A estética relaciona-se com tudo aquilo que produz sensações e não apenas com a arte. Ela relaciona-se com objetos quotidianos, paisagens e até pessoas, ao invés da arte que é mais restrita. Se a arte é individual, embora obedeça a padrões sociais ou políticos, a estética é muito mais individual do que a arte. O estético e o erótico aparecem como fontes de prazer em várias culturas pelo mundo (Dutton, op. cit.,170). A experiência estética é dinâmica e até inquisitiva (Goodman, 2006, 256). Existe sempre uma dicotomia entre pensar e sentir; cognição e emoção (ibidem, 259). O que conhecemos através da arte sente-se no corpo e na mente (ibidem, 272). As nossas perceções estéticas podem ser afetadas por circunstâncias externas (ibidem, 263), embora, no quotidiano classifiquemos mais em função do sentimento do que de outras categorias racionais (ibidem, 265). O objeto representado é uma versão/tradução do objeto (Goodman, op. cit., 41), da mesma forma que a representação de alguém é apenas a representação dessa pessoa num dado momento (ibidem, 57).
Joanna Overing (antropóloga) considera que o conceito de “estético” é burguês e elitista (Dutton, op. cit., 113). Cada obra do passado é reinterpretada à medida que o tempo avança e fornece novas imagens do passado. Paradoxalmente uma obra de arte é transitória (produto de uma época) e ao mesmo tempo separa- se dessa transitoriedade porque existe como caso único (Hauser, op. cit,80). A arte nasce assim de uma necessidade interior: cada artista tem de exprimir o que é próprio da sua pessoa; da sua época; o que é próprio da sua arte (Farago, op. cit, 198), ao passo que a estética é como que uma influência de valores que se exerce do exterior para o interior do indivíduo. Todas as culturas apresentam criações expressivas (Dutton, op. cit.,54), mas nem todas legaram arte para a posteridade. O improviso só passa à História quando se institui (Hauser, op. cit.,43); para algo ser arte implica a obediência a padrões sociais e não a um simples acaso. A arte é também uma tentativa de o Homem se libertar de fenómenos concretos, do abstrato,
da atemporalidade; é uma luta contra a falsificação das coisas pelas ideias. A arte tem a ver com a impressão sensível, clara, deslumbrante (Hauser, op. cit.,13) e não se resume a imagens (Bell, op. cit., 6). A arte é ela própria um testemunho da adaptação do Homem, já que os metais foram inicialmente usados para criar adornos e não ferramentas (ibidem, 46).
Ao longo do tempo, a arte e a estética foram assunto que preocupou diversos filósofos, artistas e historiadores que passaram ao papel as suas reflexões. A arte revela e transmite os extremos da condição humana; animalidade e elevação espiritual e cultural; paz e guerra; amor e ódio; grandezas e misérias da condição humana, crenças e mudanças. Para Platão, a arte é uma imitação da imitação; representa-se uma imitação das formas eternas (Dutton, op. cit.,57). Neste sentido, a arte é uma farsa; é enganadora. Já para Aristóteles a arte pode transmitir – nos conhecimentos sobre a condição humana (ibidem,58), sendo, portanto, uma atividade enriquecedora, contrariamente à posição platónica. Se há aqueles que têm uma posição relativista acerca da estética, também há quem considere que os princípios estéticos podem ser universalmente definidos como Hume que advogava que os princípios gerais do gosto são uniformes na natureza humana, apesar de considerar que os melhores juízos sobre um artista são feitos por um estrangeiro ou pela posteridade (ibidem,67). A reflexão estética deve ser um juízo desinteressado, desligado da posse do bem considerado. Esta ideia foi-nos legada por Kant, para quem os juízos sobre a beleza deviam ser baseados numa contemplação desinteressada (ibidem,69). Já no século XX, George Dickie considerava que considerar-se uma obra como arte é ser socialmente aprovada como tal (ibidem, 72), apesar de existir uma tendência para generalizar conceitos e apreciações de uma forma de arte para outra. A arte tem também uma função reflexiva, uma vez que ser capaz de explicar o anormal ajuda-nos a encontrar a melhor descrição do geral. Na Europa, na Idade Moderna, considerou-se que a função da arte era representar o real, consideração que caiu com a modernidade (Farago,op. cit, 5). A preocupação em explicar o que é marginal na arte é intelectualmente desafiador, mas leva a estética a ignorar o centro da arte e os seus valores (Dutton,op. cit.,89). A arte pode
representar elementos diversos. Termos como “realismo” indicam uma cópia do mundo exterior; “futurismo” uma reação ao mundo exterior; “expressionismo” indica expressão pessoal do artista; “cubismo” ou “ funcionalismo” indicam a preocupação com as formas e materiais (Read, op. cit., 122). Um objeto assemelha-se a outro, mas nem sempre o representa. Um quadro representa o duque de Wellington, mas este não representa o quadro (Goodman, op. cit., 36).
Na arte podemos constatar a repetição de elementos de poder como a cor do manto imperial romano ser a mesma do manto de Cristo do século VI (Bell, op. cit., 94). A arte implica prazer direto e experienciado; não produz qualquer coisa que seja útil. Também há prazeres não artísticos diretos como a comida ou o prazer sexual (Dutton, op. cit.,92) que podem ter uma conotação estética. A arte é assim uma representação; ou representa ou imita o real ou imaginário do mundo (ibidem, 96). Uma imagem para representar um objeto tem de ser um símbolo deste (Goodman, op. cit., 37). Normalmente, a arte tende a estar separada da vida normal; é uma experiência à parte. Muita arte é desligada da vida quotidiana, contrariamente ao que acontece noutros povos (Dutton, op. cit., 118). A arte é um artefacto (por norma) e é dirigida a um público (ibidem, 105). Um objeto utilitário é formado pela função; a forma de uma obra de arte é-lhe dada pelo seu conteúdo (ibidem, 141). Alguns consideram que a arte deve ser expressiva ou representativa da identidade cultural (ibidem,106). As obras de arte não se destinam a ser contempladas ou admiradas, mas a proporcionar conhecimento das coisas (Goodman, op. cit., 22) ou a ajudar a ver mais algo sobre a psique humana (Dutton, op. cit., 148) e sobre as emoções. Outros, por seu turno, como Kant preconizavam que a arte e beleza são domínios autossubsistentes que integram uma estrutura racional (ibidem, 279). As obras de arte não acontecem no mundo físico, mas na mente humana (ibidem,175), já que o tema/conteúdo de uma obra de arte não precisa existir ou ter existido (ibidem,177) e a obra de arte é uma ponte para a mente do artista. Na arte, os significados podem ser controlados, contrariamente à mente do autor (Dutton, op. cit.,282), apesar de, na arte, a totalidade ser inerente a cada uma das partes (Hauser, op. cit.,8).
Quando se fala de arte, fala-se também dos custos económicos associados aos materiais e ao trabalho do artista. As artes são supérfluas e consomem poder mental, esforço físico, tempo e recursos preciosos (Dutton, op. cit.,229) para não terem necessariamente uma função prática e utilitária. No entanto, os custos económicos são irrelevantes para considerar ou não algo como arte, visto que a ideia de beleza está ligada à raridade e ao processo de fabrico (objetos feitos manualmente ou não) (ibidem, 261). Para Kant, a beleza depende da concordância entre objeto e funções (uma igreja deve parecer uma igreja e não uma casa de férias) (ibidem,315). Para outros, a arte está ligada à ostentação: materiais caros; tempo de execução; inutilidade (ibidem,264), sendo um atributo de algo burguês, capitalista e elitista.
Quando se trata de arte, associamos a uma peça o sentido de originalidade e até de inventividade, de quebra de regras. A arte é valorizada por ser inovadora e ter capacidade para surpreender o público. Obras como “merda d’artista” do século XX já foram aceites pelos burocratas da arte (ibidem,337). Pressupõe o desenvolvimento da individualidade e genialidade (ibidem, 94). As artes não são apenas ofícios. O resultado de um ofício é pré – concebido, ao passo que a arte está aberta ao inesperado (ibidem, 379) e nos ofícios “manuais” é difícil falar em cópia ou falsificação. A descoberta de que algo é falso, não altera as qualidades da obra (ibidem, 298). Na música e na literatura, contrariamente a outras artes é mais difícil haver falsificações (Goodman, op. cit., 135). Não se considera cópia a existência de dois Taj – Mahal com base na mesma planta (ibidem, 237). No entanto, surge a questão: porque é que o original satisfaz mais do que a cópia, mesmo que esta seja boa (ibidem, 123)? Autenticidade e mérito estético não são o mesmo (ibidem, 141). O que conta não é o prazer obtido, mas o interpretado no objeto como uma propriedade deste (ibidem, 257), já que a satisfação nem sempre se identifica com o prazer. Praticamente qualquer imagem pode representar praticamente qualquer coisa (ibidem, 68) e dizer que uma imagem é parecida com a realidade significa que é parecida com a maneira como a realidade é habitualmente pintada (ibidem, 68), mesmo que não seja exatamente assim.
A arte está indubitavelmente associada a questões sociais e culturais. Novitz (citado Dutton, op. cit.,90) considera que as formulações exatas e definições rigorosas são de pouca ajuda na apreensão do significado da arte intercultural. A medida do realismo é a habituação (Goodman, op. cit., 70). As artes são essencialmente sociais, porque nem sempre unem as pessoas (Dutton, op. cit.,372) e não se referem a todas, nem o seu significado é percebido por todos. A arte pressupõe também uma experiência imaginativa, a imaginação do autor e a do público (ibidem, 102), porque nem sempre o que está numa peça é o que se quer representar. Nem sempre se exprime o que se sente (op. cit., 74), ou os conceitos traduzem o seu significado literal (ibidem, 101). Nem sempre uma peça exprime aquilo que se diz que exprime (ibidem, 116), já que o sistema de símbolos está relacionado com um campo de referência. A expressão e a comunicação dependem do aparecimento e uso de conceitos que exprimam o que se quer transmitir (ibidem, 200). Muitas vezes somos nós que escolhemos uma peça para representar a “identidade cultural” a posteriori (ibidem,107), num processo que pode não coincidir com a ideia inicial do criador. A este propósito, os antropólogos têm demonstrado mais diferenças entre culturas do que semelhanças (ibidem,112). As tradições e instituições artísticas ganham identidade pela forma como são encontradas nas tradições históricas. Para perceber arte é necessário saber algo de História (ibidem, 101), mas também de cultura. Para Kant, certos aspetos culturais só nos pertencem porque nascemos em determinado lugar (ibidem, 340), já que a cultura sanciona e habitua o gosto estético. No entanto, cada artista escolhe a forma de representar, mas no geral, é obrigado a obedecer às leis (Goodman, op. cit., 42), já que não há categorias universais como a brancura ou a beleza (ibidem, 17). Apesar disto, o objeto deve ser copiado como se fosse visto em condições asséticas por um olhar inocente e livre (ibidem, 39), já que a arte tem sempre algo de individual. Na produção artística há que ter em conta a habilidade e virtuosismo, bem como a necessidade de técnicas especializadas (Dutton, op. cit.,92) para constituir o “estilo” que nos permita reconhecer um artista. Esta individualidade expressiva existe sempre, não obstante o quotidiano raramente o permitir (ibidem, 99).
Para além das artes plásticas, devemos incluir também outras formas de arte. A arte, tal como a estética, é dirigida aos sentidos. Contudo, muitas vezes, o olfato é esquecido na arte/audição/música; lembramo-nos mais frequentemente da visão/ pintura (ibidem, 346). Para Darwin, a música é um produto da seleção sexual (ibidem,355) e nenhuma arte encoraja tanto a repetição da experiência contemplativa como a música (ibidem, 359). Também a comida não é tão valorizada como as obras literárias, apesar de existir grande potencial na união dos prazeres artísticos (ibidem, 368). A arte é sempre um desafio intelectual que pressupõe a mobilização de uma variedade de capacidades percetivas (ibidem,100).
O “Belo” aparece como semelhante de gracioso, bonito, sublime, soberbo. Usamos estes adjetivos para indicar que algo nos agrada. Algumas épocas identificaram o belo com o bom (Eco, op. cit., 18). O belo não está associado à posse do objeto, já que beleza e desejo nem sempre coincidem (exemplo: comida ou sexo). A relação entre beleza e arte não é óbvia, porque a arte chegou a designar todo o trabalho bem feito (exemplo, o de um carpinteiro) e só depois se criou a designação de “belas artes” (ibidem, 10). O belo é estudado na arte, porque os seus autores deixaram textos sobre as obras, contrariamente a outros como os do artesanato (ibidem, 12). A beleza não foi sempre valorizada. Em algumas épocas como a Idade Média houve pouca atenção à beleza feminina, porque os estetas eram homens da Igreja e o moralismo convidava a desconfiar dos prazeres do corpo (ibidem, 154). Apesar dessa censura moral, havia alguns exemplos de beleza feminina nos cânticos, como por exemplo o elogio aos seios (ibidem, 158).