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O corpo-sujeito é aquele que percebe e ao mesmo tempo é percebido. É o modo de um sujeito estar presente no mundo e desse último personificar-se a ele por meio de experiências vividas como sujeito pensante e sujeito corporal, constituindo, assim, o paradoxo do ser no mundo, dimensão em que o psíquico e o somático são integrados.

O corpo-sujeito é o que se assume em essência, não se revela, não se altera, pois a sua complexidade não o permite. Sua amplitude fica escondida nas aquisições feitas pela “existência do corpo-próprio, onde nem sempre pode ser revelado como realmente é” (MOREIRA, 1995, p.50).

Para Merleau-Ponty (1971, 1994), existe a consciência perceptiva, que seria o fundamento da percepção, forma originária e primeira do conhecimento. O percebido se transporta para uma consciência que, quando em estado de alerta, dá conta da sua manifestação.

Assim, toda percepção ocorre numa atmosfera difusa e escapa da vontade do sujeito, pois não é um ato de vontade, de decisão de uma consciência atenta, mas expressão de uma dada situação, por exemplo: não se diz ver o azul do céu no sentido que se diz compreender um livro, pois esta percepção, mesmo vista do interior, exprime uma situação dada, percebe- se o azul por ser sensível às cores. Quanto à percepção do livro, esta recai sobre o intelectualismo, pois para que se compreenda um livro requer recorrer sobre o ato concreto do

conhecimento objetivo, uma atribuição de sentido para em seguida analisá-lo (MERLEAU- PONTY, 1971, p.222).

Para o autor, o mundo vivido nunca é inteiramente compreensível, isto porque se a consciência constituísse o mundo que ela percebe, então não haveria distanciamento entre ela e o mundo percebido e o mundo real e assim todos os problemas seriam solucionados. Como esse mundo em que se está imerso é inesgotável para a consciência, sempre haverá um saber latente, secreto, além da percepção.

Assim os objetos não são dados por inteiro, vêem-se por perfis, uma parte se manifesta enquanto outra se esconde, numa relação figura-fundo. Apesar disso, as sensações se dão numa configuração global: “ver é tocar, ouvir é ver, tocar é ver. Há uma unidade dos sentidos, eles se comunicam numa co-naturalidade” (MERLEAU-PONTY, 1971, p.223).

Os sentidos são distintos uns dos outros e da intelectualização, tanto é que cada um deles traz consigo uma estrutura de ser, existe entre eles uma comunicação onde se reconhecem. Toma-se como exemplo a música que não está no espaço visível, embora ela o mine, ela o investigue, ela o desloque e enfeitice o ambiente, uma vez que os sons modificam as imagens consecutivas das cores, um som musical mais intenso intensifica a imagem, a interrupção do som a faz vacilar, um som baixo torna o azul mais escuro ou mais profundo. Desta forma, entende-se o conceito de Merleau-Ponty quando afirma que:

Um ritmo auditivo faz fundir imagens cinematográficas e dá lugar a uma percepção do movimento ainda que, sem apoio auditivo, a mesma sucessão de imagens seria muito lenta para provocar o movimento (MERLEAU-PONTY, 1971, p.234).

Assim, a visão dos sons ou a audição das cores se realizam como se realiza a unidade do olhar através dos dois olhos. Já o corpo não é uma soma de órgãos justapostos, mas um sistema sinérgico cujas funções são retomadas e ligadas no movimento geral do ser no mundo, como figura fixa da existência, sendo a sincronização do corpo uma modalidade de existir.

É evidente que com a vibração do som faz-se eco em todo o ser sensorial e particularmente nesse setor do próprio ser, envolvendo-o plenamente (ibidem, p.240). Isto é: vê-se a rigidez e a fragilidade do vidro, e, quando ele se quebra com um som cristalino, este som é levado pelo vidro visível.

A forma dos objetos não é seu contorno geométrico: ela tem uma certa relação com sua natureza própria e fala a todos os nossos sentidos ao mesmo tempo em que a vista (MERLEAU-PONTY, 1971, p. 236).

O homem é um ser sensório, comum, perpétuo, que é sempre tocado. O corpo é a textura comum de todos os objetos, ele é, pelo menos, em relação ao mundo, percebido como instrumento geral de compreensão, pois ele dá sentido não somente ao objeto natural, mas ainda aos objetos culturais como a linguagem e a gestualidade.

No espectador, os gestos e as palavras são subsumidos com uma significação ideal, mas a palavra retoma o gesto e o gesto volta à palavra, eles se comunicam através do corpo, como os aspectos sensórios do corpo, eles são imediatamente simbólicos um do outro, porque “o corpo é justamente um sistema completamente feito de equivalências de transposição intersensoriais” (ibidem, p. 241).

Os sentidos se traduzem um no outro sem terem necessidade de um intérprete, compreendem-se um ao outro sem terem que passar pela ideia. Assim o corpo é o lugar, ou mais certamente, a própria atualidade do fenômeno da expressão. Nele a experiência visual ou auditiva são pregnantes uma da outra e seu valor expressivo fundamenta a unidade anti- predicativo do mundo percebido.

Desta forma, a noção de esquema corporal não é somente a unidade do corpo que é descrita de uma maneira nova, é, também, através dela que “a unidade dos sentidos e a unidade dos objetos se coadunam” (ibidem, 241).

A síntese perceptiva é uma síntese temporal. A subjetividade, no nível da percepção, não é senão temporalidade. Sendo assim, permite-se abandonar, ao sujeito da percepção, sua opacidade e sua historicidade já que a percepção não está no modo de ‘si’, não é um ato pessoal onde se dá um sentido novo à vida, ‘sou eu enquanto tenho um corpo e enquanto sei olhar’, a sensorialidade reflete-se sobre o tempo e demonstra que ele só existe para a subjetividade uma vez que o passado já foi e o futuro ainda virá.

Para Merleau-Ponty (1971, 1994), a abordagem fenomenológica da percepção identifica-se com os movimentos do corpo e redimensiona a compreensão de sujeito no processo de conhecimento.

O corpo toma posse do tempo, “faz existir um passado e um futuro para um presente, ele não é uma coisa, ele faz o tempo subjetivamente ao invés de sofrer a sua ação” (ibidem, 246).

A síntese espacial e a síntese do objeto estão fundamentadas nestes desdobramentos de tempo, pois em cada movimento de fixação, “o corpo une ao presente um passado e um futuro onde acontecimentos avançam um no outro, no ser, e projetam, em torno do presente, um duplo horizonte do passado e do futuro e recebem uma orientação histórica” (ibidem, 245).

Assim as operações de significação fundam-se na experiência do mundo, mediada pelo corpo, lugar de percepção e de movimento, que dá sentido não somente ao objeto natural, mas a objetos culturais como as palavras pelo modo como (o corpo) os interroga e a eles responde. A noção corpórea da expressão, como a fala, insurge enquanto gesto de um corpo mundo na articulação do ser social, o que será discutido a seguir.