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4 Verdsettelsesmodeller

4.4 Valg av verdsettelsesmetode

Associada à ação do cartógrafo de distribuir cópias de um mesmo mapa, emergiria uma discussão muito presente no nosso mundo contemporâneo: a relação entre o original, a cópia e o simulacro. Ainda que atual, essa questão não é nova. A filosofia antiga já a abordava, tendo Platão desenvolvido em seus escritos uma ampla reflexão sobre o tema. A breve abordagem sobre as noções de original, cópia e simulacro que doravante se desenvolverá nesse texto se fundamentará nas considerações de Deleuze (1974), que retoma o posicionamento platônico para, seguindo a tarefa filosófica proposta por Nietzsche, revertê-lo.

Deleuze (1974, p. 259) repara que a real motivação de Platão, ao elaborar a sua Teoria das Ideias, seria a de estabelecer uma hierarquia entre o original e a cópia, o modelo e o simulacro. Essa ordem seria fundada pela separação que o filósofo antigo institui entre o mundo inteligível, considerado como original, e o mundo sensível, tomado como representação. Com essa divisão, cria-se uma instância superior, que seria tomada como modelo, e outra inferior, que realizaria a imitação. Esse espelhamento de uma realidade em relação a outra garantiria, então, a ordem do mundo, visto que, embora imperfeito, o universo inferior poderia ser feito à imagem e à semelhança do superior, avaliado como sem defeitos.

No desenrolar do seu pensamento, o filósofo francês destaca que o objetivo de Platão não seria apenas o de fazer a distinção entre o mundo das essências e o das aparências, mas criar nesse último uma diferença entre cópia e simulacro, explicitando ainda mais o nível das hierarquias:

E é preciso distinguir, sem dúvida, todo um conjunto de graus, toda uma hierarquia, nesta participação eletiva: não haveria um possuidor em terceiro lugar, em quarto etc.; até o infinito de uma degradação, até àquele que não possui mais do que um simulacro, uma miragem, ele próprio miragem e simulacro? (DELEUZE, 1974, p. 261).

Para Platão, o mundo inferior, sendo formado por representações, admitiria o que ele chama de “justo pretendente”, a cópia bem fundada, que emergiria à

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imagem e à semelhança do original. Por outro lado, ele rechaçaria os falsos pretendentes, os simulacros, que seriam considerados imitações elaboradas a partir de uma dissimilitude, de um desvio, uma perversão. Em outros termos, o propósito seria o de distinguir as boas e as más cópias, degredando essas últimas ao esquecimento. Todavia, em o Sofista, precisamente em seu fim, ao confundir- se com a imagem de Sócrates, não podendo mais distinguir-se dele, Platão colocaria em questão as noções que ele próprio busca hierarquizar, deixando em aberto a seguinte questão: quem ou o que é o original, a cópia e o simulacro? Afirma Deleuze que, com essa atitude, é o próprio Platão o primeiro a indicar a reversão do platonismo. A diferença entre a coisa mesma e as suas imagens passa a ser discutível, como o é para os sofistas, que elaboram a noção de cópia com pretensões de ser um igual ao modelo:

Os sofistas, ao contrário de Platão,levaram o simulacro às últimas conseqüências. Ora, se a questão é o nível de imitação, o que poderia ocorrer se a imagem – para além de somente despreocupar-se com seu grau de semelhança e evitar a submissão à Ideia –, se ela passasse, ardilosamente, a buscá-lo de uma maneira tão correta e precisa que mal fosse possível elaborar a distinção entre ela e o modelo? (SALES, 2006, p. 3).

Considerando a interrogação que encerra a citação supracitada, buscaremos explicar a atitude de Teodorico de Antióquia quando resolve multiplicar por meio da cópia um mesmo mapa e distribuí-lo entre vários homens. O que gostaríamos de salientar é que o personagem pode ter agido se utilizando de um pensamento análogo ao que deseja fazer a reversão do platonismo. Colocando-se em prática esse desejo, afirmam-se os direitos do simulacro, que deixa de ser avaliado como uma cópia menor, com status de degradada, passando a encerrar em si uma potência positiva. Nessa interpretação, a própria noção de um mapa original do qual se produziram cópias estaria para sempre perdida. Em seu lugar, emerge uma série de simulacros, todos originais, ou, ao contrário, falsos: “O mesmo e o semelhante não têm mais por essência senão ser simulados, isto é, exprimir o funcionamento do simulacro.” (DELEUZE, 1974, p. 268).

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A astúcia do cartógrafo pode estar justamente no fato de distribuir mapas que, em lugar de serem apenas cópias, são antes cartografias simuladas, que, por serem assim consideradas, não se subordinam ao regime hierarquizante do modelo, não se submetem à lógica da semelhança, mas imprimem uma diferença não-redutível ao modelo do mesmo. Discutimos no capítulo anterior as formas de produção do cartógrafo nelidiano. Vimos como ele se utiliza de uma série de artifícios que extrapolam o campo da ciência para escrever a localização das terras que imagina. Dessa maneira, avaliando o comportamento de Antióquia, ao longo de sua existência, seria bastante coerente levantarmos a suposição de que ele tenha fabricado cópias de um mesmo manuscrito utilizando-se da potência do falso, tida como a força do simulacro, já que aquela sempre esteve presente em suas produções.

Poderíamos afirmar, inclusive, que para ele o mundo não passaria de uma simulação. Nas obras de Teodorico de Antióquia, a reversão do platonismo ocorreria pela valorização da cópia menor, que o filósofo antigo tomava como sem importância. Ao confeccionar cópias de um mesmo mapa empregando em sua prática a potência do falso, ele pode estar dando vida a uma cartografia monstruosa, não domesticada, que emerge como outro modelo e modelo do outro. Logo, a noção de cópia poderia ter outra significação diferente da referida por Platão. Enquanto para o filósofo antigo a cópia é sempre o semelhante, aquilo que se escreve como o “Mesmo”, para o cartógrafo da Antióquia, ela pode ter um ponto de vista diferencial, um “devir-louco” e ilimitado, que Deleuze destaca como pertencente ao simulacro. Nesse sentido, os mapas que parecem copiados poderiam até ter uma impressão de semelhança, resultando daí dizerem ser cópias uns dos outros, mas essa sensação de similitude seria própria do simulacro:

O simulacro implica grandes dimensões, profundidades e distâncias que o observador não pode dominar. É porque não as domina que ele experimenta uma impressão de semelhança. O simulacro inclui em si o ponto de vista diferencial; o observador faz parte do próprio simulacro, que se transforma e se deforma com seu ponto de vista (DELEUZE, 1974, p. 264).

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A distinção, a dessemelhança, nasceria de um observador externo, de um intérprete que acaba tomando parte no próprio simulacro. Logo, esse leitor teria o poder de transformar e deformar com o seu ponto de vista o simulacro, que passaria a existir na dependência dele. No contexto do romance, caberia a Johanus fazer a interpretação dessa representação geográfica tornada simulada. Entretanto, a leitura do mapa de Antióquia, cuja partilha recebe a acusação de ter sido feita como uma mercadoria, não se realiza como uma tarefa simples. Tomados como instrumentos de comunicação, nos quais se apresentam as informações que servem de guia para se chegar a uma localidade, os mapas são uma linguagem visual alegórica composta por um conjunto de índices que devem ser decodificados.

Assim, diante do convite para ser o comandante da armada, Johanus medita, avalia os riscos da empreitada, os perigos de estar à frente de uma expedição que visa adentrar em terras das quais se dizem coisas extraordinárias, fabulosas, terras inexistentes, talvez. Essa territorialidade poderia ser fruto de mais uma artimanha do cartógrafo, distribuída no mapa-simulacro como forma de trapaça: “- Ainda que eu erre, vocês me aceitam? Não tinha tanto a perder. Desde pequeno era de ninguém. Sem razões de fixar-se. – Então, está bem. Breve ingressaremos nestas terras, concluiu Johanus.”(PIÑON, 1997, p. 96). Ponderando sobre os estratagemas de conquista, Johanus viaja no tempo a fim de sondar a mente de Teodorico de Antióquia. Nessa excursão, imagina-o elaborando as suas cartografias, associando ao saber científico o conhecimento de natureza misteriosa, como se escrevesse mapas apócrifos:

Teodorico de Antióquia fascinava-o. Imaginou-o servindo a reis, vivendo em uma ilha, sempre cercado de cortesãos. Mágicos vinham para lhe fornecer espinhos à sua fantasia. Ou se apropriarem dos poderes daquele homem bebendo em taça de estanho. [...] Os abismos de Teodorico, a que Johanus dava posse ao administrar projetos de conquista. (PINON, 1997, p. 97).

Para o personagem andarilho, o chamamento dos soldados representa

mais uma experiência que Johanus se mostra disposto a viver. Encontrando as terras escritas no mapa do cartógrafo, talvez tenha ele uma oportunidade de, pela

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primeira vez, se fixar, achar motivos para criar laços, fazendo morada em uma comunidade. Na avaliação da empreitada que lhe surge em forma de proposta, ele calcula o erro, concluindo que, para quem tem pouco ou nada a perder, valeria a pena viver a aventura da descoberta. O viajante, contudo, parece ter a certeza da obtenção do êxito, prevendo para logo a entrada na localidade desejada, como se soubesse que, para um filho da estrada, a condução de homens até aquela territorialidade distante seria uma tarefa vitoriosa. Nesse sentido, é possível afirmar que, à frente desse exército, Johanus retoma o que Maffesoli (2001, p. 42) denomina a “pulsão do pioneiro” à procura do seu Eldorado, como se fosse ele mesmo o primeiro descobridor daquelas terras.

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