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3. Forskningsmetode

3.3 Forskningskvalitet

3.3.1 Validitet

Diante das divergências conceituais e teóricas analisadas durante o período, presentes nos estudos da Expedição Thayer e da Comissão Geológica do Império, notou-se que a ciência não era um conhecimento pronto e rotulado, do qual o cientista lançava mão, em uma ou outra variante, por conta de uma escolha unívoca. Assim como Ludwik Fleck (1979; Cf. PARREIRAS, 2006; CONDÉ, 2005), acredita-se, contrariamente, que os indivíduos, nesse caso os cientistas oitocentistas, criavam, desenvolviam e incorporavam conceitos e teorias em um contexto particular. Eles não eram “puros sujeitos do conhecimento”, mas eram também resultados de conjunturas, de um ambiente cultural, de itinerários formativos, ou seja, das relações que estabeleciam com a sociedade, partilhando com ela suas atividades. Da mesma forma, as imagens mantinham esse vínculo estreito com a produção cultural do período e traduziam, em certa medida, as múltiplas formas de consciência e visões de mundo de seus realizadores.

Como foi analisado ao longo desta dissertação, durante a segunda metade do século XIX, existia a crença na capacidade mimética e imparcial da fotografia, transformada em mecanismo de apreensão do real. As ciências, ansiosas por um método objetivo, elegeram o aparelho fotográfico como ferramenta indispensável nas expedições naturalistas e expansionistas. Vários estudiosos, como Thomas Huxley e John Lamprey, prestaram-se ao desafio de criar critérios visuais de cientificidade, no anseio de colocar a imagem fotográfica a serviço das pesquisas antropológicas e dos Museus de História Natural. A fotografia seduzia seus observadores pelo poder informativo, ao narrar cenários, personagens e acontecimentos de uma determinada cultura material, e ainda era dotada de uma imensa variabilidade plástica, materializada por seus diferentes formatos e múltiplos enquadramentos. Entretanto, tratava-se igualmente de um fragmento congelado e datado, que, como os desenhos e pinturas, pressupunha um jogo de inclusão e exclusão, de escolhas do autor. Portanto, a fotografia não apenas constituía uma representação do real, como também integrava um sistema pautado por códigos oriundos da cultura que os produzia. Não obstante o discurso fotográfico de fidelidade e neutralidade, as imagens fotográficas acabavam por manifestar os objetivos, valores e determinadas compreensões de ciência e de mundo.

Nos retratos antropológicos da Expedição Thayer e da Comissão Geológica, apesar dos negros, indígenas e mestiços terem sido identificados sob o critério da alteridade, do distanciamento e da diferenciação cultural, e suas representações terem sido construídas

dentro dos pressupostos visuais da Antropologia Física, as imagens apresentavam composições estéticas distintas. Louis Agassiz, em uma reação contrária ao darwinismo, desejava enquadrar os “tipos humanos” tropicais em seu esquema racial, para comprovar a existência de inúmeros “centros de criação” e dos diferentes níveis intelectuais e morais de cada “raça”. Agassiz, por sua formação científica e pelo ambiente cultural em que vivia, defendia uma visão hierárquica do mundo, em que os indivíduos que não apresentassem características e valores próximos aos ideais da cultura ocidental caucasiana eram estendidos como inferiores. Suas imagens foram criadas visando registrar as diferenças fisionômicas e somáticas de cada espécie, elementos entendidos como provas da diversidade das raças humanas. A escolha dos modelos, do tipo de enquadramento, das poses, e a rigidez da imagem, demonstravam que o cientista não desejava captar a população brasileira próxima aos costumes europeus, mas sim como representantes do Outro, de grupos “bárbaros” e “atrasados”. Seu relato de viagem e suas observações científicas reforçavam ainda mais esta atitude, ao explorarem analogias entre negros e símios, que as fotografias visavam comprovar. August Stahl e Walter Hunnewell não possuíam muita liberdade criativa e sua função restringia-se em traduzir em termos visuais os desníveis de cada grupo humano. Embora o naturalista suíço tenha se manifestado contrário à escravidão, seus estudos comportavam concepções depreciativas sobre tudo que fugisse à lógica de sua cultura e de seus ideais, revelando, nas fotografias, uma visão etnocêntrica em relação aos habitantes sul-americanos.

No caso brasileiro, o indígena, durante a segunda metade do século XIX, era entendido, principalmente, sob a ótica do Darwinismo social e do evolucionismo, marcado por uma percepção nem sempre benevolente. As “raças” em estágio de desenvolvimento inferior poderiam representar um obstáculo ao progresso nacional, questão que preocupava os círculos políticos e acadêmicos do segundo reinado. Por outro lado, havia a percepção romântica, pautada na idealização do nativo, que como salientou Lilia Schwarcz (1998), era representado como uma “realeza tropicalizada” do passado, atendendo às aspirações da elite que se indagava sobre sua identidade e rejeitava o negro e o português como modelos de representação. Nesse sentido, o indígena lido como sujeito rousseauniano, do “bom selvagem”, suscetível à cristianização e à civilização, agradava os dirigentes imperiais, e encobria os conflitos que a política indigenista causava. Contudo, a necessidade de se reexaminar o passado com critérios científicos, sobretudo a partir da década de 1870, denunciou a inexatidão das imagens românticas, criadas, ao entender das ciências da época, na completa imaginação dos artistas, e sem nenhum respaldo empírico.

A Comissão Geológica do Império se apresentou como uma missão apta a fornecer uma visualidade do nativo sob um ângulo diferente, capaz de amenizar a tensão entre posturas tão divergentes e fundamentar uma percepção “verdadeiramente científica” do assunto. O Botocudo, cada vez mais distante dos centros urbanos imperiais, foi apresentado como objeto de curiosidade e, ao mesmo tempo, como tema importante para o desenvolvimento das ciências no país. O Brasil, entendido como uma grande nação nos trópicos, ainda possuía em sua biodiversidade alguns exemplos dos “seres primitivos da América”, alvos da atenção de antropólogos e outros intelectuais interessados no desvendamento do mistério da origem humana. Por conseguinte, Marc Ferrez, ao representar o índio brasileiro, não de forma violenta, mas contrabalançando elementos idílicos e científicos, conseguiu desconstruir a relação de atraso, fundamentando-o em um passado remoto. Ferrez não se desfez da imagem romântica dos grandes guerreiros, ou da noção de primitivismo, mas apresentou-os igualmente como indivíduos dominados pela racionalidade científica, não mais representando um empecilho ao desenvolvimento da nação. Os dados fisionômicos e somáticos do indígena eram interpretados como informações valiosas sobre a natureza e o passado americano, principalmente em um período de reavaliação das teorias científicas. Esta imagem do indígena foi divulgada nos meios de comunicação, em exposição de arte e de ciência e comercializada nos principais estabelecimentos fotográficos da época. De acordo com Maria Inez Turazzi (2000), as fotografias de Marc Ferrez ajudaram a conformar, durantes os anos subsequentes a sua produção, a ideia de um país rico, de uma natureza tropical singular – na qual se inseria o elemento indígena –, capaz de fornecer saberes e recursos para a construção de uma grande nação nos trópicos.

Diante da contraposição de imagens produzidas durante a Expedição Thayer e a Comissão Geológica, notou-se que a imagem visual não se tratava do espelho ou duplicação do real, como desejavam as ciências oitocentistas, mas apresentava-se como uma linguagem nova, nem verdadeira, nem falsa. Seus discursos sinalizavam lógicas diferenciadas de organização e pensamento, de ordenação de espaços sociais e de mediação dos tempos culturais, tornando-se uma representação do mundo que variava de acordo com os códigos culturais e científicos de quem a produzia. Tentou-se demonstrar ao longo desta pesquisa como as fotografias, vinculadas às ciências oitocentistas, se adequaram aos objetivos e estratégias de cada missão. Elas participaram ativamente da construção de sentidos ao criar representações visuais das fantasias e anseios das sociedades as quais pertenciam, justificando seus pontos de vista. Espera-se, assim, contribuir para um novo entendimento

de História da Ciência, que, seguindo a tendência inaugurada pela revisão epistemológica da Historiografia Cultural, ampliou suas fontes, de forma a oferecer um novo olhar sobre a prática e significados científicos ao longo do século XIX.