A segunda casa que Artigas projeta para moradia própria é a residência de 1949, construída no mesmo terreno de esquina e em sequência à primeira casa do arquiteto, de 1942. Embora disposta paralelamente às divisas, relaciona-se com a disposição da primeira casa por meio do acesso principal e garagem, girados a 45 graus. A casa propriamente dita é abrigada em um único volume, com cobertura em “borboleta” (duas águas convergendo-se para o centro), e apresenta amplas aberturas na sala de estar, voltada para o terraço e para o estúdio (fig. 69).
Figura 69 - Segunda residência do Arquiteto. Fonte: Vilanova Artigas, 63.
A composição volumétrica desta residência organiza-se de forma extensa e horizontal, e as alas confluentes pelas “asas” da borboleta abrigam, respectivamente, os usos privados e sociais da residência, definindo o partido adotado. De acordo com
Zein, sua segunda residência inclui-se na fase intermediária de trabalho do arquiteto, que corresponde ao período de 1946 a 1955, caracterizada pela
(...) Franca aceitação do repertório que vinha sendo desenvolvido pela escola carioca, desde o início dos anos 1940, a partir da re-leitura dos paradigmas corbusianos, muitas vezes filtrados por outras re-leituras americanas; os quais, somados às características construtivas e plásticas do primeiro período, vão permitir o aparecimento de uma série de projetos preocupados com um número relativamente reduzido de variáveis, exaustivamente estudadas.
Também nesta fase, o arquiteto se interessa mais pelo projeto e menos por participar no canteiro de obras. Os materiais que mais foram empregados são o tilojo, o vidro e parcimoniosamente, ainda, o concreto. As coberturas são sempre em telhas de fibrocimento sobre lajes, num compromisso entre a ortodoxia moderna e a viabilidade prática.
(...) Apesar de aproveitar detalhes de soluções de origem corbusiana filtradas pelos exemplos cariocas, tais como brises verticais e horizontais, elementos vazados cerâmicos, marquises de formas curvas, coberturas em asa-de-borboleta, Artigas nunca é formalista, ou gratuito: a construtividade do edifício, organizada pelo partido – conceito que engloba intenções estéticas e filosóficas -, é dominante, ordenadora.75
O que Zein nos explica é que, mesmo que Artigas inspir-see em soluções modernas adotadas pela escola carioca, ele se organiza a partir de conceitos e experimentações próprias, pois a forma peculiar com ele se apropriava dos espaços por meio de seus projetos mesclava simplicidade, resultante de seu intenso trabalho intelectual na busca pela plasticidade e definição estética das obras. A construção em volume único, abrigando todas as funções e os limites bem definidos, são uma característica corrente de sua arquitetura, que na fase seguinte de seu trabalho irá amadurecer plenamente.
75 Zein,Ruth Verde. O Lugar da crítica: ensaios oportunos de arquitetura; Ritter dos Reis, 2001, São
Na residência de 1949, cada ala da cobertura em borboleta marca a disposição dos usos da residência, distinguindo o lado social do lado privado e íntimo, ambos convivendo num mesmo corpo arquitetônico, permitindo que a volumetria concilie, assim, “exuberância plástica com franqueza funcional”.76
Outra residência que também adota o mesmo partido e volumetria, com um bloco com coberturas em duas meias-água (“borboleta”), na qual os usos estão bastante compactados e acompanham o desenho das rampas, que definem as áreas de acesso e circulação, com pé direito duplo, é a Casa J. Czapski, também de 1949. Nessa casa, o telhado inclinado é destacado exteriormente pelos pilotis delgados que conferem leveza à construção. Esta solução também está presente na segunda casa de Artigas, na qual o ponto mais alto da cobertura coincide com o espaço suspenso por pilotis, onde se abriga o estúdio, sob o qual se dispõe o terraço, e em continuidade com a sala de pé direito mais alto.
Na planta da residência de 1949, o núcleo central concentra-se (fig. 70), assim como na primeira casa, nos dois banheiros, iluminados zenitalmente, que definem internamente a distinção de usos da planta: os setores social e privativo – já externamente definidos pela cobertura. Na casinha de 1942, o banheiro é o centro da composição da residência, que é quadrada, enquanto que na segunda residência os banheiros conformam-se na porção central do retângulo estendido, de forma retangular, portanto.
Figura 70 - Planta da Residência e implantação. Desenho realizado pela autora da monografia com base em desenho publicado na Revista 2G, Vilanova Artigas, 2010.
Diferentemente da primeira casa de Artigas, de 1942, que tem uma disposição centrípeta e em espiral, na qual os espaços se interligam ao redor de um ponto central (o banheiro) e abolem a hierarquia da distinção entre a área social e a área privativa, na segunda residência do arquiteto, a planta é organizada de forma linear e retangular e a hierarquia é bem marcada. Na primeira residência, a proporção dos espaços é menor que na segunda, que possui um programa de necessidades maior, abrigando três quartos, dois banheiros, uma cozinha, a sala de estar, o terraço e o estúdio. A segunda casa foi projetada para uma família com mais pessoas, um casal com dois filhos, enquanto que a primeira era apenas para um casal. A primeira residência apresenta mais simplicidade de usos, caracterizados como cômodos integrados; já a segunda distingue, por meio dos espaços, a vida
íntima da vida social, definindo para os dormitórios uma área reservada, inclusive com diferentes aparências e texturas externas nas fachadas: a área íntima com fechamento externo de tijolos e janelas com venezianas, enquanto a área social com fechamento que combina paredes de tijolos e amplas aberturas de vidro (fig. 71). Na sala de estar uma meia parede de tijolos tem fechamento na parte superior com vidro por toda sua extensão, vidros que se prolongam até o estúdio. Este espaço com pé direito duplo que abriga a sala de estar e o estúdio (na ala inclinada mais alta da construção, apoiado sobre pilotis, cobre o terraço que realiza a transação entre o exterior e o interior da residência.
Figura 71 – Foto de uma maquete da residência. Fonte: trabalho realizado pelas alunas da graduação Amanda Jardim e Maria F. Boccuto, em 2012, na disciplina Arquitetura Brasileira, ministrada pela profa. Ruth Verde Zein.
A proporção entre a área privativa e a social define um retângulo conformado pela justaposição de quatro quadrados (fig. 72), um deles abrigando os três quartos, a cozinha e os banheiros; o outro, exatamente proporcional, incluindo a sala de estar, o terraço e o estúdio.
Figure 72 - Planta da residência de 1949. Desenho realizado pela autora a partir de projeto encontrado na revista 2G Vilanova Artigas, 2010.
Ao entrar na residência pelo caminho paralelo à cobertura abobadada da garagem, chega-se à uma área externa (fig. 73), com uma marquise com pequenas aberturas retangulares zenitais, iluminando o espaço e resguardando a entrada, que dá para a sala de estar. Entrando nessa sala de estar, à direita e à frente está a lareira, que delimita um espaço entre a sala e o hall de entrada, mais à frente, situa- se a sala de jantar. Ainda na sala de estar, com seus duplos caixilhos de vidro voltados para o terraço, está situada, e no canto direito, a escada que leva ao estúdio, localizado um nível acima do piso térreo; a elevação da cobertura permite que a sala tenha o pé direito mais alto que o habitual, ampliando visualmente seu espaço.
Figura 73 - Entrada da 2° Casa do Arquiteto. Fonte: Foto tirada pela autora, dezembro de 2011.
A cobertura é uma laje em duas águas em forma de asa de borboleta, com pouca inclinação e com acabamento em telhas de fibrocimento, escondidas sob a platibanda discreta. O piso da área social é de grandes lajotas de cerâmica na cor marrom avermelhado.
Além do caixilho com fechamento em painéis de vidro, que ocupa toda a extensão da área social, há duas colunas pintadas de azul que sustentam a cobertura e se destacam no arranjo do ambiente. Os caixilhos de vidro envolvem o lance de escadas que acessa o estúdio e protege, parcialmente, o terraço coberto, situado entre o estúdio e a sala. Os panos de vidro superiores são, na sua maioria, fixos; entre a sala de estar e a varanda há o terraço abrigado; as portas podem ser abertas, assim como somente alguns dos painéis que estão na parte superior das paredes laterais e que possuem o recurso de abertura basculante, enquanto os
painéis acima das portas, que seguem pela escadaria até o estúdio, são fixos. Já os painéis verticais estreitos, na parede do estúdio voltada para o terraço, podem ser abertos pivotando no plano vertical, como se fossem uma parede com brises de vidro, enquanto alguns painéis da outra parede envidraçada do cômodo possuem a opção de abertura basculante.
Se compararmos fotos de diferentes épocas, poderemos notar significativas mudanças no arranjo do mobiliário ao longo do tempo. A próxima imagem, que não possui data (fig. 74), parece ser a mais antiga, se se considerar a configuração e forma dos móveis, além do indício da vegetação de pequeno tamanho, ainda não tão exuberante e avantajada quanto se pode perceber nas fotos mais recentes, em que os painéis de vidro foram recebendo maior sombreamento à medida em que a vegetação e as árvores cresciam. Quanto aos móveis e à configuração da ambiência interna da sala, nota-se, à esquerda, um sofá com estrutura de madeira, revestido com tecido listrado e por cima um estofado mais fino, sem muita espuma. Ao centro está uma mesa de madeira com um violão e alguns papéis em cima. Logo à frente, há um móvel que parece ser um rádio e, ao lado, há um outro móvel, que pela configuração mais parece um piano, por causa do pé torneado que aparece no canto esquerdo da foto.
Um pouco mais próximas, as duas poltronas com assento de tiras entrelaçadas de couro são cadeiras que Artigas desenhou em 1948, com braços, assento e encosto estruturados em madeira. O quadro, situado atrás do sofá, é uma pintura moderna, sem molduras, pendurada a uma altura mais baixa que o habitual, talvez para ser apreciado sentado, ou porque estivesse centralizado em relação à altura da parede de tijolos, não muito alta porque, logo acima, estão os painéis de vidro. A cortina, localizada atrás do móvel do rádio, garante o isolamento do ambiente, bem como bloqueia, em parte, a proposta de área transparente. O tapete está disposto de maneira informal, pois nota-se que não está bem esticado. A atitude
desta ambiencia, ou seja, a pose fotográfica, sugere um ambiente moderno e informal.
.
Ao comparar a primeira imagem com a segunda (fig. 75), é possível ver que nesta o ambiente está mais propositalmente arrumado e posado para uma foto de um periódico ou revista de decoração, por exemplo. Talvez esta foto tenha sido tirada primeiro, não é possível saber, mas é possível perceber que ambas possuem data próxima, por causa do sofá e da dimensão da vegetação externa ao fundo. Nesta imagem, a configuração dos móveis já encontra-se diferente, ela parece mais estrategicamente arrumada, com a mesa de vidro ao fundo apoiando os objetos arrumados sobre ela: um vaso de plantas, uma estátua sob um tecido decorativo e um outro objeto de forma retangular. Na mesinha de centro também há alguns objetos: um vaso pequeno de flores sobre uma tapeçaria e um outro objeto que se parece com um prato de cerâmica decorado. O sofá está com um manta por cima do assento e há uma cadeira do lado oposto. Essa cadeira é, provavelmente, aquela que Artigas projetou, com estrutura de madeira e encosto feito de tiras de couro entrelaçadas (apresentada no subcapítulo 3.2) e está com duas almofadas arrumadas sobre ela. Um ponto interessante da fotografia, que traz essa sensação mais forte de ambiente arrumado, é o carpete que envolve os degraus da escada, item que não estava na foto anterior, além do quadro atrás do sofá e do tapete no chão da sala, que também não aparecem nesta foto.
Figura 75 - Sala de Estar da 2ª Casa do Arquiteto. Fonte: Arquivos Fau USP.
Ambas as fotos trazem diferentes sensações de aconchego, a primeira retrata a vivência cotidiana, a residência arrumada ao gosto e intimidade dos moradores, de acordo com a vivência do usuário, enquanto que a segunda sugere um tipo de decoração para casas modernas. A primeira é mais intimista e, da forma como foi tirada, aparecendo uma parte da parede de tijolos, faz com que, ao olharmos para ela, nos tornemos expectadores da vida que acontecia ali, como um testemunho; enquanto a segunda apresenta um aspecto mais formal, um modelo que poderia ser seguido.
A próxima foto (fig. 76), também sem data, retirada dos arquivos da FAU USP, é provavelmente mais recente, pelo fato da configuração dos móveis ser muito parecida com a que está atualmente na residência. Nesta foto, as poltronas sugerem outro tipo de atitude ao se sentar. Enquanto nas duas primeiras os sofás e as poltronas não tinham estofados volumosos, nesta eles aparecem maiores, e isso faz com que a sala pareça mais confortável, pois sugerem um modo mais despojado de se sentar, como se a pessoa pudesse se esparramar sobre eles.
Figura 76 - Foto da sala de estar da 2° Casa. Fonte : Arquivos FAU USP.
A configuração que aparece da sala de estar (fig. 76) é de duas poltronas com uma mesa entre elas, a mesa de centro de vidro com um tecido decorativo sobre ela e duas cadeiras de madeira. Não há objetos sobre as mesas, somente no canto direito da foto há um objeto que não podemos saber de fato o que é. No terraço, pode ser notada uma mesa de madeira com quatro cadeiras, à direita um
suporte com duas samambaias e, à esquerda, uma rede pendurada entre os pilotis, com uma gaiola de madeira logo acima. Mais ao centro, pendurado no teto, há um enfeite que se configura como se fosse um móbile, como nos mostra a próxima fotografia (fig. 77), que revela o outro lado do ambiente, com a lareira e a sala de jantar ao fundo.
Figura 77- Sala de estar da 2° residência. Fonte: A rquivos FAU USP.
A próxima imagem (fig. 78), da sala de jantar, retirada dos arquivos da FAU USP, encontra-se sem data, mas é possível ver que a sala compõe-se de uma mesa de jantar de um pé só, sendo a outra extremidade apoiada na parede, e três cadeiras Thonet. Mais à esquerda, há um móvel pequeno e baixo com alguns objetos sobre ele, compondo um aparador, e mais à frente está a lareira, que ao mesmo tempo tem prateleiras de um lado e de outro uma porta para guardar casacos e deixá-los aquecidos. Nas paredes, vemos alguns quadros, que estão colocados numa altura mais baixa que o habitual e não estão alinhados, mas sim pendurados de maneira
despropositada. Há, um pouco acima dos quadros, uma luminária de parede com forma redonda.
Figura 78 - Foto da sala de jantar da 2° Casa do Ar quiteto. Fonte: Arquivos FAU USP.
Na próxima foto (fig. 79), mais recente que a última, datada por volta do ano de 2010 (ano da publicação da Revista 2G), é possível ter uma visão geral de toda a ambientação interna, bem parecida com a penúltima foto, mas com alguns objetos a mais e outros móveis a menos. Aqui, o sofá de três lugares e as poltronas, todos com o mesmo desenho e tipo de estofado, contrastam com as duas cadeiras de madeira. A mesa de centro encontra-se com alguns objetos decorativos sobre ela, e não somente o tecido, como na foto anteriormente analisada da sala. Entre as poltronas, não há mais a mesa de madeira, mas atrás delas há um aparador com alguns objetos também sobre ele. Ao fundo, o terraço está livre, há somente uma mesa pequena com um objeto sobre ela (talvez essa fosse a mesa de centro antiga que agora está lá no fundo compondo a foto). Também o estúdio, ao fundo, compõe
a fotografia, pois percebe-se o volume transparente do cômodo no qual um instrumento musical, uma bateria, se sobressai; mesmo assim não é o elemento principal da foto.
Figura 79 - Foto da Sala de Jantar. Ano de 2010. Fonte: Revista 2G, Vilanova Artigas, 37.
As próximas imagens (figs. 80 e 81), são sequências desta última descrita, e talvez o mais importante nessas fotos seja a intenção de protagonizar a arquitetura, a estrutura e os revestimentos da casa. A ambientação faz parte da fotografia, é o elemento principal que traz o indício de que ali é uma residência. Na próxima foto, em que se destaca o terraço, quase não há a presença de móveis, somente no canto direito estão os móveis da sala. Aqui podemos perceber os pilotis, que hoje são pintados de azul, mas que inicialmente eram brancos, como podemos ver nas fotos mais antigas já analisadas, e os painéis de vidro, que trazem transparência à casa.
Figura 80 - Imagem do Terraço. Fonte: Revista 2G, Vilanova Artigas, 2010, p.35.
Mas na próxima foto (fig. 81), tirada também a partir do terraço, pode ser visto outro ângulo da sala de estar, com a lareira à esquerda e a sala de jantar com três cadeiras à direita. Há ainda o contraste das cores das paredes laterais, pintadas de marrom avermelhado, com a lareira branca, a parede ao fundo e os pilotis em azul. Também podemos ver alguns quadros pendurados nas paredes e outros móveis e objetos ao lado da lareira.
Figura 81 - Foto tirada a partir do terraço. Fonte: 2G, Vilanova Artigas, 2010, p. 35.
Na próxima imagem, ainda mais recente (fig. 82), de 2011, podemos notar poucas diferenças com a foto mais antiga da sala de jantar (fig. 78). A mesa com as cadeiras é a mesma, além do móvel baixo ao fundo. Os quadros são diferentes, mas também estão pendurados de forma aleatória, sem preocupações com alinhamento. Podemos ver com maior nitidez livros e objetos na estante embutida na lareira.
Figura 82 - Foto da sala de jantar. Foto tirada pela autora da monografia, em dezembro de 2011.
Nas próximas duas figuras (figs. 83 e 84), podemos notar como o corpo da lareira se constitui: de um lado é lareira, do outro uma estante embutida com livros e um quadro pendurado, e do outro uma pequena porta com um armário embutido para guardar os casados em dias frios e mantê-los aquecidos. Em cima da lareira vemos alguns objetos decorativos e, nos dois lados, tanto o da lareira quanto o oposto, há luminárias de parede inserida, que ajudam a iluminar o ambiente, pois há somente um ponto de luz no teto. Próxima às prateleiras, há ainda uma pequena mesa com porta-retratos.
Figuras 83 e 84 - Área da lareira. Fonte: Fotos tiradas pela autora da monografia em dezembro de 2011.
A imagem adiante (fig. 85) é uma visão geral da sala e da lareira, podemos notar o arranjo dos quadros e dos móveis já descrito. Por todas estas fotos, de diferentes épocas, é possível notar o quanto o usuário modificou a ambiência de sua casa, mesmo ela sendo um exemplo de projeto e tendo sido fotografada ao longo dos anos, ela configura-se com uma ambientação moderna, mas que contêm a história dos moradores, contada a partir dos objetos e porta-retratos, e também pela maneira como esses móveis e objetos são dispostos, pois retrata a maneira particular de viver de cada um. É o usuário que dá vida aos ambientes da residência, justamente com seus próprios objetos e na maneira de arrumá-los.
Figura 85 - Sala de Estar. Fonte: Foto tirada pela autora da monografia em dezembro de 2011.
Lina Bo Bardi dizia que as casas de Artigas tinham a continuidade entre o exterior e o interior, pois “o observador não sofre uma brusca interrupção por ter entrado na casa, mas aí, ele tem a percepção exata de que a continuidade de espaço se produz solitária com o rigor constante que as formas externas denunciavam”. Para Lina, a arquitetura “humana” de Artigas é definida como
“doméstica, no sentido mais claro da palavra”, isto porque, para ela, as casas dele impõem à rotina do homem “uma lei vital, uma moral que é sempre severa, quase puritana”. O sentido de “doméstico” que Lina tenta definir à obra de Artigas é o da casa projetada para o morador, por meio da continuidade dos espaços, e “límpidos”, é a expressão arquitetônica que significa que não “desacamba para o decorativo”, como na arquitetura norte-americana.77Assim, ao considerar essas casas de Artigas,
Lina quer mostrá-las não como o resultado de razões funcionais, nem como
repetição de usos e costumes já caducos, mas como exemplos de uma domesticidade renovada pelos esforços da modernidade – que seja severa, quase puritana, e também feita para viver, para ser vital.
Por isso, podemos relacionar a atenção especial à dimensão da área social na segunda casa de Artigas ao comentário de Lina, que pode explicar melhor o sentido do doméstico na obra do arquiteto, a busca pelo conforto e pela vivência do