Apesar de termos evidenciado a necessidade e apresentado uma relação de intenções, durante a organização desta tese, a realidade nem sempre se mostra tão parceira e colaborativa.
Nesta pesquisa, fizemos uso dos seguintes instrumentos:
a) Questionário impresso contendo dados de perfil e funcionais: o questionário impresso tem como objetivo identificar as particularidades das professoras que compõem o grupo de estudo, identificando questões relacionadas ao
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perfil pessoal, formação e aqueles vinculados a sua atuação como professora. O questionário utilizado se encontra no Capitulo 8 – Anexo 2;
b) Gravação em vídeo das aulas das professoras com webcam: gravação em vídeo feita com câmera Webcam (pertencente ao pesquisador) fixa sobre tripé no fundo da sala e conectada a um laptop, com o intuito de não limitar o tamanho do arquivo gerado (material não disponível – protegido pela legislação do ECA);
c) Gravação em áudio das aulas das professoras com microfone de lapela: durante o processo de filmagem, o som fica distorcido por causa da movimentação da professora pela sala e pelo ruído causado pelos alunos e pelo ambiente escolar. Por esse motivo, foi utilizado um microfone de lapela (pertencente ao pesquisador) com a finalidade de que nenhum comentário ou informação prestada pela professora durante suas aulas deixasse de ser registrada (Anexo 7 – Gravação em áudio das aulas em CD);
d) Anotações do pesquisador: durante as aulas em que o pesquisador esteve presente, foram feitas anotações relacionadas ao trabalho executado pela professora, nas quais se procuraram identificar aspectos relacionados com o desenvolvimento e com a dinâmica da aula e dos alunos;
e) Entrevista pessoal: com o objetivo de buscar um processo de inferência e intersecção entre as entrevistas dadas pelas professoras, a entrevista foi seccionada em três partes: a primeira e a segunda parte da entrevista foram comuns a todas as professoras; e a terceira parte foi relacionada com a sua atuação durante as aulas observadas.
Esse modelo se fez necessário em virtude do pequeno número de entrevistas, dos diferentes conteúdos ofertados e de séries distintas.
Durante o processo de discussão e análise da 2ª etapa da pesquisa, as professoras serão identificadas pela ordem em que aconteceram as entrevistas, para que seja preservada a identidade perante os leitores. As entrevistas foram gravadas unicamente com microfone de lapela e não foram filmadas, a pedido das professoras (Anexo 6 – Transcrição das entrevistas).
82 4.2 Diversidade de Instrumentos
Neste tópico, vamos descrever os instrumentos e as técnicas utilizadas para a coleta e organização dos dados e para a elaboração das análises que serão enunciadas. Assim, procura-se explicitar como serão erguidos os pilares que buscam dar sustentação a este trabalho e, com isso, oferecer condições para uma melhor análise aos estudos que, por ventura, possam ser desenvolvidos por pesquisadores em Educação e Didática da Matemática e a todos aqueles que discordam das interpretações aqui apresentadas.
Os pesquisadores em Educação e Didática da Matemática, além de avaliar os instrumentos utilizados e o modo como ocorreu a elaboração das análises, podem também considerar os erros presentes neste trabalho. Desta maneira, aprimorar os métodos e técnicas aqui descritos e, a partir desse momento, isto permitirá fundamentar adequadamente suas concordâncias e discordâncias em relação às conclusões aqui assumidas.
Como anunciado anteriormente, para categorizar os dados coletados, será adotada a metodologia desenvolvida por Frederick Erickson, denominada “observação
participante interpretativa”.92 Essa metodologia, além de coerente com a teoria dos
mundos de Karl Popper e com a teoria das representações de Henri Lefebvre leva em conta “os significados imediatos e locais das ações, definidos do ponto de vista dos
atores”, corroborando com a teoria do pertencimento de Penin (ERICKSON, 1989, p.
197).
Para Erickson, realizar uma “observação participante interpretativa” significa “observar a natureza das aulas como meio social e culturalmente organizado”, onde se tenha “cuidados nas anotações do que ocorre no contexto” para que seja possível realizar uma “reflexão analítica” sobre elas (ERICKSON, 1989, p. 198-199).
Portanto, os dados desta pesquisa serão constituídos pela comparação de quatro principais tipos de fonte de dados, detalhados a seguir, segundo a proposta de Erickson, 1989, p. 262-272.
(1) Aquelas escritas pelo pesquisador – serão divididas, combinadas e aqui chamadas respectivamente de lembranças, apontamentos e notas de campo.
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As lembranças são registradas na memória do pesquisador, independentemente de sua vontade e constituem as recordações dos fatos vivenciados em campo. Essas variam de acordo com sua capacidade de memorizar os acontecimentos e com as alterações sofridas pelas relações afetivas que estabelece com os atores de campo pesquisados (diálogos com as professoras na sala dos professores, nos corredores da escola, na cantina, dentre outras, e consideradas informações importantes para o pesquisador).
Os apontamentos produzidos durante a observação das aulas são utilizados para evitar a predominância das lembranças. Em pesquisas, os apontamentos são escritos normalmente de forma abreviada e mnemônica em blocos de notas. Nesta pesquisa, eles serão registrados em um notebook, o que possibilita a solução de diversos problemas metodológicos a respeito dessas anotações, pois podem ser feitos sem que o olhar seja desviado da ação observada.
As notas de campo, registradas no notebook permitem acrescentar informações fora de sala de aula e com base em lembranças e apontamentos, a partir da complementação de um arquivo digital já existente. Portanto, não é necessário digitar novamente: apenas se inclui aquilo que não está presente nos apontamentos, mas está presente nas lembranças;
(2) Aquelas escritas pelas professoras – os registros de campo são informações organizadas separadamente das notas de campo sequenciais, adquiridas dentro e fora da sala de aula e que precisam ser consultadas durante as observações. São, por exemplo, questionários de pesquisa, entrevistas, cadernos de alunos e professores, livros didáticos e textos fotocopiados, cartazes e demais criações dos alunos, materiais distribuídos pelos coordenadores e diretores das escolas, dados sobre as escolas e projeto político pedagógico das escolas. (Anexo 2).
(3) A prática gravada em vídeo – utilização do notebook para a elaboração dos apontamentos e gravação de vídeo propiciam inúmeras vantagens (criação de uma base de dados integrada e indexada, por exemplo), contudo imobiliza o pesquisador num ponto da sala, pois, quando os apontamentos são feitos em blocos de notas, fica mais fácil a movimentação do pesquisador e o
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acompanhamento da professora na supervisão de trabalhos em grupo. Entretanto, a circulação do pesquisador, normalmente, atrapalha a aula, embora esse fato tenha um lado positivo: o importante é que o pesquisador não deixe de observar os detalhes dos acontecimentos da aula.
Por uma questão de ética profissional, as aulas serão gravadas somente quando as professoras estiverem absolutamente seguras de que o pesquisador possa fazê-lo. Dessa maneira, as professoras observadas podem, sempre que desejar solicitar sem qualquer justificativa, que o pesquisador não grave uma aula prestes a começar ou apague uma aula já gravada; assim como, os alunos serão informados de que ninguém além do pesquisador e a professora terão acesso às imagens.
Para além desse fato, direção, coordenação e orientação pedagógica da escola têm conhecimento de que terão acesso às gravações somente com a autorização das professoras observadas e somente depois que elas as vissem, dada a possibilidade de, num contexto privado, a professora ser constrangida a autorizar o acesso às gravações contra sua vontade. Será utilizado equipamento de captura de áudio nas professoras (microfone de lapela), para que os ruídos produzidos em sala de aula não tornem sua fala inaudível.
(4) O discurso sobre a prática gravado em vídeo – A utilização de trechos das gravações em vídeo das aulas observadas e selecionados pelo pesquisador serão mostrados com o intuito de orientar as entrevistas, que há pedido das professoras, será gravada apenas em áudio.
Nosso objetivo com essa diversidade de tipos de fonte de dados é potencializar a análise das situações de ensino, evitando que se confundam ou que se limitem as representações dos atores de campo com seus discursos ou com suas práticas.
Nesse sentido, Erickson nos alerta para o fato de que “a diversidade de
instrumentos procura evitar o recolhimento sintomático de uma variedade inadequada de manifestações, capazes de erroneamente respaldar algumas afirmações fundamentais do pesquisador”, constituindo-se em uma ameaça ao rigor e à validade desse tipo de
pesquisa (ERICKSON, 1989, p. 247-257).
Por esse motivo, faremos uso daquilo que Erickson classifica como “retrato
narrativo analítico”, composto por uma “citação direta” articulada a um “comentário
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criados pelo pesquisador e elaborados a partir dos dados dos apontamentos, notas de campo, dos registros e das gravações em vídeo referentes a um mesmo acontecimento”.
Entretanto os retratos narrativos analíticos não representam o acontecimento original e, por ser uma representação do pesquisador, podem ser vistos como uma “caricatura analítica”. Isto é, a representação feita sobre fatos, palavras e acontecimentos por causa de sua densidade, por vezes, detalhando uns e resumindo outros, outras vezes, destacando umas em detrimento de outras. Além disso, serão utilizadas as citações diretas, ou seja, transcrições literais de falas das professoras gravadas em vídeo ou áudio no decorrer de suas aulas ou durante as entrevistas (ERICKSON, 1985, p. 149-152).