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Numa outra seqüência do romance, Florencia Dupasquier, noiva de Daniel Bello, fará uma visita à casa de Dona María Josefa Ezcurra, cunhada de Rosas, a fim de sondar se os federais têm alguma informação que indique o paradeiro do jovem unitário Eduardo Belgrano. (...) y era esta joven de diecisiete a dieciocho años de edad, bella como un rayo del alba, si nos es permitida esta tan etérea comparación. Los rizos de un cabello rubio y brillante como el oro, deslizándose por las alas de un sombrero de paja de Italia, caían sobre un rostro que parecía haber robado la lozanía y colorido de la más fresca rosa. Frente espaciosa e inteligente, ojos límpidos y azules como el cielo que los iluminaba, coronados por unas cejas finas, arqueadas y más oscuras que el cabello; una nariz perfilada, casi transpariente, y con esa ligerísima curva apenas perceptible, que es el mejor distintivo de la imaginación y del ingenio; y por último, una boca pequena y rosada como el carmín , cuyo labio inferior le hacía parecerse a las princesas de la casa de Austria. (AM, p.177)

A jovem Florencia Dupasquier é descrita de forma a destacar a sua natural superioridade (“el mejor distintivo de la imaginación y del ingenio”); o movimento é ascensional (“etérea”, “cielo”), os dados sobre ela tendem à desmaterialização (“transparente”, “ligerísima”, “apenas perceptible”).

Há uma comparação com valores distantes e estrangeiros: as coisas descritas, segundo David Viñas, “são sombras platônicas de uma realidade” 40 que não se concretiza no que é nacional, autóctone, mas em padrões importados da Europa (“Italia” e “Austria”). O aqui é um mundo de particularizações cujo destino deve resignar-se em aspirar por um distante universo do inteligível puro, onde até os defeitos são belos.

40 VIÑAS, David. 1995, p. 97.

Mas o mais interessante é que, ao descrevê-la, o narrador relaciona o caráter positivo que lhe é associado à questão racial. Diz ele que a sua “frente espaciosa e inteligente (...) una nariz perfilada, casi transpariente, y con esa ligerísima curva apenas perceptible que es el mejor distintivo de la imaginación y del ingenio.” (AM, p. 177). A inteligência, a imaginação e o talento guardam relação com as características físicas ligadas à raça que ocupa o continente europeu.

Na verdade, ao terminarmos a leitura do trecho acima, percebemos que tudo o que se espera que seja argentino, não é argentino, porque é europeu, e por ser europeu, não apresenta ao povo indícios que possam indicar-lhe que pertencem a ele ou que ele faça parte desta realidade.

Contrastando com a jovem unitária, estão as outras pessoas que estão visitando a casa. Mestiços, negros e “gauchos” que ali estão para falar com Dona Josefa, demonstram grande intimidade com a casa, visto que se comportam de maneira descontraída, como se a entrada naquele ambiente fosse tão corriqueira que a etiqueta e a cerimônia já não fossem necessárias. A indicação de que há uma íntima relação entre a irmã de Rosas e a plebe é o ínicio do processo de desconstrução da humanidade destas personagens. Os pés sujos, além de indicar a origem humilde, associam-os a porcos, os animais que andam na lama. O processo de animalização se agrava quando o físico, não só a aparência, são associadas a bestas.

Pero la joven no encontró en esa sala sino dos mulatas y tres negras que, cómodamente sentadas y manchando con sus pies enlodados la estera de esparto blanca con pintas negras que cubría el piso, conversaban familiarmente con un soldado de chiripá punzó, y de una fisonomía en que no podía distinguirse donde acababa la bestia y comenzaba el hombre. (AM, p. 178)

Baseados nesta perspectiva poderíamos afirmar que no romance há uma hierarquização racial, na qual o europeu estaria no topo da escala evolutiva, enquanto os americanos (de origem indígena ou mestiços) e os africanos se encontrariam no nível mais inferior. Seguindo esta lógica hierárquica, as últimas raças deveriam estar submetidas à

primeira, uma vez que esta é superior àquelas em termos físicos e mentais. Porém não é isto que encontramos no romance:

Ellas obedecieron en el acto, pero, al salir, una de las negras no pudo menos de echar una mirada de enojo sobre la que se perdió en el aire, porque, desde su entrada en la sala, Florencia no se digno volver sus ojos hacia aquellas tan extrañas visitas de la hermana política del gobernador de Buenos Aires, o más bien, a aquellas nubes preñadas de aire malsana que hacían parte del cielo rojo obscuro de la Federación. (AM, p. 179)

Podemos perceber que o encontro entre o grupo hegemônico e a plebe gera um enfrentamento, que demonstra de um lado o desdém das oligarquias e o rancor das camadas menos favoreciadas. Aproveitando o poder que a aproximação com o Estado lhes deu, as minorias se tornam confiantes para exteriorizarem as opiniões. Assim, a humildade e o respeito que a criadagem deveria demonstrar para com uma pessoa da classe de Florencia são substituídos pela arrogância e o ódio. No entanto, Mármol não deixará a afronta passar despercebida. Florencia será mantida num patamar de superioridade ao ignorá-las; enquanto as criadas serão transformadas em elementos corruptores de uma natureza poluída e modificada.

Conforme verificamos, em relação a Florencia Dupasquier, o romance propõe ao leitor a existência de uma hierarquia pautada em valores que indiquem a ligação das personagens com o que a narrativa determina como civilização. Os antirosistas se encontram no topo da cadeia evolutiva, porque são mais talentosos, mais inteligentes, sensíveis e belos, em contraste com os inimigos, que se caracterizariam pelo primitivismo.

Amalia Sáenz de Olavarrieta é o exemplo extremo dessa evolução. Apresenta as características do urbano e do culto em suas maneiras, em sua forma de vestir e de amar, na decoração de sua casa. Também percebemos que o seu físico aponta para elementos românticos: é pálida, sensível, majestosa e aristocrática.

Amalia não terá uma ação mais direta no romance. Ela, ideologicamente, aclara sua posição, mas não atuará nos planos de Daniel, salvo quando vai ao baile e quando enfrenta os soldados da “Masorca” que desejam invadir sua casa a fim de recolher indícios comprobatórios da existência de um esconderijo para os inimigos do governo de Rosas. Contudo, sempre que Amalia sai do ambiente doméstico para atuar no “cenário de combate”, ao ser ultrapassado o momento de clímax da ação, quando é restabelecida a tranqüilidade transitória, Mármol compensa o extremo desgaste físico e psicológico sofrido pela protagonista com um desmaio. Na quinta parte, no capítulo “La ronda federal”, assim descreve o narrador a conclusão da cena: “un minuto después estaba desmayada sobre el sofá.” (AM, p. 749). De maneira semelhante, na terceira parte, do capítulo “Amalia em presencia de la policía”, a personagem “sentía que después del violento esfuerzo que acababa de hacer, una especie de vértigo le anublaba la vista.”(AM, p. 494)

Como Graciela Batticuore (1998) conclui, a mulher verdadeiramente feminina se constrói como objeto de desejo, como um “prêmio” para os homens, autênticos protagonistas da vida social. Vejamos, na passagem citada, como o general Mansilla se orgulha de possuir uma esposa que causa a admiração pela beleza:

 Cierto. Hay mil unitarios que odian al general Mansilla de envidia por la mujer que tiene.

 ¿Es linda mi mujer, eh? ¡Es linda!  dijo Mansilla casi parando su caballo, y mirando a su compañero con un semblante lleno de satisfecha vanidad.

 Es la reina de las bellas; así lo confiesan hasta los mismos unitarios, y me parece que si ha sido el último triunfo, ha valido por todos. (AM, p. 654).

Na segunda parte, do capítulo intitulado “Escenas de baile”, a elite portenha se reunirá no palácio do governo, para homenagear o governador. Apesar das diferenças políticas entre federais e unitários, a ocasião pede a presença de toda a sociedade, uma vez que a ausência simboliza um ato de protesto e oposição. Assim, sob a aparência da civilidade, os representantes dos dois grupos estarão lado a lado observando e julgando seus opositores.

Nesta sociedade civilizada espera-se que as mulheres, além de esposas dedicadas, sejam as guardiães e transmissoras dos valores às gerações futuras. Elas serão a memória da nação. Cuidarão de guardar as normas indispensáveis à boa elegância e à boa educação, visto que, em uma época de crise, na qual os padrões valorizados pela elite são questionados, essas mulheres têm como missão prioritária manter viva a pátria imaginada.

É neste contexto que surge a senhora de N. Esta anciã representante da “sociedad elegante de Buenos Aires, tan democrática en política, y tan aristocrática en tono y en maneras” (AM, p.298), identifica em Amalia traços determinantes para tratá-la não como uma igual, mas como a herdeira de uma tradição. A partir desta percepção, todo o diálogo entre a jovem discípula e a mestra anciã girará em torno da tarefa de instruir a primeira para que possa preservar a pátria desejada do esquecimento.

Esta capacidade “leitora”41 faz da senhora de N. um elemento indispensável à manutenção dos bons costumes, pois, através das características físicas e do vestuário, ela é capaz de identificar e classificar os homens e mulheres de acordo com a facção política e da classe social a qual pertencem.

O caráter preconceituoso deste discurso demonstra que unitários e federais se utilizam de mecanismos semelhantes para identificar, classificar e julgar seus inimigos, pois, Rosas também utilizava o vestuário como mecanismo de identificação política. Durante o diálogo entre as duas senhoras, “os sinais externos de cultura.” 42 e os indicadores de raça determinam a inclusão ou a exclusão de uma pessoa ou grupo na sociedade.

Contestó Amalia volviendo el saludo a su vecina, en cuya fisonomía y en cuyo traje descubrió al momento una persona de distinción, como al mismo tiempo su poca exaltación por la causa federal, en el moño pequenísimo que traía, casi oculto, entre un adorno de blondas negras en su cabeza. Porque hasta los días en que estamos del año de 1840, el más o menos federalismo se calculaba por el mayor o menor tamaño

41 Para maior compreensão do papel das mulheres como leitoras e escritoras no romantismo cf. BATTICUORE,

Graciela. In: IGLESIA, Cristina. (org.). Letras y Divisas: Ensayos sobre Literatura y Rosismo. Buenos Aires: Eudeba, 1998.

de las divisas; y dos personas que se encontraban, sabían perfectamente la opinión a que ambas pertenecían con sólo mirarse el ojal de la casaca, si eran hombres, o la cabeza, si eran señoras. (AM, p. 304)

Em outros trechos a identificação ocorre não somente pela vestimenta, mas também pelos traços físicos: “¿Conoce usted ciertas calidades físicas en los hombres, que revelan perfectamente su buena o su mala raza?” (AM, p. 306) ou “Es una linda aldeana, pero aldeana; es decir, demasiado rosada, demasiado gruesos sus brazos y sus manos, demasiado silvestre para el buen tono, y demasiado frívola entre la gente de espíritu.” (AM, p. 312).

A senhora de N. não trabalha inconscientemente. A importância de sua tarefa lhe é clara. Contudo, o texto vai minimizar a participação política das mulheres unitárias por tratar a questão como se, ao classificarem seus opositores, elas o fizessem como um ato inconseqüente, como implicância por se mostrarem superiores àquelas que eram identificadas como federais. “Ése es nuestro único desquite: lo que sepan; que hay entre ellas y nosotras. Por lo demás, el riesgo no es mucho, porque ¿qué pueden hacernos? Por otra parte, no hablamos sino entre nosotras mismas.” (AM, p. 312).

Assim, Amalia fica consciente de que as mulheres pertencentes à boa sociedade não correriam perigo de serem perseguidas pelas forças repressivas do governo, porque mesmo sendo opositoras políticas, teciam comentários dentro de um restrito grupo, o delas mesmas.

Dentre as várias representantes da ideologia unitária, Marcelina é a única que realmente assumirá um papel ativo na trama. Sua casa é refúgio para os conspiradores e em vários momentos ela se predispõe a ajudar Daniel, mas como ela é chantageada pelo herói, sua militância perde a força ideológica. A sua condição de prostituta também faz com que ela deixe de representar um modelo positivo para a sociedade e por último, é importante destacar que apesar de ser culta, demonstrando possuir um saber literário apurado, este a torna ridícula, uma figura cômica capaz de quebrar a tensão inerente a uma narrativa que trata de perseguições.