Neste trabalho, denomino capital de mobilidade as disposições incorporadas que me conduziram, durante minha trajetória, a múltiplos espaços de experiências singulares. Trata-se, portanto, de destacar os deslocamentos que me oportunizaram a aquisição de saberes, conhecimentos de outras culturas, oportunidades, aquisições de determinados capitais, entre outros aspectos, que contribuíram para minha inserção no campo da música, tanto na performance quanto na docência.
O início desse processo acontece com os constantes deslocamentos efetuados por minha família. Meus pais não tinham condições de adquirir uma casa própria e, consequentemente, moraram em diversos bairros na cidade de Fortaleza. Durante a escrita deste trabalho, minha memória aponta para os seguintes bairros, cronologicamente: Joaquim Távora, Carlito Pamplona, Aerolândia, Monte Castelo, Pici, João XXIII e Carlito Pamplona (novamente). Essas mudanças evidenciam um habitus familiar perpassado pelo contexto das necessidades materiais. Quando morava no bairro João XXIII (periferia), com idade entre nove e dez anos, realizava um deslocamento distante até a Escola Pública Estadual Juvenal Galeno (no centro da cidade). Quando minha mãe me matriculou nessa escola, eu ainda morava no bairro Carlito Pamplona. Por causa da mudança de bairro e procurando não interromper o processo escolar, meus pais mantiveram-me em uma escola que se encontrava distante do bairro onde eu morava. Desse modo, entende-se que a mudança de bairro nem sempre favorece a uma mudança de escola. Diante dessa circunstância, necessitava enfrentar um longo percurso para ir à escola usando transporte público, ônibus de linha, para as idas e vindas. O longo percurso onerava também o orçamento da família; entretanto, para meus pais, o mais importante era não interromper meus estudos escolares. Percebe-se que, gradativamente, eu internalizava uma independência para agir em locais distintos daquele onde eu morava. Entendo que, com nove anos de idade, eu já praticava um exercício de autonomia.
Quando fixamos residência, por um determinado tempo, no Carlito Pamplona, durante meus treze anos, foi o momento em que mantive o primeiro contato com o Sesi no bairro Barra do Ceará. Nesse período, cursava o ginásio (hoje ensino fundamental) em uma escola no mesmo bairro. Esse percurso, entre os dois bairros, eu fazia todos os dias e foi esse deslocamento que fez parte do meu cotidiano e me permitiu adentrar ao campo musical.
Ao ingressar na orquestra do professor Jaffé, no Sesi da Barra do Ceará, foram-me oportunizados outros deslocamentos, dessa vez não foi entre bairros e, sim, entre cidades que estão a uma distância de aproximadamente 3.000 quilômetros. A primeira viagem foi para a cidade de Brasília, em 1976, onde estava sendo criado outro centro de atividades para aplicação do Método Jaffé, no Sesi em Taguatinga, Distrito Federal. Ao sairmos de Brasília, fomos para o Rio de Janeiro nos apresentar na abertura do I Encontro de Professores de Ensino Coletivo. Em janeiro de 1978, fomos ao Festival de Música de Teresópolis, e em julho desse mesmo ano, ao Festival de Música de Campos do Jordão. Em 1979, fui mais uma vez ao Festival de Música de Teresópolis. Em todos esses festivais, fui como membro da orquestra do Sesi; entretanto, em julho de 1980, fui ao Festival de Campos do Jordão como instrumentista.
Ao olhar para minha história, é possível perceber que esses eventos me encaminharam para outros deslocamentos, alguns momentâneos, como viagens para o sul do país, outros, embora menos distantes, muito significativos. Nesse sentido, é interessante dialogar com a tese do professor Pedro Rogerio (2011, p. 29), quando expressa que um deslocamento físico implica em deslocamento sociocultural:
[...] o efeito do deslocamento geográfico e de uma inserção em um ambiente social
diferente aconteceu dentro de um contexto que – entre outros fatores analisados – já
tem um papel marcante nos traços formativos desses sujeitos. O momento de uma nova experiência certamente estava habilitando-os para a tomada de decisão de enfrentar ou não outro centro urbano em um contexto de referenciais outros e ainda mais distantes de sua origem social. Importante é perceber que as mobilidades espacial e social estão imbricadas.
Após cada viagem realizada, eu não retornava o mesmo. O encontro com outras culturas, outros professores e outros alunos ia modificando meu interior, minha visão do mundo musical, como também de vida. Nessa perspectiva, o que foi proporcionado por esses deslocamentos ia sutilmente produzindo um habitus que me habilitava a fazer escolhas dentro do campo musical e que posteriormente me levou a cursar a graduação em Música na UFPB, em João Pessoa. Embora os atos de deslocamentos gerem no indivíduo incertezas,
inseguranças, ou conflitos, no meu caso, esses movimentos realizados pela família durante meus primeiros doze anos de vida me proporcionaram conviver de forma tranquila com essa mudança de ambiente. Por conseguinte, tanto as viagens para os festivais como para João Pessoa não foram tão impactantes para meu interior, pois eu havia internalizado certa habilidade com esses processos. Assim, essas viagens motivavam-me a prosseguir e me acrescentavam muito sob vários aspectos. Eu não era mais o mesmo estudante de Música. Meu interior ia se transformando através de cada movimento realizado pelas viagens. Essa movimentação pelo espaço físico vai alimentar as etapas posteriores e favorecer a conclusão de meus estudos escolares.
A mobilidade para cidades no sudeste do país também me proporcionou a aquisição de uma perspectiva de carreira violinística que encontrou culminância com a aquisição de um violino e na visualização de um paradigma vivo através da apresentação performática daquele que na época era um dos melhores violinistas do mundo, Salvatore Accardo. Assistir ao vivo um violinista como Accardo é uma experiência que não consigo explicar, porque diversos aspectos que presenciamos e aprendemos não estão no domínio da explicação cognitiva. É algo específico que acontece no campo da música instrumental e do canto. Contudo, foi a convivência com o professor Jaffé, no espaço do Sesi, e o aprendizado com outros professores nos festivais que me permitiram apreciar aquela apresentação musical de forma tão significativa. Pode-se dizer que a conexão entre essas duas experiências foi de um ganho cognitivo “imensurável”.
A aquisição do violino ocorreu em outra viagem para Teresópolis, em 1979. O fato extraordinário é ter ganhado um violino que me “condena” a ser violinista o resto de minha vida. É importante notar que experiências de generosidade como essa costumam acontecer no campo da música, pelo fato de que há uma dimensão afetiva que se desenvolve nessas relações entre o mentor e o aprendiz, expressas em formas de incentivo.
Assim, essas duas experiências são deveras significativas e posso considerá-las como a porta de entrada ao campo da Música. Uma apresentação paradigmática e um presente emblemático/paradigmático.
As próximas viagens são mais curtas do ponto de vista físico, mas envolvem um maior tempo e a abertura de um espaço de múltiplas e expressivas experiências. Vou cursar a graduação na UFPB, em João Pessoa, que se completa no curso de licenciatura em Música na UECE, em Fortaleza. Ao retornar de João Pessoa para Fortaleza, não sou mais o mesmo
instrumentista. Tinha incorporado um habitus violinista. Cursei um bacharelado, como também fui violinista de orquestra sinfônica.
Nos anos 2000, fui convidado para lecionar violino/viola em uma escola pública na periferia de Fortaleza. Desse modo, com a experiência adquirida em minha trajetória, volto a transitar entre bairros, mas nesse novo movimento não sou o mesmo. Minha prática cultural musical violinística estava ligada a meu grau de instrução, submetida ao volume global de capital acumulado, qualificada pelos diplomas escolares e associada à quantidade de horas de estudo que foi impelida por um habitus primário, ou seja, socialização familiar. Desse modo, a posse desses capitais me permitia adentrar o campo da docência.
Ao me confrontar com o ensino de violino nesse ambiente descrito, percebi que minha prática cultural não dialogava com a realidade local. As crianças e os jovens que frequentavam minhas aulas eram oriundos de classe social humilde e não tinham nenhuma familiaridade com os instrumentos. Através da convivência com eles, pude perceber que não existia uma perspectiva de futuro diferente daquela proporcionada pela convivência do bairro. Não havia, para a grande maioria, um interesse em aprender o instrumento.
A dialética entre essas duas vertentes encaminhou-me para o retorno à universidade no curso de licenciatura em Música. Hoje, ao olhar para meu passado, percebo que minha trajetória é cíclica, ou seja, minha formação é perpassada por eventos similares, mas com níveis diferentes.
Essas experiências acumuladas, que culminaram até a UECE, conduziram-me até o mestrado na UFPB. Dessa vez, apresento-me no mestrado da UFPB com fortes e significativas experiências profissionais como músico. Esse somatório levou-me a concorrer à vaga de docente na UFCA e, ainda nesse movimento, sou admitido no doutorado da Faced/UFC.
A minha inserção no campo da docência na UFCA permite-me realizar outro deslocamento. Dessa vez, não sou mais a criança que realiza deslocamentos submetidos pelos pais. Estou realizando deslocamentos e submetendo minha esposa e filhas a realizar esses movimentos.
Assim, esse deslocamento para o Cariri e o ato de assumir uma posição legitimada no campo são pontos relevantes e um ápice dos esforços empreendidos em todos os deslocamentos anteriores.