Neste contexto de opressão política, foram muitos os que utilizaram o discurso escrito como arma ideológica de combate e denúncia. Era necessário tomar o poder em nome não do povo, mas do progresso e da civilização.
José Pedro Crisólogo Mármol – José Mármol – surge neste momento. Apesar de não haver indícios de que houvesse participado das reuniões do Salão Literário de Marcos Sastre, em 1837, ou que fosse membro da Associação de Maio, grupo fundado em 1838 por Esteban Echeverría, suas preocupações políticas o fizeram atuante colaborador na distribuição clandestina, em Buenos Aires, dos jornais editados pelos argentinos exilados. Como ele
mesmo escreveu: “Yo no podía ser indiferente a las calamidades de mi patria, que yo veía tan claro, impulsado por esa fiebre de libertad que ha marcado después todos los actos de mi vida.” 24.
Por sua ativa militância acaba sendo preso e, em novembro de 1840, por causa das perseguições políticas emigra para Montevidéu. No exterior, irá trabalhar, juntamente com os proscritos, contra o governo rosista, escrevendo para jornais de argentinos exilados e mais tarde, nos periódicos fundados por ele mesmo, a fim de influenciar com suas idéias aos leitores.
No cenário argentino, Echeverría foi a sua grande referência. As discussões sobre o papel da elite letrada e os métodos e estratégias para se alcançar os objetivos propostos foram uma grande influência. Assim como o “mestre da jovem geração” Mármol escreveu em seus textos jornalísticos sobre uma renovação política, social e cultural, cuja responsabilidade estaria nas mãos dos jovens comprometidos com a militância política ativa contra a “ditadura” de Rosas, os quais, em sua grande maioria, encontravam-se dispersos pelos países vizinhos.
Diante da certeza de que a população argentina não está preparada para exercer plenamente os seus direitos, faz-se necessário o surgimento de um governo que a represente de forma sensata e racional, estendendo a educação a todos os indivíduos, fomentando o progresso e protegendo os pobres, a fim de que tenham condições de atuar livremente como cidadãos. Para isto, Esteban Echeverría, líder e mentor intelectual do Romantismo argentino, funda a jovem geração, grupo de pensadores, estadistas e escritores, que, como intelligentsia, tomam para si esta missão.
Tenemos que continuar la revolución porque España y Portugal todavía imperan en sus antiguas colonias, y tenemos que firmar una independencia, quizá más cara: la independencia intelectual, independencia moral o filosófica, independencia literaria, independencia de expresión. (MÁRMOL, 2001, p. 71)
24 No original: “Yo no podía ser indiferente a las calamidades de mi patria, que yo veia tan claro, impulsado por esa fiebre de libertad que ha marcado después todos los actos de mi vida.”
Os textos ensaísticos de José Mármol foram retirados do livro: MÁRMOL, José. In: WEINBERG, Gregorio, (org): Manuela Rosas y Otros Escritos Políticos del Exilio. Buenos Aires: Taurus, 2001.p. 50.
Imbuídos por esta missão, não foi difícil supor que a hostilidade do regime se voltasse para a Jovem Generação. Pouco a pouco muitos de seus integrantes são obrigados a deixar o país e exilar-se em outras regiões como o Uruguai, Chile e o Brasil, de onde continuavam a exercer forte oposição ao governo, através de seus escritos literários e jornalísticos.
Sem fugir dos acontecimentos políticos imediatos, prioridade das tribunas jornalísticas da época (como as críticas a Juan Manuel de Rosas), José Mármol expõe em seus artigos propostas que têm amplo embasamento doutrinário. Seus trabalhos preconizam uma renovação política, social e cultural na Argentina, cuja responsabilidade está nas mãos da jovem Geração, que neste período estava representada pelos jovens compromissados com a militância política ativa contra a ditadura de Rosas, os quais, em sua grande maioria, encontravam-se dispersos pelos países vizinhos.
Com a fundação, em 1841, do jornal político e literário El Paquete de Buenos Aires dedicado quase exclusivamente à política argentina e a propagar e manter a causa da revolução (termo usado para designar a luta contra o governo de Rosas), Mármol escreve extensos artigos onde busca promover um debate público sobre os caminhos da revolução, para corrigir seus rumos e evitar fracassos.
Outra preocupação presente nos escritos de Mármol foi a tentativa de conciliar os grupos que disputavam o poder. Inicialmente o grupo tinha a expectativa de unir as duas tendências, chamando a atenção para uma nova geração disposta a superar os problemas enfrentados pelos velhos partidos na reconstrução da República.
Para eles, Rosas representaria o velho, a barbárie que deveria ser destruída não pela força das armas, mas pela união de todos os setores da sociedade a fim de que, guiados pelos intelectuais, fosse feita a revolução do pensamento:
Así los hombres nuevos, tanto para la revolución del pensamiento, como para la conclusión de Rosas que está encerrada en ella, son los únicos que la razón, las circunstancias y los hechos que hablan con más elocuencia que la palabra, los llaman a ocupar el lugar que con perjuicio de la revolución, de su patria y de ellos mismos, han dejado hasta hoy a los que ya no deban ni puedan ocuparlo. (AM, p.59) Rosas, como diz Mármol, encarna o atraso, é ele o “monstro da pátria”, utilizando-se de métodos ilegítimos para manter-se no poder. Por outro lado, os unitários, mesmo tendo a simpatia do autor, não foram competentes para desenvolver mecanismos que levassem a nação ao progresso e à democracia, sendo (como os federais) responsáveis por dividirem a República em duas facções irreconciliáveis. Nesta guerra, somente a Jovem Geração se encontraria em condição de destruir as idéias dominantes, propor a união de unitários e federalistas e fazer uma revolução das idéias, em nome da liberdade e da civilização.
Por un conjunto raro de circunstancias, nuestra patria parece que tiene el destino de asomar por décadas, bajo fases distintas. Del año 10 al 20 se ocupó del complemento de la independencia; del 20 al 30 fue lo más una década de civismo; del 30 al 40 un retroceso completo en su progreso. Rosas vino a formar y representar, también, la década de su retrogada ación.
Él vino a arrancarle de sus manos la enseña de la reforma y civilización, con que había empezado y debía continuar conduciendo a la América; y a colocar en su lugar el abecedario del absolutismo con quien se acababa de luchar y vencer. (MÁRMOL, 2001, p.68)
(...) esta generación que se levanta no tiene ni odios ni afecciones de partido por nadie – su amor es la libertad -, su odio es Rosas, porque Rosas es la barbarie y el despotismo encarnados en un hombre. (AM, p.90)
Para poder lutar contra a barbárie instituída por Rosas em seu governo, os participantes da revolução devem voltar-se para a Europa, em especial França, e abandonar os maus hábitos adquiridos pela influência da tradição colonial, educando-se e aprimorando-se para servir à pátria de forma mais eficaz. Sobre a importância do contato entre os intelectuais americanos e o pensamento europeu, afirma Mármol que “necesitamos a Chateaubriand para levantar del Mississippí el velo de sus encantos, a Toqueville, para conocer nuestra propia democracia, y a D`Orbigny, para conocer nuestro terreno.”(AM, p.65). Entretanto, é certo que para Mármol, ainda que as fontes inspiradoras do Romantismo se originem na Europa, e mais precisamente na França, elas não devem ser adotadas
mecanicamente, numa condição de passividade, sem que sejam adequadas ao pensamento nacional, imprescindível como complemento da independência política.
El Sr. don J. G. Magalhães fue el primero que importó al Brasil, como el Sr. don Esteban Echeverría a Buenos Aires, el espíritu, la entonación y la forma de la nueva Lira europea, porque también la revolución literaria había dado un molde a las inspiraciones poéticas, que no era resultado de la convención de una Sorbona, ni de la sanción de una costumbre, sino simplemente la forma que se acomodaba al gusto y al pensamiento del poeta, forma que puede definirse, la libertad de formas y de aquí data la reputación de esos dos poetas (AM , p. 142)
Tais idéias, expostas no artigo intitulado Examen Crítico de la Juventud Progresista
del Río de Janeiro, que foi publicado em março de 1846, no jornal literário do Rio de Janeiro o Ostensor Brasileiro, esboçam a teoria sobre o sentido e o objetivo do Romantismo literário e sobre a sua condição de promotor de mudanças sociais. Além disso, chama a atenção para os vínculos e as necessidades das sociedades americanas, cujos intelectuais devem defender os princípios progressistas.
Novamente nota-se que, para Mármol, juventude, Romantismo e progresso são termos equivalentes, quando podem ser associados à modernização do país. Assim como fica notória a influência que exercem nele as idéias sobre o desenvolvimento cultural expostas por Echeverría, Gutiérrez e Alberdi.
Tenemos una sociedade nuestra, original y extraña por los dos elementos que la constituyen: la civilización y la barbarie. ¿Qué halláis de americano en nuestras ciudades? Nada. Todo es europeo desde el traje y la manera hasta las concepciones de la vida social. ¿Qué halláis en nuestros pueblos de campo y en nuestros desiertos? La barbárie, esto es, la América; porque la América no es otra cosa que la última palabra de la Edad Media introducida por la España y Portugal en sus colonias; y la Edad Media es la edad bárbara por excelencia. (Ibidem, p.108)
Ao contrario desses grandes ícones de Romantismo argentino, que viram as suas idéias transformar-se em doutrina para muitos intelectuais de sua época, Mármol usa seus artigos como indicadores para uma geração que tem muito a fazer para o futuro. Seu papel é muito mais de divulgar e refletir sobre a realidade de seu país, a fim de buscar inovações políticas.