• No results found

3   Forskningsmetode  og  metodevalg

3.2   Feltarbeidet

3.2.5   Utvalg  av  intervjuobjekter

Philippe Hamon observa que, até o início do século XIX, a Descrição, além de não possuir um status teórico definido, era apenas considerada como um meio, entre outros, de fornecer ao texto um ganho lexical243. Este

ganho, apontado pelo discurso retórico, propiciava, inclusive, uma idéia segundo a qual a Descrição não seria nada mais do que uma figura de

239 Compreendemos por Descritivo o processo pelo qual se constrói a descrição, a qual é o resultado final em que vemos o objeto descrito em sua plenitude referencial.

240 LOUVEL, 1997 e 2002. 241 HAMON, 1972 e 1993 [1981]. 242 ADAM & PETITJEAN, 1989. 243 Cf. HAMON, 1993, p. 10.

pensamento por desenvolvimento, a qual tenderia a colocar o objeto descrito sob a forma visível, ligada a uma exposição viva e animada das propriedades do referente descrito.

Além disso, os discursos retóricos da Antigüidade e da Idade Média reservavam à Descrição algumas técnicas descritivas, visando a cronografia (a descrição do tempo), a topografia (descrição do espaço), a prosopografia (descrição da aparência exterior da personagem), a etopéia (descrição da moral da personagem), a prosopopéia (descrição de seres imaginários ou alegóricos), o retrato (a combinação simultânea do físico e do moral da personagem), o paralelo (combinação de duas descrições, em semelhança ou em antítese, de objetos ou de pessoas), o quadro e a hipotipose (descrição viva e animada de ações, eventos, paixões, etc.).244

Hamon ressalta que, tanto durante a Antigüidade quanto durante a Idade Média, a Descrição era, mormente, vinculada ao gênero epidídico (elogio de pessoas, de locais, etc.). Logo, em sua origem, a Descrição estaria ligada a um valor social, que, sob a forma oratória, seria concretizada por uma coletividade ouvinte, tendo como representante principal, neste processo epidídico, a figura do orador.245 Ao mesmo tempo, a Descrição não

é exclusiva de nenhum gênero particular, visto que ela, com freqüência, está presente nas mais variadas áreas do saber, como, por exemplo, nos discursos histórico, filosófico e científico.

244 Cf. HAMON, 1993, p. 11. 245 Cf. HAMON, 1993, p. 11.

Na realidade, entre outros aspectos, a Descrição era tida como o local do texto onde a saturação lexical se evidenciava, representando estoques do saber.246 Hamon destaca que, durante os séculos XVI e XVII, a descrição é:

Tributária de finalidades econômicas (o guia), militares (a descrição geográfica de sítios e de paisagens é aquela dos campos de batalha potenciais a serem preparados), da história (as “antiguidades”), de temas enciclopédicos [...]; a descrição é freqüentemente apenas o comentário marginal de uma planta de arquitetura, de uma gravura alegórica a ser explicada [...]247

Assim, a Descrição possuía um valor eminentemente informativo, objetivando sobremaneira práticas concretas. Sob esta perspectiva, a Descrição era tida como a própria negação da literatura, uma vez que o ato descritivo possuía, em seu âmago, uma função prático-explicativa sobre o mundo, a partir da qual objetos devem ser retratados fidedignamente, tais quais são apreendidos visualmente pelo sujeito cognoscente e eventualmente representados, através do narrador/descritor, no texto literário. Entretanto, e paradoxalmente, a Descrição era tida como o resultado estético-ornamental do texto, como figura das figuras248. Disto resultaria o seu caráter perigoso

para o escritor, pois, dependendo da forma como ele fosse produzido, o texto descritivo poderia tornar-se cansativo e assimétrico, em relação ao fundo narrativo.

Basicamente, os perigos descritivos poderiam acarretar o risco da introdução, no texto, de um léxico estranho e relacionado a diversas áreas do saber, comprometendo, portanto, a legibilidade; também, tornando-se fim e não meio, a Descrição poderia comprometer a unidade global da obra, por exemplo, fornecendo ao texto um grande número de detalhes, tidos como

246 Cf. HAMON, 1993, p. 11. 247 HAMON, 1993, p. 12. 248 Cf. HAMON, 1993, p. 14.

inúteis; a liberdade incontrolável do ato descritivo poderia também impactar negativamente o leitor, forçando-o a saltar várias páginas, durante a leitura.249 Na realidade, os retóricos clássicos viam na Descrição uma deriva

aleatória do detalhe, considerado a base do processo descritivo. Este detalhe, portanto, ameaçaria a homogeneidade, a coesão e a dignidade da obra.250

Nesse sentido, parece que o detalhe, além de tudo, era algo exterior à obra, sendo-lhe heterogêneo.

Entretanto, a imagem depreciadora vinculada à Descrição começa a reverter-se desde o final do século XVIII e, no século XIX, paulatinamente, o ato descritivo ganha em legitimidade e é, inclusive, promovido a uma instância literária fundamental. Assim, passa a funcionar como um meio sobre o qual muitos textos literários se assentam, sobretudo os de caráter realista.251 Com efeito, visando, entre outras coisas, as exposições sociais e

geográficas do mundo, o Descritivo serve, então, como mediação entre a

249 Cf. HAMON, 1993, p. 17. 250 Cf. HAMON, 1993, p. 19.

251 Sobre o conceito de realismo, ressaltamos que, inicialmente, ele era um movimento no seio da pintura, que, mediante pintores como Gustave Courbet, pretendia representar a vida humilde e proletária dos trabalhadores e dos camponeses. Entretanto, é na literatura que tal conceito toma uma envergadura polêmica, uma vez que passa a ser definido sob perspectivais distintas. Com efeito, sobretudo em meados do século XIX, muitos debates tentaram definir este conceito. Romances de Henri Muger e Jules Husson Champfleury eram objeto desta discussão. Mas sabemos que, com freqüência, o realismo literário é definido como a concepção segundo a qual os escritores devem retratar/descrever a realidade tal qual ela é, evitando idealizá-la. No seu campo inicial de definição, o realismo era claramente ligado à representação das camadas desfavorecidas e proletárias da sociedade. Assim, o realismo era vinculado à representação material da presença dos objetos burgueses e proletários. Entretanto, este conceito passa por uma redefinição, de modo a apresentar então a idéia segundo a qual a realidade não é senão o conjunto das coisas existentes, ou seja, o estado objetivo da natureza. Esta redefinição, então, aproxima- se, senão coincide, com o olhar de Flaubert sobre o mundo, o qual não deve se limitar à representação do quotidiano vulgar e inferior da sociedade, mas representar tudo, todos os objetos e eventos da realidade, como se estivessem imageticamente diante de nossos olhos. Tal representação evidencia, sobretudo, a banalidade e debilidade da moral social burguesa, em seus mais variados aspectos mesquinhos, triviais e inferiores. É nesse último sentido que consideramos literatura realista, nesta Dissertação. A respeito deste assunto, cf. FRIEDRICH, 2006, pp. 115-117.

percepção do narrador e a recepção do narratário, que se encontra diante de objetos estáticos ou dinamicamente visualizados.

Portanto, passando de um nível considerado inferior, ligado a uma dimensão subordinada a instâncias narrativas tidas como superiores, na Antigüidade, nas Idades Média e Moderna, a Descrição, posteriormente, atinge um status importante, para a apreensão taxionômica, por exemplo, das características visuais de um objeto, de uma paisagem, ou de um determinado recorte sócio-espaço-temporal. Hamon nos mostra a importância, durante o processo descritivo, em âmbito diegético, de alguns itens e conceitos, para uma compreensão de como a descrição promove certos recortes textuais em uma funcionalidade narrativa específica. Este processo não é simplesmente um nível incluído na narrativa, inferior a ela, mas sim um sistema coeso (o sistema descritivo: SD), com características próprias, o qual constitui um dos modos de organização do discurso.252 No

modo descritivo, central é o conceito de pantônimo (P ou TH-I), ou seja, o elemento-referência do processo de descrição.253 Este elemento é o item mais

proeminente do processo descritivo, sendo o termo regente do conjunto de variáveis dos elementos descritivos subordinados a ele, formando um sistema descritivo (SD).

252 Na obra Grammaire du sens et de l’expression (1992), Patrick Charaudeau propõe quatro modos para a organização do discurso, os quais funcionam como procedimentos que utilizam certas categorias da língua para ordená-las em função de finalidades discursivas do ato comunicativo. Tais modos de organização são: o Descritivo, que, em essência, objetiva nomear e qualificar seres, de maneira objetiva ou subjetiva, localizando-os num espaço- tempo; o Narrativo, que instaura a construção de uma sucessão de ações de uma história na esfera espaço-temporal, a fim de concretizar uma narração, cuja base fundamental se assenta sobre uma lógica narrativa (mediante actantes e processos); o Argumentativo, que pretende explicar uma verdade, numa perspectiva racionalizante, objetivando influenciar o interlocutor; e o Enunciativo, cuja dimensão fundamental se baseia numa relação de influência (EU → VOCÊ), num ponto de vista situacional (EU → ELE) e num testemunho sobre o mundo (ELE), ou seja, este modo explicita uma posição relacionada a um interlocutor, ao dito e aos outros discursos.

O pantônimo (TH-I) possui elementos que lhe completam o status de referencial descritivo e que são declinados centrifugamente. Assim, podemos observar o aparecimento de elementos de nomenclatura (N) e de itens predicadores (Pr). Essa declinação centrífuga tem o nome de expansão.254 A

expansão, portanto, é uma declinação lexical, inerente ao processo descritivo, a qual nos permite o reconhecimento das variáveis descritivas, assim como a formação do sistema em si. Possui um caráter centrífugo, isto é, trata-se de um subsistema no qual o processo de nomeação e de predicação é posto em declinação paradigmática a partir de um referente sincrético inicial. Ainda no cerne do subsistema expansão, observa-se o recorrente processo de adjunção predicativa. Esquematicamente, temos: (P/n/ = N/n/ + Pr/n/), onde n é qualquer referencial de pantônimo ou elemento subpantonímico e as barras oblíquas indicam que o elemento n

pertence ao universo descritivocomo configurado a seguir: A Declinação Centrífuga N (Pr) N (Pr) TH-I N (Pr) N (Pr) N (Pr)

A expansão não pode ser declinada indefinidamente, pois prejudicaria a compreensão diegética da obra ou de determinado trecho da mesma. Para a limitação do processo expansivo-lexical, é preciso que haja uma força centrípeta que lhe bloqueie a declinação. Esta força, do ponto de vista lexical, pode ser representada por determinadas palavras ou classe de palavras,

como, por exemplo, pronomes demonstrativos neutros (“isto”), cuja função anafórica pode retomar o pantônimo. Assim, observamos uma retroação negativa, de sentido inverso ao inicial, o qual era motivado pelo fator centrífugo. Nesse momento, o subsistema descritivo se fecha, com subseqüente continuação da narrativa.

O pantônimo, portanto, é o termo resumitivo-sincrético de três subgrupos de variáveis descritivas: o lexema, ou o próprio nome; o metalexema, ou o processo explicativo a partir do qual podemos inferir o elemento pantonímico; por exemplo, em um sistema descritivo, às vezes, deduzimos o pantônimo a partir do seu reconhecimento como elemento metafórico global, ou, também, a partir do caráter descritivo (uma descrição de uma paisagem, de um retrato); e a predicação, que caracteriza os lexemas e/ou metalexemas.

Partindo da base teórica de Hamon, salientamos o importante papel do processo descritivo, quando de uma análise da obra literária como um todo. Fundamentalmente, é um processo com características próprias, com uma demarcação textual específica, que segue determinados princípios. Como dissemos, o Descritivo dever ser entendido não como um modo que estaria subjugado ao narrativo, como se lhe fosse sempre secundário; é muito mais, pois este processo aparece em determinadas condições, muitas vezes formando um todo coeso, sistêmico, o qual constrói uma rede complexa de relações, um subsistema dentro de um sistema maior, no caso, um sistema descritivo dentro de um macro-sistema narrativo ou argumentativo, ou mesmo um subsistema descritivo dentro de outro sistema descritivo maior.

Uma das configurações possíveis foi observada em recente estudo por Baltor255 ao analisar a obra Jettatura, de Théophile Gautier. Segundo a

autora, este conto apresenta uma macroestrutura descritiva formando um grande sistema, tão fundamental para a compreensão da obra quanto o sistema narrativo, sobretudo na configuração dos efeitos do fantástico, evidenciados, ao longo da história, pela mudança das configurações dos retratos (descrições prosopográficas) dos protagonistas.

Quando falamos de sistema e subsistema, falamos de macroestruturas e microestruturas, que se inter-relacionam e se completam, sem qualquer idéia de hierarquia. Nas configurações do Descritivo literário, e com certa freqüência, ocorre uma pausa na seqüência diegética, pausa esta que representaremos pelo símboloβN. Com esta interrupção da narrativa, surge, comumente, o enquadramento descritivo de índole subsistêmica. Porém, não raramente, o descritivo se mistura ao narrativo, não sendo tarefa fácil distinguir um do outro.

No que tange à relação entre o saber e a descrição, notemos a co- participação constante entre o narrador, ou o personagem, e o narratário. A título de exemplo, observemos a relação entre um personagem, detentor de um conhecimento, e o narratário. Sob esta perspectiva, o personagem, ou o narrador, está inserido na esfera dos sábios, dos especialistas, dos conhecedores.256 Assim, por exemplo, quando da contemplação de uma

paisagem, o narrador pode utilizar os conhecimentos do personagem para descrevê-la. O personagem, sendo um viajante, um turista ou um

255 Cf. BALTOR, Sabrina Ribeiro. As descrições picturais em Jettatura, de Théophile Gautier. Rio de Janeiro: Faculdade de Letras/UFRJ. Dissertação de Mestrado em Língua e Literaturas de Língua Francesa, 2002, 157 p.

explorador, terá toda a possibilidade e capacidade de fazer várias descrições paisagísticas.257 Trata-se, portanto, de alguém que se serve de uma ampla

gama de conhecimento, para descrever e/ou informar. Se for um personagem abalizado tecnicamente, estará no âmbito da taxionomia, da classificação. Enfim, este personagem, detentor de um saber, terá relações com toda uma metalinguagem específica, causando, via de regra, uma saturação lexical, com subseqüente surgimento de uma legibilidade léxico- textual, a qual fornece informações as mais variadas.258 Hamon lembra que

a descrição, em função de seu caráter didático, aparece, com freqüência, em textos cujo caráter seria sério (como, por exemplo, aqueles relacionados à escola realista do século XIX, os quais apresentariam certa racionalidade).259

Conseqüentemente, o personagem-descritor se inscreve no âmbito dos sábios, daqueles que conhecem as coisas e os fatos do mundo, daqueles que sobre tudo comentam. Daí resulta que o fazer-crer da personagem apresenta uma forte dimensão persuasiva, na qual o compromisso com a fidelidade à descrição da realidade deve ser constante.260

Nesse sentido, o narratário deve ser capaz de ler e de compreender uma descrição, à qual se liga também através de uma esfera mnemônica. Aqui, falamos de uma memória intradescritiva, a qual é convocada no seio da descrição e que possui uma extensão limitada, na medida em que o leitor deve lembrar-se, através da declinação de um mesmo termo (por exemplo,

257 A respeito da descrição paisagística no romance, cf. BROSSEAU, Marc. Des romans

géographes: le roman et la connaissance géographique des lieux. Paris: Université de Paris- Sorbonne. Thèse de Doctorat d’État en Géographie, 1992, 316 p.

258 Cf. HAMON, 1993, p. 38.

259 Cf. HAMON, 1993, p. 38, 39 e 51.

260 Esta descrição da realidade, por estar ligada a uma cosmovisão mecânico-positivista, ainda pressupõe, como a priori, uma separatividade absoluta entre o sujeito cognoscente e o objeto. A este respetio, rever o início do capítulo 3 desta Dissertação, “Fontes, método, o paradigma científico e o ideal artístico de Flaubert”, pp. 39-41.

jardim e seu paradigma, canteiro, terra, flor, etc.), daquilo que está sendo descrito. Desta forma, a descrição possui uma dimensão mnemônica interna, pois pode também ser memorizada, como um todo, durante a leitura do conjunto descritivo.261 Além disso, esta memória, mais durativa e

exaustiva, convoca também o saberenciclopédico do leitor.

Os sistemas narrativo e descritivo possuem funcionamentos distintos.262 O primeiro convoca uma dimensão lógica, profunda, onde a

sintaxe narrativa prevê os percursos dietéticos os mais variados; ou seja, notamos, freqüentemente, uma lógica subjacente, de tipo binário, a qual fornece ao narratário uma compreensão, mesmo uma conclusão, de natureza lógico-previsível (por exemplo, uma partida supõe um retorno). No entanto, se ao sistema narrativo é ligada uma lógica binária, semântico- previsível dos eventos da narração, ao sistema descritivo, é relacionada, com freqüência, uma dimensão superficial, na qual o aparecimento de um léxico é constatado. Nesta ótica, a descrição está em relação com as estruturas semióticas de superfície, das estruturas léxico-textuais, ou seja, a descrição se relaciona com a manifestação e com a atualização dos campos lexicais.263

Com efeito, numa descrição, o leitor espera a declinação de um estoque lexical, de um paradigma de palavras, o qual, sob a forma de um fragmento de texto, convoca a compreensão e o reconhecimento enciclopédico. O léxico do leitor também é importante, pois:

O texto, então, convoca a competência lexical do leitor, mais do que a sua competência “sintática”, no sentido mais geral desse termo. O sistema descritivo é, então, explicação (ex-plicare), desenvolvimento de uma lista latente na memória do leitor, exaustão mais ou menos

261 Cf. HAMON, 1993, pp. 40-41. 262 Cf. CHARAUDEAU, 1992, p. 642. 263 Cf. HAMON, 1993, pp. 39-41.

saturada de uma soma, mais do que estabelecimento de correlações entre conteúdos binários complementares.264

Do que foi dito, o vocabulário disponível do leitor, a sua competência enciclopédica e o papel mnemônico, presentes com freqüência em passagens descritivas, manifestam a importante função informativa da descrição. Voltemos a Hamon:

[...] a descrição, com efeito, é sempre o lugar de inscrição dos pressupostos do texto, o lugar onde o texto, por um lado, se volta sobre o já-lido enciclopédico ou sobre os arquivos de uma sociedade, lugar onde são, por outro lado, dispostos os índices que o leitor deverá guardar presentes na memória para sua leitura ulterior. A descrição [...] é a memória do texto, é sempre, mais ou menos, “memorandum” ou “memento”.265

Disto resulta, com freqüência, uma certa competição de competências, entre o narrador e o narratário.266 Ou seja, a aparição de um estoque lexical

convoca a competência lexical e enciclopédica do leitor/narratário, competência que entrará em competição com o repertório lexical e enciclopédico do narrador/descritor.267 Assim, a descrição pode se tornar

uma ostentação.

No Descritivo, há duas grandes tendências, a saber: por um lado, existe uma tendência a uma saturação horizontal. O referente descritivo é visto como um espaço, uma superfície articulada, segmentada, cheia de campos lexicais, e, ao mesmo tempo, possuindo toda uma atmosfera de saber, de conhecimento; por outro lado, o Descritivo se constrói num eixo vertical, de onde é preciso tirar um sentido. Assim, a matese aparece como justaposição de saberes a ser percorridos e dá lugar a uma semiose, uma

264 HAMON, 1993, p. 41. 265 HAMON, 1993, p. 42.

266 Cf. HAMON, 1993, pp. 43 e 113. 267Cf. HAMON, 1993, p. 43.

tradução, um decifrar da realidade.268 Desta relação decifração/ espaço racionalizado-racionalizável, a descrição ganha em qualidade e se torna, plenamente, um lugar particular do texto.

Do ponto de vista formal, devemos ressaltar que um texto descritivo apresenta, com freqüência, um sistema demarcativo, para que o leitor possa reconhecê-lo. Neste recorte textual particular, o Descritivo apresenta um modo de organização interno, que comporta uma sintaxe e uma gramática de dados, que vão regular e orientar as associações internas entre os elementos, em declinação do sistema. Esta sintaxe deve apresentar um critério quantitativo, ou seja, a extensão variável das listas descritivas. O texto descritivo deve possuir também um critério de completude, ou seja, um critério que se baseia no grau de complementação paradigmática. Outro critério importante é o de homogeneidade entre os elementos diversos, no interior do sistema descritivo, assegurado, por exemplo, por comparações, metáforas e a rede anafórica.

O critério de modalização/ avaliação269 introduz um ponto de vista

modal, assertivo, opinativo, de um narrador ou de um personagem; um sistema descritivo deve também apresentar funções gerais, ou aquelas relacionadas a locais textuais, intratextuais e intertextuais. Por exemplo, uma convocação a certas competências específicas, o estoque lexical, a dimensão mnemônica dos pressupostos do texto ou um efeito de saber podem estar presentes no sistema; os modos de distribuição dos elementos

268 Cf. HAMON, 1993, p. 62.

269 Torna-se relevante assinalarmos a distinção entre modalização e avaliação. No primeiro caso, o ato descritivo perde em sua autoridade assertiva, já que possui um alto teor de incerteza (“parecia que”, “pareceu que”, “tinha a impressão”, por exemplo). No segundo caso, porém, temos o ato assertivo referindo-se unicamente ao objeto a ser descrito, apresentando-lhe como “digno de interesse” (“que indescritível objeto”, “que variedade de locais”). Cf. ADAM & PETITJEAN, 1989, p. 52.

declinados na passagem descritiva podem variar em função dos gêneros, das épocas.270 O sistema descritivo metalingüístico pode ocorrer quando, durante

o processo de descrição, o narrador/descritor declina, comenta e explica os vocábulos; enfim, há ainda um sistema descritivo que podemos chamar de retranscrição, ou seja, a passagem de um código semiótico a outro.271