Como apresentado anteriormente, estes antecedentes da participação política podem ser divididos em dois níveis, o primeiro com estruturas trans-situacionais e relativamente estáveis do indivíduo, os valores e os fatores de personalidade, e o segundo composto por mecanismos atitudinais, avaliativos ou comparativos, que são utilizados pelo indivíduo para decidir como se posicionar no contexto político: percepção de eficácia interna e externa, predisposições políticas e interesse por política.
Antes de tratar das relações entre as variáveis antecedentes que serão utilizadas neste estudo, é importante ressaltar que os valores humanos básicos e os fatores de personalidade são constructos que se mostram próximos, mas se diferem em alguns aspectos. O primeiro deles é que enquanto os valores se relacionam diretamente ao conteúdo das metas do
indivíduo, os fatores de personalidade se relacionam a forma como o indivíduo busca alcançar estas metas. Como apresentado pela teoria de Schwartz (1994), os valores são conflitivos, ou seja, enquanto uns valores são priorizados, outros (opostos no diagrama) são preteridos, já os traços de personalidade não conflitam entre si. Enquanto os traços de personalidade são disposições relativamente inatas (Olver & Mooradian, 2003), os valores são aprendidos e refletem a adaptação da necessidade de um indivíduo ao que é considerado aceitável em uma sociedade (Rokeach, 1972).
Apesar destas diferenças, Parks e Guay (2009) ressaltam que os dois constructos também possuem muitas semelhanças e impactam conjuntamente na motivação do indivíduo. Por esse motivo se acredita que incluir os dois constructos neste estudo pode ampliar a compreensão do que leva o indivíduo a participar politicamente, ao diferenciar o impacto de um e outro constructo sobre a participação e ao investigar o impacto conjunto destes
Assim como existe uma relação entre os valores humanos básicos e os traços de personalidade do indivíduo, que se acredita impactar sobre a participação política, cada um destes constructos também possui relação com as demais variáveis antecedentes: eficácia interna e externa, predisposições políticas e interesse por política. Eficácia política é entendida como a percepção de competência e confiança no contexto político. Easton e Dennis (1967) estudaram a eficácia em crianças e descobriram que essas percepções são na realidade antecedente para a compreensão ou o conhecimento sobre política. Eles descobriram que as percepções de eficácia podem se manifestar em crianças ainda muito novas, antes mesmo do conhecimento político, da educação, ou mesmo da experiência. Este estudo sugere determinantes psicológicos mais arraigados para a eficácia. Uma possível explicação para os determinantes da eficácia poderia ser encontrado na personalidade e nos valores do indivíduo.
Schwartz (2014), ao estudar o ativismo político, identifica a relação entre alguns tipos motivacionais e eficácia, e que esta interação prediz significativamente o ativismo político. Quanto mais eficaz a pessoa se sente, mais as suas motivações baseadas em valores a levam a agir.
Gallego e Oberski (2012) ao estudar a relação entre personalidade e participação evidenciaram que alguns traços de personalidade afetam a percepção de eficácia. Estes resultados estão alinhados com o de outros estudos similares que também encontraram efeito da personalidade sobre a eficácia (Vecchione & Caprara 2009; Mondak & Halperin 2008).
As predisposições políticas, por sua vez, são sínteses cognitivas construídas pelo indivíduo sobre o ambiente político e representam suas preferências. Por representar
preferências pessoais, acredita-se que estas predisposições sejam influenciadas pelo contexto social em que o indivíduo está inserido, mas também guardem relação com os valores e os traços de personalidade do indivíduo.
Os valores são crenças que orientam os indivíduos em função de metas desejadas e servem como padrões ou critérios na seleção e avaliação de ações, políticas, pessoas e eventos, assim, Feldman (1988) defende que é com base nos valores que os indivíduos constroem suas preferências políticas. Estudos como o de Goren (2005) se alinham à ideia de que existe uma relação entre valores e predisposições políticas, mas não encontram evidências da relação de causa e efeito defendida por Feldman.
Quanto à personalidade, alguns autores, como Ie (2003), acreditam que a personalidade tem relação com as predisposições políticas do indivíduo. Em seu estudo, este autor encontra efeitos significativos de traços de personalidade em ideologias de direita e esquerda. No entanto, Verhulst, Eaves e Hatemi (2012) defende que a relação entre os traços de personalidade e as predisposições políticas é de correlação e não de causalidade.
Em seu trabalho sobre as origens do interesse por política, Shani (2009), surpreende ao verificar que o ambiente familiar doméstico tem apenas um efeito modesto no interesse por política. Percebe, então, que fatores como os recursos cognitivos e culturais, o sistema de crenças e os traços de personalidade da criança contribuem muito mais para explicar o interesse por política.
Apesar de poucos estudos terem focado na relação entre os valores, os traços de personalidade e o interesse por política, acredita-se que tanto o primeiro como o segundo possuem relação com esse interesse. Os valores se relacionam diretamente ao conteúdo das metas do indivíduo, e acredita-se que o interesse se dá a partir da proximidade de determinado assunto com essas metas. De forma similar, os traços de personalidade dizem de como os indivíduos buscam alcançar estas metas e por isso também possuem próxima relação com o interesse.
Conforme apresentado, verifica-se que as variáveis antecedentes deste estudo possuem diversas relações entre si, mas a literatura não é clara quanto à ordem destas relações.
Acredita-se que o modelo que será apresentado neste estudo pode contribuir para ampliar a compreensão destas relações bem como ampliar a compreensão de como elas interagem ao influenciar a participação política.