretação, a análise sobre as relações de poder durante uma entrevista, feita por Nunes, dialoga claramente com a situação mostrada pela diferença entre Pedrancini que se movimentava na cozinha e Pedrancini sentado no sofá da sala. Em especial, quando nos lembramos que sendo Pedrancini um ator e diretor com mais de 30 anos de trajetória, a parafernália tecnológica não era o que mais se destacava em nossa relação, pois ele já tivera outras inúmeras experiências com filmagens, entrevistas e observações públicas quando apresentam seus espetáculos. É no raciocínio proposto por Nunes que noto o quanto a relação se mostrou simétrica entre nós na cozinha, porém isso não significa que Pedrancini pudesse se sentir avaliado e por isso em situação diferente da minha, porque, ao meu ver, é uma vã ilusão de alguns pesquisadores/as de campo acharem que o/a entrevistado/a também não o avalia durante todo o processo e/ou que passamos desapercebidos de suas percepções.

Mesmo assim, observei que lá, naquele ambiente de cheiros e sabores, Pedrancini partilhou outras fatias de seus momentos vividos sem a preocupação de registrar um perfil que ficaria para a história, como algo fixado para sempre. Foi lá, na cozinha, “aquele ‘compartimento quente’ onde a família se reúne, teatro de operação das ‘artes de fazer’ e das mais necessárias entre elas, ‘a arte de nutrir’” (MAYOL, 1994, p.207, aspas da autora), que tornei-me, assim, uma amiga cúmplice de suas confidências, de certo modo, uma guardiã de um legado, numa “certa relação de confiança mútua, de horizontalidade” (MAGALHÃES, 2001, p. 97).

A simplicidade permeou o dia-a-dia da vida de Pedrancini e de sua pequena família. Vários aspectos do cotidiano, em seu relato a respeito de sua mãe Doracy, seu pai Lourenço e sua irmã Diva demonstravam em sua fala um observar carinhoso pelas coisas simples e pelo seu sentimento em relação à região Centro-Oeste, e em especial por Goiânia, cidade onde estabeleceu laços afetivos desde a infância e onde sua mãe e irmã vivem até hoje – o pai faleceu quando Pedrancini tinha 11 anos de idade. O encanto pelo universo teatral também foi despertado lá, na capital de Goiás, quando ainda criança, com oito anos de idade, teve seu primeiro contato com a área artística:

escola e também a escola Instituto Araguaia. Eu me lembro que foi nesse Instituto que eu vi alguma coisa cênica pela primeira vez. Eu vi um ventríloquo e isso me deixou profundamente encantado, porque aquela coisa era mágica. Como é que aquele boneco falava? Aquele boneco e aquela coisa toda... simplesmente um homem sentado, fazendo algumas gestos e pronto. Eles iam nas escolas, nessa época e eu fiquei encantado!

Depois eu fui estudar no colégio Sagrado Coração de Maria, um colégio que, como o próprio nome diz, era católico. E lá houve um evento, uma peça de teatro onde eu ia fazer o Jesus Cristo num lugar onde haveria bichos - porque ia ter uma festa no céu. Eu não me lembro muito da história. Mas lá tinha uma festa no céu e Jesus Cristo recebia as aves... e eu ia fazer o Jesus Cristo. Mas eu não sei se a minha mãe não tinha o dinheiro ou não quis, por algum motivo qualquer, fazer a roupa de Jesus Cristo e eu acabei rebaixado a uma coruja com asa de cartolina (risos). E eu nunca esqueci disso. E eu me lembro, que eu só tinha uma falinha, mas a decorei e falei bonito, me lembro que fui aplaudido em cena e eu nunca me esqueci disso. Eu acho que eu tinha por volta de uns sete ou oito anos de idade. Mas eu só fui voltar ao teatro, quando eu tinha 19 anos de idade.

Foi nessa mesma época em que se encantava com ventríloquos e que experimentava o sabor de receber aplausos em cena (mesmo interpretando uma coruja com asas de cartolina), que Pedrancini também conheceu a cidade onde anos depois passaria a morar:

Eu cheguei em 1972. Mas eu vinha a Brasília desde 1958, em todas as férias. Meu hábito de tomar banho frio vem dessa época que eu vinha para Brasília. Meu pai me acordava às 5 horas da manhã, pra ficar bem esperto, tomar um banho frio e ir pra obra, porque tinha que pegar pão na padaria. Pegava dois sacos com oitenta pães. E eu pegava esses sacos (pegava um e depois o outro), tinha uns 8 anos e dava conta de fazer tudo direitinho - digo que foi a primeira vez que trabalhei. É... Meu pai pegava um punhado de litros de leite, que era uns vidrões de leite pra levar pra obra, pra peãozada comer. Eu, até hoje, lá em Goiânia, tenho uma caneca dessa época, que meu pai comprou mim.

sol ia saindo, aquela imensa bola grávida de luz. Cheia de si. Ela grávida de si mesma. Da própria luz. E eu achava isso maravilhoso, eu nunca esqueci disso e até hoje eu ainda gosto muito do nascer do sol... às vezes, acordo e o olho daqui. Me encantava as árvores, as coisas tortas das árvores, essa coisa que parecia que fazia força pra nascer. Me encantava isso. Me encantava a Cidade Livre que hoje é o Núcleo Bandeirante, que era um fervilhar de formigueiros. Gente pra lá, gente pra cá, aquela coisa de construir. Mais do que uma cidade, eu me lembro disso. Eu era menino, mas eu me lembro dessas coisa, se construía um projeto de povo, de nação... e eu tento me lembrar o nome do hotel que a gente ficava, que era um hotel de madeira, mas eu não consigo, por mais que me esforce... só não esqueço o nome do hotel do lado (risos), Normandy, com “Y” no final. Eu nunca esqueci disso (risos).

Ao perceber a beleza do cerrado, trabalhando ao lado do pai e viajando pelo Centro-Oeste, a criança tornou-se um jovem que adorava ler, escrever e ir ao teatro de vez em quando. Pensou em cursar engenharia para homenagear o pai, Lourenço, competente mestre de obras, que havia morrido de enfarto, em 1961. Mas descobriu que se fizesse isso seria muito infeliz, então optou por cultivar melhor seus hábitos preferidos, intensificando suas idas e vindas ao teatro e outros lugares afins. Assim, contou que num dia:

No Lyceu de Goiânia, em 1968, conheci um moço chamado Otávio Arantes que convidava as pessoas pra fazer teatro. Eu aceitei, comecei a fazer teatro com ele e resolvi vir pra Brasília, porque, naquela época, já se falava que aqui haveria um curso de teatro, na universidade.. Já se falava nisso naquela época. Eu vim para a UnB em 1972, fiquei um tempo, larguei a universidade por volta de 75, nem cheguei a trancar o curso de Comunicação e o tal curso de teatro não saiu. E eu não queria mais Comunicação. Vim porque passei no vestibular e pensava que o curso de cênicas fosse sair, mas nada. Na verdade, acabei participando no primeiro semestre que entrei, de um pequeno grupo de teatro na universidade dirigido pelo José Bonifácio Galvão, que só assinava J.B. Galvão.

E um dia eu tava lá no Departamento, na UnB, chegou o Diretor, Salomão Amorim, me chamou e falou assim: - “Humberto resolve o problema dessa moça aí”. E tinha uma moça lá que falou: - “Olha... eu

dirigir um grupo de teatro do SESC. O moço que dirigia, não vai mais dirigir e eu queria uma pessoa”. Eu que não tinha dirigido nada de teatro até então e nunca tinha nem pensado nisso, me vi nessa situação - Mas de uma certa forma eu já tinha exercido uma liderança, dentro de um grupo, do qual participava lá em Goiânia -. Mas eu precisava trabalhar e topei na hora. Corri atrás de livros, fui estudar, fui aprender. E no SESC eu fiquei de 1973 a 83, foram 10 anos.

Acho que o SESC foi a minha escola. Porque, de uma certa forma, com toda a caretice que era na época (com uma estrutura muito conservadora, mesmo tendo trabalhos fantásticos nesse Brasil, todo ele tem uma profunda estrutura conservadora. O comerciante é muito conservador, de um modo geral. E é ele quem controla o SESC), foi lá, através da orientação da Maria Duarte, que era a minha chefe, que eu tive a oportunidade de aprender e de errar. E eu estudei muito, fui um autodidata, não tinha outro caminho, tinha que estudar teatro. E hoje, eu acho que sou um homem que conhece profundamente a questão da interpretação.

Eu estudava, liderava, dirigia e orientava o grupo de teatro do SESC. Não produzia, como um produtor de espetáculos, mas nossa produção artística era intensa e sempre trabalhávamos em equipe. Sempre que eu criava um grupo, eu formava as equipes de trabalho. No que eu participava, eu sempre acreditei: eu não tenho que ser bom em tudo! É impossível! Acho que gênio tem o Leonardo da Vinci e o Michelangelo, que foram de tudo, né?! Agora, geralmente, as pessoas conseguem ser boas em alguma única coisa, por isso, gosto de grupos de pessoas trabalhando juntos.

E lá, a primeira peça que a gente montou, foi Prometeu Acorrentado - que era um texto do Ésquilo. Depois a gente fez outras peças... Todo o grupo criava os figurinos, confeccionava os objetos de cena, às vezes, naquilo que a gente tinha dificuldade, pedia uma ajuda ou outra. Fizemos A Cidade Que Não Tinha Rei. (...) Depois fizemos Capital da Esperança, que a gente ficou uns dois meses pesquisando histórias sobre Brasília, pra ao final contar cinco histórias diferentes sobre a cidade.

trocado o nome da peça - qual chamou de “As Lavadeiras de Taguatinga" -, é possível identificar que está se referindo, na verdade, a essa mesma peça:

Espetáculos marcantes de outros colegas que eu tenha assistido aqui em Brasília? Foi “Vidas Erradas”, do Fernando Villar, e “As Lavadeiras”, do Pedrancini. “As Lavadeiras de Taguatinga”, senão me engano... Foi um espetáculo que eu vi quando cheguei a Brasília e amei. Amei! Eu pedi pra ele um milhão de vezes esta peça, mas ele nunca me deu (risos). Era uma peça fantástica, porque falava da realidade de Brasília, da construção de Brasília. E era feita só por homens, como aquelas coisas de circo. Aquele coisa bem circense que você quase já não via na época. Depois também virou um filme, que tem umas caixas d’águas e tudo mais. É, foi um espetáculo bem marcante2.

Pedrancini conta que depois disso saiu para fazer teatro em várias cidades que hoje formam o Tocantins. Realizou esse trabalho por meio de uma Associação de Teatro do Médio Norte Goiano e recebeu, de seu amigo já falecido, o ator Ary Pára-ráios, o título de Bandeirante do Teatro, porque desbravava o teatro nessas regiões. Depois também foi para o Rio de Janeiro, mas não se adaptou por lá, porque passava por uma fase difícil na vida - com depressão – e resolveu voltar à Brasília. Nisso, conta que:

Já conhecia o Zé Regino, já tinha feito um espetáculo com ele há muitos anos atrás. E o Zé Regino me convidou pra participar do trabalho dele, naquilo que veio a se chamar ‘O Celeiro das Antas’ - que eu gosto muito desse nome. E com ele fiquei até 1992. Em 92 saímos os dois do grupo. E uns meses depois eu e mais dois criamos aquilo que veio a se chamar ‘O Hierofante’. No ‘Hierofante’ a gente fez aproximadamente dez peças. Fomos vistos por mais de um milhão de pessoas. Fizemos muitos espetáculos na rua. Nós oferecemos mais um de milhão de reais em valores de espetáculos pelas ruas e praças. Mas um dia resolvi sai de lá.

E agora eu estou... eu confesso pra você que ainda estou me achando... estou em processo de descoberta.