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V ANNKRAFT , SMÅKRAFT OG BALANSEKRAFT ( PUMPEKRAFT )

5. OM SEGMENTENE OG DERES KLYNGEEGENSKAPER

5.3. V ANNKRAFT , SMÅKRAFT OG BALANSEKRAFT ( PUMPEKRAFT )

Segundo Fairclough (2003), avaliar é posicionar-se em relação ao que considera desejável ou não, relevante ou não. “Entretanto, declarações avaliativas também avaliam em termos de importância, utilidade, e assim por diante (veja Lemke, 1998), onde o caráter desejável é assumido” (FAIRCLOUGH, 2003, p. 172). Um verbo, um

advérbio ou um sinal de exclamação podem ser usados como elementos avaliativos em um dado enunciado.

Da mesma forma que propôs um continuum para a modalização, o pesquisador acredita que existe uma escala de intensidade (WHITE, 2001 apud FAIRCLOUGH, 2003), uma gradação na forma em que a avaliação pode ser usada. Advérbios e adjetivos seriam formas avaliativas de baixa intensidade, mas com uma gradação interna (bom/ótimo/excelente). Verbos com processos mentais afetivos também teriam uma gradação:

Exemplo 5 – Eu suporto esse tipo de atividade. Exemplo 6 – Eu gosto deste tipo de atividade. Exemplo 7 – Eu adoro esse tipo de atividade.

Segundo Fairclough (2003, p.171, tradução da pesquisadora),

Há também uma categoria distinta de avaliações explícitas que processos mentais, especificamente processo mentais afetivos (ex.’ Eu gosto dele livro’, ‘Eu odeio este livro’). Vamos chamá-las de ‘avaliações afetivas’. Estas são geralmente avaliações subjetivamente marcadas, quer dizer, elas explicitamente marcam a avaliação como aquela do autor, e elas são, portanto, comparáveis às modalidades marcadas subjetivamente (ex. ‘Eu acho que ela chegou’). Entretanto, elas também podem aparecer como processos relacionais onde o atributo é afetivo – compare: ‘Este livro me fascina’, ‘Este livro é fascinante’.43

Apesar de estar trabalhando com a mesma raiz latina, o verbo “fascinar” e o adjetivo “fascinante” apresentam graus diferentes de envolvimento dos atores sociais. A presença do verbo implica alto comprometimento na avaliação afetiva, mas - implicitamente – delimita a capacidade de afetação, pois o livro pode ser fascinante apenas para aquele leitor. O segundo caso, “O livro é fascinante”, implica menor comprometimento na avaliação afetiva, mas amplia a capacidade de afetação a um público mais amplo.

Trago esse exemplo para demonstrar que os processos de avaliação nem sempre são claramente demarcados. Quando o são, ocorrem por meio das escolhas de verbos e

43 “There i salso a distinctive category of explicit evaluetions with mental process (eg. ‘Ilake this book’, ‘I

hate this book’). Let’s call them ‘affective evaluations’. These are generally subjectively marked evaluations, i.e. they explicitly mark the evaluations as that of the author, and they are therefore comparable to subjectively marked modalities (eg. ‘I think she has arrived’). But they can also appear as relational processes where the atribute is affective – compare ‘This book facinates me’, ‘This book is facinating’”.

adjetivos, que podem ocorrer numa escala, assim como a modalização, de baixa à alta intensidade. De um modo mais detalhado, como o Quadro 12 de marcadores da modalização, apresento marcas explícitas de avaliação.

Quadro 12 – Fenômenos linguísticos e paralinguísticos a serem considerados em avaliações explícitas

Campo Categoria Exemplos de Fairclough (2003)

Aspectos semântico-

pragmáticos do verbo Verbos (de “processos mentais” afetivos

Ex. 8: ‘Os soldados mataram/ massacraram/ abateram/ esquartejaram os aldeões’

Ex. 9: ‘Eu gosto/amo/adoro este livro’

Valoração dos referentes, da circunstância ou do lugar. Aspecto sintático- semântico-pragmático Adjetivos

Ex. 10: ‘Este livro é bom/maravilhoso/fantástico’ Ex. 11: ‘Este é um livro importante’

Ex. 12: ‘Este é um livro imprestável’

Advérbios ou locuções adverbiais

Ex. 13: Ele não / nunca / jamais abrirá a janela.

Para Fairclough (2003) as declarações avaliativas não se limitam apenas ao “desejável” ou “não desejável” (Exemplos 5,6,7 e 9), mas também avaliam em termos de importância e utilidade (ver Exemplos 11 e 12). As avaliações sobre importância e utilidade podem sugerir avaliações implícitas sobre o “desejável” ou “indesejável”.

Em avaliações menos transparentes, como no exemplo “O livro me fascina”, sem a presença de advérbios ou adjetivos, Fairclough (2003, p.172) classifica as avaliações como “discurso-relativo”. O exemplo “Ela é comunista” (“She’s a communist”) só pode ser considerado avaliativo em dada contexto. Para ele, é difícil considerar que uma escolha lexical que não seja avaliativa. Resende e Ramalho (2006, p.80) esclarecem também que

As presunções valorativas são os casos em que a avaliação não é engatilhada por marcadores relativamente transparentes de avaliação, em que os valores estão mais profundamente inseridos nos textos. A construção de significado depende não só do que está explícito em um texto, mas também do que está implícito — o que está presumido. O que está "dito" em um texto sempre se baseia em presunções "não ditas", então, parte do trabalho de se analisar textos é tentar identificar o que está presumido.

Nessa pesquisa, utilizamos a nomenclatura “avaliação explícita” e “avaliação implícita” nos capítulos 7 e 8. Essa escolha se justifica pela explicitação de verbos, advérbios e adjetivos que caracterizam determinada situação ou pessoa em termos do

“desejável”/ “indesejável”, do “importante”/ “desimportante” ou do “útil”/ “imprestável”. As outras formas de construção que, pelo “não dito”, apontam para avaliações dessa natureza foram caracterizadas como “avaliações implícitas”.

Fairclough (2003) propõe que as práticas sociais podem ser compreendidas como articulações de diferentes tipos de elementos sociais que são associados com áreas particulares da vida social: ação e interação; relação social; pessoas (com crenças, atitudes, histórias, etc); mundo material; e discurso. Para Fairclough, a representação é uma questão discursiva, e o discurso, como vimos, é apenas parte das práticas sociais – mesmo que em sua obra esteja relacionada aos conceitos de ideologia e poder, e tenha um significado para além da produção em um contexto pontual. Para Magalhães (2009, p. 717) “os discursos (incluindo os aspectos semióticos ligados à imagem) são dimensões das práticas sociais; portanto, os textos, que são materializações linguísticas e semióticas das práticas, precisam ser aí contextualizados”.

O fragmento a seguir traz a história do autorreconhecimento de Amarilis revelando muitos dos preconceitos que precisou enfrentar.

[Entrevista 1 – fragmento 2 – Amarilis]

É:: eu me defino como negra, né? E é uma característica assim que na minha:: ao longo da minha vida, trouxe algumas dificuldades, principalmente porque como eu sou filha de militar, né? Portanto sempre fui de classe média, sempre estudei em escolas particulares. Então, eu era sempre uma negra no meio de brancos não é? E logicamente que no período da escola que ti::nha a coisa do bu::llying,por conta da cor::, por:: conta do cabe::lo, não é? É:: E logicamente que assim que quando se é criança, que quando se é adolescente você sente muito isso, não é? Essa coisa da da de ser rejeita::da pelos outros, por conta da cor, por conta do seu cabelo, não é? MAS QUANDO eu na na educação, no ensino médio, né? Na época segundo grau, então eu fui estudar numa escola que eu fiz amigos assim muito caros, né?

Amarilis, 48 anos, se define como “mulher negra”. O seu autorreconhecimento está associado à consciência crítica da dificuldade do que é ser uma pessoa negra no Brasil. A presença da modalização “algumas dificuldades” – apresentada como um eufemismo - é justificada pelos fatores sociais descritos: filha de militar, de família de classe média. No seu ponto de vista, esses fatores, tornaram a sua negritude menos violenta, do que, por exemplo, a de uma mulher negra pobre, residente na periferia de

Fortaleza. Como era pouco comum a presença de pessoas brancas nas escolas de classe média, era também comum que houvesse estranhamento da presença de alunos e alunas negras nessas mesmas escolas. O contraditório se apresentava em sua vida. Ao mesmo tempo em que se sentia favorecida pela possibilidade de cursar aquele tipo de escola, também se sentia excluída dentro do espaço, porque seu corpo (sua cor, seu cabelo) não estavam em harmonia com o padrão hegemônico. “A coisa de ser rejeitada pelos outros, por conta da cor, por conta do cabelo, não é?” A ausência de vocabulário para se referir ao processo de rejeição, chamando de “coisa” e, ao mesmo tempo, o próprio reconhecimento da rejeição, além do tom da voz na narrativa, mostra uma insegurança, insatisfação, inquietação com o processo vivenciado.

Amarilis reconhece a dureza e a crueldade do sistema, que é racista, quando afirma “eu era sempre uma negra no meio de brancos”. E a marca da brutalidade desse racismo também está na escolha do verbo “rejeitada”. Ela não foi apenas “ignorada”, não foi “invisibilizada”, ela foi “rejeitada”.