Diante do discurso em questão observa-se que as mudanças ocorridas no mundo contemporâneo acontecem de formas cada vez mais intensas gerando expectativas e
necessidades cada vez mais urgentes a serem contempladas. Diante destas premissas e das dificuldades para serem atendidas, pelo menos em curto prazo, exige-se um esforço coletivo e necessário para que essa demanda venha a se tornar mais acessível.
Com as inovações tecnológicas e as transformações sociais permeando a sociedade contemporânea, muda significativamente, a qualidade dos produtos que invadem a vida das pessoas, bem como o contexto das organizações, inclusive escolar.
Acena-se com a prosperidade para todos e com a possibilidade de universalização do bem-estar. Os avanços nas técnicas médicas e na engenharia genética pressupõem um prolongamento razoável da expectativa de vida. Aproxima-se o momento dos computadores inteligentes e interativos e uma maior interação entre pessoas e instituições que prestam serviços, a partir de qualquer ponto, para qualquer localidade, por comunicação telefônica, celulares, torpedos, webcam, etc.
Mesmo assim, apesar de todo desenvolvimento tecnológico, a qualidade de vida, para a maioria das pessoas, pouco tem se alterado. Dois terços da população do planeta não têm acesso a serviços telefônicos, nunca consultaram um médico ou compraram um remédio.
Os serviços domiciliares de água e esgoto, os sistemas modernos de transporte e o acesso à educação ainda são privilégios de uma minoria, mesmo nas áreas de maior progresso onde, em meio à modernidade, acirra-se a competição empresarial, cresce o desemprego, aumentam as críticas à educação, à saúde e fragmentam-se valores e a própria sociedade. “Garantir a sobrevivência com um mínimo de equilíbrio toma-se um objetivo diário” (MOTTA, 1997, p.12).
O autor Alvin Toffler (1970), em seu livro ‘O choque do futuro’ introduzido no mercado na década de 70, descreve a tensão e a grande desorientação sofrida pelas pessoas quando sujeitas a uma grande carga de mudança em pouco tempo, assim como explica o momento de angústia pelo qual passa a maioria das pessoas nos dias de hoje. Ele discorre sobre ‘aceleração’ e ‘transitoriedade’ conceitos que contemplados nos itens 3.4.1. e 3.4.2.
Toffler descreve sobre o novo cenário mundial, enaltecendo e popularizando a perspectiva da surpreendente transformação, retratando o caráter explosivo dessa revolução e a velocidade com que essas mudanças acontecem e o que elas geram.
A época atual, a exemplo de todas as outras, possui singularidades. Essas peculiaridades podem ser vistas sob diferentes vieses. Na abordagem evolutiva o momento atual é a consequência da evolução da modernidade iniciada com a Revolução Industrial admitindo-se o progresso constante da sociedade. Uma segunda vertente vê a atualidade como uma ruptura com ideologias e conceitos do passado, e, através da contestação, surge uma nova
sociedade que não se explica por processos evolutivos. Finalmente existe uma terceira abordagem, segundo a qual o mundo passa por uma reconstrução de valores em busca dos ideais universais e de uma sociedade mais justa e mais humana.
Conforme o autor Toffler (1970), estas perspectivas se contrapõem umas às outras, gerando um sentimento de prevenção sobre o surgimento de um novo tipo de sociedade e para as transformações dos valores da produção, incentivando uma reflexão crítica sobre valores gerenciais do presente e suas desejáveis transformações para o futuro.
Já na segunda metade do século XX presenciou-se uma revolução científica e tecnológica sem precedentes na história da humanidade, inspirada nas grandes transformações, nas estratégias empresariais, atingindo a indústria, o comércio e os serviços, inclusive educacionais.
Para o filósofo Merleau-Ponty (1971), o presente não está fechado em si mesmo, porém é denso, com um passado e com as possibilidades do porvir. É próprio do tempo que não para de passar. O tempo possibilita uma permanente formação do sujeito, com o movimento estrutural interno da síntese da transição, quando, simultaneamente, o presente passa a ser passado, o que era passado recente passa a ser passado mais antigo e o futuro passa a ser presente, já sendo possível uma expectativa sobre um novo futuro.
Nesta perspectiva, o passado, presente e futuro se interligam num processo progressivo constante, pois cada época é única, diferindo da anterior e da que se seguirá. A erosão do existente e a emergência de valores e práticas sociais são naturais e a singularidade encontra-se na própria evolução, onde, instabilidade, desordens e revoluções são acidentes e obstáculos a serem ultrapassados, assumindo-se uma melhora cumulativa.
A mudança surge não só como inevitável, mas como necessária à sobrevivência e à intensidade da presente revolução tecnológica que já não deixa alternativas senão a de segui- la, e com a rapidez que a caracteriza.
A mutação atinge as pessoas e as instituições a cada dia de forma tão gradual e imperceptível quanto global e estrondosa, tornando-a irreversível e fazendo surgir a necessidade de preparação para ela. Para enfrentar tal conjuntura as novas formas de organização devem ser flexíveis, adaptáveis e com capacidade de respostas às necessidades das pessoas e aos requisitos da demanda.
Flexibilidade e objetividade são essenciais para o êxito de um processo de mudança e de adaptação estratégica onde o resultado é a melhora nos níveis de desempenho. Compete, então, à educação rever essa demanda considerando as características e as condições que afetam os educandos.
Para Gimeno Sacristán (2002), a educação precisa dar um sentido para a informação apreendida podendo indicar múltiplos matizes que contemplem as mudanças necessárias; neste sentido, as informações convergem para a construção de conhecimentos individualizados, singulares, porém novos.
Voltando ao livro ‘O choque do Futuro’, do autor Toffler (1970), este fala do ensino organizado em ciclos, mais exatamente em:
Estágios do ciclo da vida: um curso de nascimento, infância, adolescência, casamento, carreira, aposentadoria e morte? Ou em torno de problemas sociais contemporâneos? Ou em torno de tecnologias significativas do passado e do futuro? Ou ainda, outras incontáveis alternativas ainda não imaginadas? (TOFFLER, 1970. p. 329).
Essa colocação chega ao âmago da questão quando, pela informação, chega-se à necessidade de uma mudança em profundidade, muito embora não se possa esquecer que isto requer tempo para planejamento e execução, e que, talvez, esse tempo disponível seja breve devido à aceleração das ocorrências.
Urge, assim, a premência de uma mudança de fôlego para lidar com o desconhecido, o inesperado, o improvável, sendo compreensível essa conturbação, uma vez que, a mudança precisa de tempo, principalmente se ela é estrutural e não apenas funcional.
Para que haja essa modernização na educação, é necessária a atualização do currículo, pois os estudantes estão subordinados a escassa opção com relação ao que se deve aprender, as diversificações da Escola são ínfimas, o engessamento na realidade é um fato, sendo preciso entender que mudanças profundas não acontecem em ampla escala, pois elas são pontuais e alternativas para, assim, evitar grandes conflitos internos e um caos generalizado e desnecessário.
O autor Toffler (1970), discorre sobre ‘currículos de contingência’ que seriam programas educacionais, objetivando preparar os estudantes para situações inusitadas, embora passíveis de acontecer, com vista a uma nova sociedade do conhecimento e da inovação, onde esses estudantes seriam especialistas em práticas temáticas, até hoje, rotuladas como ações de ficção científica, sendo que, o autor denomina estas práticas como ‘contingências potenciais’ ainda que, talvez, improváveis como: “contaminação da terra oriunda de planetas ou estrelas, a necessidade de se comunicar com vida extraterrestre, dentre outras contingências” (TOFFLER, 1970, p.331).
Tais colocações podem se apresentar, num primeiro momento, como falaciosas, mas ao aprofundar os estudos na ciência espírita,24 por exemplo, têm-se notícias de mensagens das mais diversas através de comunicações com a exterioridade terrena, independente da religiosidade; existem trabalhos científicos, pesquisas acadêmicas realizadas pelo pesquisador alemão Ernest Senkowski (1980), que já constataram alguns fenômenos como a transcomunicação25 que se refere a contatos com seres de outra dimensão.
Outro exemplo são as colocações do autor suíço Erich Von Däniker (1968), do livro ‘Eram os Deuses Astronautas?’ Segundo esta obra, Von Däniken propôs, como prova, ligações entre as colossais pirâmides egípcias e as incas, as quilométricas linhas de Nazca, os misteriosos moais da Ilha de Páscoa, entre outros grandes mistérios arquitetônicos. Estas notícias podem ser pontos de reflexão para a construção de ‘currículos de contingência’, conforme a abordagem toffleriana.
Erich Von Däniker fez alusão à teoria de cruzamentos entre os extraterrestres e espécies primatas, gerando a espécie humana. Tais estudos literários e científicos, sob uma supervisão responsável e construtivamente canalizada, devem ser vistos como indicadores de proposta para uma ‘educação futurista’, uma educação continuada e ousada com vistas ao porvir, ainda inusitado.
É importante que se entenda que há necessidade de uma continuação educacional apropriada aos novos tempos, não numa interrupção do processo de aprendizagem, como já se colocou, embora haja a consciência de que é preciso ir devagar já que ‘a natureza não dá saltos’, a capacidade de transformação deve ser gradual para ser apreendida e poder se firmar. Toffler complementa ainda sobre a construção dos ‘currículos de contingência,’ que implicam na necessidade de acumulação de toda a variedade de técnicas já apreendidas numa sociedade, para que essa variedade tecnológica funcione como um referencial teórico-prático que beneficie os educandos para que estes possam vislumbrar novos conhecimentos.
24 Ciência que trata da natureza, origem e destino dos espíritos, bem como de suas relações com o mundo
corporal denomina-se espiritismo. Como meio de elaboração, o espiritismo procede exatamente do mesmo modo que as ciências positivistas, isto é, aplica o método experimental. A GÊNESE (Cap. I, item 14). O estudo dos fenômenos espíritas e a formulação das leis que os regem constituem, pois, uma ciência, de observação progressiva, formando a ciência espírita.
http://www.espirito.org.br/portal/artigos/diversos/ciencia/a-ciencia-espirita.htmlAcesso em: 06/03/2012
25 O termo ‘transcomunicação,’ criado na década de 1980 pelo professor e pesquisador alemão Ernest
Senkowski, busca a junção de dois vocábulos: ‘Comunicação’ e ‘Transcendente’, ou seja, uma comunicação que transcenda ao mundo em que vivemos (físico). No entendimento espiritualista, uma comunicação com o mundo dos espíritos. O termo ‘instrumental’ mostra o meio pelo qual essa ‘Transcomunicação’ é conseguida: aparelhos, instrumentos. De uma forma geral podemos dizer que TCI responde pela ‘comunicação com o mundo espiritual utilizando-se como meio, os aparelhos’ (normalmente eletro-magnéticos)’.
Numa perspectiva inovadora para a atualização da educação, as células prenunciadoras das mutações devem se estabelecer como representação de revisão dos currículos; esse programa, para a atualização da educação, requer o acompanhamento e grandes esforços para criar pontos de referência comuns entre os aprendizes, mesmo que todos não devam seguir os mesmos novos cursos e absorver os mesmos fatos ou armazenar os mesmos conjuntos de dados, mas adquiram certas técnicas comuns que os tornem aptos à comunicação humana e à integração social.
Entende-se, assim, que, a princípio, a presença da diversidade ditará cursos objetivos como: projetos, currículos, relações interpessoais, gerência de conflitos, mas com o passar do tempo e não muito tempo, o caminho vai sendo redesenhado e o papel da educação contemporânea vai requerendo a existência de um crescimento contínuo.
Esta educação traz, em seu bojo, elementos da transitoriedade, inovação e diversidade a qual possibilitam, ao estudante, uma formação que o prepara para o futuro e que o qualifica, mediante suas competências, num currículo emergente.
Toffler (1970) comenta ‘como’ a educação deveria preparar as crianças nesses novos tempos com vistas sobre o que se irá vivenciar, não no enfoque sobre o que já se vivenciou. Esta postura de Alvin Toffler além de arrojada é inovadora; como saber, no futuro, o que se pretende ou mesmo se espera? Sobre isso o autor acrescenta, e deve-se admitir, através de uma lógica impensada por diversos educadores, uma fórmula eficaz para construir um novo cidadão frente às novas exigências.
O autor questiona, ainda, sobre o currículo atual que privilegia álgebra, francês, geometria, geografia e história e interroga-se sobre qual a função desses conhecimentos? O que há efetivamente de útil para a criança nesses conhecimentos? E adiciona que o currículo atual “é uma sobra do passado”, pois está disponibilizado em todos os meios de informação (TOFFLER, 1970, p. 329).
Ao se refletir sobre esta colocação do autor, não se pode deixar de pensar sobre como se transmite o conhecimento nas Escolas, quanto deste passado é ainda disponibilizado para os estudantes e como é ministrado: Outro ponto relevante que se apresenta é sobre a diversidade atual existente na Escola; como aqueles conhecimentos são passados, para as novas gerações? Tudo isso se apresenta como valores e comportamentos novos, que precisam de um olhar específico e inclusivo.
No currículo tradicional não se pontuam questões vividas em sala de aula como a identidade cultural de determinado aluno, a opção sexual, a religiosidade, e a ‘tribo urbana’ ou seja, os grupos de jovens que buscam se diferenciar tendo por base uma referência grupal,
os surfistas, os roqueiros, os punks e outras denominações que constituam o seu grupo de pertença. Suas diferenças tornam-se invisíveis, desde que não incomodem o grande grupo. Essas questões fazem parte das inovações educacionais ainda não contempladas, efetivamente, na prática.
Com isso Toffler faz um apelo, não à obstrução do passado, mas a uma revisão no currículo pretendendo, desta forma, ter a possibilidade de ver a diversidade concreta e seus desdobramentos, o que não implica em extermínio, mas numa luta para alternar o equilíbrio entre padronização e variedade do currículo, isto é, as disciplinas estantes obrigatórias de hoje podem passar a ser modificadas de modo gradual, num enfoque sistêmico integral onde se contemplem questões e situações sobre probabilidade, lógica, estéticas, ética, filosofia, relacionamento e mediação de conflitos num ‘currículo de contingência’, onde se verifiquem as urgências contemporâneas embora ainda embasadas nas disciplinas atuais.