Inspirando-nos nos estudos de Quijano (2005), é possível refletir que a universidade, enquanto um dos locais legitimados de construção de conhecimento, ainda apresenta um padrão racista. José Jorge de Carvalho (2001) nos alerta sobre os meandros do racismo acadêmico, instaurando uma importante categoria analítica para desvelarmos as hierarquias e códigos próprios da universidade brasileira. Ao falar sobre a apropriação desse lugar pelos negros, o professor Marcelo reafirma como os padrões raciais presentes em nossa sociedade repercutem no espaço acadêmico.
Eu tenho colegas negros que são estranhados pelos alunos, que são tratados como gente que trabalha na limpeza e não como professores da universidade até que as pessoas o conheçam.
Em sua pesquisa, Claudia Miranda (2006) afirma que a universidade pública é um espaço particular e colonial. A ocupação da universidade reflete a luta pela sobrevivência intelectual desses coletivos feitos desiguais. É uma estratégia política que se apresenta como uma alternativa de produção de saberes que visa questionar o cânone científico estabelecido. Acrescentamos que, nesse embate, a branquitude toma lugar de destaque e se atualiza nas relações de poder dentro dessas instituições. Enquanto expressão dos lugares de poder ocupados por negros e
brancos, o entrevistado acredita que, apesar das resistências, existem avanços na construção de uma “consciência racial” no interior da universidade.
Eu acho que a universidade assim como o Brasil tem passado por um processo de consciência racial cada vez mais forte. Consciência racial significa consciência das relações raciais e obviamente tem coisas para frente e coisas para trás. Existem conquistas e existem reações.
Ao falar especificamente do campo da física, Marcelo acredita que o ensino das ciências exatas reproduz uma lógica que reflete as desigualdades raciais existentes no Brasil. Para ele, os negros não são estimulados a construir uma empatia com a matemática, e posteriormente com a física.
Então existe uma tendência de afastar os negros, não só da física, mas da área de exatas. Isso eu acho que não é uma tendência brasileira, é uma tendência internacional. Tem estudos, também nos Estados Unidos, em que você observa isso do ponto de vista das ações afirmativas tem muito menos engenheiros negros do que médicos negros nos Estados Unidos, proporcionalmente.
Essa apropriação desigual das ciências interfere nas decisões profissionais dos sujeitos negros no momento da escolha de uma profissão na entrada para a universidade, por exemplo, e essa lógica repercute a desigualdade entre as ciências exatas e as ciências humanas na produção do conhecimento. Interessante como essa ponderação se articula com a necessidade, apontada pelo entrevistado, de apropriação da discussão acadêmica sobre a questão racial por pesquisadores ligados às ciências exatas.
Eu acho que tem uma coisa muito importante, pessoas da área quantitativa, que é o meu caso eu, por exemplo, olho muito as ações afirmativas do ponto de vista quantitativo e geralmente quem estuda as relações raciais estuda do ponto de vista qualitativo. [...] Nestes estudos tem muita gente da área de humanas, de política. Mas eu acho que também seria importante gente da área de exatas, computação, se envolver com estudos quantitativos na área de ação afirmativa. [...] Eu acho que é uma coisa muito interessante: ter mais abordagens quantitativas, por que as abordagens qualitativas tem um alcance limitado de explicação porque sempre pode dizer que foi um caso e que não é uma coisa generalizada. Então eu acho que seria muito interessante se mais gente da área quantitativa se envolvesse com as questões das ações afirmativas.
Ao mesmo tempo em que entende o importante papel desempenhado por pesquisadores que, assim como ele, abordam o tema das relações raciais a partir de uma perspectiva quantitativa, o pesquisador não se sente à vontade, em alguns momentos, para participar de eventos acadêmicos sobre a temática. O fato de ser branco parece, em alguma medida, inibir sua interlocução em espaços acadêmicos onde a grande maioria dos pesquisadores é negra.
Acho que um pouco tem haver, com a ABPN, de eu achar que deve ser um pouco de pesquisadores negros, sabe. Pelo nome eu sinto que eu fico meio ambivalente. Eu acho que às vezes é importante você ter um espaço de negros, entendendo como um espaço de discussões sobre pesquisadores negros. Por outro lado, eu não sei, eu nunca me coloquei assim... Com uma pesquisa querendo apresentar na ABPN. Eu já apresentei pesquisa na ANPOCS no grupo de relações raciais e ações afirmativas. Mas isso foi uma vez só, também.
Estamos novamente diante do dilema da legitimidade. Quem se sente autorizado a falar sobre as questões raciais? Será que um pesquisador branco da área da física tem essa autorização? Ou somente um pesquisador branco, mas que seja da área de humanas? Na verdade, esse posicionamento do entrevistado pode ser entendido como uma maneira de proteção contra possíveis embates.
Evitar o encontro nos espaços acadêmicos onde grande parte dos pesquisadores é negra pode evitar o embate direto, difícil, mas importante e necessário, dos diferentes grupos raciais na busca pela discussão da superação das desigualdades raciais.
Daí você vê a pessoa falando com certo ressentimento. [...] Como se os brancos falarem, estudarem a temática das relações raciais e da discriminação racial não fosse uma coisa necessária e importante, que o importante seria ter os negros falando sobre isso. Eu acho que é um momento de tentativa de afirmação de um novo grupo de pesquisadores, mas é hostil.
O questionamento e muitas vezes o confronto é algo com que os pesquisadores brancos que estudam as relações raciais se preocupando com a interlocução com pesquisadores negros e com o próprio Movimento Negro precisam aprender a conviver. Na verdade, assim como Claudia Miranda (2006), acreditamos que esse embate tem suas bases nas relações de inspiração colonial. Aos brancos que se colocam como produtores de conhecimento sobre as relações raciais no
Brasil cabe a possibilidade da escolha de aceitar esse embate ou não. Para o grupo de intelectuais negros não há possibilidade de escolha entre enfrentar ou se esquivar. Em seu caminho em busca da sobrevivência intelectual nesses espaços, lutam pelo “deslocamento que se pretende realizar rumo ao pertencimento humano de cada sujeito, transformado em ‘objeto’” (MIRANDA, 2006, p. 224).
Também acho que deve ter pesquisadores negros, mas não acho que os brancos devam deixar de estudar isso. A gente estava discutindo, eu e um outro pesquisador branco, sobre o que é ser negro, o que é ser negro no Brasil e o que não é ser negro. Não o que é ser, mas o que é ser classificado como negro. Como é a classificação e o que isso significa. Aí vem uma pessoa ligada à pesquisa sobre as relações raciais e diz "Ah eu estou cansado dos brancos ficarem dizendo quem é negro e quem não é e tal". São atitudes, eu acho que um pouco inconsequentes, mas eu entendo que faz parte de um momento em que não tem quase negros estudando na academia as relações raciais. Até mesmo porque quase não tem negros na academia. Eu acho que na UFSC deve ter 1% a 2% de professores negros, provavelmente.
Apesar de se sentir hostilizado, o professor Marcelo afirma compreender os motivos pelos quais alguns pesquisadores negros são tão reticentes no contato com pesquisadores brancos que estudam relações raciais. No entanto, construir essa interlocução poderá ser uma grande oportunidade para a reconstrução de relações entre negros e brancos no campo da produção do conhecimento. Os resultados advindos da criação dessa interlocução, desse diálogo e das pontes possíveis de se realizar não apagarão os conflitos, mas poderão ajudar a romper, em alguma medida, uma lógica de desigualdade para a construção da promoção da igualdade racial.