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A publicação dos resultados das investigações possibilita que as descobertas científicas sejam conhecidas e novas pesquisas possam ser desenvolvidas a partir daquele ponto, e assim, de certa forma, o empreendimento científico está baseado na colaboração.

Por outro lado, as limitações dos dados utilizados em estudos bibliométricos decorrem, principalmente, dos diversos meios de comunicação que os cientistas usam para transmitir informações entre si para além do canal habitual de publicações científicas. A comunicação informal entre pesquisadores não é capturada nas estatísticas, nos relatórios dos países, universidades, laboratórios ou grupos de pesquisa que trabalham juntos por meio de comitês ou programas. Toda a comunicação científica coberta por métodos

bibliométricos tradicionais consiste em trocas que foram formalizadas. A comunicação informal não é incorporada e, provavelmente, nunca será (OKUBO, 1997).

Apesar das limitações, a colaboração científica tornou-se um dos temas favoritos em pesquisas bibliométricas, e o padrão de colaboração pode ser estudado em quase todos os níveis. Os resultados publicados das colaborações intra e extramuros têm se intensificado e podem ser comparados a nível institucional. A colaboração científica medida por coautoria aumentou consideravelmente nas últimas décadas, em todos os níveis de agregação. Entretanto, nos anos 90, o rápido aumento tem sido um pouco mais lento (GLANZEL, 2003).

A análise bibliométrica utiliza vários parâmetros, como, por exemplo, artigos, coautoria, patentes, citações, cocitações e palavras. Estes parâmetros medem indiretamente a comunidade científica, sua estrutura e sua produção. A análise da cooperação torna possível identificar e representar redes científicas, destacando as ligações entre países, instituições e pesquisadores, bem como o impacto de grandes programas como o European Organization for Nuclear Research (CERN) e a OMS (Organização Mundial de Saúde). A bibliometria também destaca a estrutura das disciplinas científicas e as ligações entre elas (OKUBO, 1997).

Além disso, a análise bibliométrica nos possibilita ir além do estudo dos produtos da ciência, pois seus dados nos permitem rastrear alguns aspectos sobre o modo de agir dos produtores da literatura científica. Destacam-se aqui os indicadores bibliométricos de colaboração que nos informam sobre as relações estabelecidas entre os produtores científicos no processo investigativo concluído com a publicação conjunta de seus resultados. A base destes indicadores são os dados sobre a autoria e afiliação do autor que são informados nas publicações com pelo menos mais de um autor (MALTRÁS BARBA, 2003).

Estudos bibliométricos têm medido por meio de estatísticas a colaboração científica de copublicação. Entretanto, a questão que surge naturalmente é em que medida a colaboração se reflete na correspondente coautoria, visto que partes importantes da colaboração não são reconhecidas através de coautoria (LAUDEL, 2002). Além de fatores econômicos e políticos, fatores como mudança de padrões de comunicação e de mobilidade de cientistas também estão influenciando a colaboração. Esses fatores motivam a cooperação em áreas "menos caras" como a matemática pura e a pesquisa teórica nas ciências sociais (GLANZEL, 2003).

Em geral, uma coedição é o resultado da cooperação entre os representantes de cada entidade e cada país participando de um programa de investigação conjunta, criando

vínculos entre as partes (cientistas, laboratórios, instituições, países, etc.) que têm trabalhado em conjunto para produzir um artigo científico. O número total de links por participantes pode ser definido, descrito e medido pela coautoria. Por este princípio é possível construir uma matriz em que em cada célula se descreve a quantidade de coassinaturas entre o autor (ou autores) listado nas linhas e o autor (ou autores) listado nas colunas. Este indicador nos permite identificar os principais parceiros nos esforços de pesquisa e fornece uma descrição da rede científica estudada. A utilidade desses indicadores está diretamente ligada à forma de contagem como as questões de filiação e coautoria são tratadas (OKUBO, 1997).

Nos estudos quantitativos da ciência, a análise dos indicadores bibliométricos de colaboração representa uma questão metodológica, mas também teórica. A colaboração vem há três séculos aumentando e afetando diretamente a geração de conhecimento e toda a comunidade científica.

A motivação para a colaboração passa por justificativas como o acesso a equipamentos especializados, a eficiência no uso do tempo ou a profissionalização dos cientistas. O status do cientista por sua relação com a sociedade e seus pares define sua posição hierárquica e assim, por reconhecimento, a colaboração serve como fator de mobilidade. Além disso, há a sinergia, pois "a colaboração científica parece melhorar a capacidade individual, quer dizer, o resultado obtido é geralmente superior à mera soma dos resultados individuais ou melhor que eles." (MALTRÁS BARBA, 2003, p. 244, tradução nossa).

Beaver (2001) nos apresenta 18 motivos para os pesquisadores colaborarem. São eles: (i) aproximar-se de especialistas; (ii) ter acesso a equipamentos e recursos; (iii) melhorar o acesso às verbas de pesquisa; (iv) obter prestígio ou visibilidade para o avanço profissional; (v) buscar eficiência; (vi) obter progresso mais rapidamente; (vii) enfrentar problemas mais importantes, mais abrangentes, mais difíceis ou mais globais; (viii) aumentar a produtividade; (ix) conhecer pessoas e criar uma rede; (x) aprender novas habilidades ou técnicas; (xi) satisfazer a curiosidade e o interesse intelectual; (xii) compartilhar o entusiasmo da área com outros pesquisadores; (xiii) reduzir erros e enganos; (xiv) manter o foco na pesquisa; (xv) diminuir o isolamento e recarregar a energia; (xvi) educar um estudante de graduação, pós-graduação, ou a si mesmo; (xvii) avançar no conhecimento e aprendizagem; e (xviii) prazer, diversão e entretenimento.

Outra questão teórica a ser considerada é o comportamento aparentemente antagônico de colaboração e competitividade que, neste caso, pode ser visto como mutuamente reforçadores. Questão que Bourdieu (2004) resume na expressão pares- concorrentes.

A análise quantitativa da colaboração revela a estrutura social da ciência. Cabe salientar que ela só "[...] mede a colaboração que obteve êxito, quer dizer, que produziu resultados publicados." Outro princípio a ser destacado é que o trabalho em colaboração assinado por vários autores representa que o resultado deve ser atribuído a estes autores como um grupo e não isoladamente, sem a possibilidade de discriminar o tipo de colaboração e nem outras colaborações que não se finalizaram em uma coautoria. Apesar disso, pode-se afirmar que "[...] a coautoria é um fenômeno indicativo de colaboração." (MALTRÁS BARBA, 2003, p. 246, 247, tradução nossa).

Os estudos sobre os indivíduos têm uma complexidade técnica menor e permitem identificar as equipes de investigação e suas peculiaridades. Podem-se classificar os estudos de colaboração em simples e relacional. Os estudos simples constroem indicadores e nos fornecem informações sobre as características e o nível de cooperação de um conjunto de colaborações levadas a cabo por um agregado de agentes (porcentagem de documentos em colaboração, número médio de autores, instituições, tipos de instituições, países etc.). Os estudos relacionais são centrados nas redes que formam o sistema, identificando os agregados que intervêm na colaboração e construindo uma imagem global das relações entre os agregados através da soma das colaborações concretas (MALTRÁS BARBA, 2003). Este estudo de colaboração abrange ambos os tipos.

Maltrás Barba (2003, p. 249, tradução nossa) identifica três fases metodológicas na análise quantitativa da colaboração:

a) soma ou contagem, processo pelo qual se obtém uma matriz bidimensional cujas células quantificam a colaboração que foi produzida entre cada par de agregados. Esta matriz é uma redução da multidimensionalidade de colaboração, com a finalidade de aplicar técnicas estatísticas na fase seguinte;

b) normalização mediante índices, para isolar a influência das diferenças de tamanhos entre agregados e ressaltar as conexões estatisticamente significativas e interpretáveis em termos de preferências ou tendências dos agregados em estudo; e

c) técnicas de representação gráfica, para expressar a configuração resultante de um modo que facilitará sua compreensão e interpretação.

Os resultados das fases "b" e "c" dependem das definições estabelecidas na sistematização dos dados na fase "a". Não podemos esquecer que os passos metodológicos para sistematizar os dados na fase "a" se iniciam na premissa de que só as colaborações de sucesso resultam em publicações e serão computadas. Mas, afinal, como quantificar o que entendemos por colaboração? Antes de medi-la é necessário examinar qual tipo de colaboração se pode esperar do conjunto de casos sob observação.

De acordo com Maltrás Barba (2003), podem-se distinguir dois tipos básicos de estrutura de colaboração: o democrático, em que todos os participantes em um trabalho científico realizam tarefas complementares e podem participar da coordenação das

mesmas; e o hierárquico, em que um dos participantes assume a direção e a responsabilidade do trabalho e os demais assumem tarefas por ele delegadas (Figura 4).

FIGURA 4 – Classes básicas de estrutura de colaboração

Hierárquica Democrática

Fonte: Maltrás Barba (2003, p. 251).

Na colaboração hierárquica, cada agente dependente colabora com o agente principal, mas não estabelecem colaboração entre si. Dessa forma, a colaboração hierárquica pode ser dividida em bidirecional (mútua entre agente principal e agente dependente) e unidirecional (o agente dependente colabora com o agente principal, mas o inverso não é verdadeiro). Na Figura 5 apresentamos outra forma de representação das classes básicas de estrutura de colaboração fornecida por Mizruchi (1994).

FIGURA 5 – Outra visão das classes básicas de estrutura de colaboração

Fonte: Mizruchi (1994, p 331). Nota: Hierárquica (A), não hierárquica (B).

Se a colaboração for democrática, todos são contados igualmente, porém se a colaboração for hierárquica, contabiliza-se a colaboração entre o agente principal e cada um dos agentes dependentes que não colaboram entre si. Há ainda dois modos de conceber e

quantificar a colaboração: coaparição (vários agentes) e complemento (a "sua" colaboração, como, por exemplo, a transferência de determinado trabalho ou resultado para que uma tarefa possa ser completada por outros agentes). Também é necessário decidir quem são os sujeitos da colaboração, visto que

aos estudos de colaboração habitualmente interessa estudar as relações que se estabelecem entre os agregados significativos através de seus elementos constitutivos, ou seja, se assume que os pesquisadores, unidades de investigação, organismos, etc. atuam representando o agregado a que pertencem (MALTRÁS BARBA, 2003, p.252, tradução nossa).

Alguns agregados apontam mais de uma afiliação. Neste caso, podemos considerar que os agregados têm a mesma relevância, independentemente do número de afiliações de cada um, ou considerar uma proporcionalidade para a quantidade de afiliações de cada agregado. Maltrás Barba (2003) exemplifica: ao estudar departamentos universitários, pode-se contabilizar a colaboração por departamentos, independentemente da quantidade de autores (contagem holista), ou, ao contrário, contabilizar o número de autores (contagem mereológica) por departamento como indicador de uma colaboração mais intensa.

Outra questão metodológica é: a intensidade da colaboração pode ser medida pelo número de colaboradores? Se considerarmos que a ocorrência de muitos colaboradores produz uma colaboração menos intensa, adota-se a contagem fracionada (proporcional), ou, ao contrário, se considerarmos que muitos colaboradores são um indicador de intensa colaboração, adota-se a contagem completa. Na coaparição mereológica, há duas maneiras de contabilizar as colaborações: de modo simples, somando entre dois agregados tantas colaborações quantas houver, ou de modo nexo, em que a colaboração é entendida como uma rede de conexões que podem ser estabelecidas entre todos os colaboradores (MALTRÁS BARBA, 2003).

QUADRO 4 – Classificação de métodos de contagem de colaboração

Completa C (A, B) = 1 (B) Holista Fracionada C (A, B) = 1 / (T-1) Simples C (A, B) = b Coaparição Completa Nexos C (A, B) = a * b C (A, A) = (a * (a-1)) / 2 Mereológica

Simples C (A, B) = b / (t-a)

Fracionada Nexos C (A, B) = (a * b) / ((t * (t-1)) / 2) C (A, A) = (a * (a-1)) / (t * (t-1)) Holista C (A, B) = 1/T C (A, A) = 1/T Complemento Mereológica C (A, B) = b/t C (A, A) = a/t Para cada caso de colaboração: C (A,B): colaboração entre A - B

A: agregado A (país, instituição, etc. ...). B: agregado B. T: total de agregados participantes a: unidades de A que participam. b: unidades de B que participam. t: total de unidades participantes

Ficaram destacados, assim, a importância e o cuidado que se deve ter acerca das questões metodológicas envolvidas na contabilização da coautoria ou da colaboração. Na próxima seção, são apresentadas as redes de colaboração científica.