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K VALITATIV OG KVANTITATIV METODE

In document Universitetet i Bergen (sider 65-0)

A análise do discurso televisivo e da sua evolução ao longo dos tempos tem sido um importante ponto de partida para diversos trabalhos na área. Francisco Rui Cádima (2001:1), em “Proto e pós-televisão. Adorno, Bourdieu e os outros – ou na pista da «qualimetria»” acredita que, em termos práticos, “o discurso televisivo pouco evoluiu, isto é, a estrutura do dispositivo televisivo resistiu estoicamente, em geral, à inovação do seu modelo técnico-discursivo, isto se atendermos à genealogia da televisão e às suas principais periodizações – proto, neo e pós-televisão”.

A massificação da televisão, como já vimos anteriormente, acontece numa fase “proto- histórica” do meio. No caso europeu – com exceção do Reino Unido – dá-se numa situação de monopólio televisivo de serviço público. Podemos ir ainda mais longe e afirmar que a “proto-televisão

mergulha as suas raízes mais fundas na evolução tecnológica iniciada pelos daguerreótipos e continuada por um conjunto de cientistas e inventores que consolidaram esse velho mito platónico da transmissão da imagem à distância”, como May, Nipkow e Hertz (Cádima, 2001:1).

No caso da Alemanha nazi, responsável pela introdução na Europa das emissões regulares, “a televisão acaba por ter uma dimensão relativamente restrita, sendo sobretudo utilizada em regime de «intra-televisão», em circuito fechado no interior do espaço do poder. Mesmo as dificuldades técnicas de gestão das máquinas televisivas desaconselhavam o regime totalitário de ensaiar qualquer tipo de propaganda através do novo media. Na Alemanha nazi, ao contrário da rádio, a televisão foi um adereço sem consequências” (Cádima, 2001:2).

As primeiras emissões regulares de televisão, datadas dos anos 30 do século XX, são em muitos pontos idênticas às primeiras emissões regulares realizadas pela RTP, em 1957. E também a linguagem televisiva da televisão pública portuguesa do final de século, no essencial da estrutura narrativa, pouco evoluiu face aos dispositivos dos pioneiros. E em alguns aspetos específicos do meio televisivo, “como os «diretos» ou as conversas gravadas dos grandes comunicadores da história da RTP (…) houve inclusivamente uma regressão: a televisão deixou as suas charlas linguísticas – e uma certa cultura da inteligência –, para cair regularmente no charco da banalidade” (Cádima, 2001:2).

Por esta razão, Cádima não tem dúvidas de que, numa altura em que se cruzam conflitualmente proto e pós-televisão, a verdade é que “muitos são ainda os pontos de encontro entre modelos televisivos contraditórios, o que permite identificar uma resistência clara da televisão generalista à sua potencial canibalização pelo novo contexto da multiplicidade da oferta e da interatividade emergente” (Cádima, 2001:2).

No entanto, se na fase “proto-histórica” ao pedagogismo televisivo está associado um processo de enriquecimento cultural, a submissão deste meio informativo ao poder político acaba por colocar em segundo plano as “virtualidades” de alguns tipos de programação. “A profunda dependência política da televisão pública europeia, nesta fase, constituía a dimensão crucial e estratégica do novo meio de comunicação social destinado, fundamentalmente, a perpetuar a ação política das democracias conservadoras europeias do pós-guerra e das restantes ditaduras da Europa do Sul” (Cádima, 2001:3).

Depois da “mundovisão”, os anos 70 assistem à evolução da proto-televisão para um novo modelo: o da neo-televisão, “onde o contrato televisivo e os monologismos da paleo-televisão são progressivamente substituídos pelo contacto e a indiferença” (Cádima, 2001:3).

Cádima (2001:3) refere a este propósito o trabalho de Theodor Adorno que, em 1954, procura enumerar alguns dos chamados efeitos “nefastos” do meio televisivo, e que se relacionam com a existência de mensagens escondidas: “A maioria das emissões televisivas visa hoje produzir, ou pelo menos reproduzir, a suficiência, a passividade intelectual e a credulidade que parecem concordar com os credos totalitários, mesmo se a mensagem explícita dos espetáculos é antitotalitária”. Adorno acrescentou ainda que “quanto mais os estereótipos se reificam e tornam rígidos na indústria cultural tal qual ela é hoje, menos as pessoas são capazes de modificar as suas ideias preconcebidas em função da evolução da sua experiência”. Já para McLuhan (1964), também referido no trabalho de Cádima (2001:4) o impacto do meio televisivo na sociedade, e que merece profundas críticas de diversos autores, trata-se afinal de “uma espécie de celebração do inevitável”.

Cádima (2001:5) entende que analisar o dispositivo televisivo depois de Adorno e McLuhan nos pode remeter para uma realidade dual, dicotómica, ou até mesmo “constituída por vários polos de observação possíveis, o que, a ser assim, remeteria a análise para uma lógica proteiforme que afastaria ainda mais o 'objeto' da leitura que coloca a televisão quase sempre como um instrumento de dominação simbólica” (Cádima, 2001:5). E refere ainda que as visões catastrofistas dos efeitos sociais e culturais da televisão foram, ao longo do século passado, postos em causa pelas novas realidades políticas que ocorrerem, a maior parte delas impulsionadas pela própria televisão.

Um dado adquirido e que, ainda hoje, permanece é o “contrato”, quase silencioso, entre a televisão e a audiência. Trata-se de um acordo “de amplo clausulado, que pode ir da assimilação simples, recolocando o objeto enquanto eletrodoméstico, à procura incessante de uma só imagem, através de um interminável zapping” (Cádima, 2001:5).

O investigador da Universidade Nova de Lisboa é, neste sentido, seguidor da ideia de Jérôme Bourdon e François Jost (1998), que defendem haver um verdadeiro “défice de reflexão” sobre a televisão. As mais marcantes etapas da evolução da análise sobre este meio remontam à “sociologia funcionalista norte-americana e ao determinismo tecnológico e simbólico de McLuhan e vêm até à escola francesa, desde Wolton e o seu profetismo otimista às «profecias» críticas de Bourdieu quando refere que o acesso à televisão está determinado a uma «formidável censura», ou quando discorre sobre as censuras invisíveis da nova ordem simbólica do pós-Guerra, «decretada» pela televisão e pelas audimetrias” (Cádima 2001:5).

Se, outrora, o meio televisivo já foi um instrumento de consenso na sociedade, como aconteceu em Portugal, tal não acontece agora. Hoje este meio é acima de tudo um sistema que motiva indiferença, “sem abdicar do vínculo social enquanto consenso, quer na sua lógica interna

politópica, quer na organização do discurso que se produz” sobre o próprio meio (Cádima 2001:6). Cádima assegura ainda que a televisão gera facilmente um consenso através do seu fluxo discursivo ou da “ativação da receção de um programa”, do que a partir das muitas e distintas interpretações que sobre ela se tem feito (Cádima 2001:7).

O ponto fulcral desta reflexão continua ainda a ser a questão do poder do meio televisivo. Autores como Popper, Condry, Duverger, Bourdieu, Sartori convergem na mesma interpretação: se o meio político não controlar a televisão, será a própria televisão a apropriar-se do meio político. “A verdade é que nas infinitas oportunidades que a política já teve para tornar a TV uma televisão de acesso, amplamente partilhada pelas comunidades e pelos públicos, sempre decidiu pelo que lhe era mais conveniente, a saber, pelo controlo do seu dispositivo informativo de forma a se perpetuar enquanto poder” (Cádima 2001:7).

Neste modelo neo-televisivo, apesar da redundância que lhe está adjacente, o poder da televisão será pois “tanto menor quanto maior for a competência e a capacidade de escolha - e mesmo de intervenção/criação -, dos públicos perante o dispositivo de produção/difusão da televisão” (Cádima 2001:8). Assistimos, por isso, à transferência do poder dos campos político e legislativo para o público, invertendo-se assim o clássico modelo mediático da era dos massmedia.

Coloca-se, no entanto, uma nova questão, a de como reforçar a competência do público, para inverter a lógica audimétrica que leva a televisão generalista a perpetuar uma “programação que se decide sempre como uma espécie de hipertelia a partir da «grelha-tipo» da neo-televisão e não a partir dos interesses e das expectativas do público auscultados no exterior da lógica audimétrica e inclusivamente do interesse público” (Cádima 2001:8).

No que ao serviço público de televisão diz respeito, Cádima entende que as normas éticas e os objetivos qualitativos não podem ser definidos pelas forças de mercado. A evolução da história da televisão tem levado alguns autores, como Nel e Maffesoli, a “relativizarem os impactes sociais da televisão”. Outros, como Wolton, “há muito que «reabilitam» a televisão, concedendo-lhe virtualidades que ela porventura não tem no domínio das identidades e do vínculo social” (Cádima 2001:8).

Por essa razão, a pós-televisão apresenta-se cada vez mais como uma televisão para “públicos mais diversificados” e rompe progressivamente com o “modelo cristalizado de programação” que a televisão generalista foi construindo ao longo dos anos e do qual ainda não se dissociou por completo. “A radicação de um novo modelo que eventualmente só poderá ganhar consistência em pleno desenvolvimento da era digital assentará assim prioritariamente numa nova lógica marcada por novas

competências dos públicos face aos programadores. E a rutura do modelo analógico é como que uma oportunidade histórica para que isso possa acontecer” (Cádima 2001:8).

As novas modalidades de televisão por cabo e por satélite, nas suas opções de sinal aberto ou codificado por pagamento, a compressão do sinal analógico em digital e a consequente multiplicação dos canais vieram abrir caminho para um cenário imprevisível que está a transformar por completo o panorama televisivo atual. A questão reside, hoje, em como preencher as grelhas dos canais, com conteúdos rentáveis e ofertas variadas e atrativas – e do ponto de vista da informação, a qualidade é essencial para a aceitação do público (Herreros, 1998: 68).

“A boa informação é um produto caro. É preciso encontrar novas fontes de rendimento para os canais. A publicidade não é mais suficiente” (Herreros, 1998: 68). São necessários produtos “atraentes”, pelos quais o destinatário esteja disposto a pagar. Se, por um lado, o meio televisivo corre o risco de emitir apenas o que vende, o que é comercial, podendo abandonar a informação ao serviço do cidadão, por outro também se abrem outras portas, e novas possibilidades para as emissores, como canais temáticos informativos (Herreros, 1998: 68).

O certo é que a inovação técnica veio modificar substancialmente os modelos tradicionais. “Assistimos, desde o nascimento da televisão, a um modelo unidirecional, de uma televisão informativa que reflete os modelos de total controlo da mensagem entre emissor, para ser recebido no momento da emissão, salvo os casos em que se introduzia o vídeo como suporte de gravação. A tecnologia digital e a compressão do sinal permitem agora a interatividade e surgem as redes interativas de multimédia, com uma conceção que amplia enormemente o campo restrito da televisão” (Herreros, 1998: 69).

Miller (2009: 18) refere que “todos devemos dar boas-vindas ao mundo pós-televisão, onde os duplos monopólios foram rompidos – o objeto físico não domina mais, nem o seu modelo de produção unidirecional. A TV perdeu a sua identidade”. A história dá conta que as novas formas de comunicação suplantaram as anteriores – pensemos na literatura/retórica, no cinema/teatro ou na rádio/concertos. “Mas a televisão é uma mistura de todas elas, um armazém cultural. E que continua a crescer” (Miller, 2009:19).

Esta mudança dá-se em função de tendências históricas e conjunturais. “Existe uma tendência a longo prazo (...) que vai na direção oposta do abrangente sistema das redes de transmissão e rumo às emissoras dedicadas a géneros específicos. A audiência e os dólares mudaram no decorrer das décadas, atingindo, hoje, um ponto de ajuste. Isso coincide com a crise macroeconómica

contemporânea, que viu grandes anunciantes implodirem, diminuindo o fluxo de caixa das redes e afundando muitos acordos para o posicionamento de produtos” (Miller, 2009: 21).

A Internet e as novas plataformas, como o YouTube, vieram derrubar as barreiras que impediam as pessoas de produzir e emitir os seus próprios conteúdos. A destruição destas barreiras, que poderia ditar o esquecimento da televisão, funciona afinal como um grande aliado. Miller menciona, a este propósito, a realidade norte-americana. “Na verdade, os vídeos do YouTube são o maior trunfo imaginável para a televisão norte-americana tradicional. Em vez de substituir os programas de TV, estes fragmentos e comentários promovem-nos. Apesar do conteúdo amador constituir a maior parte do que se encontra no YouTube, ele mal é assistido em comparação aos textos das indústrias culturais. Quinze entre os vinte termos de busca mais registados no YouTube dizem respeito a programas de TV” (Miller, 2009: 21).

Pensar a Internet como opositora da televisão é, para Miller, uma asneira. A Internet deve ser encarada como uma nova forma de emitir e receber televisão. A popularidade da TV está, afinal, a crescer e ao invés do seu falecimento estamos a assistir a uma profunda alteração. “O que começou, na maioria dos países, como um meio de comunicação de transmissão nacional dominado pelo Estado, está a ser transformado num meio de comunicação internacional a cabo, via satélite e Internet” (Miller, 2009:22), onde os mercados ditam as tendências.

“O alcance da televisão está a aumentar, a sua flexibilidade está a desenvolver-se, a sua popularidade está a crescer; e a sua capacidade de influenciar e incorporar media mais antigos e mais novos é indiscutível. A TV não está morta, está a mudar” (Miller, 2009:24).

In document Universitetet i Bergen (sider 65-0)