KAPITTEL 2. HISTORIEFREMSTILLING OG TRADISJON
2.5 V IKINGENE
No presente corpus, procurei analisar as obras escolhidas de acordo com o modelo multimodal proposto por O‘Toole (1994). Dessa forma, a análise está organizada em três etapas que contemplam três perspectivas:
A função Modal na qual observo como a combinação dos recursos semióticos captura a atenção e constrói o envolvimento com o espectador criando uma relação com a tela ou levando-o a interagir com a ambiência da cena na tela.
A função Representacional na qual procuro examinar os elementos que constroem a narrativa visual e que sentidos se destacam como mais evidentes nos sistemas de escolhas de sentidos potenciais;
A função Composicional na qual procuro descrever como a composição se organiza na sintaxe dos elementos da linguagem pictórica e das estratégias de composição. Nesse estágio, procuro descrever o uso dos elementos de linguagem visual e sua articulação entre si para formar efeitos de sentidos e procurei descrever que efeitos de sentidos são construídos nas relações entre as categorias episódio, figura e membro e sua relação com o conjunto da imagem. Também procurei observar e descrever o uso de estratégias de composição de forma a evidenciar aspectos na composição que o autor buscou criar. A seguir, busco analisar os efeitos de sentidos que são produzidos como resultados dessas estratégias compositivas. Nesse estágio procuro encontrar as evidências para responder com que finalidade o autor constituiu tais efeitos pictóricos partindo das estratégias usadas e evidenciar as análises feitas nas funções: modal e representacional.
Isso irá se intercalando e enquanto analisar é um trabalho profundo de prospecção das possibilidades de análise contidas em cada tela, o trabalho de desenvolvimento do texto oferecerá um momento de pausa e pequeno distanciamento para ir amarrando e relacionando
partes de um todo. Esse processo permite explicitar aspectos que não se fazem muito faiscantes quando se apresentam, mas desde sua tímida aparição oferecem potencial de desenvolvimento na articulação com outros aspectos já mais explicitados em outra modalidade.
Além de me basear nos conceitos da GDV, procurei me apropriar de alguns conceitos do campo da Percepção Visual, tais como os elementos de linguagem visual e as estratégias composicionais. Esses conceitos, usados por Kandinsky (1996), Arnheim (1974) Dondis (2007) complementaram as categorias da GDV empregadas para fazer uma descrição dos elementos presentes nas telas analisadas para depois analisá-los em sua função em cada categoria da TSSM de O‘Toole (1994) (obra, episódio, figura, membro). Depois da descrição dos elementos presentes na composição, analisei a sua relação entre as categorias, a sua relação entre as funções, e sua relação com o conjunto, a gestalt, da obra. As categorias serão descritas no item 4.10.1.1 Categorias de Análise do Corpus Pictórico.
Dessa forma, ficarão evidenciados todos os elementos da tela e como eles trabalham em conjunto para criar as funções modal, representacional e composicional. Além de ficar evidenciado, ficará sistematizado, permitindo verificar como eles afetam a categoria em que se encontram como eles dialogam com outros elementos e que tipo de relações eles criam: de contraste ou de harmonia, de ligação ou de ruptura, de recorrência ou de imprevisibilidade. Essas relações poderão explicitar como é construída a retórica visual.
A análise buscará explicitar a) Os elementos;
b) Como eles se relacionam entre os da mesma categoria;
c) Como eles se relacionam com os elementos de outra categoria; d) Como eles se relacionam com o todo da obra;
e) Que tipos de relações ele fazem com outros elementos e quais os efeitos produzidos;
f) Que estratégias composicionais eles concorrem para contribuir e construir; quantas estratégias são evidenciáveis;
g) Fazer uma pequena quantificação da ocorrência dos elementos, dos tipos de relação que eles estabelecem, das estratégias que eles corroboram para construir.
4.10.1.1 Categorias usadas na análise do corpus visual
Nesta sessão desenvolverei preliminarmente as categorias usadas para analisar as telas de Van Gogh que integram o corpus pictórico desta pesquisa. No entanto, novas categorias podem se revelar essenciais à medida que a análise revelar sua importância para a compreensão do discurso pictórico de van Gogh.
a) Ritmo – O uso do ritmo está muito evidenciado no movimento direcional e
constante de padrões visuais que sugerem repetição. O ritmo pode ser usado para sugerir direção, movimento e textura, por exemplo.
b) Movimento – É percebido com o uso articulado de diferentes recursos
semióticos como o ritmo, a direção, que juntos podem criar um ou vários efeitos de sentidos perceptíveis como um efeito visual de ‗movimento‘.
c) Direção ou Vetor – A articulação de diferentes recursos de linguagem ajudam a
conduzir o olhar por caminhos visuais e dar ênfase para alguns aspectos da composição.
d) Textura – A textura pode ser evidenciada de forma tátil ou ocular. Ela se
conecta com uma dimensão mais sensorial e usa as qualidades da materialidade do texto visual para comunicar uma função modal de envolvimento com o espectador com a cena representada.
e) Enquadramento – De acordo com Kress e Van Leeuwen (1996, p. 124, tradução
nossa) o enquadramento comunica a distância social do espectador com a imagem:
Existe uma segunda dimensão para os sentidos interativos das imagens, relacionados com o enquadramento, com a escolha entre o close-up, meia distância ou longa distância, e assim por diante. Assim como os produtores de imagem, ao representar os participantes humanos ou quase-humanos, devem escolher representa-los tão próximos ou distantes do espectador – e isso se aplica com a representação de objetos também. E, como a escolha entre a ‗oferta‘ e a ‗demanda‘, a escolha da distância pode sugerir diferentes relações entre os participantes representados e os espectadores. 31
f) Perspectiva – É um recurso semiótico muito central na obra de van Gogh. Kress e
Van Leeuwen (1996, p. 129, tradução nossa) descrevem o enquadramento:
Produzir uma imagem envolve não apenas a escolha entre a ‗oferta‘ e ‗demanda‘ e a seleção de um certo tamanho do enquadramento, mas também, e ao mesmo tempo, a seleção do ângulo, um ‗ponto de vista‘, e isso implica na possibilidade de expressar atitudes subjetivas em direção aos participantes representados, humanos e outros. Ao dizer ‗atitudes subjetivas‘, nós não queremos dizer que essas atitudes são sempre
31 Tradução livre da autora. ―There is a second dimension to the interative meanings of images, related to the 1size of frame‘, to the choice between close-up, médium shot and long shot, and so on. Just as image-producers, in depicting human or quasi-human participants, must choose to depict them as close to or far away from the viewer – and this applies to the depiction of objects also. And, like the choice between the ‗offer‘ and the ‗demand‘, the choice of distance can suggest different relations between represented participants and viewers.‖ (KRESS; VAN LEEUWEN, 1996, p.124).
individuais e únicas. Nós vamos ver que elas são frequentemente atitudes socialmente determinadas. Mas elas são sempre codificadas como se elas fossem subjetivas, individuais e únicas. O sistema da perspectiva que realiza ‗atitude‘ foi desenvolvido na Renascença, um período no qual a individualidade e a subjetividade se tornaram valores sociais importantes e isso se desenvolveu precisamente para permitir que as imagens se tornassem informadas pelos pontos de vista subjetivos.32
g) Profundidade – o uso do plano da frente e o plano de fundo para representar a
percepção de profundidade em uma cena.
h) Distorção do Ponto de Vista – Van Gogh distorcia a perspectiva e criava um
efeito de distorção do ponto de vista do espectador, levando à um efeito de sentido de estranhamento, de aguçamento com a obra e ao mesmo tempo de distanciamento pela dificuldade de se indentificar com a distorção, que remetia à associação a quem pintou a tela.
i) Cor – A cor é um dos aspectos mais centrais no sistema semiótico construído por
van Gogh, e atende desde a função Modal de envolvimento até a função Representacional na medida em que van Gogh instituiu um código próprio de significados particulares que as cores simbolizavam. A escala de modulação de cores pode ser construída por meio de cores ricamente texturizadas que podem ser percebidas como fiéis aos detalhes e à textura da cor real.
j) Transparência – Refere-se à forma de ser transparente na execução de sua pintura
deixando transparecer suas experiências e emoções subjetivas.
k) Inacabamento – Está relacionado com um tipo de abordagem pictórica que
privilegia a imprecisão, a dissipação dos contornos, a despreocupação com o refinamento e os retoques.
l) Incompletude – A incompletude traduz-se pelo reconhecimento da
impossibilidade de manifestação da perfeição da natureza por meio da arte e pela busca em direção a um ideal de perfeição que ele chama de desejo de infinito. Esta busca estética está presente em seu discurso artístico, tanto nas telas quanto em suas cartas.
32 Tradução livre da autora. ―Producing an image involves not only the choice between ‗offer‘ and ‗demand‘ and the selection of a certain size of frame, but also, and at the same time, the selection of an angle, a ‗point of view‘, and this implies the possibility of expressing subjective attitudes towards represented participants, human or otherwise. By saying ‗subjective attitudes‘, we do not mean that these attitudes are always individual and unique. We will see that they are often socially determined attitudes. But they are always encoded as though they were subjective, individual and unique. The system of perspective which realizes ‗attitude‘ was developed in the Renaissance, a period in which individuality and subjectivity became important social values, and it developed precisely to allow images to become informed by subjective points of view.‖ (KRESS; VAN LEEUWEN, 1996, p.129).
m) Intertextualidade e Interdiscursividade – Para Fairclough (2003), por meio da intertextualidade são atualizados no texto, os elementos de outros textos de forma direta como a citação ou indireta como a paráfrase por exemplo. Para Fairclough (2001), o discurso é permeado pela interdiscursividade e estabelece uma relação multiforme com outros discursos. A interdiscursividade e a intertextualidade são possibilidades de transformação por meio de ressignificações e mudanças na prática discursiva. Com base na observação das ocorrências, inferimos que a obra de van Gogh está fortemente construída na interdiscursividade e na intertextualidade que ele fazia com autores com quem ele compartilhava um universo de sentidos e visões.
n) Associações Metafóricas - Na perspectiva da semiótica social, os elementos da
linguagem visual carregam significados potenciais que se manifestam por meio de metáforas potenciais ou associações metafóricas. Esses significados potenciais se tornam mais específicos quando manifestados nos contextos culturais e nos contextos de situação. Van Gogh foi um dos pioneiros do uso semiótico da cor para representar sua experiência subjetiva. Para conseguir que a cor comunicasse diretamente ideias e sentimentos ele recorreu à metáfora experiencial e aos processos relacionais atributivos como veículo.
o) Saliência – Cria ênfase pelo uso conjugado de vários modos construindo um
discurso visual coeso e dinâmico que conduz o olhar pelos campos da composição sem perder o sentido de unidade.
p) Rima Visual - Contribui para evidenciar a forma como a unidade e a coesão são
construídas entre os elementos da composição tais como as semelhanças de tonalidades, formas ou, inclusive, temas. O sentido da rima visual que está fortemente amarrado pela conversa entre os modos que se reforçam mutuamente na construção da narrativa visual.
q) Gesto Pictórico – é o uso que van Gogh dá para o pincel, a forma como ele toca a
tela com o pincel guarda uma série de caracteríscas que são muito particulares da poética de van Gogh. Com ela ele construiu um sistema semiótico muito central na sua obra.
r) Limiar Artístico – é um conceito produzido por esta pesquisa para designar uma instância de produção discursiva que se situa entre o potencial e o manifesto no processo de produção de sentidos.
s) Modalidade – Para Kress e Van Leeuwen (2006) a modalidade é definida como o uso de recursos semióticos que atribuem o grau de fidedignidade, ou seja, expressam quão verdadeiro ou real é uma representação e podem assumir um valor de verdade com base nas associações disponibilizadas pelo contexto de cultura.
A partir da análise da tela, procurei analisar a composição no contexto de uma cadeia de textos, apoiando-me para tanto nas noções de interdiscursividade e intertextualidade da ADC. Embora não seja este o foco específico deste estudo, esse estágio da análise pode complementar como uma abordagem secundária e sistemática na análise semiótica do texto visual uma vez que este texto constitui a materialização de um discurso que se manifesta em outras instâncias discursivas. Dessa forma, foi considerada neste estudo a possibilidade de investigar textos que se articulam com as obras analisadas na busca de evidenciar aspectos que não estão tão explícitos nos próprios textos visuais analisados, mas se revelam na articulação de uma análise de elementos de intertextualidade em uma cadeia de textos. Esse estágio de análise só pode ser feito depois de finalizadas as análises das telas individualmente em coerência formal e de terem sido esgotadas as análises dos recursos pictóricos na sua articulação com a construção de um discurso visual.