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Durante minhas vivências no curso de Música da UFCA, observei que as disciplinas de práticas instrumentais Violino/Viola e Violoncelo/Contrabaixo poderiam cultivar um exercício coletivo em um mesmo ambiente. Desse modo, em 2011, procurei

dialogar com o professor Claudio Mappa, responsável pela disciplina de

Violoncelo/Contrabaixo, para juntos alcançarmos esse objetivo.

Essa união proporcionou também a percepção dos alunos para outros timbres diferentes de seus instrumentos. Assim, os discentes dos instrumentos com timbres graves ouvem os instrumentos de seu próprio naipe e, simultaneamente, escutam os timbres agudos dos outros instrumentos, assim como os alunos que tocam instrumentos de timbres agudos escutam ao mesmo tempo os instrumentos de timbres graves. Essa massa sonora que compõe uma orquestra de cordas tem um vasto repertório para ser tocado, explorando a técnica musical desses instrumentos em vários níveis.

Essa visão é resultado de minhas vivências no Sesi nos anos 1970. Nasci musicalmente dentro de uma orquestra. O professor Jaffé utilizou as semelhanças entre os instrumentos para iniciar o processo de ensino e aprendizagem dos instrumentos da família das cordas friccionadas. Com efeito, os aprendizes de violino, viola, violoncelo e contrabaixo poderiam praticar em uma mesma sala de aula.

No caso dos alunos da UFCA, os de Violino/Viola, como também os da Prática Instrumental Violoncelo/Contrabaixo, têm o início do aprendizado musical com o professor da disciplina. Essas vivências com o instrumento se expandiram desde o aprendizado inicial com o professor Jaffé, perpassando também pela experiência na graduação/bacharelado no instrumento, nos conhecimentos adquiridos em orquestras profissionais e amadoras, no mestrado em Práticas Interpretativas na Subárea Violino, entre outros. O professor de violoncelo/contrabaixo tem o diploma em bacharelado em contrabaixo, músico profissional com experiências na música de concerto, música popular e jazz.

Assim, a primeira música foi um arranjo de “Brilha, brilha, estrelinha” pelo violinista e pedagogo Shinichi Suzuki, em seu método para quarteto de cordas. O professor Claudio Mappa fez o arranjo de uma peça do repertório popular brasileiro, considerando o

nível técnico dos alunos. Fiz o arranjo de “Asa Branca”, de Luiz Gonzaga, de forma que esse repertório dialogasse também com a região do Cariri.

Esses primeiros passos deram forte impulso para a prática instrumental de cordas friccionadas. Foi possível perceber a alegria dos alunos em praticarem o repertório proposto. Essa nova orquestra foi convidada para tocar na abertura da Semana de Biblioteconomia, e o público desse evento, além de prestigiar a apresentação, ficou impressionado com o desenvolvimento musical dos alunos.

Em 2012, a Revista da UFC fez uma reportagem sobre os novos cursos implantados através do Reuni. Naquela edição, encontramos uma menção sobre a Orquestra da UFC – Cariri (posteriormente o nome mudou para Orquestra da UFCA), como mostra a Figura 20.

Figura 20 – Orquestra da UFCA

Fonte: Revista da UFC.

Destaca-se, também, nesse projeto de extensão, a inclusão de alguns alunos instrumentistas da sociedade caririense que, após a experiência na orquestra, fizeram a prova do Enem e, com a aprovação, matricularam-se no curso.

No Cariri, a UFCA emerge apresentando nova configuração de universidade. Ela se manifesta exibindo, em vez de três, quatro pilares, ou seja, ensino, pesquisa, extensão e cultura. Assim, a orquestra tornou-se um projeto interinstitucional da Pró-Reitoria de Cultura, que proporcionou para os alunos dez bolsas.

Em 2013, a orquestra recebeu o convite para participar do I Festival de Orquestras Eurochestries, na cidade de Sobral. Apresentei aos alunos a necessidade de participação em festivais para o fortalecimento do aprendizado na performance musical. Nesse festival, foi possível conviver com regentes, músicos, professores do Brasil e de outros países, fomentando a elaboração do conhecimento musical em várias perspectivas.

Ressalto a visão dos alunos iniciantes, que tiveram dificuldades de tocar o repertório proposto no festival. Eles destacaram o ritmo acelerado, no interior da orquestra, para decifrar os sinais da partitura e transformá-los em som por meio do instrumento. A Figura 21 apresenta a orquestra no referido festival, que causou forte impacto nos jovens estudantes da UFCA.

Figura 21 – Orquestra da UFCA no I Festival de Orquestras Eurochestries

Fonte: Arquivo pessoal.

Nos dias de hoje, a Orquestra da UFCA proporciona ao público do Cariri, como também ao de outras cidades e estados circunvizinhos, uma apreciação musical mediada pela prática instrumental. O grupo é solicitado para tocar na abertura de vários congressos. Esse conjunto de aspectos, discutidos neste capítulo, demonstra que o trabalho realizado na UFCA tem proporcionado aos jovens caririenses o acesso aos códigos musicais.

A adoção, em minhas aulas de violino/viola, do ensino coletivo como metodologia adequada para iniciação musical de instrumentistas, como também a criação da

orquestra da UFCA, que proporciona aos alunos uma vivência musical através de um repertório eclético composto por diversos estilos, têm procurado atender à carência de professores nessa área e de escolas de músicas na região para atender a uma grande demanda. Esse cenário de poucos investimentos e incentivos na área de educação musical é discutido também pela professora Liu Man Ying (2007, p. 7) em sua dissertação de mestrado, quando diz:

A presente dissertação parte da reflexão sobre a importância dos métodos de ensino coletivo de instrumentos de cordas na educação musical do Brasil, tendo em vista a precária situação em que se encontra essa área no país, onde a falta de um ensino musical de base se faz presente, pois as escolas de música e conservatório são, em sua maioria, de caráter privado e inacessíveis para a grande parte da população que não possui condições econômicas para frequentar tais instituições. As poucas escolas de música existentes e projetos não governamentais que empregam a educação musical como meio de integração social são insuficientes para atender à enorme demanda.

Assim, compreendo que minha formação inicial nos espaços do Sesi, na década de 1970, minhas vivências em festivais, o aprendizado experimentado nos cursos de bacharelado e de licenciatura em Música e no mestrado oportunizaram-me uma maturidade musical que me tem permitido contribuir na formação de outros educadores musicais na região do Cariri. Embora reconheça que essa região possui grande demanda de pessoas que necessitam experimentar uma vivência musical, minha escolha em utilizar o método coletivo e a criação e manutenção da orquestra deverão também multiplicar esses educadores a partir de minha experiência. Espero que, em poucos anos, tenhamos diversos educadores, músicos e professores proporcionando uma arte musical para os moradores dessa região, diminuindo, então, a carência de profissionais na área.

5 AUTOANÁLISE DA TRAJETÓRIA DO AGENTE

Neste capítulo, sintetizo uma autoanálise de minha trajetória de formação procurando apresentar uma compreensão dos aspectos formativos que me encaminharam à posição que ocupo nos dias de hoje, ou seja, professor de uma universidade federal. Assim, apresento minha caminhada dialogando com o livro Esboço de auto-análise, de Pierre Bourdieu, por entender que me fornece meios para avaliar minha constituição como agente do campo musical. Essa perspectiva demonstra os resultados de minhas relações com as estruturas sociais.

Descrevo também a incorporação de um habitus violinístico-docente, fundamentado em um capital de mobilidade que tem início no ambiente familiar chegando até o momento da escrita deste trabalho. Finalizo o capítulo destacando, a partir de minha história de vida, os momentos de transição, de evolução, conhecidos como “momentos charneira”, marcadores de minha progressão social.