No que diz respeito à formação e difusão do kabuverdianu, a partir do con- tato principalmente entre o português dos séculos xvi e xvii e línguas africanas, segundo Quint (2000a: 55) e Rodrigues (2007: 220), a língua começou a se desenvol- ver no final do século xv, mais precisamente a partir de 1462, ano em que as ilhas cabo-verdianas começaram a ser povoadas. Assim, é possível situar o surgimento do kabuverdianu entre fins do século xv e começo do xvi. Quanto à formação do ka- buverdianu, Rodrigues (2007: 48-60) e Silva (2008: 20-25) apontam a existência de quatro diferentes hipóteses para explicar o surgimento da língua (além da monogê- nese, segundo a qual todas as línguas crioulas se originam de um pidgin português em uso na costa africana durante os séculos xv e xvi): (i) hipótese da língua26
de reconhecimento; (ii) hipótese continental ou guineense; (iii) hipótese insular ou cabo-verdiana; (iv) hipótese ambígena. Essas quatro hipóteses serão apresentadas resumidamente a seguir com base em Rodrigues (2007: 48-60)27.
De acordo com a hipótese da língua de reconhecimento (NARO, 1978), o kabu- verdianu teria surgido a partir de um pidgin português falado em Portugal por volta de 1400. Esse pidgin era ensinado formalmente em Portugal (provavelmente em uma
26Rodrigues (2007: 48-49) emprega o termo ‘linguagem’ em lugar de ‘língua’.
27A discussão das hipóteses relacionadas à origem do kabuverdianu será feita de forma
breve, resultando em um quadro geral, uma vez que tratar dessa temática não é o objetivo desta tese (que visa discutir o cenário de gênese e de desenvolvimento do papiamentu, aspecto abordado nos capítulos 4 e 5).
kabuverdianu: características gerais 85
escala diminuta, considerando-se o período de fim da Idade Média, sem escolarização universal financiada pelo Estado) a fim de formar tradutores/intérpretes que pudes- sem ajudar nas atividades comerciais na costa ocidental africana e era usado sempre que uma das partes envolvidas na comunicação não tivesse conhecimento de portu- guês. Mais tarde, por volta do começo do século xvi, essa língua de reconhecimento foi transportada para a região da Guiné pelos lançados, sofrendo modificações que deram origem aos diferentes crioulos falados na região. Nessa hipótese, há ênfase no papel dos lançados, que, juntamente com os grumetes, as tangomás e os mestiços nativos das ilhas, tiveram uma participação substancial na configuração e difusão da nova língua (COUTO, 1992: 110-112; RODRIGUES, 2007: 48-49). Com relação a essa língua de reconhecimento, Teyssier (1959: 227-250), com base em algumas obras de Gil Vicente, traz registros que apontam para o uso da Língua de Preto em Lisboa no século xvi por escravos negros. Analisando vocábulos e expressões característicos da Língua de Preto, o autor encontrou que a variedade falada pelos escravos apresenta alguns traços que lhe são peculiares, a exemplo do uso do infi- nitivo como forma geral, do emprego de uma única forma pronominal para todas as funções, da ausência de artigo, do apagamento de [r, s, l] finais, da passagem de [v] a [b], da substituição da vibrante múltipla pela simples, da passagem de [L] a [j], entre outros. Ademais, a comparação entre a Língua de Preto e alguns crioulos de base portuguesa demonstrou muitas similaridades (TEYSSIER, 1959: 248-249). Em linhas gerais, essa hipótese não parece muito apropriada para explicar a origem do kabuverdianu, uma vez que, a despeito de a existência dessa língua de reconhe- cimento ter sido de fato documentada em Portugal, há pouca probabilidade de tal língua ter sido levada de Portugal para as demais possessões portuguesas na África (ARAUJO, 2011: 14-15). Além disso, essa hipótese ignora o papel dos milhares de escravos nas ilhas de Cabo Verde e os coloca como pessoas que simplesmente apren- deram essa língua de reconhecimento, sem nenhuma contribuição de suas estruturas linguísticas.
A hipótese continental ou guineense (COUTO, 1994, 1995 apud RODRIGUES, 2007), por seu turno — também sugerida por Schuchardt (1887: 138) —, advoga que o kabuverdianu pode ter surgido na atual Guiné Bissau, provavelmente na região de
kabuverdianu: características gerais 86
Cacheu, sendo, mais tarde, transplantado para as ilhas de Cabo Verde, onde teria se especiado, diferenciando do kriyol de Guiné Bissau e Casamança. Aqui, novamente, atribui-se um papel aos lançados, tangomás e grumetes. A partir da comunicação entre esses três segmentos é que o pidgin teria surgido: os lançados iam para o con- tinente com o intuito de capturar escravos, tecendo relações com as tangomás (que se tornavam mães de seus filhos) e com os grumetes (os intermediários da indústria escravocrata). Os filhos nascidos das relações entre lançados e tangomás seriam os responsáveis pela nativização e difusão do crioulo. O transporte posterior dessa língua (já estabelecida) da Guiné para Cabo Verde teria sido realizado através dos escravos que chegavam em grande número às ilhas e pelas atividades comerciais rea- lizadas entre as duas regiões (RODRIGUES, 2007: 49-51). Como fatores contrários ao estabelecimento e difusão de uma língua crioula na região da Guiné, é possível citar: (i) os portugueses se estabeleceram apenas temporariamente na Guiné, não havendo estabilidade suficiente para formar uma língua; (ii) mesmo com a força militar portuguesa, não havia segurança na região, sendo constantes os episódios de destruição das vilas com a consequente desarticulação da incipiente estrutura social que ali se formava; (iii) a população na Guiné era formada por diversas etnias, sendo bastante heterogênea; (iv) a população africana sempre viveu de forma livre, sem que os portugueses exercessem um domínio efetivo, conservando, assim, suas línguas e valores culturais (CARREIRA, 1972: 338 apud RODRIGUES, 2007: 50-51).
Já a hipótese insular ou cabo-verdiana (CARREIRA, 1972, 1983 apud RO- DRIGUES, 2007) considera que o crioulo se desenvolveu e se difundiu a partir de Cabo Verde. Assim, o kabuverdianu e o kriyol de Guiné Bissau e Casamança teriam um ancestral comum, o protocrioulo ibero-românico da África ocidental, nascido em Santiago (QUINT, 2000b: 116-117). A motivação para o surgimento dessa lín- gua seria a necessidade de comunicação entre os senhores e os escravos (e mesmo entre escravos de etnias diferentes), os quais falavam línguas mutuamente ininteli- gíveis. Como facilitadores do desenvolvimento desse crioulo estavam: (i) o poder exercido pela Igreja Católica, responsável pela ladinização dos escravos, processo que envolvia, entre outras coisas, o domínio ainda que precário de alguma forma de português; e (ii) o suposto caráter homogêneo e pacífico da sociedade cabo-verdiana
kabuverdianu: características gerais 87
desde o começo de sua formação. Ademais, registros históricos parecem sustentar a precedência do kabuverdianu sobre o kriyol de Guiné Bissau e Casamança: a pri- meira referência escrita ao crioulo de Cabo Verde data de 1546, enquanto que não se encontra menção a um crioulo da Guiné antes do final do século xvi. Assim, nascido em Santiago, esse crioulo posteriormente se difundiu para outras regiões a partir dos mulatos, negros forros e da emigração cabo-verdiana desde 1580 (RO- DRIGUES, 2007: 51-54). A hipótese insular possui alguns aspectos questionáveis. Em primeiro lugar, é pouco provável que a sociedade cabo-verdiana fosse tão homo- gênea e pacífica, não havendo nenhuma sociedade do mundo que seja assim. Uma evidência de que havia tensões entre os diversos segmentos sociais são os registros de fugas de escravos (mencionados na seção 3.3). Desse modo, a homogeneidade da sociedade cabo-verdiana é provavelmente algo muito mais presente nos discursos oficiais do que de fato uma realidade vivenciada no arquipélago. Além disso, o fato de terem sido encontrados registros do kabuverdianu antes daqueles que se referem ao crioulo da Guiné é apenas conjectural, não sendo necessariamente um caso de precedência. É possível que um crioulo tenha sido falado na Guiné até mesmo an- tes do surgimento do kabuverdianu, ainda que os primeiros registros da língua do continente sejam posteriores.
Por fim, segundo a hipótese ambígena (ROUGÉ, 1994; COUTO, 1994 apud RODRIGUES, 2007), seria possível postular uma língua kabuverdianu-kriyol de Guiné Bissau e Casamança, formada nas duas regiões a partir de um mesmo pro- tocrioulo e com desenvolvimentos paralelos graças às influências semelhantes, ao intercâmbio contínuo entre as duas regiões e à atuação dos lançados. De acordo com Rougé (1994: 144-146), a partir de um mesmo material linguístico, foram for- mados, em épocas próximas, dois crioulos diversos, em regiões diferentes. Seria, assim, possível falar em uma língua guineo-cabo-verdiana, que, desde o seu surgi- mento, já se mostra dialetalizada. As duas línguas encontram-se tão relacionadas que não é possível determinar se foi o kabuverdianu que influenciou o kriyol ou vice- versa. Sustentando a hipótese ambígena, aparecem registros de que o contato entre portugueses e africanos (tanto no arquipélago quanto no continente) de fato ocor- reu e de que, apesar de existirem diversas etnias sobretudo na região continental,
kabuverdianu: características gerais 88
elas tiveram que encontrar um meio de conviver e, por conseguinte, se comunicar. Ademais, há diversas semelhanças estruturais e vocabulares entre o kabuverdianu e o kriyol de Guiné Bissau e Casamança, as variedades de português que chegaram às duas regiões eram similares e as línguas de substrato que contribuíram para a sua formação foram as mesmas: as línguas dos grupos mandê e oeste atlântico, a exemplo do mandinga e do wolof, entre outras (RODRIGUES, 2007: 54-56).
Após a discussão das hipóteses, Rodrigues (2007: 56-60) defende a hipótese ambígena para explicar a formação do kabuverdianu, uma vez que ela considera uma multiplicidade de fatores, obtendo uma visão mais ampla das condições gerais sob as quais os crioulos surgiram. Segundo a autora, as outras três hipóteses (língua de reconhecimento, continental e insular) pecam justamente por querer se constituir como única possibilidade possível para a origem dos crioulos portugueses na África. Desse modo, em síntese, nas palavras da autora:
[...] reconhece-se que Cabo Verde precisou de contingente da Guiné para compor parte de sua comunidade e língua, ao mesmo tempo em que serviu de porto para o surgimento de uma variedade que iria contribuir no estágio inicial do pidgin/crioulo da Guiné. As ‘influências mútuas’ referidas por Mota (1954 citado por Rougé, 1987), defende-se, resumem o corolário da questão: Caboverdiano e Guineense tiveram muito para terem um fundo comum — a língua multifacetada da Era dos Grandes Descobrimentos —, e, por isso mesmo, para não serem línguas iguais. (RODRIGUES, 2007: 60, grifos da autora)
Para a autora, o kabuverdianu e o kriyol de Guiné Bissau e Casamança foram formados a partir de uma mesma base (o português), o que explica as similarida- des entre as duas línguas. Por outro lado, em momento algum, os crioulos formados eram homogêneos (sendo línguas iguais), haja vista as especificidades de cada região, como, por exemplo, o fato de, na Guiné, o contato com línguas nativas africanas ter se mantido, ao passo que, em Cabo Verde, ele foi sendo perdido pouco a pouco. A justificativa dada para as semelhanças entre as línguas (que se encontram profunda- mente arraigadas nos sistemas, ultrapassando similaridades lexicais) — um mesmo superstrato, o português — apresenta alguns problemas. Se assim o fosse, todos os crioulos de base portuguesa seriam próximos demais (o que não é o caso). Além
kabuverdianu: características gerais 89
disso, essa explicação ignora o papel linguístico dos escravos, agentes na configuração linguística dos crioulos de Cabo Verde e da Guiné.
Além dessas diversas hipóteses para explicar o surgimento do kabuverdianu, deve-se discutir ainda a apresentada por Jacobs (2010), que atribui um papel im- portante para a região de Cacheu, na Guiné. Para o autor, o protocrioulo da Alta Guiné (que teria se ramificado no kabuverdianu e no kriyol de Guiné Bissau e Ca- samança) teria surgido em Santiago por volta do fim do século xv e começo do xvi, sendo mais tarde levado pelos cabo-verdianos para Cacheu, de onde teria se difundido no fim do século xvi para outras partes do continente (JACOBS, 2010: 290). A linha de pensamento de Jacobs (2010), desse modo, poderia ser classifi- cada no âmbito das hipóteses insulares ou cabo-verdianas, apresentando, contudo, o diferencial de considerar Cacheu como o local da especiação do kriyol (no que tange ao kabuverdianu) e ponto de partida de sua posterior difusão pelo continente. Ilustrando a maior antiguidade do crioulo falado em Cacheu estaria o fato de que, no âmbito fonológico, a variedade dessa região e a de Ziguinchor (consideradas mais conservadoras) possuem mais semelhanças com o kabuverdianu de Santiago do que o dialeto falado em Bissau (JACOBS, 2010: 294). Além disso, seguindo Bartens (1996), Jacobs (2010: 319) aponta que o crioulo falado na província de Casamança (Senegal) estaria relacionado historicamente ao dialeto de Cacheu.
Antes de discutir seu posicionamento, Jacobs (2010: 292-299) apresenta breve- mente as outras hipóteses que tratam do surgimento do kabuverdianu, mencionando porque elas são inadequadas. A hipótese da língua de reconhecimento, postulando a existência de um pidgin ancestral compartilhado, não conseguiria explicar as simi- laridades estruturais entre o kabuverdianu e o kriyol no que tange às partículas de tempo, modo e aspecto (TMA), à morfologia flexional e derivacional e algumas ca- tegorias funcionais, já que tais aspectos estariam ausentes em um pidgin (JACOBS, 2010: 293-294). Quanto à hipótese continental, Jacobs (2010: 295-299) aponta que, nas comunidades comerciais situadas ao longo do rio da Guiné, é improvável que um crioulo de base portuguesa tenha se formado, uma vez que os lançados jamais cons- tituíram uma comunidade forte, que exercesse domínio sobre os africanos (havendo, na verdade, uma forte interação entre os dois grupos, com os lançados incorporando
kabuverdianu: características gerais 90
muitos costumes africanos). Estes também não tinham necessidade de um pidgin, uma vez que o mandinca28 já exercia o papel de língua veicular. Ademais, nos an-
tigos centros de comércio escravo (as chamadas praças ou presídios), como Cacheu, Ziguinchor, Geba e Bissau, os portugueses não exerciam um domínio efetivo sobre as populações locais, não criando, assim, condições propícias para o surgimento de um crioulo. Por fim, no que tange à hipótese ambígena, Jacobs (2010: 292-293) considera que ela não consegue explicar as similaridades estruturais entre o kabu- verdianu e o kriyol, que se fazem presentes em aspectos basilares e em todos os níveis da gramática. Além disso, a hipótese de um desenvolvimento simultâneo pressupõe um intenso contato entre as duas regiões, o que é bastante difícil de precisar.
Para sustentar sua hipótese, Jacobs (2010: 299-334) utiliza dados sócio- históricos e linguísticos. Quanto aos aspectos históricos, o autor parte da assunção de que o kabuverdianu já era falado em Santiago em fins do século xv e início do xvi, o que é confirmado por alguns registros e dados linguísticos (como a presença de traços provenientes do wolof, língua falada pelos escravos que chegaram a Santiago nos primeiros anos da colonização, até cerca de 1550) (JACOBS, 2010: 299-302). Tendo isso em mente, o fato de ter ocorrido uma migração maciça de cabo-verdianos para a região da Guiné, especialmente para Cacheu, significou não apenas o povoa- mento do continente a partir de Cabo Verde, mas também a difusão da língua, que mais tarde foi se diferenciando e formando o kriyol de Guiné Bissau e Casamança. Considerada o berço do kriyol, Cacheu foi fundada e povoada a partir dos cabo- verdianos. Essa afirmação, segundo Jacobs (2010: 305), seria evidenciada pelo fato de que foi um cabo-verdiano (Manuel Lopes Cardoso) que liderou a construção do forte em Cacheu, simbolizando o início da colonização em 1589 (período no qual o kabuverdianu já existia). Além disso, existem registros da migração cabo-verdiana para Cacheu durante os episódios de fome em Santiago nos primeiros anos do século xvii. Jacobs (2010: 307 a 309) afirma ainda que, mais tarde, Cacheu foi o ponto de partida para o povoamento de outras regiões onde o kriyol é atualmente falado, como
28Em muitas obras que tratam do kabuverdianu, a exemplo de Rodrigues (2007), não se
faz uma diferença entre os termos mandinga e mandinca, sendo mais comum a forma mandinga. Contudo, segundo Petter (2015: 58), o mandinca é uma das línguas mais faladas da variedade mandinga, que faz parte da família mandê.
kabuverdianu: características gerais 91
Farim (no interior) e Zinguichor (em Casamança), e a chegada de cabo-verdianos era uma realidade em vários locais da costa da Alta Guiné. Essas migrações maci- ças — por vezes relacionadas à cristianização e favorecidas, segundo Jacobs (2010: 309-313), por constantes episódios de fome e pela adaptação dos cabo-verdianos às condições climáticas e epidemias do continente — permitiram que os cabo-verdianos participassem da fundação (e povoamento) de quase todas as comunidades comer- ciais importantes da região da Guiné a partir do século xvi (JACOBS, 2010: 309), o que certamente teria impactos no âmbito linguístico.
No plano linguístico, Jacobs (2010: 316-328) inicialmente discute a presença de itens lexicais provenientes do mandinca (do grupo mandê) e do wolof (do grupo atlântico) no vocabulário compartilhado entre o kabuverdianu e o kriyol de Guiné Bissau e Casamança. No que diz respeito especificamente ao wolof, essa é a se- gunda língua de substrato a fornecer mais vocábulos para os crioulos portugueses da Alta Guiné (ficando atrás apenas do mandinca) e os vocábulos desse étimo são relativamente numerosos e antigos, pertencendo ao vocabulário básico da língua. Segundo o autor, considerando que, na região da Guiné, no período de formação dos crioulos, não existiam comunidades falantes de wolof — sendo os pequenos gru- pos atuais resultado de migração posterior — e que vocábulos provenientes dessa língua não podem ser atribuídos às influências de intépretes e/ou mercadores ou de relatos de viajantes, a presença de palavras de étimo wolof no protocrioulo da Alta Guiné seria evidência de seu surgimento na ilha de Santiago (onde falantes dessa língua se fizeram presentes). Ademais, contra a hipótese continental, encontra-se ainda o fato de, no léxico compartilhado entre o kabuverdianu e o kriyol, não ha- ver itens provenientes de línguas difundidas na região da Guiné Bissau (antes como substrato; atualmente como adstrato), a exemplo do balanta e do papel (JACOBS, 2010: 318-325). Além da discussão sobre o wolof, Jacobs (2010: 330-334) menciona ainda alguns traços do português dos séculos xv e xvi que aparecem nos crioulos portugueses da Alta Guiné, como se observa no vocábulos: (i) pt dos séculos xv e xvi coma > kv kuma & ma / kg kuma ‘como’; (ii) pt dos séculos xv e xvi assi coma > kv sima / kg suma ‘como, se’. A ocorrência de elementos do português dos séculos xv e xvi seria mais uma evidência para o nascimento do crioulo em
síntese do capítulo 92
Santiago, uma vez que a crioulização só poderia ter ocorrido no continente a partir de 1589 (ano da fundação do forte em Cacheu, instaurando-se as condições necessá- rias para a formação de um crioulo), período em que a variedade de português dos séculos xv e xvi já estava caindo em desuso.
A breve discussão das hipóteses mostra que, para definir como se deu o surgi- mento do kabuverdianu, é necessário levar em consideração diversos fatores (tanto de ordem linguística quanto histórica). Nesta tese, será assumida a hipótese de Jacobs (2010).