Que universidade é essa em que essas alunas entravam? No item anterior, há a caracterização de que era (e ainda é) elitista e conservadora. Essas características dificultam muito a permanência das mulheres. Há, no estado do Ceará, uma diferença entre a UECE e a UFC. Como disse Jasmim Amarelo, a universidade estadual é tratada pelos alunos como aquela de recorte mais popular, assim o relato de Girassol sobre sua longa e difícil permanência na graduação e na pós-graduação traz a marca do apoio da instituição, dos/as professores/as e dos/as colegas de sala.
[Entrevista 2 – fragmento 2 – Girassol]
Eu queria falar também, eu não sei se eu já falo aqui, mas é sobre o meu mestrado que no mestrado foi uma experiência que pra mim foi muito foi mu:ito é:: desafiante [avaliação explícita]. Eu também gastei mais do que o tempo [ela fez a graduação em 9 anos]. Era
para fazer em dois anos e meio e eu fiz em quatro anos e a questão financeira ela foi, ela atravessou o curso porque eu precisa// a a universidade ela-a-a praticamente exige, quando você vai fazer um mestrado, um doutorado, uma dedicação exclusiva que pra quem precisa trabalhar é bem difícil[avaliação explícita] e aí eu passei uma parte do curso,
talvez um ano e meio, desempregada Então, era difícil! Chegou momentos em que eu disse assim eu não não consigo mais[avaliação explícita]// então// E muitas vezes eu eu disse
assim: “Vou abandonar” [modalidade epistêmica – declaração], né? Até chegar um ponto em que a
coordenação soube que eu não tava mais querendo, que eu não tava mais podendo[modalidade epistêmica – declaração], na verdade, e:: ai o povo fez assim: a Universidade
assumiu tirar todas as xerox do texto. Eu não tinha dinheiro para chegar na faculdade
[modalidade epistêmica – declaração]aí, algumas pessoas me davam carona e:: e:: acho que era
isso, né? E até mesmo lanche, quando eu passava o dia todo, a alimentação pesava em alguns momentos[modalidade epistêmica – declaração]. E ficar nessa condição[avaliação implícita]// Eu
sou// eu tenho uma gratidão profunda por todas as colegas que colaboraram, que contribuíram. Tem a universidade que eu acho que ela tem que cumprir mesmo de tirar as xerox e tudo, mas é um lugar muito desconfortável[avaliação explícita]. Principalmente,
você é sujeito da história da sua vida, assim, eu comecei a trabalhar mu:::ito cedo, mas eu tava naquela situação, desempregada e:: eu não não conseguia [modalidade epistêmica – declaração].
A permanência na universidade é avaliada como um desafio, o uso do advérbio “muito” demonstra que não se trata de etapa de sua vida que vai requerer pouco empenho. Ao contrário. As condições de acesso de um curso de pós-graduação já eliminam muitos alunos, porque exige dedicação exclusiva. A exclusividade do estudo só pode existir para famílias de classe média ou para pessoas jovens, ou para pessoas que tenha condições de se engajar na faculdade ao ponto de ganhar uma bolsa de estudos de algum dos programas. Uma mulher de mais de quarenta anos, mãe de dois filhos, negra e pobre não se enquadra nesse perfil.
Quadro 22 - Análise da permanência de Girassol da universidade.
Como se sentia? O que a impedia?
Vou abandonar que eu não tava mais querendo, que eu não tava
mais podendo
E ficar nessa condição Eu não tinha dinheiro pra chegar na faculdade
é um lugar muito desconfortável E até mesmo lanche, quando eu passava o dia
todo, a alimentação pesava em alguns momentos você é sujeito da história da sua vida, assim,(...)
e:: eu não não conseguia. eu comecei a trabalhar mu:::ito cedo, mas eu tava naquela situação, desempregada
O sistema social tinha atingido aquela mulher no que lhe era mais caro: perdera a possibilidade de ser sujeito de sua própria história. O duro golpe do desemprego não permitia que tivesse dinheiro para o transporte, para alimentação, para fotocópia. Não era uma questão de “querer”, da esfera do desejo, era uma questão do “poder”, da esfera da possibilidade/impossibilidade. Não havia dinheiro ir à faculdade, indo, precisava decidir se poderia ou não se alimentar, porque aquela decisão interferiria no orçamento familiar.
Na avaliação indireta “ficar nessa condição”, cabe no pronome demonstrativo “nessa” toda a sorte vivenciada naquele momento de sua vida. “Essa condição” recupera o limite da possibilidade de sua permanência na universidade. Entendo que existem três momentos descritos nessa dificuldade de permanência: o primeiro se dá pela real impossibilidade financeira de continuar o curso; o segundo, pelo desconforto que é fazer o curso dependendo da ajuda diária dos outros para comer, deslocar-se e ter acesso aos textos; e o terceiro, não descrito nesse fragmento, traz a experiência de quando consegue um emprego, mas de tão duras condições que quase inviabilizam a continuação do curso.
Para Glicínia, a questão maior foi a distância entre a universidade que ela queria e a real universidade.
[Entrevista 2 – fragmento 1 – Glicínia]
[sobre como eram as aulas] Realmente a vivência era puramente dentro da universidade[modalidade epistêmica – declaração], né? E: no finalzinho, quando eu já tava: muito
desinteressada mesmo com o curso e com tudo[avaliação explícita]// menina, as vezes eu ia da
Messejana pro Pici, o curso era no Pici, era e ainda continua sendo ((risos)) ai eu pensava “Ah, meu Deus, espero que alguma coisa bata nesse ônibus, que esse ônibus vire, que eu fique em coma [modalidade epistêmica – declaração] ((risos de todas)) Eu não quero
mais!” [modalidade epistêmica – declaração] ((burburinho)) Então, essa era a minha reza quase
cotidiana. Mas eu tenho que ir[avaliação]! Por conta eu acho que dessa vivência
((permanecem os risos)) (...) Por conta de não enxergar a universidade como um espaço meu, assim[avaliação]// Que eu me enxergue em cada cada processo diante do que
(inint.) nada quase. E ao mesmo tempo ter li// assim// É muito doido[avaliação explícita],
porque ao mesmo tempo que a gente tem uma certa dita liberdade pra//, mas é tipo assim por nossa própria conta, né? Assim, você quer estudar isso? É isso que você se interessa e quer estudar? [modalidade epistêmica – interrogação] Então, vai-te embora[modalidade deôntica – exigência], né? Isso não é comigo, o que é comigo está aqui escrito nesse plano [modalidade epistêmica – declaração], enfim!
Quadro 23 - Análise da permanência de Glicínia na universidade
Como se sentia? Como a universidade a tratava?
no finalzinho, quando eu já tava: muito
desinteressada mesmo com o curso e com tudo você quer estudar isso? É isso que você se interessa e quer estudar? Então, vai-te embora,
né? Isso não é comigo, o que é comigo está aqui escrito nesse plano
Ah, meu Deus, espero que alguma coisa bata nesse ônibus, que esse ônibus vire, que eu fique em coma (...) Por conta de não enxergar a universidade como um espaço meu
eu tenho que ir! É muito doido!
A aluna não se identificava com a universidade. Não eram discutidos os temas e problemas do seu cotidiano. A distância já mencionada por Bromélia nos cursos de Pedagogia e Direito também ocorria no curso de Economia Doméstica. As aulas eram ministradas com transparências de semestres anteriores (na época, os professores ainda usavam transparências e não slides), sem o cuidado de adaptação dos exemplos. Com o decorrer do curso, a aluna foi desistindo, ficando desinteressada. O nível de desinteresse marcado pelo advérbio de intensidade “muito” antes do adjetivo “desinteressada” e pelo advérbio de realce “mesmo” logo depois é traduzido no desejo de acidentar-se: Glicínia preferia ficar em coma (!) a assistir uma aula. A declaração que imprime o de sua presença “eu TENHO que ir”, é também uma avaliação social de cumprir com o papel esperado pela família e pela sociedade. Apesar da obrigatoriedade explicitada, a aluna se nega como parte desse espaço, pois é um espaço não acolhedor de diferenças, de outras possibilidades.
estudar? [modalidade epistêmica – interrogação] Então, vai-te embora[modalidade deôntica – exigência], né?
Isso não é comigo, o que é comigo está aqui escrito nesse plano” há um descompromisso por parte do professor em relação ao que não está institucionalizado, ele só se dispõe a refletir sobre o que está na ementa da disciplina e aconselha a jovem a buscar as informações que a inquietam em outros espaços. O uso do pronome demonstrativo “isso”, em relação ao que se interessa por estudar, poderia se tratar a uma referência direta ao conteúdo que está sendo localmente apontado naquele momento da conversação, mas tem mais força como um uso pejorativo, porque está associado também a uma outra construção pejorativa “vai-te embora”. A ordem é literal, “não desejo você perto de mim, não desejo trabalhar com esses conteúdos”. É a voz intransigente da recusa, na negação do outro (e o outro aqui é a mulher negra).
E a universidade dizia para ela que ela não fazia mesmo parte quando não se abria para novas pesquisas, novas leituras novos olhares. Estava fadada a olhar os seus objetos de estudo com os mesmos velhos olhares planejados com padrões de uma universidade do século XX.
Pensar uma universidade acolhedora para os alunos e alunas não é pensar uma universidade sem qualidade de ensino. Ao contrário. É pensar em criar as condições físicas elementares para que esses alunos e alunas tenham condições de acessar o nível de ensino requerido pela universidade.