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S OSIALE VARIABLER

In document Universitetet i Bergen (sider 60-63)

“A televisão é o objeto mais democrático das sociedades democráticas”

Jean-Louis Missika e Dominique Wolton

O advento da televisão remonta à segunda metade do século XIX, período em que surgem as primeiras fotografias com Daguerre e é inventado o mecanismo que, mais tarde, dará origem ao cinemascópio. É nesta altura que três descobertas científicas tornam possível a propagação das imagens elétricas:

i. a fotoeletricidade, ou por outras palavras, a transformação da luz em energia elétrica, uma descoberta que data de 1873 e pertence a Christian May, um jovem telegrafista irlandês;

ii. a decomposição da imagem em pontos claros e escuros e sua recomposição, graças aos contributos de Paul Nipkow em 1884, com o seu disco perfurado em espiral que, ao girar, realizava a análise completa de uma imagem, linha a linha;

iii. e, por último, a chegada das ondas hertzianas pelas mãos de Heinrich Hertz, que, em 1887, produziu as primeiras ondas capazes de transmitir, sem fio, os sinais correspondentes a cada um dos pontos de uma dada imagem (Missika & Wolton; 2005:1).

A partir destes avanços científicos, Marconi realiza, em 1894, os ensaios decisivos para as primeiras emissões hertzianas. “O caminho estava assim aberto para que o nome do escocês John Baird ficasse para sempre ligado ao aparecimento da televisão, em 1925, com a primeira transmissão à distância de imagens em movimento com um sistema próprio. Não menos importante é o russo Zworykin que, em 1923, nos Estados Unidos, desenvolve um dispositivo de TV inteiramente eletrónico, aperfeiçoando progressivamente o tubo catódico e o iconoscópio por forma a obter, em 1936, uma definição de imagem de 450 linhas” (Missika & Wolton; 2005:1).

A materialização destes avanços tecnológicos em emissões televisivas experimentais, ainda que não regulares, acontece no fim da I Guerra Mundial, com o impulso das companhias norte- americanas Bell Telephone e RCA, e, em Inglaterra, de John Baird (Missika & Wolton; 2005:1).

Corria o ano de 1926 quando, na capital de Inglaterra, em Londres, John Baird levou a cabo a sua primeira demonstração “verdadeira” de televisão, através do seu sistema de 30 linhas. “Baird demonstrou as possibilidades da televisão a cores, da televisão estereoscópica e da televisão por raios infravermelhos ainda antes de 1930” (Santos, 1998: 39). Usando o sistema de 30 linhas de Baird, a BBC realizou a primeira emissão experimental em 1929. Um ano depois, surge o primeiro programa com emissão simultânea de áudio e imagem.

Os anos que se seguiram foram essenciais no trabalho de Baird, e o sistema mecânico por si desenvolvido possibilitou aquilo que os sistemas eletrónicos muitos anos demoraram a alcançar. O sistema de Baird perdurou até 11 de setembro de 1935, quando foi substituído por um sistema electrónico (Santos, 1998: 39).

Mas foi em Berlim que, a 23 de março de 1935, tiveram origem as primeiras emissões regulares, com horários pré-definidos de programas e anúncios na imprensa. No entanto, “talvez por o equipamento utilizado (…) ter sido destruído por um incêndio ainda no decorrer desse mesmo ano, e de, portanto, terem sido interrompidas as transmissões, não se lhe deu a importância histórica devida. Tudo voltou entretanto à normalidade, ainda a tempo de cobrir os Jogos Olímpicos de Berlim de 1936, transmitidos em direto para as várias cidades alemãs e atingindo uma audiência de cerca de 150 mil pessoas” (Missika & Wolton; 2005:2).

A implementação dos serviços regulares de televisão prosseguiu em Inglaterra, a 2 de novembro de 1936, em França, em maio do ano seguinte, na União Soviética na primavera de 1938 e em abril de 1939, nos Estados Unidos da América. Do lado da indústria assistiu-se a uma produção em larga escala de televisores e, num curto prazo, milhares de pessoas passam a ter acesso à televisão. “Estava assim também definitivamente consolidada a vitória da tecnologia eletrónica sobre a mecânica” (Missika & Wolton; 2005:2).

A 1 de setembro de 1939, quando o rato Mickey preenchia perto de 25 mil ecrãs na região de Londres, o negro invadiu os televisores dos principais países europeus, que assim ficaram durante sete anos: tinha início a II Guerra Mundial. Os alemães não só não interromperam as emissões televisivas como se serviram delas para a sua estratégia propagandística. Só depois dos países Aliados destruírem o emissor de Witzleben, em finais de 1943, é que as emissões foram finalmente interrompidas. Nos EUA, por sua vez, o desenvolvimento da televisão só se ressentiu depois do ataque dos japoneses a Pearl Harbour, em dezembro de 1941, ataque esse que motivou a entrada dos norte- americanos na Guerra (Missika & Wolton; 2005:2).

Sete anos depois dessa interrupção, a 1 de setembro de 1947, o mesmo rato Mickey que tinha saído em sobressalto regressa aos ecrãs para prosseguir a história que tinha deixado a meio. E se “antes da guerra a programação era já, de algum modo, diversificada, com emissões variadas, canções, rábulas teatrais, desenhos animados, atualidades, reportagens do exterior, etc., atingindo as 24 horas semanais em Londres, as 15 horas em Paris, 35 horas na Alemanha, não era portanto difícil de prever que após a II Guerra Mundial, embora partindo do zero, a televisão rapidamente retomaria a dinâmica abandonada sete anos atrás” (Missika & Wolton; 2005:2).

Desde então, registaram-se vários avanços tecnológicos, como a adoção do VHF e do UHF, o aumento do número de canais disponíveis e a melhoria da definição da imagem. A cor surge em 1953, nos EUA, quando o número de estações emissoras ronda já os 200 e o número de televisores é superior a 15 milhões (Missika & Wolton; 2005:3). Em 1955 a quase totalidade do território norte- americano estava coberto. No ano seguinte, surge o "videotape". É nos EUA que se verifica um mais rápido crescimento publicitário (de 9,8 milhões de dólares em 1948 para 1,5 biliões em 1960) e é aí também aí que o sistema concorrencial se desenvolve, com os índices de audiência a ditarem os programas a emitir – as preferências recaem sobre os concursos, as séries, os programas de variedades, as novelas, não esquecendo a informação, as campanhas eleitorais e o desporto, com destaque para o direto (Missika & Wolton; 2005:3).

Do lado europeu esta implementação foi mais lenta. Em 1954, na Grã-Bretanha, quando é autorizada a segunda rede comercial – financiada exclusivamente pela publicidade – o número de televisores é superior a 3 milhões. “Se a BBC, na sua proverbial independência, geria uma programação extremamente sóbria, da informação aos dramáticos baseados em grandes obras da literatura europeia, passando pelo desporto e as grandes reportagens reais, com as famosas coroações de George VI ou, mais tarde, da Rainha Elizabeth, a Independent Television Authority (ITA) adotou a fórmula popular da televisão americana: jogos, concursos, variedades para o grande público, séries populares e uma informação muito viva e com uma forte componente regional” (Missika & Wolton; 2005:3). Teve assim início a primeira televisão privada europeia que, quatro meses depois do seu lançamento em fevereiro de 1956, reunia já as preferências de quatro em cada cinco telespectadores londrinos. Em 1962, o contra-ataque da BBC passa pela criação da BBC 2. Ainda assim, as preferências do público continuaram repartidas entre a televisão pública e a televisão privada (Missika & Wolton; 2005:3).

A década de 50 fica marcada, um pouco por toda a Europa, pelo surgimento dos canais nacionais de televisão: em 1948 na URSS; em 1951 na Holanda; em 1952 na RDA; em 1953 na Bélgica, Dinamarca, Polónia e Checoslováquia; em 1954 na Itália; em 1955 na Áustria, Luxemburgo e Mónaco; em 1956, na Suécia e em Espanha; e em 1957, em Portugal. Outros países, como o Japão, o Brasil e o Canadá, criam os seus canais logo no início dos anos 50; já a China e a Índia só o conseguem no final da década. Um outro facto de também grande relevo é o nascimento, em 1954, da Eurovisão, instância criada entre organismos de televisão membros da União Europeia de Radiofusão (UER), cujo objetivo passa pela centralização e troca de programas de televisão entre os seus membros (Missika & Wolton; 2005:3).

“Os anos 60 são, por assim dizer, o período em que se constitui pela primeira vez, com alguma evidência, diretamente, uma ideia de comunidade planetária, presente em simultaneidade perante um e um só acontecimento” (Missika & Wolton; 2005:4). Este acontecimento diz respeito à ligação em direto entre os EUA e a Europa, a 10 de julho de 1962, através do satélite Telstar, o primeiro satélite de distribuição ponto a ponto colocado em órbita. Três anos depois, um novo passo é dado com o lançamento do primeiro satélite de telecomunicações geostacionário, o Early Bird. A “emissão televisiva do século” acontece a 21 de julho de 1969, com a transmissão em direto dos primeiros passos do homem na Lua, feita para 43 países. Tinha assim início a “mundovisão” (Missika & Wolton; 2005:4).

A década de 60, porém, não diz apenas respeito à "era dos satélites". Trata-se de um período em que progressivamente se ganha consciência das potencialidades económicas, culturais, sociais e políticas, de um meio que atinge proporções universais. “Era a altura em que intelectuais como Marcuse viam na televisão o símbolo da sociedade de massa” (Missika & Wolton; 2005:4). No campo económico, a televisão começa por ser alvo de importantes investimentos nos EUA e é precisamente nesta altura que o mercado audiovisual norte-americano experimenta um aumento do número de canais, sobretudo no domínio do cabo.

Se, já na década de 50, os EUA, a Grã-Bretanha e o Japão conheciam canais alternativos entre públicos e privados, outros países estavam ainda dependentes de um ou dois canais existentes e dirigidos pelo próprio Estado. É na década de 70 que acontece um reenquadramento dos diferentes sistemas audiovisuais, como meio de aproximação aos progressos tecnológicos. “Com efeito, se ainda nos anos 60 havia um pouco a ideia de que o fenómeno televisivo era, por assim dizer, um "milagre", rapidamente esse mistério se perde: os anos 70 transformaram em definitivo a televisão em "eletrodoméstico", em objeto de grande consumo” (Missika & Wolton; 2005:4).

Os anos 70 do século XX ficam marcados pelo fim da Guerra do Vietname, onde a televisão, através dos programas informativos, assumiu um papel de relevo e onde se destacaram nomes como Walter Cronkite, conceituado jornalista televisivo norte-americano. Este período coincide também com o fim do império colonial português e com a extinção das ditaduras da Europa ocidental. “E a televisão não foi certamente estranha a estes acontecimentos históricos” (Missika & Wolton; 2005:5).

Depressa se estabeleceu a superioridade dos EUA no mercado do audiovisual. Coube às grandes networks norte-americanas (como a ABC, a CBS e a NBC) o papel de principal abastecedor de conteúdos dos canais de televisão mundiais. Os programas vendidos chegaram a ultrapassar 50 por cento da programação da generalidade dos canais compradores e, nalguns canais europeus, as vendas preenchiam mesmo 80 por cento da emissão, facto que se arrastou até à década de 90. Séries como Bonanza, Casei com uma Feiticeira ou Os Anjos de Charlie – esta última, a mais vendida da década de 80 – passaram a fazer parte do imaginário televisivo europeu. Ao fim ao cabo, é dos EUA que, ainda hoje, chegam as principais ideias, formatos e programas de maior êxito televisivo (Missika & Wolton; 2005:5).

Vários países europeus modificam entretanto a sua legislação tendo nomeadamente em vista o alargamento legal do seu espetro hertziano a novos canais nacionais e locais de televisão. “É, por assim dizer, um fenómeno que rapidamente alastra a toda a Europa: a Itália começa por dar o exemplo, ainda à revelia de um enquadramento legal. Seguem-se lhe a França, a Espanha, a Grécia, a

Holanda, e, finalmente, chega a liberalização da lei portuguesa da televisão com o aparecimento dos primeiros operadores privados em 1992 e 1993, respetivamente a SIC e a TVI” (Missika & Wolton; 2005:5). Este período fica também marcado pela busca de um consenso europeu em torno desenvolvimento da indústria televisiva, como resposta à penetração dos "enlatados" americanos (Missika & Wolton; 2005:8).

Anos passaram e, nos dias de hoje, é certo, a televisão respira uma nova era, sem que isso signifique necessariamente a perda do poder de influência e decisão na sociedade. A industria televisiva sai reforçada com os novos progressos tecnológicos – como a implementação da alta definição, da fibra ótica ou da televisão interativa – e estas inovações, em particular a progressiva preponderância dos novos media e da Internet, além dos riscos que acarretam podem também representar um novo paradigma para este meio.

De facto, “a televisão converteu-se à Internet porque a mensagem do dispositivo televisor de massas pode reconfigurar-se e direcionar-se a um sujeito específico criando uma experiência personalizada” (White, 2006: 343). “A emergência de novos dispositivos móveis vai colocar a televisão na mão. O advento de equipamentos como os tablet e a evolução da qualidade gráfica dos ecrãs dos PDA (Personal Digital Assistant) abre um novo leque de oferta de conteúdos que podem ser visionados em qualquer lado” (Catalão, 2011:148).

In document Universitetet i Bergen (sider 60-63)