O corpo humano enquanto corporeidade - enquanto permanência que se constrói no emaranhado das relações sócio-históricas e que traz em si a marca da individualidade - não termina nos limites que a anatomia e a fisiologia lhe impõem, ao contrário, estende-se através da cultura, pelas práticas educativas, pelas dinâmicas e pelos instrumentos criados pelo próprio homem em seus diversos contextos.
O corpo confere-lhe (à corporeidade) um significado e “a sua utilização o faz passar por um processo de aprendizagem, construtor de hábitos propiciadores do desenvolvimento das habilidades” (OLIVIER, 1995, p.48).
Para Hugo Assmann, a corporeidade é uma dinâmica complexa de auto-organização da corporalidade viva.
Estar vivo neste planeta consiste, essencialmente, na interação ativa de corpos, inteiramente em si mesmos e com seu mundo-ambiente. Ao empregar o conceito de corpo, é fundamental manter-se atento a tudo o que ele implica ainda mais se pretendemos espraiar o conceito de Corporeidade como coextensivo à vida (ASSMANN, 1994, p.67).
A corporeidade não é fonte complementar de critérios educacionais, mas seu foco irradiante primeiro e principal. O corpo não é coisa, nem ideia, e sim, movimento. “Sem uma filosofia do corpo, que permeia tudo em educação, qualquer teoria da mente, da inteligência, do ser humano global é entrada falaciosa” (ASSMANN, 1994, p.77).
Assim, o corpo é o referencial do eu com o mundo. É por meio do corpo que ele (o ser humano) existe e se relaciona com os demais. Para quê então dissociá-lo da mente, do intelecto, dos pensamentos, dos sentimentos? A mente não existe sem o corpo e este não existe sem a mente, mente e corpo coabitam e coexistem num mesmo ser. O cérebro-mente comanda os movimentos, as ações, os pensamentos, as emoções do ser humano, apesar de o homem ser essencialmente corporal. Pelo corpo se manifestam os aspectos da existência, cultura e sociedade humana. Relacionar corporeidade, conhecimento e vivência do corpo à educação é um caminho necessário para articular conceitos centrais de uma nova visão pedagógica pontua Assmann (1994).
Sabe-se que é pela construção dos movimentos corporais impingidos de sentidos e significados que a corporeidade constrói critérios educativos, lúdicos, sensuais, estéticos e até políticos tendo em vista aqui a política, como uma tomada de decisões para atingir determinadas metas.
A corporeidade manifesta uma pluralidade de relações que são fundamentais para a educação e o conceito de corporeidade inclui, também, subjetivar ideias, sentimentos, emoções, com ou sem intenção, mediante a percepção e espaço-temporalidade. Esta premissa implica na inserção do corpo humano num mundo de significados, na relação dialética do corpo consigo mesmo, com outros corpos e com os objetos do seu mundo ou das coisas que se elevam no horizonte de sua percepção.
O corpo é a permanência que consente a presença das ‘coisas manifestas’ numa perceptividade onde se torna ‘o espaço expressivo por excelência’, que “delimita o começo e o final de toda a ação criadora, o princípio e a conclusão da condição humana” (ASSMANN, 1995, p.113). Ou seja, do nascimento à morte.
Embora ele, enquanto corporeidade, enquanto corpo vivenciado, não é nem o início nem ofim, ele será sempre o meio, no qual e através do qual o processo de vida se perpetua
enquanto meio e veículo, que possui um movimento próprio onde o seu pulsar (sinais vitais - pulsar cardíaco, circulatório, respiratório, piscar das pálpebras, suspiros... etc), se compara ao farfalhar das folhagens ao vento, das fases da lua, das estações do ano, do balanço das ondas do mar que detém um ciclo, um movimento natural, contínuo, muito embora com ritmos distintos já que cada corpo tem um ‘ritmo próprio’, singular, ímpar, devido à constituição corpórea - altura, peso, massa muscular e óssea - e a própria idiossincrasia19 pessoal.
Frente a estas colocações, a corporeidade constitui-se na curvatura da dimensão espaço-temporal e pela dimensão do movimento. Portanto ‘ser-se’ e ‘ser-mo-nos’- “adquirir identidade - é ser corporeidade cinética20 espaço-temporal” (ASSMANN, 1995, p.101).
Pode-se, assim, entender e observar a corporeidade como corpo vivenciado e em movimento no tempo e no espaço. Com esta premissa pode-se inferir que a dança traz consigo movimentos cíclicos e que estes representam o mundo particular e social de cada aprendiz, podendo, assim, transmitir sentimentos de inconstância, de rebeldia - num viés político - e, construir um estímulo reivindicatório mais forte no sentido de agressão, fortaleza ou construir um movimento mais leve, fluído que demonstre aceitação, aquiescência. Dependendo do sentimento desenvolvido o movimento terá uma ou outra conotação expressiva.
Este pressuposto leva a uma proposição inovadora, de coisas novas acontecendo, talvez pelas características que a dança revela nas manifestações da descontinuidade dos próprios movimentos ou apenas pelos movimentos que evidenciam descontentamento nas insatisfações das pessoas diante da vida ou de si mesmas. O fato é que esses movimentos corporais e outras manifestações indicam caminhos, probabilidades de inserção, de transformação, de mudança, quiçá de inovação.
Estas questões possibilitam uma nesga, uma tendência para se compreender ‘como’ é construída a aprendizagem, ‘como’ são dinamizadas as práticas educativas na relação dialética do corpo, numa abordagem estética, lúdica, demonstrando ‘como’ se constroem os movimentos aparentemente marcados, mas que representam todo um universo subjetivado.
Frente a estes indicadores e refletindo sobre a relação dialética dos corpos que propõem uma descontinuidade, pode-se pensar numa ‘trilha a ser construída’ na Escola de Frevo, mediante práticas pedagógicas inovadoras.
19 Característica comportamental peculiar a um grupo ou a uma pessoa. Predisposição particular do organismo
que faz um indivíduo reagir de maneira pessoal à influência de agentes exteriores.
http://www.dicionarioinformal.com.br/buscar.php?palavra=ontologia. Acesso em 28/11/2011
20 Ramo da física que trata da ação das forças nas mudanças de movimento dos corpos. Cinestesia - sentido da
percepção de movimento, peso, resistência e posição do corpo, provocado por estímulos do próprio organismo. http://www.dicionarioinformal.com.br/buscar.php?palavra=ontologia. Acesso em 28/11/2011
Com este enfoque, buscou-se observar e compreender as atividades pedagógicas midiatizadas pela corporeidade num âmbito das mensagens corporais transmitidas e interpretadas pelos aprendizes nas suas singularidades, através da fala e dos gestos, onde o corpo comunica tanto pelos movimentos corporais como pelas expressões faciais, parte integrante da corporeidade, deixando clara a ideia de que o corpo fala.
Sendo assim pode-se vislumbrar uma quebra de paradigmas em educação onde a corporeidade em seu vetor historicizante ao nível bio-psíquico-energético, constitui instância básica de critérios para novas formas de aprendizagem do ‘sujeito de necessidades’ e do ‘sujeito de desejos’, mote para a articulação de critérios para uma educação que seja, ao mesmo tempo, eficaz em resultados tangíveis e formadora de valores solidários humanizantes. Procurou-se, assim, observar os diálogos e os monólogos, numa relação dialética do ‘corpo-próprio’ e do ‘corpo-sujeito’, procurando entender como a corporeidade, enquanto energia pulsante, se processa na vida diária da Escola de Frevo, ou escola palco21, segundo transformações de significados que transmitem sensações e sentimentos identificáveis nas suas práticas pedagógicas educativas.
Com um olhar mais aguçado, observa-se a reconstrução conceitual das categorias que compõem a representação do aprendiz de frevo nos espaços e tempos de aprendizagem idealizados e representados na Escola de Frevo.
Ampliando esse olhar, verifica-se que se torna impossível pensar a Escola de Frevo somente como protagonista de uma instituição pública municipal, pois as configurações através das quais expressam seu universo cultural e simbólico são diferenciadas, sendo a especificidade - dança - uma das características que oportuniza, de acordo com esta observação etnográfica, a compreensão das práticas, o entender e verificar in loco ‘como’ acontece essa construção pela corporeidade no cenário da escola palco dos ‘movimentos corporais dançantes.
Observar a dinâmica das evoluções, compreender a efetivação da aprendizagem através da exploração lúdica da realidade corporal e o estilo como os partícipes se apoiam nesta dinâmica para afirmar suas identidades e sua cultura, propôs um trabalho de ‘descrição densa’ (GEERTZ, 2008, p. 05).
A identificação de variáveis recolhidas nesse espaço escolar e a observação das experiências vividas pela corporeidade nos diversos processos de construção corpórea possibilitaram se inferir que a ‘prática artística social e transformadora’ aponta a dança do
21
Neste contexto a palavra ‘escola palco’ está sendo utilizada com o sentido de representar diversos espaços cênicos de dança, inclusive na própria Escola de Frevo (BARRETO, 2008).
frevo como ‘uma possibilidade de existir’, não apenas como expressão cultural, mas “como um modo de viver mediante a linguagem educacional da corporeidade” (BARRETO, 2008, p.78).
Assim, pode-se observar como o corpo por meio de seus gestos, sua espontaneidade, sua vitalidade, revela a identidade de um povo, seu comportamento, sua expressividade e seus relacionamentos.
O ser humano é um ser ímpar e o único capaz de testemunhar a sua própria experiência, mergulhado na complexa rede de inter-relações a partir da qual constrói e reconstrói sua vivência cotidiana. Frente a esta prova de individualismo, o aprendiz desperta, de entre as diversas habilidades, o sentido da inventividade, do risco e da criação de novas formas de expressão que lhe propicie representar-se como dançarino e apresentar-se compondo cenários e coreografias que possibilitem as mais diversas expressões corporais através da dança.
Este fazer e refazer, além de inovar, expõe as verdades absolutas e sobrevoa a beleza, atropela as certezas e liberta as utopias, atravessando as regras, as leis e os limites... Este é o movimento da existência que, ao se transformar em expressão humana, ganha forma e se torna dança, podendo assim construir novos modelos, novos paradigmas educacionais dançantes.
Por isso mesmo, assumir uma ‘atitude dançante’, perante a vida, faz a diferença, pois o aprendiz de frevo deixa-se envolver pelos movimentos, conjecturando que todo o universo tem movimento, forma, ritmo, harmonia, enfim, que tudo nele tem expressão e movimento mesmo sem ter consciência disso.
Tudo dança, nada é estático no universo e o aprendiz de frevo se vê como parte fundante desse universo em movimento, podendo se expressar e se representar com seus próprios movimentos.
Assim a ação pedagógica para a aprendizagem na escola palco, num ‘tempo- espacializado’ vislumbra um caminho que leva a práticas pedagógicas emergentes deveras inovadoras aduz Barreto (2008).
Na construção desses ‘movimentos corporais’, com todas as suas idiossincrasias, pode-se passar da demonstração artística a experiências oportunas, a movimentos inovadores associados à corporeidade, que revelam o ‘corpo-sujeito’ e o‘corpo-próprio’ de Merleau- Ponty (1971), numa busca de afirmação, de identidade e do exercício para a cidadania.
Refletir sobre o proposto induz a pensar que, dançando, se constroem realidades diferentes da realidade atual e que se desenvolvem potencialidades passíveis de demonstração in loco.
Nesta perspectiva, procura-se ver ‘como’ os ‘movimentos corporais’, promovidos pela dança na Escola de Frevo acontecem, sem perder as dimensões da estética - leveza e força - do conhecimento corporal, ou seja, perceber como a dança assume um papel nem principal nem secundário, mas como uma forma de conhecimento fundamental no processo educacional por ser uma condição de conhecer estética e ludicamente os diversos potenciais dos vários movimentos corporais que são construídos ao longo da ‘habilidade matética’22.
É obvio que todas essas análises e conceitos baseiam-se na perspectiva de que:
A ideia de construção de conhecimento com base nas percepções, na sensibilidade, na imaginação e criatividade humana, é fundamental para uma educação estética. Dessa forma o conhecimento de uma coisa se dá através da percepção e da experiência no mundo vivido (...) (BARRETO, 2008, p.43).
Esta alternativa para a educação numa ‘consciência estética’ vai além do belo, do fluido que os movimentos corporais apresentam, vai estimular um “conjunto de atitudes mais harmoniosas e equilibradas dos indivíduos diante do mundo em que vivem” (BARRETO, 2008, p.43).
Diante destas proposições, verifica-se que a prática pedagógica tende a favorecer ao desenvolvimento humano, para se perceber na dança, não apenas um produto cultural de apreciação estética, mas ‘como’ um vetor de desenvolvimento humano canalizado pelo corpo numa legitimação espaço-temporal da pessoa, que lhe possibilita criar, conforme suas ideações no cenário educacional da Escola de Frevo como um espaço democrático.
A corporeidade emerge como uma demonstração da energia pulsante entre o manifesto e o não manifestado, entre a essência e a experiência humana, forjada numa junção que remete “a corporeidade ao âmbito existencial das experiências historicamente sentidas e vividas pela pessoa corporalizada” (ASSMANN, 1995, p.109).
Neste contexto busca-se compreender como as práticas pedagógicas criadas e recriadas pela corporeidade possibilitam uma mudança de paradigmas frente às invenções reinventadas por meio de novos achados, de novas interpretações dos indivíduos, sendo comunicadas através das gerações para os diversos grupos mediante outras criações.
CAPÍTULO III
3. INOVAÇÃO PEDAGÓGICA: UM ESTUDO EMERGENTE DAS FORMAS DE