Discorrendo a respeito da possibilidade de caracterização dessas ações enunciativas, Orlandi (p. 246-249) aponta possíveis marcas diferenciais entre o discurso teológico e o religioso: o primeiro (o teológico) seria um discurso formal e aquele em que a mediação entre o crente e o sagrado ocorreria por meio de “uma sistematização das verdades religiosas e cujo mediador seria o próprio teólogo”. Já no discurso religioso, o informal, a relação do sujeito com o sagrado dar-se-ia espontaneamente, ou seja, sem sistematização e sem intervenção do teólogo.
No entanto, mais adiante (p. 247), ressalta a autora que não vê necessidade de distinguir, para seus objetivos, entre discurso teológico e discurso religioso, uma
1 Por “parte acessível de Deus”, entenda-se, o Verbo Encarnado, a Pessoa da Trindade que assumiu a natureza humana sem deixar de ser Deus. Convém esclarecer ainda que no tocante à salvação do ser humano e o seu relacionamento com o Pai, Jesus é o único mediador (cf. Lumen Gentium (2003, p. 127), de acordo com a fé dos cristãos.
vez que a não-reversibilidade se mantém quer o eu-cristão fale diretamente com Deus, quer a interação se processe de modo indireto. Se a própria informalidade é ritualizada, no dizer de Orlandi, como acontece com as orações espontâneas que apresentam formas mais ou menos cristalizadas, (como por exemplo: “Ó meu Deus”, “Eu te louvo, Senhor”), tanto na interação direta quanto na indireta, o estatuto jurídico do locutor não se altera. Nessa sua reflexão, Orlandi ainda comenta o pensamento de Gramsci (1966) que, identificando na religião uma heterogeneidade social e ideológica, assinala que, no âmbito de tal heterogeneidade, é possível distinguir-se a teologia e a religião popular. A primeira, a teologia, no catolicismo, se manifesta como a filosofia da religião: é a concepção dos intelectuais, da hierarquia eclesiástica, enquanto da religião popular fazem parte o folclore e o senso comum.
Prosseguindo nessas suas reflexões, a autora, porém, volta a afirmar (p. 249) que não faz distinção entre discurso teológico e religioso ou popular, mas acentua que a forma como um e outro lidam com os representantes e mediadores é diferente: enquanto a religião popular tende à busca de milagres e à prática de promessas e ex-votos, os teólogos têm posições diferentes. No entanto, não esclarece qual seja essa posição.
Neste trabalho, consideramos todas as expressões verbais do sagrado como sendo discurso religioso. Para tal posicionamento, baseamos nos elementos caracterizadores do discurso religioso apresentados por essa mesma autora (p. 256- 259), que são:
a) Não-reversibilidade entre os planos espiritual e temporal, ou seja, o representante de Deus jamais poderá apropriar-se do lugar de onde fala. E é essa propriedade que gera dissimetria;
b) Antítese: traço textual; corresponde à forma semântica da dissimetria; c) Negação: mecanismo gramatical; tem efeito invertido – negando-se o
pecado, afirma-se a adesão à graça, à salvação. A essa negação da negação (pecado), Orlandi (p. 257) chama de a retórica da denegação. Já que o pecado é o “não” a Deus, é preciso que esse pecado seja rejeitado (negado) pelo homem, para que possa acontecer a interação
d) intertextualidade: um discurso faz sempre remissão a outros discursos; e) Uso do imperativo e do vocativo;
f) Emprego de sintagmas cristalizados; g) Uso de metáforas.
A não-reversibilidade e a retórica da denegação são marcas fundamentais do discurso religioso: a primeira, em virtude de o estatuto jurídico do locutor jamais se alterar, nesse tipo de enunciação (a voz de Deus); e a segunda, a denegação, por que, conforme já explicado, a possibilidade de interação entre céu e terra só existe na recusa ao pecado. Ora, já que todo discurso que envolve o sagrado é afetado por essas marcas, todos eles podem ser considerados discurso religioso. No nosso entender, discurso religioso, especialmente o católico, é uma macro-instância que abrange outras expressões ou subtipos, quais sejam: o discurso bíblico ou
discurso fundador, o discurso teológico, o discurso popular e o discurso da “vidência”.
O primeiro deles, o discurso bíblico, é o único considerado em si mesmo pela Igreja palavra de Deus, como podemos constatar no Concílio Vaticano II: Dei
Verbum (1998, p. 355):
A Igreja sempre honrou as Escrituras como o corpo do Senhor, especialmente na santa liturgia (...) Inspiradas por Deus e definitivamente escritas, nos comunicam de maneira imutável a palavra do próprio Deus e nos fazem ouvir a voz do Espírito, através dos escritos proféticos e apostólicos (...) Nos livros Sagrados, o Pai que está no céu vem amorosamente falar a seus filhos.
O discurso bíblico é constituído pelos textos dos livros do Antigo Testamento (Pentateuco, Históricos, Sapienciais e Proféticos) e do Novo Testamento (Evangelhos, Atos dos Apóstolos, Epístolas e Apocalipse).
A respeito da fé que a Igreja Católica deposita nas Sagradas Escrituras como sendo palavra de Deus, eis como se expressa o Catecismo da Igreja Católica:
Na condescendência de sua bondade, Deus, para revelar-se aos homens, fala-lhes em palavras humanas (...) Através de todas as palavras da Sagrada Escritura, Deus pronuncia uma só palavra, seu Verbo único, no qual se expressa por inteiro (Catecismo da Igreja Católica, 1993, p. 39)
Nesse discurso, detectam-se a não-reversibilidade e a denegação, dentre outras marcas, pois é sempre a voz de Deus que fala pelos autores bíblicos, e o tema do pecado e da redenção, nele, é uma constante, como podemos observar nos seguintes textos do Antigo Testamento:
a) Consolai, consolai meu povo, diz vosso Deus. Animai, Jerusalém, dizei-lhe
bem alto que suas lidas estão terminadas, que sua falta está expiada (...) – (IS. 40, 1-2 – Bíblia Sagrada, p. 989).
b) Rejeitai, pois toda impureza e todo vestígio de malícia e recebei com
mansidão a palavra em vós semeada, que pode salvar as vossas almas
(Tg. 1, 21 – Bíblia Sagrada, p. 1539)
A segunda expressão do discurso religioso, o teológico, constitui-se dos livros da Patrística (escritos dos antigos padres da Igreja), dos documentos conciliares, das encíclicas papais, dos textos litúrgicos, dos livros doutrinários, etc. Tem suas raízes no discurso bíblico, como afirma o Concílio Vaticano II: Dei Verbum (1998, p. 356): O fundamento inabalável da teologia é, juntamente com a tradição, a palavra
de Deus escrita. Ela tira sua força e constante rejuvenescimento desse fundamento.
Também o discurso teológico é fortemente marcado pela irreversibilidade e pela denegação, como podemos observar na Oração pela Paz que integra o Rito da Comunhão, na Missa:
Senhor Jesus Cristo, dissestes aos vossos apóstolos: Eu vos deixo a paz, eu vos dou a minha paz. Não olheis os nossos pecados, mas a fé que anima a vossa Igreja; daí-lhes, segundo o vosso desejo, a paz e a unidade. Vós, que sois Deus, com o Pai e o Espírito Santo.
Outro traço marcante do discurso teológico é a intertextualidade com o discurso bíblico, como exemplifica o texto acima onde aparecem explicitamente, as palavras de Jesus, em Jo. 14, 27: “Deixo-vos a paz, dou-vos a minha paz”. É esse traço que move Orlandi (p. 259), a definir o discurso teológico como “um discurso sobre outro discurso”, ou seja, “como um comentário ao texto de origem”.
E já que, no presente trabalho, estamos tomando o discurso teológico como uma micro-instância do discurso religioso, consideramo-lo discurso da Igreja, enquanto instituição, ou seja, ele é a voz da autoridade eclesiástica (Papa, Bispos, Presbíteros, etc). É essa, portanto, a sua especificidade: a característica que o
Quanto ao discurso religioso popular2, considero-o, aquele expresso pelo povo, mas que tem sua gênese nos discursos bíblico e teológico. Ele é constituído pelas orações do rosário, o ofício da Imaculada Conceição, as ladainhas, certas novenas, as orações espontâneas, o exercício dos carismas, etc. É a voz da Igreja Povo, ou seja, a voz das ovelhas, voz essa reconhecida e incentivada pelos pastores, conforme se lê na Lumen Gentium:
O povo de Deus participa da função profética de Cristo (...) Mas não é só pelos sacramentos e pelos mistérios que o
Espírito Santo santifica, dirige e fortalece o povo de Deus. “Distribuindo os seus dons a cada um conforme quer” (1 Cor. 12, 11), o Espírito Santo distribui graças especiais aos fiéis das mais variadas condições, tornando-os aptos e dispostos a assumir os trabalhos e funções úteis à renovação e ao maior desenvolvimento da Igreja, de acordo com o que está escrito: “cada um recebe o dom de manifestar o Espírito, para utilidade de todos” (1 Cor. 12, 7). (Concílio Vaticano II: Lumem Gentium, 1998, p. 196).
Como exemplo de discurso religioso popular, podemos apresentar a oração espontânea seguinte gravada na Igreja Santa Luzia, na cidade de Teixeira de Freitas (Bahia),
Eu quero te louvá, Senhor, por cada uma das pessoas que vieram aqui hoje, Jesus! Por cada participante dessa comunidade. Senhô Jesus, tome posse dos corações das pessoas, restaura os corações (...) Hoje tu falaste conosco que muitos põem a confiança em seus carros, no trabalho, mas nós temos você, Jesus, e nós podemos confiar em você, Jesus! Todo brilho que vai acontecê ainda aqui, hoje, Jesus é para honra e glória do teu nome, porque só tu mereces glória e louvô (...)
Podemos destacar as seguinte características:
a) não-reversibilidade: é Jesus, o centro e o autor da participação dos fiéis, de sua restauração e de “todo brilho que acontece”;
b) denegação: a idéia da negação ao pecado está implícita na palavra “restauração”;
c) intertextualidade bíblica: por exemplo, Apo. 5, 12b: Digno é o Cordeiro
Imolado de receber o poder, a riqueza, a sabedoria, a força, a glória, a honra e o louvor.
2 Estamos considerando aqui discurso popular, aquele que é a voz do povo (não apenas dos intelectuais da Igreja).
Mas aí estão bem vivas certas marcas do discurso popular, como espontaneidade e forma de linguagem não-padrão.
Convém que se ressalte que os próprios eclesiásticos quando se apossam da língua, na informalidade, produzem discurso popular, pois, nestas circunstâncias, eles falam como povo e não como autoridade. É o caso do excerto, abaixo, extraído de um ensinamento proferido por um sacerdote, na Igreja São Francisco de Assis de Teixeira de Freitas (Bahia):
A primeira coisa que devemos reconhecê que somos pecadores. Mas, por nós mesmos, nada podemos. Se Jesus, diante da multidão disse: “Eu sou o Pão vivo que desci do céu”, muitos vacilaram, e nós quantas vezes falhamos em nossa fé, diante de Jesus que vem a nós? Por isso, eu peço a vocês abrirem seus corações (...), vocês vão agora escancarar os portões de seus corações (...) para pedir todo perdão a Jesus pelos seus pecados e também dos outros (...)
O discurso popular é, pois, a voz da Igreja Povo de Deus, mas que reflete a voz da Igreja hierárquica.
O último discurso aqui considerado como religioso é o da “vidência”, tema deste trabalho analítico.
Antes, porém, de iniciarmos a reflexão sobre essa instância do discurso religioso, convém apresentarmos a visão da Igreja Católica a esse respeito, que difere daquela adotada por outros credos. Por exemplo, para o espiritismo, a “revelação” ocorre por meio de pessoas falecidas cujo espírito, incorporado pelo “médium” fala, escreve, cura, através desse “médium”; na cartomancia, os fatos e as pessoas são mostradas à cartomante através das cartas (baralho); na quiromancia, a mesma percepção é obtida pelas linhas da palma das mãos.
Mas, para a Igreja Católica, “vidente” é aquele que tem uma experiência com o sobrenatural, através da visão e audição, no pleno domínio de sua consciência. O objeto dessa percepção: Jesus, Nossa Senhora, anjo ou santo fala e age fora dele. Mesmo no caso da “locução interior” em que só a voz celeste é perceptível, não ocorre “transe” ou incorporação, pois de acordo com a doutrina católica, nenhum espírito que não sejam as pessoas da Santíssima Trindade pode penetrar no ser humano. E mesmo Deus jamais se apossa de sua criatura, tirando-lhe a consciência para agir no lugar dela.
Este é o ensinamento da Igreja Católica e devemos esclarecer que é segundo esta concepção que, neste trabalho, compreendemos “discurso de vidência”, ou seja, a interlocução sensível (no dizer dos videntes) entre dois sujeitos de planos diferentes (céu e terra), e absolutamente distintos.
No Antigo Testamento, os profetas eram chamados videntes, como pode ser comprovado em 1 Sm 9, 9: Antigamente, em Israel, todo que ia consultar a Deus,
dizia: “Vinde, vamos ao vidente”. Chamava-se, então, vidente ao que hoje se chama profeta. (Bíblia Sagrada, p. 312).
Tal denominação explica-se pelo fato de o profeta sempre proclamar o que “via” e “ouvia”. É o que nos mostra Is. 6, 18:
No ano da morte do rei Ozias, eu vi o Senhor sentado num trono bem elevado (...) Ouvi, então, a voz do Senhor que dizia: “Quem enviarei eu? E quem irá por nós? “Eis-me aqui, disse eu, envia-me” (...). (Bíblia Sagrada, p. 947).
Como as demais instâncias de discurso religioso, o da “vidência” é afetado pela não-reversibilidade, pela denegação e pela intertextualidade.
A primeira característica é nele claramente percebida, pois, mesmo quando o locutor é da esfera celeste, ele fala do lugar de Deus, mas não é Deus, (com exceção de Jesus Cristo), conforme revela o episódio do anúncio do nascimento de João Batista: Eu sou Gabriel, que assisto diante de Deus, e fui enviado para te falar
e te trazer esta feliz nova. (Lc. 1, 19 – Bíblia Sagrada, p. 1345), e as mensagens de
Angüera cujo fechamento quase sempre é: Esta é a mensagem que hoje vos
transmito em nome da Santíssima Trindade.
Quanto à segunda característica, a denegação, ela é facilmente identificável, visto o tema do pecado e da salvação ser uma presença forte em toda essa micro- instância discursiva como podemos exemplificar pela mensagem de Itaperuna, do dia 24 de março de 1996:
Filhos, convertam-se com urgência! Venho a vocês, para que a conversão de fato aconteça. Quero que procurem converter-se diariamente, confessando os seus pecados (...). Filhos, quero que sejam perfeitos na santidade (...)
No tocante à intertextualidade, esta é uma característica inerente a todo processo enunciativo, uma vez que nele se imiscuem, naturalmente, o discurso
bíblico e o teológico, como podemos constatar, no exemplo citado, onde aparecem os temas da conversão e da confissão (ambos bíblico e teológico).
Mas qual a especificidade do discurso da “vidência”? Em que ele se distingue dos demais discursos religiosos?
Em relação ao discurso bíblico, a diferença consiste em ser este do âmbito das revelações normativas, além de ser a raiz de qualquer discurso religioso, enquanto o da “vidência” pertence às revelações particulares e constitui, essencialmente, uma atualização do primeiro.
No que se refere ao discurso teológico, além de ser este produzido pelos intelectuais da religião (cf. Orlandi, 1996, p. 248), independe do contexto imediato; já o da “vidência”, em sua enunciação, tem sujeitos escolarizados e não-escolarizados e, esta mesma enunciação, é dependente também do contexto imediato.
Do discurso popular ele também se distingue porque, enquanto este é produzido por sujeito do plano temporal (Igreja militante), que interage com o céu, espiritualmente apenas, o da “vidência” traz em sua ação dialógica sujeitos de dois mundos (Igreja militante e Igreja triunfante3) que têm os sentidos também como canal de interação (sempre sob o ponto de vista do sujeito vidente).
Dentro dessa visão, as aparições do Ressuscitado a seus discípulos também estão inseridos, no discurso da vidência, uma vez que em tal condição, Jesus não pertencia mais ao mundo temporal.
Como micro-instância que é do discurso religioso, o da “vidência” traz marcas de sua instância contenedora e mais aquelas que lhe são peculiares.
Dentro da concepção aqui adotada, podem ser apontadas como peculiaridades do discurso da “vidência” as seguintes características:
1º o sujeito da esfera terrestre (vidente) tem percepção visual e auditiva de seu interlocutor, ou seja, o sujeito da esfera celeste;
2º o discurso da “vidência” é uma atualização do discurso bíblico, sua gênese;
3º as mensagens sempre contêm a doutrina e a moral ensinadas pela Igreja Católica (Eucaristia, confissão, santidade, obediência à Igreja, caridade); 4º essas mensagens têm, na maioria das vezes, um certo cunho
apocalíptico: punição dos pecados , a volta de Jesus, etc;
5º trilogia sintetizadora: persuasão a respeito da santidade e do amor de Deus, convite à oração e chamado à penitência;
6º a enunciação depende do contexto mediato (Sagrada Escritura, católicos, hierarquia eclesiástica) e imediato(“vidente”, diocese, paróquia, peregrinos, etc);
7º os interlocutores, no dizer dos “videntes”, ocupam espaço físico;
8º além dos sujeitos envolvidos na interlocução (locutor e alocutário), no processo enunciativo, sempre aparece o da referência (delocutário);
9º a multiplicação dos sujeitos da ação dialógica ocorre freqüentemente, nesse tipo de discurso.
De acordo com a concepção aqui adotada, o discurso da “vidência” interage, em seu processo enunciativo, com os discursos bíblico e teológico e é caracterizado, em sua essência, pela interlocução entre sujeitos da esfera espiritual e terrestre, mas dentro de circunstâncias que envolvem o plano temporal, uma vez que, no dizer dos videntes, eles vêem e ouvem (sensivelmente) o seu interlocutor. Em termos de fé, seria a Jerusalém Celeste que desce a Jerusalém Terrestre, ou seja, a Igreja triunfante interagindo com a Igreja militante.
É o cruzamento de duas vozes que estão em esferas dissimétricas: a do céu e a da terra.