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Ao longo dos séculos, certos gêneros de texto como poemas épicos e sagas não exigiam autoria. Manguel (1997, apud CRONIN, 2001) assevera que, pela primeira vez, há cerca de 4.000 anos, um autor assina tabuletas de argila com músicas em honra a Inanna, deusa do amor e da guerra: Princesa Enheduanna, da Mesopotâmia. De fato, o autor é uma figura moderna que emergiu na Idade Média com o empirismo inglês e o racionalismo francês.

Muito embora a ausência de autoria possa ser inconcebível no mercado editorial atual em que reputação, sucesso profissional e remuneração estão intimamente ligados com o destaque em publicações e citações, a importância da reivindicação e determinação de prioridade nas descobertas estava apenas começando a ser vista como uma questão crítica no mundo da comunicação científica a partir da segunda metade do século XVII (CRONIN, 2001; WATERS, 2006).

Nesta época, antes do surgimento do periódico científico, o principal canal de comunicação dos cientistas eram as cartas, que já lhes garantiam a autoria. Nesta época, apesar das disputas de prioridade e possíveis egos machucados, a autoria como "negócio da ciência" era menos complicada e controversa do que é hoje. Pode-se definir o autor de um artigo científico como uma pessoa que cria informações e esboços de um documento escrito, entretanto, a ordenação, inclusão e elisão de nomes, o denominado direito autoral, nem sempre foi demarcado com a contundência atual (CRONIN, 2001).

Historicamente, a autoria tem sido vista como uma atividade solitária, porém este modelo se tornou anacrônico na maioria das publicações científicas contemporâneas. Nos dias de hoje, a afirmação pública da autoria serve de base para o funcionamento do sistema de recompensas acadêmicas: incorpora o empreendimento acadêmico e é moeda no "negócio da ciência". É a institucionalização do publish or perish (CRONIN, 2001; CONCEIÇÃO, 2008; WATERS, 2006).

No modelo de publicações acadêmicas, o autor recebe o crédito da obra e é responsável por todas as alegações feitas no texto, exceto as atribuídas a outros (citações). A apropriação dos créditos e a atribuição das responsabilidades vão assim em paralelo, simplificando assim a contabilidade social. Porém, a escrita por computador subverteu o estereótipo do autor solitário com a introdução de novas possibilidades de autoria coletiva. Hoje, grande parte da literatura acadêmica é produto de uma rede de comunicações que reúnem um mix de atores, recursos e regras. A autoria tornou-se uma atividade coletiva e há tendência de crescimento na publicação de trabalhos em coautoria.

Um dos possíveis motivos que conduzem a atitudes como estas pode ter suas raízes nas políticas adotadas por algumas agências de fomento à

pesquisa em que têm sido estimuladas práticas de publicação com acentuada ênfase na quantidade em detrimento da qualidade (CONCEIÇÃO, 2008, p. iii).

O trabalho em equipe é intrínseco à atividade científica desde os primórdios da ciência, mas uma crescente especialização e internacionalização vêm ocorrendo nas últimas décadas. A natureza e a realização da investigação científica mudaram muito desde o século XVII. No século XX, após a II Guerra Mundial, a colaboração tornou-se uma característica da big science e seus grandes desafios, que exigem, entre outras coisas, pesquisadores de múltiplas disciplinas e instituições (CRONIN, 2001; PERIANES- RODRÍGUEZ; OLMEDA-GÓMEZ; MOYA-ANEGÓN, 2010).

Em alguns campos, o trabalho pioneiro é resultado da atividade colaborativa, em vez da individual. A colaboração é uma parte necessária da pesquisa científica contemporânea, porém, seria errado concluir que a colaboração e coautoria são fenômenos exclusivos do final do século XX. De fato, o crescimento da colaboração científica está diretamente ligado à profissionalização da ciência (CRONIN, 2001; PERIANES- RODRÍGUEZ; OLMEDA-GÓMEZ; MOYA-ANEGÓN, 2010).

Desde os primórdios da ciência profissional, tem havido, em casos extremos, um aumento da ordem de magnitude nos níveis de coautoria, com um crescimento mais dramático no último par de décadas. A tendência tem sido documentada em muitos campos e disciplinas, o que não quer dizer que a autoria exclusiva, em artigos de periódicos e monografias, ainda não seja prática comum em áreas como a filosofia ou estudos sobre as mulheres (CRONIN, 2001, p. 560, tradução nossa).

Se houver mais de um autor, o documento científico é coassinado, e caso os autores sejam afiliados a instituições diferentes, o documento é considerado institucionalmente coassinado (PERIANES-RODRÍGUEZ; OLMEDA-GÓMEZ; MOYA- ANEGÓN, 2010). Cronin (2001) cita exemplos das evidências de crescimento da coautoria em diversos campos do conhecimento, tanto no número de coautores por artigo quanto em número de artigos em coautoria publicados. Definitivamente, as práticas colaborativas de pesquisa e publicação no final do século XX criaram desafios para as noções de autoria estabelecidas. Criatividade intelectual e originalidade são a base da autoria científica.

No modelo padrão, direitos e responsabilidades de autoria estão claramente apreendidos por autores, editores, revisores e leitores. Mas, em alguns contextos, a noção de autoria individual deu lugar à ideia do autor como uma coletividade, cujos membros frequentemente são distribuídos geograficamente e, não raramente, provenientes de profissões e especialidades muito diferentes. Como resultado, a persona do autor foi desalojada pela voz do conjunto. Tais práticas, associadas às preocupações sobre a autoridade e à diluição da responsabilidade, têm provocado propostas radicais para restaurar a responsabilidade autoral e racionalizar a atribuição de créditos acadêmicos nos campos em que a autoria múltipla inflada se torna uma hiperautoria (CRONIN, 2001).

Em 1985, editores da área médica (International Committee of Medical Journal

Editors– ICMJE) criaram critérios para atribuir a coautoria em trabalhos científicos. Segundo

esses critérios, o autor precisaria contribuir significativamente na concepção e desenho do experimento ou análise e interpretação dos dados, elaborar o manuscrito ou revisão crítica de seu conteúdo intelectual ou aprovar o conteúdo final do manuscrito (BUSATTO FILHO, 2002; CRONIN, 2001). Entretanto, apesar da adoção oficial dos critérios do ICMJE por editores de periódicos da área médica do mundo todo, "a tarefa de monitorização de seu uso adequado por autores nunca foi fácil, e a sua eficácia na prevenção da coautoria honorária nem sempre foi comprovada" (BUSATTO FILHO, 2002, p. 29).

A autoria múltipla é um fato e, apesar dos critérios do ICMJE, a média de autores por artigo na área médica tem crescido consideravelmente nos últimos anos por causa do procedimento altamente recriminável da coautoria “honorária” ou “presenteada", em que autores são brindados com a inclusão de seus nomes em artigos sem que tenham contribuído de forma significativa para sua elaboração (BUSATTO FILHO, 2002). Em um amplo estudo (206.093 documentos) sobre colaboração nas áreas de Física e Química, entre outros aspectos, Gomes e Vieira (2009) encontraram o impressionante número máximo de 592 e 30 coautores, respectivamente.

Hunter e Leahey (2008) analisaram as tendências de colaboração entre os sociólogos de 1935 até 2005 sob a perspectiva de fatores como localização geográfica, gênero, tipos de pesquisa (qualitativa ou quantitativa) e prestígio institucional. Os resultados elucidaram o grau de colaboração em Sociologia e revelaram como estes fatores contribuíram para a mudança na organização do trabalho.

Mello, Crubellate e Rossoni (2009) descrevem e analisam as características e mudanças ocorridas na configuração da rede de coautorias dos professores de programas brasileiros de pós-graduação em Administração no período de 2001 a 2006. O crescimento no número de coautorias de um triênio para o outro (2001-2003 e 2004-2006) é atribuído ao aumento na interação entre os pesquisadores, às mudanças nos critérios de avaliação da Capes, ao amadurecimento dos grupos de pesquisa, à busca por maior qualidade e à especialização no campo, entre outros fatores.

Espartel e colaboradores (2011) analisaram trabalhos em coautoria publicados nos anais da área de Administração de eventos realizados no Brasil de 2001 até 2010. Os autores observaram diferenças entre os padrões de coautoria dos trabalhos teóricos e empíricos. Nos estudos empíricos, prevalece a coautoria com uma média superior nos estudos quantitativos em relação aos qualitativos. Os estudos teóricos, em sua maioria, são desenvolvidos por um único autor. Quando a autoria múltipla ocorre em artigos teóricos, ela tem uma média inferior de autores que os estudos empíricos. A análise permitiu aos autores

asseverar que "a coautoria em Administração é uma realidade acadêmica brasileira, seguindo o que acontece em outras áreas de conhecimento e em outros países". (ESPARTEL et alii, 2011, p. 24)

Não devemos confundir redes de citação, cocitação e coautoria. A diferença fundamental entre as redes de citação e cocitação e as redes de coautoria é que esta envolve laços sociais. Citações, apesar da possibilidade de se estender por longo tempo, não significam um conhecimento dos autores entre si. Por outro lado, as redes de coautorias, também denominadas redes de colaboração, implicam uma relação temporária entre os colegas que se enquadram no âmbito da análise de redes sociais, pois os autores são contemporâneos e conhecidos. Esta diferença pode ser visualizada na Figura 3 (PERIANES-RODRÍGUEZ; OLMEDA-GÓMEZ; MOYA-ANEGÓN, 2010).

FIGURA 3 – Rede combinada de autores e artigos

Fonte: Perianes-Rodríguez; Olmeda-Gómez; Moya-Anegón (2010, p. 309).

Bufrem, Gabriel Júnior e Gonçalves (2010) pesquisaram a produção científica dos pesquisadores vinculados aos Programas de Pós-Graduação stricto sensu em Ciência da Informação no Brasil, tendo os resultados identificado um processo evolutivo (crescimento e expansão) da coautoria no campo.

Vilan Filho (2010) descreve a produção de artigos escritos em autoria múltipla (coautoria) de periódicos brasileiros das áreas de Informação de 1972 a 2007. O autor analisou o tipo de autoria e o gênero, entre outros fatores, para traçar o perfil da autoria múltipla e constatou um aumento nos índices a partir da metade dos anos 1990.

González Alcaide e colaboradores (2006) analisaram os padrões de coautoria e colaboração institucional nos trabalhos sobre toxicodependência indexados no Índice

Médico Español (IME) e Science Citation Index (SCI) de 1999 até 2004. Os autores

utilizaram os softwares Ucinet e Pajek para analisar os resultados. Eles observaram uma densidade maior de relações e mais membros nas redes feitas a partir de artigos publicados

em revistas estrangeiras. Os dados do IME revelaram 80% de artigos com dois autores ou mais, uma média de 3,7 autores por artigo e 46% de artigos em colaboração institucional. Por outro lado, os dados do SCI revelaram cerca de 99% dos artigos com autoria múltipla, uma média de 6,1 autores por artigo e 74% dos artigos em colaboração institucional.

Brambilla e Stumpf (2012, p. 46), em estudo sobre a produção científica da UFRGS de 2000 até 2009, indexadas na Web of Science, asseveram que "o principal nível de coautoria é de 2 a 10 autores, trabalhando em colaboração na produção científica" e inferem que o alto índice de artigos publicados por mais de um autor (97,8%) seria "uma preferência e um padrão na comunicação dessa comunidade".

Belinchón Carmona e colaboradores (2010) analisaram 567 trabalhos de autores espanhóis sobre autismo publicados em revistas de 1974 até 2007 a fim de identificar, entre outras coisas, as redes de autoria. Os resultados revelaram um aumento contínuo no número total de publicações e trabalhos colaborativos especialmente a partir de 1999.

O aumento de artigos em coautoria publicados é um fato e apesar das limitações da coautoria para medir a colaboração, ela incorpora a vantagens de ser invariável, confiável, prática e barata, além de acomodar amostras muito grandes com resultados estatisticamente mais significantes (MALTRÁS BARBA, 2003; PERIANES-RODRÍGUEZ; OLMEDA-GÓMEZ; MOYA-ANEGÓN, 2010).

A colaboração entre os autores pode ser classificada em temática, temporal, geográfica (regional, nacional e internacional) ou institucional (internas, para autores de uma mesma instituição, e externas, ou interinstitucionais, para autores de instituições distintas). A livre combinação destas classificações pode revelar colaborações interessantes. A seguir, são apresentadas as questões metodológicas sobre os indicadores bibliométricos de colaboração.