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Para Merleau-Ponty (1971), a espacialidade do corpo é intencional, significante, marcada pelo sentido. O corpo está no espaço não como um objeto que preenche um espaço vazio, pois o espaço é manifestação da existência. O corpo existe no espaço, realiza-se no espaço e ao mesmo tempo o significa.

Assim, para o autor, o corpo é dotado de uma espacialidade que tem um sentido próprio, diferente da espacialidade objetiva. “Ele está polarizado por suas tarefas, enquanto existe em direção a elas, enquanto se encolhe sobre si para atingir sua meta [...]” (p.153).

Os lugares do espaço não se definem como posições objetivas em relação à posição objetiva do corpo, mas se inscrevem em torno do sujeito ao alcance variável da sua visão e dos seus gestos.

Sendo assim, o corpo é um espaço eminentemente expressivo, centro de significados perceptivos. A experiência do corpo faz-se reconhecer numa imposição do sentido que não é uma consciência constituinte universal, mas um sentido aderente a alguns conteúdos, “a espacialidade do corpo é o desdobramento do ser de corpo, do modo pelo qual se realiza como corpo” (MERLEAU-PONTY, 1971, p. 159-160).

A espacialidade do corpo não é determinada em relação às leis físicas, não é de simples posição, como se fosse um objeto dentre outros objetos. Ela, espacialidade do corpo, não é a mesma de um objeto posicionado no espaço objetivo, ela designa o modo como o corpo se ancora no mundo quando visa a determinado objeto (pelo interesse, pela curiosidade, pelo desejo, pelos mais variados motivos).

Habituar-se a um chapéu, a um automóvel ou a um bastão, é instalar-se neles, ou inversamente, fazê-los participar da voluminosidade do próprio corpo. O hábito exprime o prazer de dilatar nosso ser no mundo, ou de mudar de existência anexando-nos a novos instrumentos (MERLEAU-PONTY, 1971, p.155).

Ao referir-se à espacialidade do corpo, Merleau-Ponty (1971) fala que o espaço está enraizado na existência e, subjacente ao objetivo, há uma área primordial em que o corpo o habita, apreende-o sem que tenha a intenção de conhecimento.

É por habitar o espaço que o corpo o assume como espaço, antes de ter conhecimento sobre o espaço. O corpo sabe, como espacialidade na situação em que está envolvido. Sabe-se como corpo, sabe-se como espaço, sabe-se como ser que habita um espaço ainda não definido

em si, mas que torna possível a definição (do espaço) a partir do momento em que o vive em sua intencionalidade.

O corpo humano supera o corpo biológico do animal e atinge a dimensão da cultura. Por ser um corpo capaz de fabricar, de conferir significados e de criar hábitos ele dilata-se no espaço, sendo um corpo dinâmico em suas relações com o mundo.

Considerando que é na ação que o corpo realiza a espacialidade pelo movimento, ao assumir ativamente o espaço, o corpo que se movimenta não é o objetivo, mas o corpo fenomenal, um corpo que ‘sabe’ do espaço por coexistir com ele. Não há uma subsunção do movimento do corpo ao espaço.

Posso ficar encostado à poltrona, com a condição de estender mais os braços, ou inclinar-me para a frente, ou mesmo levantar-me pela metade. Todos esses movimentos estão a nossa disposiação, a partir da sua significação comum. Da mesma forma, quando estou sentado à mesa, posso visualizar as partes do meu corpo que ela me esconde (MERLEAU-PONTY, 1971, p.160).

Assim, o corpo orientado para o espetáculo do mundo não é coisa no espaço objetivo, ele tem um lugar fenomenal que se define por sua tarefa e por sua situação, quando “tem algo a fazer, enquanto potência da ação determinada da qual conhece, antecipadamente, o seu campo ou o seu alcance” (p.154).

O corpo não está numa situação como um objeto está no espaço objetivo. Conforme a situação o corpo define como se comportar, qual sentido tem para ele esta situação diante de outras situações possíveis ou mesmo vividas. Merleau-Ponty esclarece bem esse conceito quando diz:

Está-se sentado à mesa e quero pegar o telefone, (fixo) o movimento da mão em direção ao objeto, o movimento do corpo, a contração dos músculos das pernas se englobam um no outro, quero um certo resultado e as tarefas se repetem elas mesmas entre os segmentos interessados, sendo as combinações possíveis dadas como equivalentes (MERLEAU-PONTY, 1971, p.160).

As diversas partes do corpo, os seus aspectos táteis, motores, visuais, não são reunidos um a um quando se quer fazer um movimento em direção a um objeto, mas são envolvidos uns nos outros como uma unidade, o corpo próprio.

“O corpo próprio ensina um modo de unidade que não é a subsunção de uma lei” (p. 161), ele mesmo se faz ‘lei’ quando mantém um conjunto de diversas funções e órgãos e

reúne, num só gesto, os campos intersensoriais pelo modo como o corpo se configura nas experiências.

Este conceito de corpo-próprio de Merleau-Ponty que se revela na experiência ordinária da percepção, onde o homem por meio dos seus sentidos abre-se para o mundo, aponta para a unidade anterior do homem o qual percebe um mundo já estruturado onde os estímulos sensíveis não invadem indiscriminadamente o seu ser, mas interferem nas sensações presentes na consciência, selecionadas no mundo exterior cujos aspectos lhe facultam um sentido, construindo, assim, no ser humano, a sensação e a percepção do espaço circundante.

Merleau-Ponty fala da concretude do corpo quando caracteriza a emersão do ‘corpo- próprio’ e do ‘corpo-sujeito’, ambos representando as relações entre ‘existência e essência’ respectivamente, na medida em que o primeiro significa ‘aquilo que é meu’, e o segundo ‘aquele que é’ ou ‘quem sou’.

O corpo-próprio é o meio de comunicação com o próprio mundo, a experiência presente, as situações, o desenvolvimento de relações que, de certa forma, se constroem com os outros e o mundo.

O corpo-próprio oferece os pontos de vista que se tem sobre o mundo, apreendendo os sentidos e despertando a consciência do mundo percebido, à medida que desenvolvem relações, situações existenciais as quais proporcionam aumento de experiências que, de certo modo, alteram ou modificam a maneira de ser no decorrer do tempo como propõe Moreira (1995).

Para Merleau-Ponty, “o corpo não é um objeto físico que pode ser comparado, mas antes uma obra de arte” (p.161). Tomando como referência um quadro ou uma peça musical, a comunicação das ideias faz-se pelo desdobramento das cores e dos sons, ou seja: passa pela sensação do visto ou ouvido. Afirma o autor que o sentido dos acontecimentos está na corporeidade e não numa essência desencarnada, fora do corpo. Não há essências acima de nós, mas uma essência sob nós, nervura comum do significante e do significado, aderência e reversibilidade de um a outro, como as coisas visíveis são as dobras secretas de nossa carne e de nosso corpo de acordo com Merleau-Ponty (1971).

A noção de reversibilidade aprofunda a relação complementar entre corpo-sujeito e corpo-próprio, considerando a circularidade fundamental entre suas faces, as quais revelam seu pertencer ao mundo do objeto e a ordem do sujeito sendo, ao mesmo tempo, sensível e sentiente. Sendo o corpo, ao mesmo tempo, vidente e visível (ibidem, 1994, 1971).

Nos quadros de Cézanne, por exemplo, como em qualquer obra de arte, não se distingue o expresso da expressão, não se separa a significação da obra. O mesmo ocorre com

o corpo, em que o físico e o psíquico formam uma unidade revelando um sentido concretamente, em situação. É assim que “o corpo pode ser comparado à obra de arte, ele é um nó de significações vivas e não a lei de certo número de termos covariantes” (p.162).

Certa experiência tátil do braço significa uma certa experiência tátil do antebraço e do ombro [...] uma certa experiência visual do mesmo braço, [...] fazem todas juntas o mesmo gesto (MERLEAU-PONTY, 1971, p.162).

Como observado acima, o hábito motor esclarecia a natureza particular do espaço corporal, da mesma forma, aqui, o hábito, em geral, faz compreender a síntese geral do corpo próprio. Assim, todo “hábito é, ao mesmo tempo, perceptivo e motor porque reside entre a percepção explícita e o movimento efetivo, na função fundamental que limita, ao mesmo tempo, o campo visual e o campo da ação” (p.163).

Quando Merleau-Ponty (1994, p.128) diz que “Cézanne quer pintar a matéria em vias de se formar, este princípio amplifica a compreensão de percepção por ele apresentada” sendo fundamental, na sua teoria de conhecimento sobre o corpo e sobre a percepção, o sentido da continuidade em construção.

Assim, entende-se a sensibilidade estética como um desdobramento da análise perceptiva de Merleau-Ponty, considerando os aspectos do corpo, do movimento e do sensível como configuração da corporeidade e da percepção como criação e expressão da linguagem.

Dessa forma, as suas partes não se reúnem uma a uma para formar um sistema, mas se implicam mutuamente, formando um todo que se expressa na existência, onde as experiências gestuais não são acompanhamentos exteriores de significações, mas projetam-se “no mundo pela expressão, operação primordial de significação em que o expresso não existe separado da expressão e em que os próprios signos induzem seu sentimento no exterior” (MERLEAU- PONTY, 1971, p.177).

É pela expressão que o expresso pode se realizar como visibilidade. O invisível dá-se a conhecer como visível, sem que seja preciso fazer a sua tradução, mas a sua concretização. Assim, como há uma encarnação do sentido nas obras de arte, enquanto traços, cores e linhas, também, na própria existência, existe essa personificação enquanto fala, pensamento, sexualidade e atividades produtivas como o trabalho, dentre outros fins, uma vez que não se traduz, na expressão, um texto original. Nem “o corpo nem a existência não podem passar pelo original do ser humano, já que cada um pressupõe o outro” [...] (p.177).

São ‘versos’ e ‘anversos’ de um modo de existir corporal, considerando-se que a existência é uma encarnação perpétua e o corpo existência imobilizada ou generalizada. A existência não se reduz ao corpo e não é uma ordem de fatos, aos quais possa ser reduzida (ibidem).

O corpo-próprio enraizado na existência não é objeto nem ideia, mas um território, uma área comum entre os aspectos fisiológicos e psicológicos, que expressa a experiência primordial com o mundo, os desejos, as intenções e os projetos de um sujeito encarnado, polarizado para um mundo, que o suscita às atividades.

O corpo é, para Merleau-Ponty, sujeito da percepção, apresentando tanto a refletividade considerada como atributo da consciência, quanto a visibilidade, propriedade característica do objeto, pois “é o visível que se vê, um tocado que se toca, um sentido que se sente” (p.216), esse é o corpo-sujeito. Sendo assim é necessário entender-se em maior aprofundamento a percepção do corpo-sujeito.