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A atuação dos setores populares na política rosista, como bem demonstra Ricardo Salvatore (2005), não deve ser compreendida como simples subordinação. Para ele, o protagonismo desses grupos serviu para definir as identidades das minorias, assim como para dar condições para que elas se relacionassem com as autoridades do Estado e com seus superiores de classe.

Dentre as muitas transformações sociais ocorridas na sociedade argentina após a independência, Rosas identificou a existência de “minorias” sem representação política, mas com o desejo de encontrar no Estado alguém que lhes desse voz. Ele também observou que seus opositores políticos possuíam um profundo desdém oligárquico e cultural contra essas minorias e visualizou o rancor que esta atitude causava na população mais pobre. Astutamente, Rosas deixa transparecer que a luta de seu governo é a mesma dos grupos menos favorecidos e ganha um aliado político muito importante.

Sobre a pouca importância dada pelos anteriores governantes aos setores menos favorecidos da sociedade e a percepção que tem Rosas das vantagens que pode usufruir ao associar-se aos populares, citamos um trecho do despacho feito por Rosas ao representante do governo da Banda Oriental:

Aquí estou, senhor Vázquez, no posto do qual pensava estar mais distante, as circunstâncias me conduziram; trataremos de fazer o melhor que se possa (...) Conheço e respeito muito os talentos de muitos dos senhores que governaram o país (...), mas, em minha opinião, todos cometiam um grande erro, porque eu considero nos homens deste país, duas coisas: o físico e o moral; os governos cuidavam muito deste mas descuidavam aquele, quero dizer que governavam muito bem para as pessoas ilustradas, que é o que eu chamo moral, mas desvalorizavam o físico, pois, os homens das classes baixas, os do campo que são as pessoas de ação (...) Pareceu-me, pois, desde então, muito importante conseguir uma influência grande sobre essa classe para contê-la, ou para dirigi-la; e me propus adquirir essa influência a todo custo; para isto foi preciso trabalhar com muita constância com muitos sacrficios de comodidades e de dinheiro, fazer-me “gaucho” como eles, falar como eles e fazer tudo o que eles faziam; protegê-los, fazer-me seu defensor, cuidar de seus interesses, enfim, não economizar trabalho nem meios para adquirir mais seu conceito. (FEINMANN, 2006, p.149) 26

Rosas neste discurso demonstra total consciência da necessidade de manter o controle social para governar. Seu plano é identificar-se culturalmente com as classes menos favorecidas da sociedade, a fim de manipulá-las. Como reconhece Domingo Faustino Sarmiento, um de seus maiores críticos, “em favor da verdade histórica: nunca houve governo mais popular, mais desejado nem mais apoiado pela opinião pública” (Sarmiento, 1996, p. 130).

Em uma sociedade onde as formas de comunicação escrita eram muito limitadas e a maioria da população era composta por analfabetos, a política ganhou aspectos distintos daqueles encontrados hoje. As canções, os rumores, as piadas que circulavam nos bares, nas ruas e nos quartéis tinham tanta importância quanto as notícias que eram veiculadas nos jornais. Da mesma forma que as manifestações políticas não se limitavam ao voto, mas extendiam-se à forma de vestir-se, de falar e de comportar-se. Segundo Ricardo Salvatore a

26 No original: Aquí me tiene usted, señor Vázquez, en el puesto del que me he creído siempre más distante; las circunstancias me han conducido; trataremos de hacer lo mejor que se pueda (...) Conozco y respeto mucho los talentos de muchos de los señores que han gobernado el país (...), pero, a mi parecer, todos cometían un grande error, porque yo considero en los hombres de este país, dos cosas: lo físico y lo moral; los gobiernos cuidaban mucho de esto pero descuidaban aquéllo, quiero decir que se conducían muy bien para la gente ilustrada, que es lo que yo llamo moral, pero despreciaban lo físico, pues, los hombres de las clases bajas, los de la campaña que son la gente de acción (...) Me pareció, pues, desde entonces, muy importante conseguir una influencia grande sobre esa clase para contenerla, o para dirigirla; y me propuse adquirir esa influencia a toda costa; para esto me fue preciso trabajar con mucha constancia con muchos sacrificios de comodidades y de dinero, hacerme gaucho como ellos, hablar como ellos y hacer cuanto ellos hacían; protegerlos, hacerme su apoderado, cuidar de sus intereses, en fin, no ahorrar trabajo ni medios para adquirir más su concepto.

exteriorização do desejo de ser federal “implicava expressar-se contra o ‘sistema da unidade’, vestir ‘ao modo federal’ e contribuir com bens e serviços pessoais para a causa federal.”.27

Rosas era defensor da república e periodicamente convocava a população para eleger seus representantes. Apesar do caráter unipartidário das votações, através da participação popular, as ações do governo eram referendadas e a popularidade dos líderes federais confirmada. Outro mecanismo utilizado muitas vezes como complemento das eleições foi o plebiscito. Neste processo eram organizadas listas contendo a assinatura de populares, onde se solicitava a reeleição de Rosas.

A relação entre o federalismo rosista e as camadas populares da sociedade também foi sentida fora dos períodos eleitorais. Nas festas públicas como a Semana Santa, Carnaval, datas cívicas era comum a manifestação popular, através da qual brancos e negros expressavam repúdio a tudo que simbolizasse o partido unitário e demonstravam apoio ao federalismo.

Como a maioria da população era analfabeta, nas festas se traduziam para uma linguagem simples os princípios do federalismo e eram divulgadas notícias sobre o andamento da guerra civil e dos perigos que ameaçavam a confederação.

A política se refletia também na forma de vestir, de falar e de comportar-se, maneiras que definiam a identidade do indivíduo. Ser federal implicava ser contra os unitários, vestir-se em conformidade com o partido e contribuir com bens e serviços à causa rosista.

O uso de certos adornos e roupas por homens e mulheres facilitava a identificação dos que eram federais e traduzia para a vida cotidiana um dos princípios do partido: a uniformidade social. Se diante da lei todos eram iguais, a ostentação e o luxo eram reprovados porque tendiam a estabelecer diferenças entre os diversos grupos sociais.

27 No original: Iimplicaba expresarse en contra del ‘sistema de la unidad’, vestir ‘a la usanza federal’ y contribuir con bienes y servicios personales a la causa federal.”

Um ingrediente do rosismo foi a propaganda: alguns slogans simples e violentos ocuparam o lugar da ideologia; permearam a administração e foram impingidos sem cessar ao público. O povo foi obrigado a vestir uma espécie de uniforme e a usar a cor federalista, o vermelho. O simbolismo era uma forma de coerção e conformidade. A adoção da aparência e linguagem federalistas tomou o lugar dos testes de ortodoxia e dos juramentos de lealdade. A uniformidade federalista constituiu uma espécie de pressão quase totalitária, pela qual as pessoas eram forçadas a abandonar um papel passivo ou apolítico e adotar um comprometimento específico, a mostrar suas verdadeiras cores. (Lynch, 2004, p. 653).

A questão da aparência e das cores deu oportunidade a que setores populares canalizassem ressentimentos de classe. Assim, as negras e os negros que serviam na casa das pessoas mais abastadas, podiam acusar seus senhores de traição por causa de uma roupa azul guardada no armário.

A criadagem passou a representar uma extensão do poder de Rosas não só no espaço público, mas também na vida privada. Como olhos e ouvidos do Estado, negros e mulatos abandonaram “a submissão e a lealdade” que até certo ponto os caracterizou, para assumirem uma posição de poder.

4 - AMALIA E A NOVA ORDEM

Em 1851, na parte literária do jornal La Semana, Mármol iniciou a publicação de seu romance Amalia. No mesmo ano, começou a ser editado, mas por causa da queda de Rosas, Mármol decidiu interromper a sua escritura, só retomando-a em 1855, quando teve a intenção de publicar suas obras completas28. A atitude do autor de deixar a obra incompleta está associada ao caráter de panfleto contra o federalismo e de louvor ao ideal unitarista que o romance apresentava e que, com a saída do governador da província do poder, perdia um pouco a sua finalidade.

Mesclando elementos documentais com a ficção, Amalia pretende apresentar um testemunho dos acontecimentos transcorridos durante os meses de maio a outubro do ano de 1840 na Argentina, quando as tropas de Lavalle (inimigo político de Rosas) ameaçavam invadir a capital do país e tomar o poder.

Pelo fato de muitas das personagens serem históricas, o autor, estrategicamente, escreveu o romance como se a ação ocorresse em um passado distante. No entanto, com a intenção de aumentar a atmosfera realista, procurou respaldá-la com a apresentação de uma cronologia (dia e hora) que estivesse associada aos acontecimentos.

Com esta mesma intenção, a narrativa mescla às personagens reais e à cidade de Buenos Aires (com seus costumes e com a sua história) personagens fictícios, os quais se comportam de maneira incômoda frente a uma realidade que para eles é estranha.

A narrativa tem início na noite de 04 de maio de 1851, quando Eduardo Belgrano, após uma tentativa frustrada de fugir para Montevidéu, onde estaria livre das perseguições de Rosas, é levado por Daniel Bello, seu amigo, à casa de Amalia, que, como o colo materno, se abre para protegê-los dos perigos externos. Durate o decorrer da narrativa, acompanhamos os

28 Na edição comentada da editora Cátedra, Teodosio Fernández informa, em nota, que Mármol, no primeiro número do jornal El Paraná, expõe a seus leitores os motivos que o levaram a interromper a escritura de Amalia. Aconselhado por algumas pessoas, ele havia tomado a decisão, para evitar mal entendidos com o partido federal, uma vez que o país se encontrava em uma nova etapa política.

esforços do primo da heroína, Daniel, para proteger Eduardo do serviço de espionagem rosista e criar condições de segurança para que o amigo, finalmente, embarque rumo à segurança do exílio. No entanto, através da denúncia de populares, o esconderijo do jovem é descoberto. A casa é invadida pela Masorca, polícia de Rosas, e concretiza-se o fim trágico: Eduardo e Daniel são mortos e o destino de Amalia, assim como o da nação, segue indefinido.

Paralelamente à trama, encontramos o amor das personagens Amalia e Eduardo, Daniel e Florencia. Em meio ao clima de repressão imposto pelo Estado, os dois casais de enamorados sonham com o dia em que a nação estará livre da tirania e eles poderão concretizar o amor com a união pelo casamento.

No entanto, na narrativa de Mármol, nem os espaços sagrados, aqui representados pelo lar, estão livres da barbárie. Logo no início da obra, ainda no espaço exterior das ruas da cidade, Eduardo dirá: “el aire oye, la luz ve, y las piedras o el polvo repiten luego nuestras palabras a los verdugos de nuestra libertad.” 29 (AM, p. 67). Com essas palavras, a

personagem sinaliza para os leitores que algo não está normal, pois os elementos da natureza foram corrompidos, deixando de comportar-se de acordo com o que é esperado deles, para trabalharem contra a liberdade.

O culpado pela subversão da ordem será Juan Manuel de Rosas. O governador da província de Buenos Aires é caracterizado como um ser poderoso que tem, de acordo com os seus interesses, tanto a habilidade de inverter a ordem da natureza ao controlar os elementos: “invertia el tiempo, haciendo de la noche día para su trabajo, su comida y sus placeres.” (AM, p. 127), quanto o poder de intervir na ordem social, invertendo “los principios políticos y civiles” (Ibidem; p. 127). Porém, o que tal vez Mármol não indique é que, por trás dessa nova

29 A partir deste momento todas as citações de Amalia são retiradas da edição: MÁRMOL, José. Amalia. Madrid, Editora Cátedra, 2000. As referências bibliográficas do romance serão apresentadas no corpo do trabalho, segundo a abreviatura AM.

ordem, estava a defesa de interesses que se chocavam com aqueles defendidos pelos ilustrados de Buenos Aires.

Na verdade, frente à necessidade de apresentar-se como uma voz de resistência a tirania, não houvesse condições de abrir espaço para refletir sobre as ações do Outro. Daí possamos explicar o caráter belicoso do discurso ao utilizar uma excessiva força nos ataques, a estrutura maniqueísta, as descrições hiperbólicas e, principalmente, a associação inovadora de elementos realista-naturalistas a estilística romântica30.

Como já salientamos, a possibilidade de conciliação já não existe. Agora Buenos Aires, o espaço da civilização para as elites latino-americanas, foi invadida pela barbárie representada pela “ditadura” rosista e a plebe mestiça, negra e indígena.

Mais adiante, quando chega à casa de Amalia com Eduardo já ferido e fugitivo da “Masorca”, Daniel toma o seguinte cuidado mesmo antes de entrar na casa. “Oye: abre al momento la puerta de la calle; pero no despiertes a los criados.” (AM, p. 82).

Por muitos anos mestiços, negros e índios habitaram o interior das casas das pessoas de classe mais acomodada para servi-los, mas, os laços de lealdade que os transformavam em copartícipes da intimidade doméstica já não existem. Rosas, com sua política populista, subverte a ordem social que determinava a função de cada um dentro das relações interpessoais. Os criados passam a não identificar em seus senhores a autoridade que lhes impunha uma postura de submissão e respeito.

Novas normas de conduta passam a ser ditadas e é aqui que se estabelece o impasse, uma vez que elas excluem das relações de poder uma parte da população que antes o detinha. Imbuídos de um pseudopoder, os negros (escravos ou libertos) ganham prestígio à medida que passam a utilizar a arma da denúncia para servir ao governo. “La policía de Rosas tiene tantos

30 Destacamos que Echeverría já havia utilizado o mesmo recurso ao escrever El Matadero.Para obter mais informações sobre o tema, cf. o artigo SILVA, Cláudia Luna. Días de sangre y de fúria: “El Matadero” de Esteban Echeverría. In: GURAL-MIGDAL, Anna. Excavatio: Naturalist transgressions in Europe and Latin America. vol. XX, 2006.

agentes cuantos hombres ha enfermado el miedo. Hombres, mujeres, amos y criados, todos buscan su seguridad en las delaciones.” (AM, p. 86).

O resultado do enfrentamento dessas três forças – ditadura rosista, elite ilustrada e povo - é percebido em muitos dos textos jornalísticos de escritos por Mármol. Neste o autor relaciona as causas que levaram o povo argentino a submeter-se ao governo de Buenos Aires:

Rosas no es más que un efecto del estado moral e inteligente del pueblo que domina. Los tiranos se remontan al poder por la destreza, o muchas veces por la reunión de circunstancias que las revoluciones improvisan, pero no se mantienen en el poder mucho tiempo, dieciséis años, por ejemplo, si el pueblo no tiene habitudes de esclavo y una moral poco escrupulosa, por una larga escuela de servidumbre. (MÁRMOL, 2001, p.68).

As questões levantadas por Mármol vêm de encontro as preocupações de cunho ilustrado desenvolvidas por Echeverría. Como analisa Cláudia Luna (2006), para o autor de El

Matadero a única maneira de garantir a democracia e evitar o retorno a um estado primitivo seria através da educação e conscientização das massas.

A realização dos projetos echeverrianos para a implementação da civilização na argentina eram possíveis uma vez que as elites pertencíam “a uma raça privilegiada, a raça caucasiana, melhor dotada que nenhuma das conhecidas de um crânio extenso e de faculdades intelectuais e perceptivas.”31 (ECHEVERRÍA, 1972, p. 111)

Da mesma forma, Juan Bautista Alberdi no texto Bases y Puntos de Partida para la

organización política de la República Argentina (1852) declara:

Tudo na civilização de nosso solo é europeu”; “Nós, os que nos chamamos americanos, não somos outra coisa que europeus nascidos na América. Crânio, sangue, cor, tudo é de fora.” (In: HALPERÍN-DONGHI, 1980, p. 89) “Na América tudo o que não é europeu é bárbaro: não há mais divisão que esta: 1º -o indígena, quer dizer o selvagem; 2º -o europeu, quer dizer, nós. (In: HALPERÍN-DONGHI, 1980, p. 90) 32

O tom cientificista (racialista) utilizado pelas elites para justificar as desigualdades sociais e o apagamento dessas diferenças, através dos projetos de extermínio daqueles que se

31 No original: “a uma raza privilegiada, a lar aza caucasiana, más bien dotada que ninguna de lãs conocidas de um cráneo extenso y de facultades intelectuales y perceptivas.”.

32No original: “Todo en la civilización de nuestro suelo es europeu”; “Nosotros, los que nos llamamos americanos, no somos otra cosa que europeus nacidos en América. Cráneo, sangre, color, todo es de afuera.” (In: Halperín, 1980: 89) “En América todo lo que no es europeo es bárbaro: no hay más división que ésta: 1º -el indígena, es decir el salvaje; 2º -el europeo, es decir, nosotros. (In: Halperín, 1980: 90) 32

colocavam contra o progresso, só vem corroborar com a tese de que Mármol fará uso deste recurso, como forma de atacar e destruir simbolicamente a plebe que apoiava a Rosas.

O momento histórico em que Rosas ocupa o poder exemplifica muito bem esta situação, pois a elite lutava contra um governo tirânico que contava com o apoio de uma população “incapaz de exercer por si só e amplamente seus direitos.”33 (ROMERO, 1977, I: 133) Não havia espaço para a idealização e o intelectual letrado utilizou a escrita como arma para proteger a nação daqueles que queriam privá-la do progresso. Os jovens escritores compuseram obras em que teciam comentários sobre Rosas e seus partidários. Mármol descreve os populares como “ese pueblo ignorante por educación, vengativo por raza y entusiasta por clima”. (AM, p. 44)

Segundo Nicolás Shumway (2005), para os autores do período, não era suficiente apenas criticar a Rosas, pois se o poder que ele detinha era sustentado pelo apoio que recebia das classes menos favorecidas, era necessário denegrir e rebaixar as massas a fim de destruí- las e provocar a queda de Rosas.