Ao escolher minha história de vida como objeto de pesquisa, tornou-se necessário observar, também, a evolução do pensamento dos pesquisadores que inspiraram este trabalho.
Propus esta análise iniciando por Bourdieu, que enfatiza o grupo, a classe, tendo a sociedade como objeto de estudo, para em seguida verificar o trabalho de Bernard Lahire, que escolheu destacar o indivíduo, tomando, assim, um grupo pequeno de pessoas como seu objeto de estudo (NOGUEIRA, 2013). Partindo desses dois modelos de análise, chego ao meu próprio objeto de estudo, olhando para mim como agente de minha história e da constituição de um habitus docente.
São, desse modo, três leituras da realidade que enfocam a sociedade como um todo, os indivíduos e uma subjetividade em particular. Partir dessa análise conjunta significa explorar os limites das teorias, seu poder explicativo quando aplicada a objetos de diferentes tamanhos. De fato, há uma transformação progressiva das teorias para dar conta de diversos objetos de estudo; e é isso que torna este trabalho vivo e interessante. O próprio Bourdieu começa dedicando-se aos grandes aglomerados (classes) e termina explorando sua própria autobiografia (BOURDIEU, 2005).
Assim, nesta pesquisa, procurei me expor com desprendimento, desvelando o que é relevante no diálogo com várias estruturas sociais. Desse modo, revelo também que a constituição de meu habitus docente musical não é a
[...] réplica de uma única estrutura social, na medida em que é um conjunto dinâmico de disposições sobrepostas em camadas que grava, armazena e prolonga a influência dos diversos ambientes sucessivamente encontrados na vida de uma só
pessoa (WACQUANT, 2007, p.68).
De tal modo, a tese revela os principais aspectos que me fizeram alcançar a posição dominante em uma estrutura tendo como origem uma classe social dominada. Ao olhar para minha história e analisá-la, procurei apropriar-me de mim mesmo e de minha trajetória como objeto de estudo. Nesse caso, as autobiografias correspondem à necessidade de síntese daqueles agentes que alcançam um ponto relevante de suas vidas, olham para trás, desvelando nesse processo a história social do autor.
Nesse sentido, procurei examinar de início o estado do campo no momento em que nele ingressei, como também o porquê e de que maneira me tornei violinista e professor de violino. Procurei, além disso, assimilar como outros professores ou profissionais ajudaram- me a perceber a vida profissional.
Para compreender essa ascensão desde minha infância/juventude e clarificar minhas escolhas, minhas tomadas de posição, foi preciso saber também qual posição objetiva eu ocupava no campo específico que agi, quais as disputas e quais os entendimentos subjacentes que caracterizavam o campo.
Ao apresentar o estado do campo na década de 1970, rememoro a fala inicial de Bourdieu (2005, p. 40) no seu Esboço de auto-análise: “Compreender é primeiro compreender o campo com o qual e contra o qual cada um se fez”. Desse modo, procuro compreender como fui, enquanto agente, inserindo-me nesse espaço. Para isso, foi importante apresentar os confrontos e as afinidades, assim como minhas posições diante das diferentes concepções teóricas de ensino e de prática musical vivenciadas naquele período.
Minha percepção aponta para alguns momentos de destaque em minha formação, três de minhas principais experiências institucionais, talvez as mais importantes do ponto de vista individual: uma realizada com o professor Jaffé, no Sesi; a outra, na UFPB, que se completa na UECE; e a última, no mestrado em Práticas Interpretativas de Violino na UFPB.
Essas experiências, cuja motivação e cujo interesse me foram inculcados inicialmente por minha mãe, promoveram uma transformação daquele menino jogador de bola na rua em um professor universitário. De tal modo, obtenho o entendimento que fazer esse inventário de minha trajetória adquire, assim, o mesmo papel descrito por Sergio Miceli no prefácio do livro citado, ao afirmar que Bourdieu se saiu bem na “empreitada de fazer justiça a si mesmo, àquele menino provinciano, àquele rapaz amargurado, àquele normalista inseguro quanto ao rumo a tomar [...]”. (BOURDIEU, 2005, p. 17). Logo, considero que a análise da história que me tornou quem sou, semelhante à narrativa de Bourdieu, constitui-se em “fazer sociologia, como se fosse um romance de formação” (BOURDIEU, 2005, p. 17).
Nesse itinerário, o bairro Carlito Pamplona é minha comunidade de referência. Procuro relatar o complexo processo de desnaturalização que passei para poder objetivar aquele mundo tão familiar. Desafio metodológico, emocional e subjetivo de confrontação com o universo primeiro que me formou e do qual precisei me distanciar.
Buscando uma clareza expositiva e um poder explicativo, esta pesquisa foi organizada de acordo com uma lógica analítica que parte de uma dimensão mais objetiva (a descrição do estado do campo musical intelectual cearense no momento de meu ingresso) para chegar ao mais subjetivo (minhas experiências de família, escola, deslocamentos durante minha infância e juventude). Essa operação procura apresentar minha intimidade (origem, sotaque, modo de ser, trejeitos etc.) como elemento para análise sociológica.
O que procurei, então, foi compreender a formação das disposições intelectuais, afetivas, motoras, cognitivas e ético-políticas de um violinista e professor de violino em uma universidade pública federal, associada às posições ocupadas no campo, desde o ingresso até o momento da análise. Também busquei entender a maneira como essa posição evoluiu no tempo e está associada às minhas tomadas de posição técnica, estética, teórica e ético-política.
De certo modo, as informações que a autoanálise explicita a respeito do agente são similares àquelas que todos nós teríamos apreciado encontrar quando estudávamos os artistas do passado ou mesmo os contemporâneos, questionando como aquele jovem estudante se tornou o artista renomado que conhecemos. E mudando o que deve ser mudado em termos teóricos e metodológicos, isto é, o mesmo que Norbert Elias faz com Mozart (ELIAS, 1995), Tia DeNora faz com Beethoven (DENORA, 1995), Paulo R. Guérios procede com Villa- Lobos (GUÉRIOS, 2011), Elba Ramalho, com Luiz Gonzaga (RAMALHO, 2000) e Pedro Rogerio, com Roger Rogerio (ROGERIO, 2011). E, em especial, o que Bourdieu faz com ele
mesmo quando adere à autobiografia, cujo trabalho foi inspiração para esta escrita (BOURDIEU, 2005).
Além disso, considerar minha origem social humilde remete-me também aos estudos de Bernard Lahire. Sou um daqueles casos de sucesso improvável, discutidos por ele e, como tal, a negação do processo de violência simbólica que imprime no habitus a inevitabilidade dos destinos sociais. Ao lembrar Loic Wacquant, posso afirmar que minha trajetória foi a exceção às leis de transmissão de capital cultural que Bourdieu havia estabelecido. Esse reconhecimento o próprio Bourdieu o faz ao defrontar-se com um habitus clivado, referindo-se a sua experiência dual, expressa em uma elevada consagração e uma baixa extração social, movida por tensões e contradições.
Essa similaridade é atestada no fato de que, sendo agente do campo musical, sou ao mesmo tempo filho de um modesto motorista e de uma cabeleireira. Tive, portanto, todas as dificuldades derivadas dessa origem social que se traduziram na ausência de oportunidades educacionais adequadas, de acesso a bens culturais refinados e experiências enriquecedoras proporcionados pelo capital econômico. Entr etanto, minha trajetória escolar e as experiências formadoras (Projeto Jaffé, viagens e participações em festivais de música erudita no Rio de Janeiro e em São Paulo, os concertos, os contatos com músicos de destaque internacional, além de um presente especial – meu primeiro violino) foram determinantes e me conduziram ao mundo dos herdeiros da aristocracia escolar na universidade, lugar dos eleitos, que reunia os melhores estudantes, no melhor curso para a formação de músicos violinistas.
Da observação desses movimentos, esboçados nesses trajetos, emerge esta análise. Compreendo, então, que minha trajetória perpassa por vários ciclos e, concomitantemente, por muitos pontos de convergência. Visualizo, desse modo, essa caminhada em três etapas. Na primeira, curso o ensino básico, vivencio a “experiência Jaffé” e os festivais de música que me encaminham para o bacharelado em Violino. O retorno a Fortaleza e a necessidade de experiências no campo da docência me encaminham, por sua vez, para um curso de licenciatura em Música. Na segunda etapa, ao procurar ingressar no campo da docência, realizo um novo/velho deslocamento para João Pessoa, dessa vez para cursar um mestrado em Práticas Interpretativas. Finalmente, na terceira etapa, submeto-me a um concurso público, buscando conquistar uma vaga no ensino superior. Passo, assim, a ocupar a função de professor da UFCA e, em seguida , participo do
processo seletivo para o doutorado e sou aceito no programa. Mediante esse delineamento, percebo que minha trajetória é construída em forma de um espiral ascendente que me permite ver cada uma dessas elaborações com maior clareza e em relação umas às outras. Por conseguinte, posso representar meu processo formativo significado pela configuração de uma espiral, figurativamente esboçada a seguir (Figura 22).
Figura 22 – Processo formativo
Fonte: Elaboração própria.
A leitura dessa imagem aplica-se à análise que realizo na perspectiva da mobilidade feita dentro do campo. Primeiro, sofro o impacto do mundo nas primeiras experiências vividas nos contextos familiar e escolar-musical. Passo a ter outra visão do campo docente musical adquirindo uma perspectiva de ocupar a função de professor universitário, ao cursar uma licenciatura em Música, para ocupar, finalmente, a posição de professor do ensino superior e chegar a concluir o doutorado, adquirindo, desse modo, uma posição autônoma dentro do campo. A despeito de todas as dificuldades, ambivalências e contradições, segui uma trajetória adequada a promover uma carreira daqueles que se destinam a um lugar no mundo da alta intelectualidade.
Essa trajetória evoca uma primeira interpretação que se retrata no desajuste entre minha origem social subordinada e um destino social dominante, entre a aquisição de um habitus primário subordinado no ambiente familiar e a gradual substituição por um habitus
Projeto Jaffé – Habitus
cultural dominante através da educação e da disciplina. Refletir sobre essas questões possibilita compreender os fundamentos de minhas tomadas de posição, dos capitais escolares acumulados e das posições profissionais alcançadas.
Esse contexto reflete com clareza a tensão entre origem social e financeira nas camadas dominadas e o destino nos estratos sociais dominantes. Essa tensão cria a ambiguidade de minhas relações com a futura instituição escolar (bacharelado em Violino). Isso porque havia em mim um sentimento de insegurança acerca de meu futuro musical, e o fato de não possuir o instrumento (violino) naquele momento corroborava essa inquietação. Minhas próprias expectativas de desempenho para alcançar a consagração de músico profissional de orquestra, da música de concerto, também passam a ser questionadas pelas expectativas de sucesso no campo musical a ser conquistado.
Outro aspecto da ambiguidade com o mundo escolar manifesta-se nas opiniões contrastantes de meus pais a respeito da viabilidade da música como alternativa profissional, acentuando, assim, o conflito entre ser bancário ou advogado versus ser músico.
Elaborar este texto, confrontando essas memórias em um contexto analítico, aflora a forte emoção de rememorar esses fatos e demonstra o quanto esse tema é rico em significados e de uma complexidade que o torna efetivamente uma análise sociológica da trajetória desse agente que sou eu. E é compreensível que, ao me aproximar da máxima consagração, na defesa de tese, minhas emoções estejam em seu auge. O menino que jogava bola no meio da rua agora empunha a batuta do maestro e ocupa a cadeira do professor que forma outros professores para empoderar meninos que jogam bola em alguma rua. Assim, o habitus primário sofre uma modificação singular para se tornar o habitus professoral do ensino superior.
Minha trajetória confirma a teoria empregada para descrevê-la. Meu habitus deslocado naquele espaço social possibilita uma visão distanciada daquela realidade que não era em nada natural para minhas disposições. Entendo, assim, que aqueles que ocupam posições frágeis no interior do campo têm mais oportunidade de tomarem consciência das desigualdades socioculturais pelo fato de se verem obrigados a se vigiar e a corrigir constantemente suas condutas, por conta de um habitus gerador de comportamentos pouco adaptados ou deslocados e que deve ser substituído por outro, capaz de dar conta dos novos desafios.
Esse ponto da teoria é fundamental, porque ilumina a questão das possibilidades de modificar a trajetória através da escola e, com isso, escapar da reprodução mecânica das condições iniciais de existência. Minha história, especificamente, demonstra que existe algo além da reprodução. Embora improvável, o sucesso é possível através de mecanismos de escolarização abertos a todos.
O que distancia das concepções mais estruturalistas por dar espaço às contingências é também o que possibilita uma existência como a minha. Essa existência que negou meu destino provável, permite-me, enquanto agente ou pesquisador, por um lado, perceber a lógica da reprodução das desigualdades, mas também postular a possibilidade de inadaptação entre o habitus e os espaços sociais, a possibilidade de deslocamentos que podem desorganizar as estruturas.
Nesse trajeto, a transformação do habitus teria decorrido de uma percepção desse agente a respeito das condições de vida nos estratos dominantes? Que tipo de percepção eu, enquanto agente em constituição, teria a respeito dos processos aos quais estava me submetendo? Poderia a influência materna ser baseada em algum cálculo racional? Teríamos nós (agente e mãe) alguma certeza tácita da possibilidade de modificação das condições de vida através da educação?
Certamente que eu poderia escapar da determinação social de meu destino através de estratégias escolares, considerando que elas têm um grande poder explicativo. No entanto, elas não explicam tudo. Há que se considerar também outras possibilidades, como a motivação materna, meu próprio esforço e dedicação reconhecidos por meus professores, o estímulo incrementado pelas viagens, o exemplo de outros agentes consagrados no campo e a generosidade de um professor digno desse título.
A convergência desses aspectos encontra sua culminância em 1979, no Festival de Teresópolis, ocasião em que tenho um encontro com o professor Santino Parpinelli, de quem recebo o incentivo mais importante, na forma de um violino francês, além de uma carta de recomendação a meus pais e um convite para continuar meus estudos no Rio de Janeiro: documentos e modos de consagração e instituição no campo. O impacto causado por esse evento, em meu interior e no ambiente de minha família, é enorme.
Esse efeito é consolidado no ano seguinte, no Festival de Campos do Jordão, para onde tive a oportunidade de viajar para participar do festival com a ajuda de uma bolsa de estudos. Por essa ocasião, toquei na orquestra do festival sob a regência do maestro Eleazar de
Carvalho e tive a felicidade de assistir pessoalmente à performance do violinista Salvatore Accardo, além de muitas outras experiências formadoras que reforçaram minha decisão de seguir no campo musical. Essa decisão é cheia de consequências de longo prazo.
De tal modo, no contexto dessas experiências, o habitus vai sendo elaborado, enquanto matriz do pensamento que orienta as práticas do agente e como princípio ordenador das decisões que o sujeito toma sobre seu destino, sem que este se dê conta do que o guiou em suas escolhas. Esse processo é esclarecido por Bourdieu (1994, p. 80-81) na seguinte citação:
As experiências [...] se integram na unidade de uma biografia sistemática que se organiza a partir da situação originária de classe, experimentada num tipo determinado de estrutura familiar. Desde que a história do indivíduo nunca é mais do que uma certa especificação da história coletiva de seu grupo ou de sua classe, podemos ver no sistema de disposições individuais variantes estruturais do habitus de grupo ou de classe, sistematicamente organizadas nas próprias diferenças que as separam e onde se exprimem as diferenças entre as trajetórias e as posições dentro ou fora da classe.
Assim, o novo habitus está sendo incorporado e vai se consolidar e se tornar a lógica prática da vida cotidiana do futuro professor e regente. E vai apresentar-se na reprodução, de forma notavelmente fiel, do habitus violinístico recebido do professor Jaffé e dos outros que o sucederam; foi incorporado como disposição durável. Esta manifesta-se de forma explícita na infinidade de detalhes que a prática do violino impõe ao aprendiz. Seria ocioso detalhar aqui todos os aspectos desse habitus,bastando considerar os quatro séculos de consolidação do instrumento e a ampla literatura que especifica nos mínimos detalhes cada ação para perceber o quanto de Jaffé vive no agente Marco Antonio. Mas mesmo essa reprodução não é total ou mecânica.
Retomando o momento da aquisição do meu primeiro violino, pondero a respeito dessa circunstância. Entendo agora que a consciência dos limites financeiros de minha origem me levou a uma providência que se mostrou crucial: pedir um instrumento. Esse foi um momento decisivo em minha vida, pois propunha superar uma dificuldade importante, a ausência de condições para obtê-lo, e lançar-me na busca de conquistá-lo através de uma coragem humilde.
Para músicos oriundos das classes populares, a aquisição de um instrumento é um fator crítico no sucesso dos estudos e na vida profissional. Quantos jovens motivados desistem da música exatamente por falta de um instrumento disponível para estudar em casa aproveitando os momentos livres! Além disso, o instrumento sintetiza uma dimensão quase
mágica da experiência musical: ele é a materialização de toda uma cultura musical, de uma história, de uma tecnologia; mantê-lo implica em cuidados especiais, como limpeza, afinação, guarda, proteção e transporte.
Todos esses aspectos permeiam a construção do habitus violinista, que tem uma dimensão física, orgânica, muito importante. O instrumento é incorporado ao músico e ambos passam a se adaptar, ajustar-se um ao outro. É um ajuste durável, talvez para o resto da vida de ambos. A posição do instrumento encaixado e seguro entre o ombro e o queixo e o ajuste de queixeira e ombreira são detalhes mínimos, mas de uma enorme intimidade e relevância para a prática cotidiana. Implicam uma aprendizagem muscular que vai ser decisiva para o bom desempenho do uso do instrumento. Depois, vem a mão direita e o arco, que implicam todo um conjunto de ajustes, força, controle muscular e a criação de uma memória corporal do ajuste entre o lado direito e o esquerdo do corpo para conseguir o resultado desejado.
A cada início de atividade, a montagem, a resina, a afinação, a respiração, os exercícios preparatórios, a escolha do programa do dia, a montagem da estante e das partituras, as repetições, o estudo detalhado das dificuldades técnicas de cada peça, tudo isso significa incorporar, colocar dentro do corpo, fazer-se um com o instrumento. É tudo isso que significa adquirir o habitus violinístico: cognição, afeto, ética e motricidade mediando o contato com um instrumento para criar algo de novo, belo e significativo.
A incorporação do habitus se faz pela repetição dessas rotinas e pelo estudo e pela memorização do controle muscular e do repertório, num processo que exige milhares de horas. Implica também na adesão a um referencial de valores, preferências estéticas, saberes e habilidades físicas específicas do campo violinístico.
Essa aquisição do habitus violinístico depende do contexto sociocultural onde essa atividade faça sentido. Pensar sobre isso significa discutir a inserção da música na divisão social do trabalho num tempo e espaço determinados. A vida em um mundo marcado por disparidades, injustiças e pela necessidade de responder ativamente a esses desafios foi o cenário que experimentei desde muito cedo no ambiente familiar, na escola, no mercado de trabalho, entre os amigos e nas viagens. Foram tensões estruturantes de meu pensamento e uma chave para a compreensão das opções que definiram minha trajetória enquanto violinista.
Nesse contexto de elaborações de minha subjetividade, questionava sob diversos aspectos a situação que me envolvia. Não obstante a esses questionamentos fazerem parte de minha constituição, enquanto sujeito desses acontecimentos, não representavam o sentido das
indagações que hoje faço ao me deparar com um olhar analítico acerca desses processos. Diante disso, a reflexão que faço hoje perfaz o significado de refletir acerca das ideias que