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1.3 Avklaring og diskusjon av omgrep

1.3.3 Tolkebrukar

O arquipélago de Cabo Verde, situado a cerca de 385 km da costa ocidental da África e 500 km das costas do Senegal e da Mauritânia, é formado por 10 ilhas e 5 ilhéus, divididos em dois grupos: (i) Barlavento (ao norte do paralelo 16º), que inclui as ilhas de Santo Antão, São Vicente, Santa Luzia, São Nicolau, Boa Vista, Sal e os ilhéus Branco e Raso; (ii) Sotavento (ao sul do paralelo 16º), que compreende

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as ilhas de Santiago, Fogo, Maio e Brava e os ilhéus Luís Carneiro, Sapado Grande e de Cima (RODRIGUES, 2007: 27) (ver figura 3.2).

Figura 3.2: Mapa de Cabo Verde.

(Fonte: <http://mapmaker.nationalgeographic.org/>)

De acordo com o Censo de 2010, o arquipélago possui aproximadamente 491 mil habitantes. Desse total, cerca de 167 mil pessoas vivem nas ilhas de Barlavento e o restante (mais ou menos 323 mil), nas ilhas de Sotavento (INE, 2010). Como se vê, as ilhas de Sotavento concentram a maior parte da população do arquipélago; esse conjunto também foi o primeiro a ser povoado (apresentando, assim, uma variedade de kabuverdianu mais conservadora) e é em uma de suas ilhas que se localiza a sede do governo. Dentre as ilhas que formam o grupo de Sotavento, Santiago ocupa um lugar de destaque, abrigando cerca de 185 mil pessoas (quase metade dos habitantes de todo o arquipélago). Desde cedo, a ilha chamou atenção por sua localização geográfica no Atlântico, sobretudo pela proximidade com relação à costa da Guiné, sendo objeto de disputa entre espanhóis e portugueses (RODRIGUES, 2007: 29- 30). Ademais, as atividades políticas e econômicas de Cabo Verde concentram-se em Santiago, onde se encontra o antigo centro dos tempos de colonização (Ribeira

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Grande, atualmente chamada de Cidade Velha) e a atual capital do arquipélago (Praia).

A questão da conquista das ilhas de Cabo Verde é marcada por controvérsias no que diz respeito ao ano e ao seu conquistador. Segundo Rodrigues (2007: 27- 28), o ano de tomada das ilhas varia entre 1445 e 1460 nos diferentes registros e esse fato é disputado pelos italianos Alvise Cademosto e Antônio de Noli, e pelos portugueses Diogo Gomes, Vicente Dias e Diogo Afonso. Deixando essa discussão de lado, sabe-se que, em 1460, as ilhas de Sotavento (iniciando-se por Santiago) já estavam sob domínio português; as ilhas de Barlavento, por seu turno, só serão mencionadas em 1462, ano que marca o início do povoamento e colonização das ilhas do arquipélago, que, segundo registros, foram encontradas desabitadas. Os primeiros habitantes de Cabo Verde eram em sua maioria escravos trazidos do con- tinente, sobretudo da região da Guiné. Esse fato, de acordo com Rodrigues (2007: 24), legitima a postura de se falar em povoamento de Cabo Verde, já que o termo colonizado se restringe aos colonos europeus, representados em pequeno número nas ilhas. De qualquer forma, o fato é que inúmeras populações escravizadas começa- ram a chegar às ilhas nos primeiros anos de seu povoamento. A colonização oficial começou por Santiago, seguida das demais ilhas de Sotavento: Fogo, Maio e Brava (nessa ordem) (PRATAS, 2002: 15). Só depois se iniciou a colonização da área de Barlavento: primeiro as ilhas de Boa Vista, Santo Antão e São Nicolau começaram a ser povoadas e, em seguida, as de São Vicente e Sal (RODRIGUES, 2007: 151 dos apêndices)23. A ilha de Santa Luzia permanece desabitada até os dias de hoje, bem

como os ilhéus Rombo, Branco e Raso (RODRIGUES, 2007: 153 dos apêndices; RODRIGUES, 2010: 212). As ilhas cabo-verdianas, à exceção de Santiago, foram povoadas principalmente pela migração das populações do próprio arquipélago (em especial, de Santiago) para fugir dos períodos de estiagem e da fome que diversas vezes assolou essa ilha, recebendo também alguns habitantes da Europa (PRATAS, 2002: 16). A esse respeito, Lopes (2012: 9) menciona que escravos provenientes do

23Schuchardt (1887: 137) também menciona essa diferença no período de povoamento das

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continente africano foram enviados somente para as ilhas de Fogo, Santiago, São Ni- colau e Santo Antão. O povoamento das demais ilhas, segundo o autor, foi realizado pelas populações provenientes das quatro ilhas mencionadas (umas das primeiras a serem povoadas) e colonos portugueses, madeirenses e açorianos.

Por não apresentar muitos recursos naturais e vivenciar períodos de seca com certa recorrência, as ilhas cabo-verdianas não despertavam na Coroa Portuguesa a mesma atenção que outras colônias (como Angola, Brasil e Moçambique, regiões em que abundavam riquezas naturais), havendo desde cedo dificuldades em atrair uma população branca para a região (PRATAS, 2002: 23). Assim, outro interesse guiou a colonização das ilhas: a sua posição geográfica privilegiada, permitindo que a região funcionasse como importante entreposto comercial nas rotas de navegação do comércio de escravos (BRÜSER et al. 2002: 19; RODRIGUES, 2007: 27). Em 1466, se iniciou o tráfico oficial de escravos a partir da Carta de Privilégios, que autorizava os colonos a trazerem pessoas da região da Guiné para povoar as ilhas (RODRIGUES: 2007: 31). De fato, entre os séculos xvi e xix, período de duração da indústria escravocrata em Cabo Verde, o arquipélago, especialmente as ilhas de Santiago e Fogo, recebeu diversos escravos da região da Guiné (RODRIGUES, 2007: 30-31; SILVA, 2008: 19). A atuação no comércio de escravos não era exclusiva dos portugueses, havendo inúmeros habitantes de Santiago (europeus e mestiços) que, desde o início do tráfico, comercializavam escravos da região da Guiné. Essa prática não oficial deu origem aos lançados: portugueses (cristãos e judeus), outros europeus e cabo-verdianos (negros ou mulatos) que atuavam clandestinamente no tráfico, sendo intermediários entre os africanos e os comerciantes europeus. Esses lançados contavam com o auxílio das tangomás (africanas que se tornavam mães de seus filhos) e dos grumetes (africanos ladinizados que auxiliavam os lançados, ocupando, assim, uma posição subalterna) (COUTO, 1992: 110-112; RODRIGUES, 2007: 35). De qualquer forma, tanto nas transações oficiais quanto nas clandestinas, a ilha de Santiago, situada a cerca de 650 km da costa da Guiné, exercia um papel de destaque no comércio de escravos, concentrando grande parte das atividades:

Veiga (2002) observa que a ilha de Santiago e, em especial, a Ci- dade de Ribeira Grande, funcionou, na época, como um grande motor do tráfico escravocrata: os escravizados eram capturados

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em grande quantidade na Costa Ocidental da África e, seguida- mente, eram trazidos para a Ribeira Grande, onde aprendiam os rudimentos da língua e da religião. Depois, eram exportados tanto para a Europa quanto para a América do Sul. (MIRANDA, 2013: 11)

A partir do excerto, é possível depreender algumas características do comércio escravocrata em Cabo Verde (RODRIGUES, 2007: 34-38). A despeito de grande parte dos escravos estarem apenas de passagem pelas ilhas, muitos que chegavam a Cabo Verde, especialmente a Santiago, permaneciam um tempo antes de partirem para seus destinos (em geral, Portugal, Madeira, Canárias, Sevilha, Cádis, Antuér- pia e América, sobretudo as Antilhas). O tempo de permanência dos escravos no arquipélago, muitas vezes, servia para sua ladinização, levada a cabo especialmente pelos vigários, em que eram transmitidos não apenas ensinamentos sobre algum ofí- cio, mas também conhecimentos linguísticos. Além disso, em geral, era realizada também a catequização. Essa prática de catequizar e ensinar a língua e um ofício aos escravos era alicerçada pela política corrente de atribuir um maior valor aos es- cravos ladinizados do que aos inexperientes/boçais. Segundo Rodrigues (2007: 35, 38), em 1500, o batismo passou a ser obrigatório em Santiago, e registros de 1600 a 1613 mostram que a ladinização também deveria ser realizada. Contudo, apesar dessa obrigatoriedade, nem todos os escravos recebiam ensinamentos antes de par- tirem para os seus destinos: a maioria sequer parava na ilha em virtude da pressa dos comerciantes.

Quanto aos segmentos formadores da sociedade cabo-verdiana, apontam-se dois grupos principais (RODRIGUES, 2007: 30-36; MIRANDA, 2013: 11). De um lado, estavam os europeus, especialmente portugueses, mas também genove- ses, espanhóis e outros (em menor número). Dentre eles, havia povoadores livres, degredados, missionários, enfim pessoas com diferentes perfis. Do outro lado, esta- vam os escravos africanos. Não se sabe ao certo a real procedência desses escravos, tampouco as línguas africanas que contribuíram para a formação do kabuverdianu (MIRANDA, 2013: 11). As descrições são variadas. Rodrigues (2007: 32, 53), por exemplo, defende que, entre os primeiros povoadores de Santiago, havia jalofos e fulas, apontando ainda a presença de balantas, papéis, bijagós, falupes e sapes em

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Santiago e Fogo. O que parece certo é que muitos dos escravos que chegaram a Cabo Verde foram trazidos da região da Guiné. Contudo, isso não resolve a ques- tão, já que o termo Guiné se refere à região onde estão atualmente Senegal, Gâmbia, Guiné Bissau, Guiné Conacri e Serra Leoa, países em que são faladas várias línguas africanas (a exemplo do balanta, fula, mandinga, manjaco, papel, wolof, serer) per- tencentes ao grupo niger-congo e aos ramos oeste-atlântico e mandê (RODRIGUES, 2007: 25; SILVA, 2008: 19). Assim, considerando que Cabo Verde funcionou como um entreposto de escravos, pode-se apenas admitir que várias etnias estiveram pre- sentes no arquipélago. Além desses dois segmentos principais (europeus e escravos africanos), é possível citar ainda a presença de judeus em Cabo Verde, em especial na ilha de Santiago. De acordo com Rodrigues (2007: 36), eles começaram a chegar à região em fins do século xv (sendo inicialmente clandestinos), e, no começo do século xvi, uma colônia de judeus fixou residência nas ilhas. Sua presença causava certo incômodo aos demais habitantes, havendo acusações contra o Corregedor de Santiago de protegê-los, dando-lhes guarida. Com diversos povos habitando as ilhas cabo-verdianas e estando em contato constante, a mestiçagem era bastante frequente (PRATAS, 2002: 16; RODRIGUES, 2007: 35), sobretudo nas ilhas de Santiago e Fogo. Uma das razões dessa miscigenação era a pequena quantidade de mulheres europeias, justificando as relações entre europeus e escravas. Dessas relações, surgiu um quarto elemento importante na sociedade cabo-verdiana: o mestiço, os mulatos filhos da terra, cujo número só aumentou no decorrer dos anos. Essa presença cada vez maior de mestiços (mais comum em algumas ilhas do que em outras) não era vista com bons olhos pela metrópole portuguesa, que desejava a todo custo extin- guir esses mulatos e ‘branquear e europeizar’ a população. Para tanto, em 1620, as mulheres que outrora eram degredadas para o Brasil passaram a ser enviadas para Cabo Verde. Em fins do século xviii, essa preocupação ainda era patente com uma proibição real expressa quanto à entrada de mestiços provenientes de outras ilhas em São Vicente (RODRIGUES, 2007: 38, 45). Tais esforços, contudo, não surtiram muito efeito e, em 1836, quando o tráfico já estava praticamente extinto, a população do arquipélago era predominantemente mestiça (RODRIGUES, 2007: 41).

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O período áureo das ilhas cabo-verdianas terminou à medida que o comércio de escravos entrou em colapso. De acordo com Miranda (2013: 11), a indústria escravocrata atingiu seu auge no século xvi, começando a declinar em princípios do século xvii. Nesse período, segundo Rodrigues (2007: 38), começaram a abundar as reclamações de fugas de escravos para o interior, o ataque de corsários e piratas e o descumprimento do batismo de escravos, revelando-se consequentemente a difi- culdade enfrentada na ladinização. A autora aponta que, a partir de 1580, Santiago perdeu sua posição de importante fornecedor de escravos para as Américas. Em 1640, a ilha retomou seu posto, mas não conseguiu alcançar o sucesso de antes. As perdas decorrentes desse quadro foram vultosas e a recuperação não foi a espe- rada. Em 1664, se iniciou o declínio de Santiago, processo que atingiu seu auge em 1676 graças às pressões das companhias criadas para regular o tráfico e ao êxodo em massa da elite branca cabo-verdiana para a Costa da Guiné, o que significou a perda da riqueza acumulada nas ilhas (RODRIGUES, 2007: 39). Além da crise no sistema escravocrata, desastres naturais contribuíram para a queda das ilhas cabo- verdianas. Rodrigues (2007: 37-41) menciona que, próximo ao fim do século xviii, as ilhas já tinham enfrentando 11 episódios de fome generalizada devido aos perío- dos de estiagem. Esses episódios ocorreram durante os anos de 1580 a 1583, 1609, 1685 a 1689, 1704 a 1712, 1745 a 1755, 1773 a 1775. No século xix, houve mais casos de fome e estiagem em 1810 a 1814, 1830, 1845 a 1846, 1862 a 1866. Além dos episódios de fome, as ilhas foram acometidas também por outras catástrofes, como o terremoto de 1680 na ilha do Fogo, as epidemias de 1730 a 1732 e o surto de cólera-morbus e de varíola entre 1855 e 1856. Durante esses períodos de dificuldade, era comum a emigração de pessoas de Cabo Verde, o que, juntamente com a morte de um número elevado de pessoas (entre 1730 e 1732, 2.000 pessoas morreram; já em 1830, foram 30.500 mortes), implicava em grandes quedas populacionais. No período de 1580 a 1583, por exemplo, a autora afirma que muitos habitantes das ilhas de Santiago e Fogo (não apenas escravos, mas brancos e mestiços) foram para a Guiné. Já de 1810 a 1814, a crise atingiu Santiago, Maio e Boa Vista, levando à mi- gração para São Nicolau e Fogo. Segundo Rodrigues (2007: 150, 152 dos apêndices), em 1864, durante mais um período de forte estiagem e fome, o governo estabeleceu

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um decreto que ditava as regras da migração dos habitantes de Cabo Verde para as lavouras de Angola e São Tomé. Desse modo, juntamente com o colapso do comér- cio escravocrata (que terminou oficialmente em 1876 quando a escravidão foi enfim abolida), desastres naturais tiveram impactos nas ilhas cabo-verdianas, sobretudo em Santiago, fazendo com que elas caíssem no ostracismo, com uma participação diminuta dos colonizadores portugueses.