Neste capítulo, foram apresentadas algumas características físicas e demográ- ficas de Curaçao e de Cabo Verde e as línguas analisadas nesta tese: o papiamentu (Curaçao) e o kabuverdianu (Cabo Verde). Inicialmente, foi feita uma breve carac- terização de Curaçao, enfocando sua história como colônia holandesa a partir de 1634 e seu papel como importante entreposto de escravos, fornecendo cativos para quase toda a região da América Central e do Caribe. Ademais, foram discutidos os segmentos formadores da sociedade curaçolenha: nos primeiros anos, a população da ilha era formada basicamente por holandeses, escravos africanos e judeus sefarditas, recebendo, com o passar do tempo, povos de outras nacionalidades. Esses diferen- tes segmentos foram importantes para a configuração do papiamentu, exercendo influências em maior ou menor grau. Sendo formado por diversos povos, Curaçao se constitui como uma comunidade multilíngue, assunto que também foi discutido. Na seção 3.1.1, alguns aspectos da comunidade sefardita, como seu surgimento, de- mografia e importância histórica, econômica e política, também foram destacados. Por fim, considerando a ligação entre demografia e crioulogênese, a seção 3.1.2 apre- sentou dados demográficos de Curaçao dos séculos xvii, xviii e xix, que ajudam a compreender a relação entre as proporções de cada segmento da sociedade e sua atuação diferenciada na gênese e no desenvolvimento do papiamentu.
síntese do capítulo 93
A seção 3.2 apresentou algumas características gerais do papiamentu, como seu estatuto dentro da comunidade: é língua oficial de Curaçao, juntamente com o holandês, e possui prestígio entre os falantes, estando presente na mídia, na cultura e na escolarização. Essa seção mencionou ainda os primeiros registros do papiamentu, sendo sua primeira menção datada de 1747, e discutiu a origem do nome da língua. Na seção 3.3, o foco recaiu sobre o arquipélago de Cabo Verde, tratando de seu passado colonial, iniciado em 1460 com o povoamento da ilha de Santiago, e seu papel como entreposto comercial estratégico nas rotas de navegação do trá- fico escravocrata. O processo de formação da sociedade cabo-verdiana também foi discutido, apontando-se a presença sobretudo dos seguintes segmentos: europeus, escravos africanos, judeus sefarditas e mestiços.
A seção 3.4, por seu turno, tratou de alguns aspectos gerais do kabuverdianu. Inicialmente, foram apontadas as variedades linguísticas dialetais, sendo o dialeto de Santiago de maior interesse, já que ele influenciou a formação do papiamentu. O estatuto do kabuverdianu também foi objeto de discussão: a despeito de o crioulo ser a língua materna de grande parte da população cabo-verdiana, a língua oficial do arquipélago é o português, o que ilustra uma situação de diglossia. Por fim, as hipóteses que tratam da gênese do kabuverdianu foram brevemente discutidas. Dentre as diversas hipóteses existentes (a da língua de reconhecimento, a continental ou guineense, a insular ou cabo-verdiana e a ambígena), nesta tese, considera-se, junto com Jacobs (2010), que o protocrioulo português da Alta da Guiné (que se ramificou no kabuverdianu e no kriyol de Guiné Bissau e Casamança) surgiu em Santiago aproximadamente no fim do século xv; posteriormente, essa língua foi levada para Cacheu, de onde se difundiu para outras regiões.
Capítulo 4
Hipóteses sobre a gênese e o
desenvolvimento do papiamentu
Este capítulo discute as hipóteses sobre a gênese e o desenvolvimento do pa- piamentu, visto que o principal objetivo desta tese é discutir qual (ou quais) dessas hipóteses conta(m) com os melhores argumentos ou fatos evidenciáveis. Muitas dessas hipóteses apareceram em contextos de artigos e livros, mas nem sempre fo- ram desenvolvidas seguindo métodos científicos. Em alguns casos, as hipóteses são apenas ideias que os autores mencionam brevemente (sem desenvolvê-las com mais detalhes) no âmbito do próprio trabalho e, por várias razões, acabam sendo citadas e repetidas na literatura como se fossem hipóteses confirmadas. É o caso, por exem- plo, de Lenz (1928), que, embora defenda a hipótese de que o papiamentu teria se originado a partir de um crioulo de base portuguesa falado por escravos africanos, não discute explicitamente evidências que sustentem seu ponto de vista.
Inicialmente, são apresentadas, em linhas gerais, as principais hipóteses que tratam da gênese e do desenvolvimento do papiamentu, passando-se, nas seções seguintes, à discussão de cada uma delas, com seus pontos positivos e negativos.
Quanto ao processo de gênese e de desenvolvimento do papiamentu, não há consenso entre os estudiosos, havendo, pelo menos, quatro hipóteses diferentes. Ma- duro (1965, 1966a, 1966b, 1966c) e Munteanu (1996) defendem que o papiamentu seria um crioulo de base espanhola, cujos elementos do português foram introduzi- dos mais tarde pelas comunidades de judeus sefarditas e seus escravos. Essa atri- buição de uma origem espanhola para o papiamentu pode ser desdobrada em ‘sub- hipóteses’. Martinus (1996: 12) aponta duas diferentes posições. Segundo o italiano
hipóteses sobre a gênese e o desenvolvimento do papiamentu 95
Emilio Teza (1864 apud MARTINUS, 1996: 12), o papiamentu seria uma vertente ‘corrompida’ do espanhol sem nenhuma conexão com línguas faladas na África, ha- vendo ainda algumas palavras derivadas do holandês. Já a segunda corrente, que tem Maduro (1966a, 1966b, 1966c) e Rona (1970) como defensores, considera que o papiamentu seria originário de um pidgin ou crioulo afro-espanhol, admitindo, assim, uma influência africana. Tal postura advoga que o léxico do papiamentu é espanhol, e não português, e que sua gramática é africana, e não portuguesa (RONA, 1970: 8).
Lenz (1928) e Martinus (1996), por outro lado, advogam que o papiamentu seria a relexificação de um crioulo ou protocrioulo afroportuguês falado por escra- vos levados da África para Curaçao. Após a República das Sete Províncias Unidas dos Países Baixos ter conquistado Curaçao em 1634, essa ilha passou a servir como entreposto de escravos para outras colônias do Caribe e do continente americano (o tráfico negreiro durou de 1650 a 1778), recebendo dezenas de milhares de africa- nos, principalmente da Alta Guiné e da região do Congo e Angola. Esses cativos aprendiam um crioulo afroportuguês (ênfase nossa), segundo Martinus (1996: 15), durante o tempo em que ficavam confinados nos depósitos de escravos ou nos en- genhos de açúcar na África antes de partirem para os seus destinos no Caribe ou nas Américas. Essa hipótese (que possui diversas versões) estaria ligada à corrente monogenética — defendida por alguns autores e discutida por Holm (2000: 44-49) —, a qual considera que:
[...] muitos dos pidgins e crioulos do mundo poderiam ser rela- cionados a uma origem comum, o pidgin de base portuguesa que surgiu no século xv na África, talvez a partir da Língua Franca, e foi por fim relexicalizado (ou traduzido palavra por palavra) nos pidgins de outras bases lexicais europeias que resultaram nos cri- oulos modernos1. (HOLM, 2000: 46, tradução nossa)
Um argumento apontado em defesa dessa origem comum são as semelhanças
1Citação original: “[...] many of the world’s pidgins and creoles could be traced to a
common origin, the Portuguese-based pidgin that arose in the fifteenth century in Africa, perhaps from the Lingua Franca, and that was eventually relexified (or translated word for word) into the pidgins of other European lexical bases that gave rise to the modern creoles.”
hipóteses sobre a gênese e o desenvolvimento do papiamentu 96
existentes entre o papiamentu e outras línguas crioulas, como o kriyol de Guiné Bis- sau e Casamança, o kabuverdianu, o palenquero e o saramaccan (MADURO, 1987a, 1987b; MARTINUS, 1996: 12-15)2. Associada a essa hipótese, sendo a sua primeira
formalização concreta, está a ideia de Naro (1978) de que o papiamentu tem sua origem em um pidgin luso-africano, cujas raízes remontam a uma ‘reconnaissance language’ (língua de reconhecimento) adotada pelos africanos como forma de se co- municar com outros africanos dentro do território português3. Em linhas gerais, em
sua proposta, Naro (1978: 315-320) defende que, nos primeiros anos do século xvi, alguma forma de português tinha se difundido na costa ocidental da África e era usada para contatos linguísticos entre portugueses e nativos. Esse dialeto (oriundo do contato do português com línguas africanas) não surgiu em territórios africanos, mas em Lisboa a partir de uma política do Príncipe Henrique instituída em 1435 (e colocada em prática em 1440) de treinar africanos para atuar como guias e in- térpretes. O processo era feito da seguinte forma: os africanos eram capturados e levados para Portugal a fim de aprender formalmente a língua portuguesa. Depois da instrução (conforme mencionado na seção 3.4.1 do capítulo 3), viajavam com os portugueses a fim de auxiliar nos contatos comerciais com os nativos, já que co- nheciam as línguas dos dois grupos. No âmbito linguístico, os intérpretes africanos contribuíram para estabelecer e difundir a forma de português falada por eles na costa africana. Essa variedade era chamada de língua de reconhecimento e, para os portugueses, tinha o propósito de facilitar a compreensão linguística, podendo ser usada sempre que necessário por pessoas de qualquer estrato social ou nacionalidade (NARO, 1978: 326). Dois grandes grupos principais (europeus e africanos) falavam essa variedade, que se diferenciava do português padrão, apresentando muitos do
2Essas similaridades podem ser vistas de outra forma, sem considerar uma origem comum.
Para Schuchardt (1980 [1914] apud HOLM, 2000: 32), por exemplo, as similaridades entre os crioulos atlânticos de todas as bases provêm não de um ancestral comum, mas de seus desenvolvimentos paralelos.
3Mais informações sobre a variedade usada pelos africanos, a chamada Língua de Preto,
hipóteses sobre a gênese e o desenvolvimento do papiamentu 97
traços mais básicos e característicos dos pidgins (NARO, 1978: 326-327). Em sín- tese, acerca da formação e difusão da língua de reconhecimento, Naro (1978: 334, grifos do autor, tradução nossa) conclui que:
[...] o pidgin português, mais tarde extensivamente usado por toda a África Ocidental, teve sua origem NA EUROPA, não na África, começando nos anos 1440 com o treinamento oficialmente insti- tuído de tradutores. Suas peculiaridades estruturais básicas resul- taram principalmente de modificações conscientes efetuadas pelos portugueses em sua fala. Fazendo essas mudanças, os portugueses podem muito bem ter sido influenciados pelo sabir oriental pré- vio; mas, de qualquer modo, princípios comportamentais do tipo dado diretamente acima [como o princípio de fatoração] parecem mais capacitados a explicar suas origens finais. Em um tempo muito curto, os africanos que falavam a língua de reconhecimento resultante começaram a aparecer na literatura popular, e suas pe- culiaridades se tornaram um código adquirido para a população em geral. Nós podemos especular que, com essa feição, ele foi exportado para a região da Guiné por lançados portugueses, pro- vavelmente por volta do primeiro quarto do século xvi4.
No que diz respeito a explicar a formação do papiamentu com base na proposta de Naro (1978), considera-se que, embora seja possível afirmar que algo parecido com um código de comunicação precário de fato existiu em Lisboa no século xv, é pouco provável que ele tenha se tornado uma língua crioula e tampouco sido transplantado para as colônias atlânticas de Portugal (ARAUJO, 2011: 14-15)5.
Já de acordo com Jacobs (2009a, 2009b, 2012a), o papiamentu teria origem no crioulo falado na ilha de Santiago, situada no arquipélago de Cabo Verde, sendo mais tarde transplantado, juntamente com seus falantes, para Curaçao. Considerando tal
4Citação original: “[...] Portuguese pidgin, later extensively used throughout West Africa,
had its origin IN EUROPE, not in Africa, beginning in the 1440’s with the officially instituted training of translators. Its basic structural peculiarities resulted primarily from conscious modifications of their speech by the Portuguese. In making these modifications, the Portuguese may well have been influenced by the earlier Eastern Sabir; but in any event, behavioral principles of the sort given directly above seem best able to account for their ultimate origins. In a very short time, Africans who spoke the resultant reconnaissance language began to appear in the popular literature, and its peculiarities became an acquired code for the populace in general. We may speculate that in this guise, it was exported to the Guiné region by the Portuguese lançados, probably around the first quarter of the 16th century.”
5Outros pontos contrários à hipótese de Naro (1978) são discutidos na seção 3.4.1 do
hipóteses sobre a gênese e o desenvolvimento do papiamentu 98
hipótese, o kabuverdianu e outras línguas da Guiné podem ser vistos como fontes prováveis para o papiamentu. Desse modo, faz-se necessário comparar o léxico do papiamentu com o dessas línguas e observar o padrão de mudanças na Alta Guiné e no Golfo da Guiné, cotejando-o com o papiamentu.
Por fim, Goodman (1996 [1987]) e Smith (1999) defendem que o papiamentu seria um crioulo de base portuguesa, originado de um ‘dialeto’ judeo-português da comunidade sefardita e seus escravos. Com a retomada de Recife pelos portugueses (Pernambuco ficou sob domínio holandês durante 24 anos, entre 1630 e 1654), os holandeses e os judeus que lá viviam foram expulsos. Além disso, já no século xvi, se mantém a dispersão judaica ao redor do mundo. Assim, em virtude desses dois fatores e sendo os holandeses mais tolerantes do que os portugueses e espanhóis6,
muitos judeus que viviam na Península Ibérica e posteriormente em Amsterdã e também no estado brasileiro de Pernambuco decidiram migrar (junto com seus es- cravos) para Curaçao (chegando lá a partir de 1651) e, assim, levaram a sua língua para essa região.
De qualquer forma, ainda que a origem do papiamentu seja controversa, existe um ponto convergente entre as hipóteses: a certeza da base ibero-românica do papi- amentu7, muito embora haja atualmente empréstimos sobretudo do holandês, não só
pelo fato de essa ser a língua da metrópole e posteriormente do país mais poderoso política e economicamente no Reino dos Países Baixos, mas também em virtude da constante presença de holandeses nas ilhas; e do inglês, pelo seu papel na indústria do turismo a partir da segunda metade do século xx, além de sua posição de língua internacional.
Este capítulo está organizado da seguinte forma: na seção 4.1, encontra-se a
6Segundo Emmanuel & Emmanuel (1970: 99), quase dois séculos antes da Revolução
Francesa, a República das Sete Províncias Unidas dos Países Baixos era o único país cristão em que os judeus gozavam de alguns privilégios e uma certa igualdade de direitos (mesmo que parcial). Para os autores, três razões explicariam esse comportamento dos holandeses: (i) os judeus portugueses possuíam ações na Companhia da Índias Ocidentais e Orientais Holandesa, sobretudo na segunda Companhia das Índias Ocidentais; (ii) tanto os judeus quanto os holandeses sofreram perseguições por suas crenças religiosas; (iii) tendo conhecido os marranos (judeus convertidos ao catolicismo à força) anteriormente, os holandeses estimavam os judeus, vendo-os como um segmento devoto e prestativo.
crioulo espanhol 99
discussão da hipótese do crioulo espanhol. A seção 4.2 discute a hipótese do crioulo ou protocrioulo afroportuguês falado por escravos africanos. Em seguida, a seção 4.3 apresenta a hipótese do desenvolvimento a partir do kabuverdianu de Santiago. Por fim, na seção 4.4, é discutida a hipótese do ‘dialeto’ judeo-português da comunidade sefardita e de seus escravos.
4.1
Crioulo espanhol
As hipóteses que sugerem uma origem espanhola para o papiamentu têm como seus principais defensores Maduro (1965, 1966a, 1966b, 1966c), Rona (1970), Ferrol (1982) e Munteanu (1996). Uma das evidências apontadas pelos autores para advo- gar uma origem espanhola para o papiamentu seria o caráter hispanicizado de seu léxico. Outro aspecto geralmente mencionado para fortalecer essa hipótese são os registros de que havia constantes serviços de missionários religiosos hispanofalantes em Curaçao desde meados do século xvii (ARAUJO, 2011: 9-11; JACOBS, 2012a: 21, 334-335). Talvez essa presença do espanhol na ilha seja ainda mais antiga, uma vez que Araujo (2011: 9) aponta que, em 1531, mais de cem anos antes da ocupação holandesa, missionários espanhóis haviam fundado uma diocese próxima das ilhas de Aruba, Bonaire e Curaçao, a qual foi transferida para Caracas em 1638.
A despeito de algumas pequenas nuances diferentes, as hipóteses que advogam uma base espanhola compartilham a premissa de que o papiamentu se formou a partir da crioulização do espanhol em uma região do Caribe, possivelmente em Curaçao e Aruba. Para essa corrente, o papiamentu não seria uma língua importada originária de um protocrioulo português trazido da África Ocidental pelos escravos, mas uma língua autóctone, formada no próprio Caribe com base no espanhol falado desde os primórdios da ocupação espanhola (RONA, 1970: 2, 8). De acordo com Ferrol (1982: 85), os (reduzidos) elementos portugueses encontrados no papiamentu poderiam ser atribuídos à influência dos judeus sefarditas (e seus escravos), que começam a chegar a Curaçao a partir de 1651. A assunção de que o papiamentu
crioulo espanhol 100
seria um descendente direto do espanhol se apoia em dois pressupostos. Em primeiro lugar, atribui-se um importante papel aos indígenas na formação do papiamentu. Eles teriam fornecido a base sobre a qual o papiamentu se desenvolveu, uma vez que, juntamente com os colonizadores espanhóis, eram falantes de alguma forma de espanhol (provavelmente um pidgin ou um crioulo), herdada dos primeiros contatos com os hispânicos8. Considerando essa participação dos indígenas, os defensores de
uma origem espanhola se opõem à ideia de que, após a tomada de Curaçao pelos holandeses em 1634, o elemento indígena era diminuto na ilha e, por conseguinte, não participou ativamente da configuração linguística do papiamentu. Van Buurt (2009: 57-59) afirma que, apesar de os registros apontarem que, com a conquista holandesa, todos os espanhóis e a maior parte dos indígenas foram deportados para a costa venezuelana, isso não significa o fim categórico da presença indígena em Curaçao. Segundo o autor, embora o número de índios caquetíos tenha diminuído na ilha, eles não foram totalmente banidos, com a permanência de alguns povoamentos. Assim, não se pode desconsiderar o contato entre os índios e outros segmentos sociais (como colonizadores europeus e escravos) e inclusive a influência indígena na formação do papiamentu. Jacobs (2012d: 2) também afirma que alguns índios continuaram a viver em Curaçao depois da conquista holandesa. Fouse (2002: 126) — com base em Brada (1951: 9) — menciona que, contrário à política inicial de enviar os indígenas curaçolenhos para a ilha de Hispaniola, a partir de 1520, Juan de Ampués, então governador de Curaçao, permitiu o retorno dos índios para a ilha caribenha. Munteanu (1996: 85) também defende a presença do elemento indígena em Curaçao mesmo após a ocupação holandesa, afirmando que a não menção a esse segmento em documentos de fins do século xvii não quer dizer necessariamente que ele não existia mais na ilha; já Grant (2008b: 88) aponta que a permanência de índios depois da ocupação holandesa seria justificada pelos seus conhecimentos sobre a criação de gado, aspecto valorizado pelos colonizadores9. Esse posicionamento dos 8Segundo Domingos (1974: 6), durante a ocupação espanhola, os indígenas que viviam
em Curaçao falavam caquetío (língua da família arauaque); já em 1634, os holandeses que chegaram à ilha caribenha encontraram índios falantes de espanhol.
9Acerca da presença do elemento indígena em Curaçao, Maurer (1998: 186) menciona que
crioulo espanhol 101
defensores da base espanhola do papiamentu se coaduna àquele adotado por Luna & Faraclas (2012: 88, tradução nossa) com relação à participação do elemento indígena na formação das línguas crioulas:
A evidência histórica contradiz premissas comumente defendidas sobre o extermínio das populações indígenas durante os cem pri- meiros anos de colonização, sobre a ausência de contato entre as populações indígenas e aquelas de descendência europeia e afri- cana, sobre o total isolamento e marginalização dos povos indíge- nas, bem como sobre sua ausência de resistência à invasão. Con- trário aos discursos predominantes entre os crioulistas, os povos indígenas não estavam apenas presentes em ‘ilhas críticas’ em ‘pe- ríodos críticos’, mas também tinham contato extensivo e íntimo tanto com as populações de origem africana quanto europeia10.
Além do papel desempenhado pelos indígenas, outro ponto basilar para as hi- póteses defensoras da origem espanhola é o de que o espanhol era falado em Curaçao desde 1499 quando os espanhóis chegaram à ilha. Mesmo com o início da colonização holandesa, o uso do espanhol perdurou na ilha (com maior ou menor intensidade) entre os diversos segmentos, o que permitiu que a língua hispânica influenciasse o papiamentu desde os seus primórdios (RONA, 1970: 2; FERROL, 1982: 24, 85). Segundo Munteanu (1996: 86-87, 225), alguns fatos podem ser destacados como prova dessa presença do espanhol no período de formação do papiamentu e da não interrupção no seu uso no decorrer do tempo, tais como: (i) os casamentos entre pessoas pertencentes a diferentes grupos, como protestantes e católicos (libertos ou sul-americanos); (ii) as relações comerciais e culturais mantidas entre Curaçao e os países hispanofalantes circunvizinhos desde o período do comércio escravo; (iii) o trabalho de evangelização realizado pelos missionários católicos espanhóis; (iv) a presença no papiamentu de traços linguísticos característicos do espanhol que não