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É importante esclarecer que a docotomia entre civilização e barbárie não fazem parte do conjunto de teorias racialistas. Porém, como eles se associam a um julgamento de valores e classificação que um grupo ou indivíduo faz sobre o outro, pareceu oportuno agregar o assunto ao tópico em que tratamos de racismos e racialismos.

Por representarem o olhar “do branco vindo dos países civilizados” frente à América bárbara, os textos produzidos pelos viajantes europeus, especialmente ingleses. Durante a 2ª metade do século XVIII e todo o século XIX são um importante documento que serviu como alicerce para a construção, segundo Heloisa Reichel, de “visões de mundo, auto-imagens, estereótipos étnicos, sociais, geográficos entre outros”15, já que influenciaram a intelectualidade crioula, como Estebán Echeverria, Juan Bautista Alberdi, José Mármol e Domingo Faustino Sarmiento, entre outros, e nortearam a construção de uma representação literária de um projeto de nação elaborado por eles para a América, em particular para a Argentina.

Pautada na superioridade do branco europeizado – o civilizador – frente ao índio, ao “gaucho”, ao negro, ao mestiço – o bárbaro que precisa ser dominado, a dicotomia Civilização/Barbárie é implementada no pensamento crioulo, o que produziu um corte dicotômico que perdura até o século XX na sociedade argentina, com o exemplo de Perón e os “Cabecitas Negras”.

15 Apud. PRATT, Mary Louise. 1999, p. 12.

Mas quem é bárbaro? A pergunta, difícil de responder, introduz o livro Civilização e

Barbárie, que nos apresenta três sentidos para a palavra. Segundo Francis Wolff (2004), autor do capítulo que trata desta questão, pode ser considerado civilizado o povo que abandona costumes grosseiros e aproxima-se dos hábitos de “boas maneiras”; também pode ser aquele que detém os valores científicos e artísticos, em oposição aos bárbaros que ignorariam tais conceitos, só reconhecendo valor no útil, na satisfação das necessidades vitais ou dos prazeres grosseiros; por último, civilizado é aquele que no contato com o outro aparenta ser humano. Em todo caso, as definições remetem ao homem, grupo ou sociedade que perdeu a humanidade e torna-se selvagem, bruto, primitivo, acercando-se do animalesco.

Afirma Wolff sobre o tema:

O bárbaro é aquele que é incapaz de pensar tanto o uno como o múltiplo – já que os dois estão ligados. Incapaz de pensar tanto a universalidade humana como a diversidade indefinida das culturas. Ele só consegue pensar em termos dicotômicos, o Bem e o Mal, o próprio e o estrangeiro, nós e eles, mesmo que os chamem de “civilização” (aqui, eu, meus deuses) e “barbárie” (lá, o outro, o inimigo de Deus, o Grande Satã). (NOVAES. 2004, p.42)

Segundo Hayden White (1994), o que determinaria o aparecimento de noções como civilização ou barbárie é o período histórico. Em épocas de tensão sócio-cultural, quando surge a necessidade de “autodefinição positiva”, mas não se encontram critérios irrefutáveis para a formação de uma “auto-identificação”, é comum que surja a tendência de buscar a partir daquilo que é diferente elementos que possam criar um conceito do “Eu” baseado não naquilo que sou, mas no que não sou, no que o outro tem de diferente de mim.

Comum em conflitos que envolvem nações, classes e partidos políticos, a técnica de “autodefinição aparente por negação” (terminologia empregada por White) é muito utilizada pelas elites que desejam reivindicar seu status contra os grupos subalternos. Alicerçada por estas constatações, o conceito de “estado selvagem”:

Faz parte de um conjunto de instrumentos culturalmente autolegitimadores que inclui, entre muitas outras, também as idéias de ‘loucura’ e de ‘heresia’. Estes termos são utilizados não só para designar uma condição ou estado de ser específico, mas também para confirmar o valor das suas antíteses dialéticas, ‘civilização’, ‘sanidade’ e ‘ortodoxia’” (1994, p. 170)

Não se tendo certeza do que seja “civilização”, “sanidade” ou “ortodoxia” é mais fácil se recorrer a um exemplo do que esses termos não são. Assim se buscam seus opostos: “selvageria”, “loucura” ou “heresia”, na tentativa de, a partir da definição do que eles são, se criar elementos que possam definir os primeiros termos.

Outro ponto importante explicitado por White é o de que apesar de modernamente estas questões já estarem superadas, uma vez que a maioria dos ideólogos contemporâneos compreende que a noção de “selvageria” é inata ao ser humano e, por isso, impossível de ter fim, foi comum no passado, apelar-se para a violência, pois se pensava que seria possível eliminá-la extirpando os que fossem considerados “selvagens”, já que estes estariam fora do considerado “mundo civilizado”.

Baseados nestes princípios, muitos mitos foram desenvolvidos. O mito do “homem selvagem”, por exemplo, remonta aos primórdios da humanidade. Gregos, hebreus e os cristãos medievos não compreendiam a humanidade total da mesma forma. Para o antigo pensamento hebreu, o estado selvagem se manifestava todas as vezes que um homem, uma mulher, um lugar ou grupo perdiam a benção de Deus e caiam numa condição de maldição.

Nesta concepção a humanidade estaria dividida em dois grupos: os que usufruíam das bênçãos divinas e dos que não as possuíam. Estes últimos eram considerados monstros (gigante, negro), pois a sua aparência física representava a natureza maligna presente pelo distanciamento de Deus. Da mesma forma, a ausência da fala era explicada por ser ela elemento de dominação. Ao ser privado da fala o homem é punido por seu orgulho16.

Já para os gregos a mudez do Homem Selvagem estava associada ao fato de que os bárbaros17 eram aqueles que não falavam grego, alguém que balbuciava e carecia do único poder que poderia introduzi-lo na vida política e alcançar a humanidade. Nesta concepção, a diferença entre homens civilizados, bárbaros e homens selvagens estava ligada ao fato de os

16 Concepção desenvolvida por Santo Agostinho (1994: 183) 17 Utilizarei os termos bárbaro e selvagem como sinônimos.

homens viverem submetidos a alguma lei. A ordem estava constituída na cidade e quem vivesse fora dela era animal ou deus. Os homens “normais” eram aqueles que haviam nascido em uma cidade-estado e poderiam exercer plenamente a sua humanidade, através da política. No entanto, nem todos alcançavam, dentro da cidade, a plena humanidade. Esta era negada às mulheres, aos escravos e aos comerciantes.

Os bárbaros e os homens selvagens eram dominados pela natureza, no entanto, os primeiros viviam em grupo e o segundo sozinho. Nesta visão, a aproximação do homem bárbaro da cibade impunha um perigo para a civilização.

Eram, como os animais, escravos do desejo e incapazes de dominar as suas paixões; eram volúveis, inconstantes, confusos, caóticos; eram incapazes de vida sedentária, de autodisciplina e de trabalho sistemático; eram passionais, perplexos e hostis à humanidade “normal” – tudo o que é sugerido nas palavras latinas que designam “selvagem” e “selvageria”. (WHITE, 1994, p. 186)

Para o homem medieval, o homem selvagem habitava os limites da comunidade, mas não representava uma ameaça ao grupo. Mesmo que não usufruísse das vantagens da vida em grupo, como: “sexo civilizado (organizado pela instituição de uma família), do sustento (proporcionado pelas instituições políticas, sociais e econômicas) e da salvação (proporcionado pela Igreja)”, tinha por vantagem não sofrer “qualquer restrição imposta pelo fato de pertencer a essas instituições”. (1994, p.187)

A “inocência” própria daquele que praticava um ato “errado” por desconhecimento proporcionava ao selvagem uma liberdade muitas vezes invejada pelos homens “normais”. Presos às regras e aos compromissos sociais, não foi estranho, segundo White (1994), que a repulsa ao homem selvagem se transformasse em admiração nos séculos XIV e XV.

Não surpreende que, numa época de revolução cultural geral, o antítipo popular da humanidade oficialmente definida como ‘normal’, o Homem Selvagem, se transformasse no ideal ou modelo de uma humanidade livre, os seus supostos atributos se tornassem a essência de uma humanidade perdida e a sua imagem idealizada fosse usada para justificar a revolta contra a própria civilização. (WHITE, 1994, p. 189)

A doutrina cristã medieval dividia a humanidade entre salvos e condenados, mas todos os seres humanos, ainda aqueles com características monstruosas (raças de homens com olhos no meio da testa, pés voltados para trás, de sexo duplo, homens sem boca, pigmeus, etc.) poderiam ingressar na “Cidade de Deus”18 desde que renunciassem aos hábitos antigos e se submetessem à autoridade e à disciplina da Igreja.

A aparência física não era essencial para a constituição do selvagem, pois para os teóricos medievais todos “que fossem dotados de uma alma humana, qualquer que fosse a sua condição física”19 poderiam alcançar a salvação. Era a alma humana que afastava o homem da

condição de animal, já que ele era capaz de renunciar aos desejos sem objetivo e buscar como propósito para a sua vida a união com Cristo.

Entretanto, o homem que se nega a dedicar a sua vida a Cristo possui uma alma animal e não pode ser salvo. Ao perder a condição humana esse “homem” deve ser tratado como animal, destinado ao serviço e ao governo dos Homens tidos como “normais”.20

Observando o que foi dito anteriormente, pode-se dizer que há uma tentativa de separar tudo o que é humano daquilo que é considerado primitivo, bruto, selvagem, arcaico. Como afirma Francis Wolff (2004: 24), desse ponto de vista, “a oposição civilização/barbárie parece comparável à oposição cultura/natureza”.21 Porém, ele apresenta duas diferenças básicas entre os elementos. O conceito de civilização é mais amplo que o de cultura, pois abrange numerosas etnias, diversas sociedades, religiões e regimes políticos, ao passo que a cultura é mais local. Assim sendo, pode-se dizer que a civilização ocidental engloba as culturas francesa, brasileira, norte-americana e a de todos os países que compõem o Ocidente.

18 O uso das aspas é explicado por causa da referência ao título do livro de Santo Agostinho. 19 WHITE, Hayden. 1994, p. 185.

20 São Tomás de Aquino ao analisar as diferenças entre a alma animal e a alma humana afirma que por possuírem uma alma distinta da humana o homem “poderia fazer dos animais o que quisesse: domesticá-los e utilizá-los ou, se necessário, destruí-los sem cometer pecado”. (WHITE, 1994, p. 185)

21 Mais tarde retornaremos a esta questão, mas fica registrada a observação de que este era um dos fatores essenciais no questionamento das elites argentinas. A necessidade de civilizar o país e a visão de que a natureza e a população estariam contra este objetivo, pois representariam o atraso.

A segunda diferença determina uma oposição entre cultura e natureza que não inclui a noção de valor, pois da mesma forma que se pode decidir defender a noção do natural (simples, original, autêntico), um grupo pode desejar argumentar a favor da cultura (sofisticação, refinamento). O certo é que enquanto a oposição cultura/natureza está no mesmo patamar de igualdade, a de civilização e barbárie faz com que a noção de valor recaia sobre o primeiro item, sendo o segundo sempre desvalorizado. Quando se quiser falar de uma forma humana que se aproxime do estado natural, não se qualificará esta forma como natural, mas como bárbara. Inversamente, quando se quer valorizar uma cultura em detrimento de outra, fala-se em civilização.

O bárbaro pode ser caracterizado como sendo aquele país, sociedade, indivíduo que parece estar alheio aos valores mais elevados e evoluídos da humanidade. E em oposição ao termo civilização será acompanhado de valor negativo, enquanto este terá valor positivo. Por serem representantes do mal, é justificável que em muitos momentos aquele que é identificado como bárbaro seja exterminado através da violência, como foi o caso vivido em muitos países, mais especialmente na argentina do século XIX, período histórico que será abordado por José Mármol no romance Amalia.

Como será demonstrado, a perseguição sofrida pelos integrantes do partido Unitário, vistos pelos representantes da força governamental como inimigos da nação, é apresentada por Mármol como ato de extrema barbárie, pois comporta os três sentidos da palavra. Um massacre em massa que envolve uma espécie de sacrifício humano, motivado por um ódio extremado pela Cidade e pela Modernidade.

A associação dos Federalistas (o grupo que ocupa o governo) com a barbárie direciona o questionamento ao livro de Norbert Elias, O processo civilizador (1994). Segundo ele, o processo civilizador surge a partir do aparecimento do Estado, ou melhor, da concentração de poderes em uma única autoridade. Esta passa então, a ser a única capaz de utilizar a violência,

instituir exército ou grupo policial, a fim de manter a ordem e prover ao grupo a segurança necessária para o seu desenvolvimento. Como conseqüência, houve o desarmamento dos indivíduos que compunham o grupo e logicamente a pacificação de seus hábitos. Os homens têm de reprimir seus impulsos, dominar suas emoções.

Segundo Freud (1966), a pré-condição para que exista a civilização tal como a conhecemos e que se alcance o progresso é que o homem seja reprimido, não só nos impulsos mais primários, como na própria existência social. Isto porque, a liberdade pela busca de saciar as necessidades individuais seria incompatível com a “associação e preservação duradoura”, o que levaria o homem a reunir-se em sociedade.

Em nome de sua sobrevivência o indivíduo deve abdicar de sua condição de homem animal para converter-se em ser humano, transformando seu sistema de valores. Assim, o homem adia as satisfações imediatas, reprime prazeres, direciona seu contentamento para o trabalho a fim de produzir progresso e segurança para o grupo, sacrifica a sua felicidade e a sua realização.

Do agrupamento mais primordial ao mais moderno, observa-se um movimento rumo ao fortalecimento da dominação, que se torna:

Cada vez mais impessoal, objetivo, universal, e também cada vez mais racional, eficaz e produtivo. A sociedade emerge como um sistema duradouro e em expansão de desempenhos úteis; a hierarquia de funções e relações adquire a forma de razão objetiva: a lei e a ordem identificam-se com a própria vida da sociedade. (MARCUSE, 1966, p. 86)

O homem passa a ser controlado pelo seu trabalho. Ele precisa trabalhar para viver, mas este trabalho exige dele muito tempo de seu dia. Todas as suas energias são direcionadas para esta função, o que acaba levando-o a um estágio de conformidade com os padrões e a moral do grupo que é responsável por organizar suas tarefas. Além disso, na atualidade, a organização repressiva deixa de ser exercida unicamente por um indivíduo (o senhor, o chefe, o diretor, o patrão) e passa a formar um caráter coletivo, através dos meios de comunicação.

Em nome do provimento de recursos que mantenham a estrutura da sociedade, o homem abdica de sua individualidade, seu tempo, sua consciência e de seus sonhos para compor as engrenagens do sistema que sustentará as necessidades da vida e tomará o conforto e o luxo mais acessíveis. A vida torna-se menos perigosa, mas também menos apaixonante; assim o homem utiliza como válvulas de escape o sonho, os livros, as imagens. Os desejos são satisfeitos na imaginação, adotando-se uma postura de espectador e ouvinte. Resumidamente, a humanidade passa por um processo de pacificação dos costumes, por um refinamento das relações sociais e pelo desenvolvimento de uma cultura que valoriza o lazer.

Entretanto, o fato de uma sociedade, um grupo ou uma nação serem civilizados, no sentido de possuírem hábitos sociais refinados (polidez, cortesia, afabilidade, tato, distinção) e desenvolvimento cultural (literatura, artes liberais, contemplação estética, conhecimento científico) não quer dizer que não se utilizem de métodos violentos (pouco civilizados) contra grupos tidos como inferiores. Isto pode ser observado na sociedade grega, no tratamento que índios e posteriormente negros tiveram dos espanhóis no processo de conquista da América ou no caso da Alemanha nazista.

3 - A HISTÓRIA POR TRÁS DA “HISTÓRIA”

O século XIX destacou-se por ser um período conturbado para a história da América. Emancipações políticas, guerras internas, constituição dos Estados nacionais foram alguns dos marcos de transformação no continente.

Para as minorias ilustradas, o primeiro momento de embate ocorreu no processo de emancipação. Porém, as lutas que marcaram a independência dos novos Estados também determinaram que a diversidade de doutrinas e interesses presentes no continente não facilitaria a implementação de qualquer projeto.

Do mesmo modo, ficou evidente a necessidade de buscar novos modelos que introduzissem paradigmas de modernidade, rompessem com aqueles vinculados à Espanha e que se relacionavam com os ultrapassados ideais do mundo colonial.

Na Argentina, a realidade não se mostrou distante da do resto do continente. O processo de emancipação havia trazido consigo os primeiros embates. Ao alcançarmos o século XIX, alguns desses contrastes não só não haviam sido solucionados, como se intensificaram à medida que outros surgiram. Dentre eles, a dicotonia civilização e barbárie, cidade e campo no pensamento e na literatura foram o retrato da realidade conflitiva vivenciada no país.

Frente a esta problemática, interessou observar neste tópico, dentro do período rosista, o momento histórico no qual se desenvolveram estes infrentamentos, a fim de compreendermos o pensamento das elites políticas e letradas argentinas.

Conscientes de que a nova etapa do país exigia uma transformação no nível das idéias, dos costumes e das instituições, nomes como Esteban Echeverría, Juan Bautista Alberdi e Domingo Faustino Sarmiento, além de outros em todo o continente, tomaram para si a tarefa de produzir uma revolução mental, implementada pela força da palavra escrita.

Como foi esclarecido no tópico em que falamos sobre a formação das nações, os reformadores latino-americanos voltaram suas atenções para duas regiões: a Europa, especialmente França, por representar a própria civilização e os Estados Unidos, como uma realidade possível de ser alcançada. Haviam superado o estado de barbárie e alcançado o nível de civilização, mesmo estando localizados no continente americano.

Guardando as devidas diferenças entre as histórias da colonização da América de origem inglesa e a de origem espanhola, os pensadores românticos se viram envolvidos por uma dupla perspectiva. De um lado, guardavam como meta realizar o projeto civilizatório em cada um de seus países, homogeneizando a todo o continente de acordo com o modelo dos Estados Unidos e da França; por outro lado, ao se voltarem para as realidades internas, frutos da conquista e da mestiçagem, percebiam que elas não se adequavam à ambiciosa pretensão. Estava clara a necessidade de estabelecer violentas rupturas que impusessem uma nova ordem que eliminasse a barbárie introduzida pela política colonialista espanhola e a substituísse pelos modelos civilizatórios.

Para Echeverría, a emancipação política já havia ocorrido com a independência nacional, mas faltava a emancipação social. Tal transformação passava pela instauração de um sistema democrático ligado aos valores proclamados por ele nas Palabras simbólicas:

associação, progresso, liberdade, fraternidade, justiça... . Contudo, o grande problema era que, apesar da inegável participação popular no processo de independência argentina, momento este em que os revolucionários, movidos pela necessidade de vencer os espanhóis, atraíram as massas para integrarem a nova causa proclamando a soberania do povo, este mesmo povo não havia sido preparado para assumir tão grande liberdade. Seria necessário, primeiramente, instruí-lo para que os populares não se deixassem manipular por aqueles que só visavam aproveitar-se do seu apoio para instaurar o despotismo, a anarquia e a instabilidade.

No Dogma socialista, Echeverría vai analisar de que forma os populares foram manipulados pelas elites, durante as lutas pela independência:

(...) os legisladores da revolução fizeram o que puderam. Conheceram, sem dúvida, que a inteligência do povo não estava em condições de valorizar a sua importância; que havia em seus sentimentos, em seu modo de ver e sentir, certo instinto reacionário contra tudo o que era novo e que não entendiam; mas era necessário agir e agiram.

Necessitavam do povo para despejar o inimigo do campo de onde devia germinar a semente da liberdade e o declararam soberano sem limites.

Não foi perda da ignorância, mas necessidade dos tempos. Era necessário atrair para a nova causa os votos e os braços da multidão, oferecendo-lhe

a porção de uma soberania onipotente.22 (ECHEVERRÍA, 1972, p. 144, tradução nossa)

Quando Juan Manuel de Rosas assume o governo da província de Buenos Aires, em 1829, as dicotomias se tornam mais evidentes, porque a sociedade argentina estava dividida em dois grupos políticos denominados unitários e federais que se alternavam no poder e se enfrentavam objetivando estabelecer o controle hegemônico.

A impossibilidade de convivência entre esses grupos que representavam a elite levou o país a uma guerra civil que só foi debelada com a intervenção militar de Rosas, o qual se aproximou das camadas mais baixas da sociedade, os negros, “gauchos” e índios, a fim de obter, através de uma política populista23, o apoio necessário para concretizar seu plano de

governo. Rosas respaldou seu poder apoiado nas diferenças e hostilidades existentes entre os pobres e os ricos.

22 No original: (...) los legisladores de la revolución hicieron lo que pudieron. Conocieron, sin duda, que la